,ATOTÔ: silêncio, o rei está na terra

Por Miguel Vicentim

Transmutar: verbo bitransitivo, exige objeto direto e indireto. Fazer com que fique diferente; ir de um lugar para outro; mudar de uma circunstância para outra; transformar ou transformar-se: a tristeza transmutou-se em alegria. Na alquimia europeia, era a transmutação de chumbo em ouro. Na alquimia africana, é a transmutação da chaga em saúde, da tristeza em alegria. Omolu ou Obaluaiê, filho de Nanã. É a história deste orixá que nos encanta no Terreiro Teatro Oficina.

Neste espetáculo transcendente a Companhia Odara nos eleva com um festival de música, dança, teatro e essencialmente História. É a História do Povo Iorubá, não escrita, que resistiu ao tempo para chegar até nós através da Arte.

Se você nunca foi a um terreiro, vá ao Terreiro do Teatro Oficina e livre-se de seus pré conceitos, medos e inverdades. Entregue-se à Companhia Odara e deixe-se possuir por todo encantamento ancestral que sobreviveu à escravidão e ao apagamento da história.

A saudação a este orixá é ATOTÔ, que significa silêncio. Esta saudação nos convida a silenciar nossa mente para encontrarmos outro eu, outro ego. Parece autoconhecimento? É. A história deste orixá nos permite um encontro com nós mesmos. Cada canto, cada gesto, carregam o símbolo da busca pela liberdade, pelo reconhecimento, pela felicidade.

Neste espetáculo o sagrado e o profano se integram como somente a cultura africana permite, sem profanação. Ao contrário de profanar, o sagrado e o profano se complementam e nos aproxima da essência de cada momento de nossa vida: a comida de santo que alimenta todos os filhos de uma casa; a vestimenta que além de cobrir, protege e dá sentido a cada cor; até a relação humana de dança, envolvimento e beleza.

A Companhia Odara criou um espetáculo necessário para nos contagiar com o vírus da esperança, do amor, do respeito. Vale a pena tomar mais esta dose de reforço.

Espetáculo fora de cartaz. Aguarde a próxima temporada.
Espetáculo fora de cartaz. Aguarde a próxima temporada.

Agradecemos pela leitura de nossa crítica.

,Sobre o autor:

Miguel Vicentim é professor de Histórias na rede municipal de ensino da cidade de São Paulo desde 2010, formado pela UFOP, autor dos livros Rafa, Fragmentes e Um linfoma chamado Hodgkin; também traduziu o texto Quatro horas em Shatila, de Jean Genet; todos publicados pelo Clube de Autores.

E-mail: prof.miguel@yahoo.com.br

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