,Diálogo Divergente: Sobre o espetáculo AntiMadóx

Por Alexandre Gnipper e Marcio Tito

 Irretocável, precisa e preciosa direção de Louise Belmonte e Rodrigo Pocidônio.
 Irretocável, precisa e preciosa direção de Louise Belmonte e Rodrigo Pocidônio.

TITO: Cara… vou começar com uma colocação quase primária. Forma e conteúdo. É uma peça que sobrevive por esta equação. Aliás. Triunfa. Triunfa na justa soma desses conteúdos. Forma e conteúdo numa interação… Melhor! Forma e conteúdo num estado de pergunta. O que você pensa?

ALE: Perfeito! Apesar do “não lugar” ter se tornado um lugar comum no teatro eles parecem ter conseguido transcender os clichês e a apatia dessa estética pós-moderna. Fazendo com que esse “não lugar” se transfigura-se em um lugar de fato, extremamente instigante e pulsante, um lugar fora do tempo mas ao mesmo tempo extremamente presente, significativo da experiência do indivíduo dissolvido na massa e se reconfigurando pela tecnologia, em uma constante ressignificação dessa subjetividade em transformação, nessa sociedade onde a tecnologia permite explorar novas dimensões do ser, ao mesmo tempo em que dissolve dimensões antigas. Quase como se estivéssemos a presenciar essa transmutação do indivíduo e da sociedade, como se estivéssemos a assistir ao vivo e a cores (aliás muitas cores) a essa metamorfose da subjetividade pós-moderna acontecendo no palco. E muito desse efeito de frescor e de vitalidade vêm dessa simbiose perfeita entre forma e conteúdo extremamente envolvente.

TITO: Que golaço essa tua frase. Perfeito. Assistimos então a expressão visual e sensível da transmutação do invisível, do espírito do tempo. Concordo. Me parece um pouco aquilo que faz a poesia, muitas vezes. Lança um jogo de versos e rimas, perdendo ou não perdendo sentido, mas para alcançar a próxima intuição da língua. No caso da peça, mais difícil ainda, tudo está contido e posto no sentimento do teatro: aquele sagrado e velho mecanismo ligado às personagens. Muito bonita essa resistência. Partir para essa estética e não abdicar da utilidade de ter-se personagens. E personagens ativas, não somente postas ali enquanto adereço. Aliás. Pega essa: AntiMadóx porque Madóx é um anti-sujeito (com uma anti-presença entrópica) ( que quanto mais presente vai devorando a própria presença em outros lugares ). Mas não é uma ” antipeça “. A peça não é devorada toda vez que nos revela teatralidade, né?

ALE: Exato, não se trata de um jogo de formas vazias, embora o vazio esteja ali, nem de romantizar as ruínas. É mais como se eles estivessem propondo uma nova forma de realismo para uma nova configuração do indivíduo, mas ao mesmo tempo contra o realismo, contra esse indivíduo contemporâneo que se crê portador de uma racionalidade tecno-científica, que se crê herdeiro da era das luzes e que acredita nessa ideia engessada e meramente aparente de progresso. Acho que expressa mesmo essa assincronia entre uma evolução do mundo de fora e uma involução do mundo de dentro, e a peça como que coloca uma lupa sobre esse movimento contrastante, onde o aparente desenvolvimento das condições materiais representa uma involução da sociabilidade e das trocas simbólicas e afetivas. E a peça acaba construindo um pouco esse lugar, onde o mundo de fora e o mundo de dentro se encontram em rota de colisão, mesmo que caminhando em direções opostas.

TITO: O sujeito que não é permanente. As texturas e ritmos visuais que não permanecem. Ali pelo final também arrebentam o ângulo ( e as personagens deitam ). Dissolvem a atmosfera, o texto, a situação. Nos entregam, como Ferreira Gullar sobre Duchamp* , ” a arte de um artista que se via como um artista pós-apocalíptico, criando com paus e pedras”. Nesse caso, que é também uma agitação pelo Belo, a ruína está posta em uma personagem que não sabe estar (e outras que não sabem quem esteve) (ou com qual qualidade de presença ou ausência o outro esteve ali). 

ALE: Acho que muito da beleza e da atmosfera envolvente do espetáculo advém de um trabalho que soube articular o rigor da pesquisa com a fluidez e as incertezas da intuição. Afinal foi o próprio Matteo Bonfitto (um dos três atores em cena) quem nos ensinou essa perspectiva do artista como catalisador das tensões e das pulsões de seu tempo, mas esse é um projeto que só pode ser concretizado levando-se em conta, e articulando, essas duas dimensões do ser: a racional-intelectiva, que busca e que questiona, mas também elabora; e a dimensão emocional-intuitiva, que sente e absorve a experiência em um nível mais subjetivo, e que escapa à racionalização em conceitos e à própria lógica da linguagem formal prática que usamos para nos comunicar em nossas rotinas. E no fundo a arte é esse lugar mesmo de expansão da linguagem, que amplia o horizonte da troca e da comunicação de experiências à uma dimensão simbólico-poética. Como diz o artista chileno  Alejandro Jodorowsky, para se comunicar com o inconsciente é preciso se utilizar da linguagem que lhe é característica. Sai da peça sentindo que meu inconsciente foi acessado naquilo que intuímos sobre muitos aspectos de nosso tempo, mas nem sempre conseguimos elaborar em discurso.

