,Duna: Imagens rarefeitas

Por Giovanni Rizzo

Cenas do Filme "Duna" (2021)
Cenas do Filme “Duna” (2021)

O diretor Denis Villeneuve ocupa hoje uma das posições mais privilegiadas do cinema, a liberdade criativa de um autor com o dinheiro quase irrestrito de um grande estúdio americano. Num regime de autorismo industrial, ele cumpre um cargo ocupado por poucos ao longo da história do cinema americano, o cineasta que serve para trazer relevância artística para o estúdio, em troca de sua liberdade artística, lugar de destaque que poucos estúdios bancam, entre estes, a Warner produtora e distribuidora de Duna, estúdio que manteve esse mesmo contrato com Stanley Kubrick, por exemplo. Nesse regime, procura-se entender que imagens esse tipo de artista pode produzir, dispondo de todos os aparatos da indústria, com a promessa da liberdade, características tão distintas e oportunidades tão escassas no sistema de produção americano. 

Duna por si só é a reafirmação deste lugar de poder da autoria industrial, projeto dos sonhos de grandes autores como David Lynch e Alejandro Jodorowsky, sendo retalhado no primeiro caso e que nunca saiu do papel no segundo caso, agora é Villeneuve que concretiza a almejada adpatação. Nos primeiros segundos de filme, a primeira informação é que aquela se trata apenas da primeira parte de Duna, afirmando que todas as ideias de Villeneuve estarão ali, não só concretizadas mas também asseguradas, acima de tudo na duração, no controle, na versão final do diretor, um autorismo ostentação implícito. O problema é que se os projetos de Jodorowsky e Lynch vivem apenas na imaginação do que esses dois poderiam fazer com o controle criativo total, o de Villeneuve existe, e a pergunta que se faz é o que existe ali? 

Baseado na série de livros de Frank Herbert, Duna é uma trama de intrigas políticas interplanetárias. Enquanto Paul Atreides é treinado para desenvolver um dom além de sua imaginação, sua família, nobres que governam o planeta de Arrakis, sofre uma traição que coloca o governo de seu pai e o seu próprio destino em jogo. É quando Paul parte para o deserto para viver ao lado dos nativos de Arrakis, um povo que vive das dunas de Arrakis. O primeiro passo para esta primeira versão é dar a sensação de completude da obra literária, Duna de 2021 não é só um projeto, é a adaptação definitiva do livro. 

Ao longo das duas horas e meia dessa primeira parte, parece que há necessidade de transcrever cada linha, cada parágrafo, cada capítulo para a tela. Esse trabalho árduo é questionado logo de cara, nos primeiros 30 minutos de explicação incessante, em diálogos e textos simplesmente expositivos. A sensação extenuante é acentuada ainda mais depois deste período, e a primeira uma hora e meia parecem apenas uma longa apresentação. Um simples aquecimento do que de fato é importante naquela história. O sentimento é que o filme até aquele momento parece apenas jogar luz sobre o quanto aquele universo é complexo e cheio de regras, mas sem conseguir articular relações sentimentais e principalmente dramáticas entre seus personagens e um iminente ataque prestes a acontecer. 

Aqui sem colocar esse texto numa posição de açougueiro de tempo cinematográfico (“o filme poderia ter 30 minutos a menos” ou coisa do tipo), apenas uma reflexão sobre as necessidades, sobretudo dos tempos narrativos, até porque Duna não é um filme que faz dessa sua extensão de minutagem uma forma de esculpir e redefinir uma relação entre tempo de tela e a condição do espectador. Ou seja, Duna não é um filme em que o tempo de planos, de cenas, seja diferente do que já se vê no cinema comercial. Pelo contrário, as cenas seguem o mesmo padrão de qualquer filme, mas apenas reforçando um caráter introdutório, expositivo. O tempo do filme não se reflete em uma experiência por si só. 

Cenas do Filme "Duna" (2021)
Cenas do Filme “Duna” (2021)

O que é curioso, porque no momento, os grandes projetos comerciais forçam sua relevância a partir das suas durações. Repare o tempo de longas como as duas últimas partes de Avengers, Os Vingadores; Eternos; Liga da Justiça e tantos outros. Talvez na busca por diferenciar esses produtos de qualquer outra estreia da semana, esses filmes precisam parecer completos, absolutos, e o tempo faz isso por eles, quase numa relação custo benefício com o público de cinema, se ele paga ingresso que aproveite a sala por quase 3 horas. A realidade, que quase nunca essa duração se reflete na necessidade narrativa de cada projeto. Aqui não é diferente. 

Nessa primeira parte da primeira parte, o que amarra esse momento tão explicativo do filme é uma abordagem estética recorrente de Villeneuve: cenas entrecortadas, de ações simultâneas, unidas por planos bem compostos com a ajuda da computação gráfica. Se são planos realmente estéticos, pode-se até se discutir, mas a verdade é que as imagens carregam sempre pouco ou nenhum significado, assim como pouquíssima carga dramática. O que leva diretamente a segunda parte do filme, quando finalmente o ataque ocorre, quando Paul, o protagonista finalmente começa a tomar decisões e todo aquele universo tão explicado, toma alguma forma. E se de fato, Duna ganha um corpo a partir daí, também há um modo de se filmar as coisas que não foge em nada a um projeto de filme de gênero comum. E aqui falando como alguém que adora a ficção científica e seus exemplares comuns, mas nada colocado até então e toda a aura deste projeto combina em culminar com a abordagem mais genérica possível. Entre cenas de batalhas encenadas como qualquer outro blockbuster, há uma fala ou outra com um pretenso conteúdo filosófico, numa postura de tentar manter a pose dessa grande obra. 

