,Não Olhe Para Cima (2021) – Por Fábio Bach

Por Fábio Bach

Não Olhe Pra Cima - 2021
Não Olhe Pra Cima – 2021

Sátira: gênero dotado de ironia e sarcasmo, por vezes retratando o trágico em sua narrativa. Nem sempre engraçada, a Sátira busca o choque e o pensamento reflexivo em sua concepção. Exemplo: PARASITA, de Bong Joon-Ho.

Farsa: gênero caricatural. Busca o exagero e a ampliação de algumas das características da Sátira, mas à medida que aumenta essas características, a obra torna-se propositadamente superficial. Exemplo: OS AMANTES PASSAGEIROS, de Pedro Almodóvar.

Paródia: gênero de imitação. A paródia busca uma obra pretérita para imitar, adotando características da farsa, ou seja, o exagero e a superficialidade. Exemplo: DRÁCULA – MORTO, MAS FELIZ, de Mel Brooks.

NÃO OLHE PARA CIMA é um filme curioso. Busca a sátira, busca a farsa e busca o trágico, mas os alcança não exatamente por conta de seus próprios méritos, mas sim pela situação na qual vivemos e que, se não rirmos dela um pouco, acabaremos dando um tiro na própria cabeça. Não que isto exima o longa-metragem de suas inúmeras falhas estruturais e de gênero, mas não há como negar que esta obra de Adam Mckay acertou em cheio ao mirar suas alfinetadas (ainda que estúpidas como um Casseta & Planeta) nos líderes e ex-líderes de uma determinada veia conservadora e que não irei mencionar nenhum nome (cof, cof, Bolsonaro, cof cof), além da parcela alienada por TikTok’s da vida, além de negacionistas, naturistas extremos, anti-vacinas, enfim… a humanidade de hoje em dia (e dói dizer este “hoje em dia” com essa febre comportamental que remete ao medievo).

Lançado em meio a uma pandemia de escala global que a humanidade simplesmente deixou de se importar, o novo filme de Adam Mckay parodia uma situação real e alarmante da nossa geração que por si só já é uma paródia – paródia bem de mau gosto, diga-se de passagem. Concebido pelo próprio Mckay (que também assina a transcrição para roteiro, a direção e a produção do filme) juntamente com David Sirota, o filme conta a já ultrapassada história de um iminente fim do mundo que se aproxima e, mesmo sendo alertada, a humanidade reluta em acreditar. Adotando uma narrativa multifacetada em alguns pontos, mas por vezes se concentrando na dupla principal de personagens interpretada por Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence, o roteiro estabelece uma série de pequenas relações e sub-tramas ao redor dos protagonistas, ocasionando em várias barrigas ao longo de sua narrativa.

Revisitando o gênero catástrofe, que se popularizou com obras totalmente esquecíveis como INDEPENDENCE DAY, ARMAGEDOM, IMPACTO PROFUNDO e O DIA DEPOIS DE AMANHÃ, para não citar filmes-catástrofe dos mais variados, Adam Mckay demonstra uma incapacidade alarmante ao não conseguir se decidir entre o satírico, o trágico e o farsesco, apenas calcando seu filme na seara da paródia – e pior: involuntária, já que seus esforços são exatamente o contrário desta última. Sempre em busca da indignação de seu público com as atrocidades cometidas pela humanidade no mundo real, o cineasta eleva a estupidez de seus personagens ao limite, ultrapassando-a muitas vezes, apenas para, no segundo seguinte, tentar retornar a uma profundidade psicológica que o filme jamais consegue efetivamente estabelecer e sustentar.

Isso gera outro problema: as caricaturas apresentadas no filme (e são todos caricatos) acabam por se poluir do melodrama hollywoodiano convencional, desperdiçando a oportunidade de abraçar a paródia propriamente, como no caso das personagens de Meryl Streep e Mark Rylance, pintando-os com uma vilania digna dos piores filmes de 007; em especial Rylence que acabou por rivalizar com o Rami Malek do último filme de James Bond, tamanho o equívoco (e ele é um ator tão talentoso…). E se o sempre ótimo Ron Perlman pouco pode fazer com sua relativamente breve participação (ainda que sua persona entregue alguns dos momentos realmente absurdos e engraçados do longa), atores e atrizes do calibre de Cate Blanchett, Jonah Hill e Tyler Perry simplesmente são ofuscados por uma série de contradições de roteiro, que os humaniza apenas em seus instantes finais, após pintá-los exaustivamente como amebas, em um claro esforço de Mckay de dar tonalidades trágicas aos eventos narrados.