E nasce a expectativa pós moderna!
E nasce a expectativa pós moderna!

TITO: Gosto muito dessa sua afetação da linha final. Concordo demais e sinto de modo similar. Apenas incluiria que saí num estado de festa, justamente por ver equalizada essa minha intuição… Alê, vou deixar aqui, como encerramento meu, o começo da minha crítica (inacabada porque optamos pelo formato dialógico). Querendo, achando que disso virá mais, comente. Mas também não acho crime terminarmos assim, num fragmento: 

A experiência sensorial encontra a elaboração narrativa. Recebemos então uma renovada forma de apreciação: estamos e não estamos lendo os símbolos que sentimos (mas também apreciamos esteticamente a simbologia que se ergue). A impressionante coesão das partes, tão concreta quanto profunda, faz parecer ridículo um texto que busque situar a experiência em “partes” (uma vez que o trabalho reúne qualidade suficiente para ser o que é: um programa cujo acabamento nos entrega a unidade que, fosse ser vivo, encarnaria um sujeito unicelular). O grande milagre que faz a vida animal acontecer em dezenas de cromossomos mas também numa única célula, este grande milagre reaparece em AntiMadóx. Que grande matéria teatral nos faz ver teatro complexo e cheio de sistemas numa obra cujo procedimento central é também um comentário acerca dos seus próprios mecanismos? A destruição de tudo o que narra, para narrar a destruição de tudo o que narra – seria esta a célula que se faz obra intuitiva e sólida quando vai convidando uma sequência de vírgulas para o seu impulso inicial? Que grande beleza é um elenco. Elenco. Quase sem atores, quero dizer, quase sem “agentes”. Com espectros que manipulam a perfeição da engrenagem e atuam no limite das figuras (dentro da clara sombra pictórica do magnífico espetáculo). Aliás. Coisa linda ver figuras bem armadas ( feito coisas que se colam conforme as cenas resplandecem no palco). Vem a lua, surge uma estrela, a noite acontece. Vem a cena, surge uma figura, uma luz, um som, o ambiente eclode. Talvez a mais bem inspirada direção que vi em 2021. Porque acontece de a cena não precisar ser o que é. E a simplicidade psicodélica da estrutura grita uma inteligência calma e reflexiva ( fazendo teatro com o teatro e representando representar, como se nessa mecânica o metateatro fosse também dramático, pós-dramático e fabular). Oposição e desenvolvimento visceral das consequências do que está em jogo (para encontrar a sociologia que atravessa o jogo)…

ALE: Não poderia concordar mais com a sua análise, é um trabalho que merece todos os elogios possíveis mesmo. Dá gosto de ver teatro bem feito, né? Ainda mais quando somos surpreendidos de maneira tão positiva e inesperada. Existe um frescor e uma vitalidade nessa peça que nos envolve sem entendermos muito bem o que está acontecendo, embora intuímos que tudo faça muito sentido.

  • ARGUMENTAÇÃO CONTRA A MORTE DA ARTE, Ferreira Gullar.

Sinopse: “Três moradores de uma cidadezinha tem uma visão de mundo e suas verdades pessoais abaladas pela chegada de um forasteiro: o misterioso Madox.”
Texto e direção: Rodrigo Pocidônio e Louise Belmonte (partindo da obra de Mattei Visniec).
Elenco: Beto Amorim, Matteo Bonfitto e Suia Legaspe.

Beto Amorim, Matteo Bonfitto e Suia Legaspe em significativa sintonia. Dos mais orgânicos, técnicos e intensos elencos do final de temporada (2021)
Beto Amorim, Matteo Bonfitto e Suia Legaspe em significativa sintonia. Dos mais orgânicos, técnicos e intensos elencos do final de temporada (2021)

Agradecemos pela leitura de nossa conversa.

,Sobre os autores:

Alexandre Gnipper Trevisan é músico, poeta, filósofo, dramaturgo e professor de filosofia, sociologia e artes.

Instagram: @alexandregnipper

Marcio Tito é dramaturgo e diretor teatral, além de editor e entrevistador no site Deus Ateu (www.deusateu.com.br). 

Instagram: @marciotitop

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s