Duna parece, então, sofrer o tempo todo dessa relação contraditória entre o comercial e o autoral, um projeto que tenta sustentar esses dois lados, começando até mesmo por seu corpo de roteirista que se balança entre o veterano Eric Roth (O Informante, Forrest Gump, Munique) e o jovem escritor de blockbusters John Spaits (Doutor Estranho, Passageiros), e essa relação conflituosa é de fato sentida. E que se apresenta também no multi-estrelado elenco, muitas vezes subaproveitado nessa relação de grandiosidade, nessa primeira parte Zendaya, a grande peça publicitária do projeto, deve ter cinco minutos de tela no total, Josh Brolin, outro exemplo, tem um papel extremamente raso, fazendo parecer sempre que o que leva o projeto adiante é de fato seu valor de produção, mais uma vez: como qualquer outro filme da indústria americana.

Na abundância de recursos de Villeneuve, o que se percebe é que não há uma imagem sequer que movimente minimamente as estruturas de um tipo de cinema, nem sequer um filme tão redondo que seja um exemplar incrível dessa indústria. Obviamente que um filme como esse, com seus valores de produção, com essa pompa e embalagem autoral conquistará as bilheterias (sempre o objetivo final do estúdio, mesmo quando busca uma relação de relevância artística), mas de fato o que esse autor entrega, quais são as imagens que ele produz, e principalmente o que elas carregam parecem, quase sempre, rarefeitas.

Cenas do Filme "Duna" (2021)
Cenas do Filme “Duna” (2021)

Perguntas para o autor:

Marina Calvão:  Gionavani, sua crítica tem tom de realidade e sabemos o porquê. O que você escreve ressoa no meu sentimento como espectadora. Li estes dias a crítica que Jodorowsky fez ao filme, seu olhar e o dele se aproximam. Penso nisso que você escreveu sobre a autoria de uma obra versus a “infinita possibilidade de recursos” para produzi-la. Parece que não mas pode vir a ser uma armadilha. Duna tem esse estigma. Jodorowsky queria fazer dele o maior filme da historia do cinema e sem abrir de suas concessões criativas acabou por enterrar o projeto.  Este  cinema feito por Villeneuve em especial, me parece ter estrutura piramidal. O controle fica na mão da produção executiva e o diretor é um dos cartoes de visitas. Que espaço você acha que existe para a autoria?

Giovanni Rizzo: Eu gosto dessa expressão piramidal que você utilizou, porque de fato é o que sempre aconteceu no cinema, o produtor como essa figura do dono do filme em si, lógica que fica ainda mais clara num esquema de produção industrial, e o que é mais curioso como essa mesma lógica é mantida em filmes vendidos como mais autorais, cineastas nas mãos das grandes majors viram grife, viram marca, assim como tudo, faz parte do jogo capitalista que o cinema se coloca. Acredito que a maneira como cada artista se relaciona com isso que é o diferencial, a pergunta é o que cada cineasta é capaz de fazer com esses recursos, eles movimentam a estrutura, questionam elas mesmas, ou apenas reproduzem seus estigmas. Acho que é importante ressaltar que os cineastas que viraram cânones tiveram essas condições, Scorsese, Kubrick, Coppola, entre tantos outros, mas basicamente todos em algum momento foram malfadados pela própria indústria, alguns renegados a amargurar anos de falta de financiamento e até serem completamente renegados pela indústria, caso por exemplo de um cineasta como Michael Cimino (O Portal do Paraíso, O Franco Atirador). Eu gosto muito de uma definição que cinema de autor é realizado a partir do que o cineasta quer e muitas vezes para que fazer o que o cineasta quer é necessário implodir formatos de produção (a começar por uma simples decisão de incluir não atores em um filme, para materializar um exemplo, isso vai contra um modelo de filmagem pré-definido), portanto o que se coloca aqui em nomes como Villeneuve é praticamente uma pseudo autoria, um cinema de produtor travestido de autoral, o que não impede de que seja realizado bons filmes, mas tenho dificuldade de entender como autoral.

Marina Calvao:  Como artista, cinéfilo e amante da ficção cientifica, você apostaria que a versão de 18 horas do Duna de Jodorowsky seria mais inovadora?

Giovanni Rizzo: Seria diferente de tudo, com certeza, isso eu não tenho dúvida, penso que o documentário Duna de Jodorowsky dá uma boa amostragem do que poderia ser, e traz muito dessas questões de como a indústria nem sempre consegue absorver um verdadeiro autor. Mas se de fato seria um filme bom, é impossível responder, esse filme de 18 horas parece até mesmo meio inconcebível, mas tudo isso faz com que o projeto torne-se uma espécie de lenda, não é? Como uma espécie de pergaminho perdido, um livro inacabado de um mago, esse tipo de coisa que a gente encontra na literatura, é uma coisa até meio Borgiana. E o Jodorowsky sabe muito bem se beneficiar dessas condições lendárias, não é? Soube criar essa áurea mágica em torno de si e de sua obra. É curioso porque ao assumir esse novo longa como uma adaptação definitiva faz com que tudo isso perca sua áurea, tanto os projetos de Lynch quanto de Jodorowsky traziam essa impossibilidade da indústria de lidar com o livro, o que a transformava de alguma maneira, agora assume-se que tudo está aí, e foi feito de uma maneira tão comum que esse resultado se empalidece, perde-se o seu fator mágico, o que parecia ser o objetivo de Jodo e depois Lynch.

Agradecemos pela leitura de nossa crítica.

,Sobre o autor:

Giovanni Rizzo é crítico de cinema, roteirista, diretor e pesquisador. Já esteve participando ativamente em diversos festivais paulistanos e nacionais.

Instagram: @giovannicomdoisns

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