Metáfora para tendências deste começo de século, forma e conteúdo comentando o real
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Emulando desde o excepcional MELANCOLIA, de Lars von Trier, aos filmes sobre crises mundiais, como CONTÁGIO, de Steven Soderbergh, mas também com claras influências (para não dizer cópia mesmo) do estilo do Oliver Stone dos anos 90, Adam Mckay ainda se dá ao trabalho de tentar criar um peso dramático na personagem de Jennifer Lawrence que, ex-atriz, busca apenas brilhar para seu momento de indicação ao Oscar, entregando-se a pausas completamente deslocadas do estilo do filme, além de gritos e indignações histéricas que apenas reforçam sua antipatia para com os demais personagens (e para com o espectador). Por sua vez, Leonardo DiCaprio, mesmo competente, consegue conceber o físico mais burro e manipulável da História, e vê-lo constrangido em meio a uma série de explorações midiáticas gera não uma inquietação para com sua condição, mas apenas uma raivinha passageira que será remida no ato final. Pelo menos, o filme traz Rob Morgan, como o doutor Teddy Oglethorpe, em uma performance contida, absurda em determinados pontos, mas tridimensional o suficiente para gerar empatia.

Esquecível também em seu design de som e direção de fotografia (emulando o estilo de Soderbergh), o filme apenas requenta a estética da NetFlix, onde o digital apenas exibe um absurdo destaque de cores, mas a serviço de nada, visto que as imagens de NÃO OLHE PARA CIMA são apenas bonitas, mas jamais funcionais. O que se salva são os figurinos e a maquiagem, que ressaltam o tom parodial e farsesco da obra, mesmo que esta se esforce para sabotá-los em prol de um trágico que jamais é efetivamente alcançado.

Tido como o mais novo fenômeno da NetFlix (o “melhor filme de todos os tempos da última semana”), NÃO OLHE PARA CIMA é um caça-Oscar que mira em tanta coisa – na anarquia do Monty Python, na ousadia de DOUTOR FANTÁSTICO, na tragédia do já citado MELANCOLIA, no sarcasmo de Paul Verhoeven e Bong Joon-Ho, nas paródias de Mel Brooks, na estética de Oliver Stone, no comentário social de Steven Soderbergh, e nas farsas trágicas fantásticas dos Irmãos Coen – mas acaba acertando na superficialidade de um AS BRANQUELAS, MARTE ATACA ou TUDO POR UM FURO (este último, do próprio Adam Mckay). Porém, seu choque cultural é forte o suficiente para sair de cena como algo relevante, e isto se deve ao nosso estado calamitoso como sociedade e humanidade: sim, nós somos todos o Jonah Hill nessa parábola.

Ficha

NÃO OLHE PARA CIMA (Dont’t Look Up) – 2021

EUA

Duração: 138 min.

Direção: Adam Mckay

Roteiro: Adam Mckay, história de Adam Mckay e David Sirota

Elenco: Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Rob Morgan, Meryl Streep, Jonah Hill, Mar Rylance, Cate Blanchett, Tyler Perry, Timothée Chalamet, Ron Perlman.

Agradecemos pela leitura de nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Fábio Bach nasceu em março de 1983, em São Paulo. É cineasta, ator, dramaturgo, poeta e professor de cinema. Ministra aulas de teoria cinematográfica, História do Cinema, Roteiro e análise de linguagem cinematográfica no STUDIO FÁTIMA TOLEDO, além de trabalhar como preparador de elenco. Recentemente passou a ministrar aulas sobre Cultura Fílmica no INSTITUTO DE CINEMA (InC). É fundador do grupo de estudos de teatro e cinema LITURGOS; autor do livro ESCRITOS: PALAVRAS DE GROTESCO E DE SURREAL, publicado pela editora Primata; e diretor de peças teatrais e curtas-metragens desde 2010.

Instagram: @fabio_bach89j

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