,Sobre Where The River Meets the Sea, de Sérgio Roveri

Por Mateus Monteiro

Where The River Meets the Sea, Althyr Pivatto e Gabriel Scortia, direção de Janet Amsden
Where The River Meets the Sea, Althyr Pivatto e Gabriel Scortia, direção de Janet Amsden

Encontrei com Sérgio Roveri aqui em Londres e vou contar para vocês como foi.


Infelizmente não encontrei com ele em pessoa, mas felizmente encontrei com a sua obra. Sua peça O Encontro das Águas, já algumas vezes montada no Brasil, foi produzida aqui em Londres pela companhia The Inner Six e ficou em cartaz entre os dias 31/08 a 04/09 no Bridewell Theatre, com o título traduzido para Where The River Meets The Sea.


Para quem ainda não conhece o texto, a peça conta a história de Marcelo, um jovem que carrega a dor insuportável de ser responsável pela trágica morte daquele que poderia ter sido o seu grande amor. No momento em que decide se livrar desse fardo ao se lançar de uma ponte, é interrompido por Apolônio, um andarilho (talvez essa seja uma definição imprecisa) que sugere que Marcelo espere mais um pouco até o nível da água subir para que o ato seja mais eficaz. É esse improvável encontro, e essa ainda mais improvável sugestão, que dá início aos diálogos da peça.Como eu já sabia do que se tratava, achei estranhíssimo entrar no teatro e ser impactado por uma Ivete Sangalo altíssima nas caixas de som. Sim, deu saudade do carnaval (lá se vão dois anos) e o público não passou incólume, conversava alto, dava risada e quem sabia cantava junto. Se a intenção da diretora Janet Amsden era elevar a energia da sala para depois puxar o tapete, então a escolha foi acertada.

A diretora Janet Amsden
A diretora Janet Amsden


O cenário era mínimo. No enorme palco do Bridewell Theatre – onde antigamente funcionava uma piscina pública – havia só um pequeno tablado com parapeito simbolizando o alto da ponte. O código funcionou bem e abriu espaço para que o trabalho dos atores e o texto tomassem a dianteira. Dia desses encontrei com o Althyr Pivatto, ator da companhia que interpretou Marcelo. Ele é brasileiro, mora aqui há alguns anos, é também diretor, professor de teatro e foi quem propôs a montagem para seus colegas de companhia. Ele me contou um pouco sobre o processo e disse que a diretora encontrou uma medida interessante entre as improvisações e um cuidado para que o texto fosse respeitado.


Sobre o texto, eu não tenho competência para analisar a tradução. Mas quero contar um fato interessante: segundo o Althyr, a diretora (experiente e com um currículo vastíssimo) estranhou a princípio as frases longas, cheias de vírgulas, sem full stop. Mas, aos poucos foi se rendendo ao perceber que o texto funcionava e tinha que ser daquele jeito mesmo. Conversei rapidamente com ela depois da peça e ela estava encantada com o Roveri. Falamos sobre essa sensibilidade, essa habilidade muito peculiar que ele tem de misturar humor com uma linguagem poética para tratar dos abismos da alma humana.

O dramaturgo Sérgio Roveri
O dramaturgo Sérgio Roveri


Sérgio escolhe dois personagens masculinos para falar de suicídio em cena. Esse fato chamou a atenção da psicóloga Aisha Walker ao analisar a montagem inglesa. Segundo ela, uma pesquisa de 2019 retrata que os homens são três vezes mais propensos a cometer suicídio, e mesmo assim ela disse estar mais habituada a ver este assunto retratado nas artes através de personagens femininos. Achei a observação curiosa e pertinente. Ainda mais considerando que a peça esteve em cartaz no início de setembro, mês que marca a luta contra o suicídio, tema delicado que deve ser debatido com a seriedade que merece.


A cena alternativa teatral aqui de Londres (fringe) tem uma peculiaridade que ainda me causa estranheza: geralmente são poucas semanas de ensaio e pouquíssimas apresentações. Os meios de produção são assunto para outra conversa. O que quero dizer aqui é que eu acredito que a peça ganharia ainda mais se os atores pudessem se beneficiar das descobertas de uma temporada mais longa. O jogo entre eles poderia ser ainda mais rico. Este é meu único senão. No mais, Althyr e Gabriel Scortia, que interpreta Apolônio, entregam atuações vigorosas e com compreensão das personagens e das situações propostas. O elenco se completa com a participação da veterana Elaine Wallace que dá vida à opressora policial que faz a ronda duas vezes por dia no local.

Althyr Pivatto em Where The River Meets the Sea
Althyr Pivatto em Where The River Meets the Sea


Como o próprio título sugere, a peça também fala da potência do encontro. Neste caso, Sérgio salva a vida de seu personagem quando o força a conversar com aquele que a sociedade torna invisível, marginalizado. A salvação na margem, na beira. O risco que amplia a percepção do outro e de si mesmo. Um do outro e um no outro. As águas doces e salgadas se misturam, se contaminam e se transformam, como a lágrima quando escorre e encontra um sorriso intrometido. Roveri provoca isso no público com seu texto.


Para mim esse encontro com a obra do Sérgio teve um significado muito especial. Tenho admiração imensa pelo seu trabalho, já de longa data. Seus textos me tocam profundamente. Ele tem a capacidade de subverter o cotidiano e extrair uma obra de arte. É competência dos grandes. Poder ver seu texto encontrar eco do outro lado do oceano me enche de orgulho. Espero que The Inner Six faça novas temporadas dessa peça por aqui. Ainda há muito a reverberar do encontro dessas águas.

Gabriel Scortia em Where The River Meets the Sea
Gabriel Scortia em Where The River Meets the Sea

Agradecemos pela leitura de nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Mateus Monteiro é Mestre em Direção Teatral pela East 15 Acting School em Londres (2021), Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2017), dramaturgo formado em 2011, pela SP Escola de Teatro e ator formado pela Escola de Atores Wolf Maya em 2010.

Como ator Mateus tem atuado em diversos espetáculos, como: Hill Behind The Hill, dir. Morgan Brewer; Vultures, dir. Amandeep; Love, Love, Love, dir. Eric Lenate; Playground, dir. Marco Antonio Pamio (indicado ao Prêmio Shell 2016 e Prêmio Aplauso Brasil de melhor ator); Amarelo Distante, dir. de Kiko Rieser; Nunca Fomos Tão Felizes, dir. Dan Roseto; Memórias (Não) Inventadas, dir. André Garolli; entre outras.

Em 2016, estreou na direção com o espetáculo Mente Mentira, de Sam Shepard (indicado ao Prêmio Arte Qualidade Brasil de melhor direção); atua também como assistente de direção em diversas peças, como: Concerto para João, direção de Cássio Scapin, Love, Love, Love, direção de Eric Lenate; In Exremis, direção de Bruno Guida

Instagram: @mateusmonteiro1

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