,Fisioterapia do Reencontro

Por Cleiton Pereira

A fisioterapia dos Contadores de Mentira!
A fisioterapia dos Contadores de Mentira!

                Quando tudo isso começou não tínhamos nos preparado para o medo que viria. Não nos despedimos, muito menos guardamos a comida para o longo período de reclusão. Como sempre, na história das microculturas de grupo, nos adaptamos e nos transformamos na mesma medida que os acontecimentos. Um processo de mergulho profundo em nós mesmos. Nossos amores, nossas raivas, nossos desejos se compactaram em um casulo para se proteger de uma realidade mortal. Grupos desapareceram, pessoas desapareceram e rapidamente nos tornamos corpo e voz virtuais. Sem a capacidade de intermediar conflitos, sem a possibilidade de nos defender do caos político e desumano de nossos governantes, sem a possibilidade de gerar alegria. Uma grande parte do planeta adentrou em labirintos profundos sem a sorte de sair. Outra parte perdeu suas bases, suas famílias, suas criações, seus desejos. Enquanto tentávamos estar vivos, florestas foram destruídas, templos foram edificados, a cultura nos foi tomada por uma inversão de valores e o Estado nos colocou na posição de abate coletivo.Uma nuvem de profunda tristeza humanitária pairou em volta do planeta.

                Mas…

                Assim como o capital adentra em todos os espaços possíveis, vendendo, explorando, monetizando qualquer coisa, pessoa ou acontecimento, incluindo a morte, também os artistas são capazes de tomar formas, encontrar espaços e maneiras de gerar arte e, por consequência, criar confronto e resistência à estrutura capital e política desses tempos.  Assustados e inseguros tivemos que aprender a criar para o invisível. Sem saber se nos escutavam, sem saber se nos viam. “Olhamos para o que tinha dentro e nos movimentamos para fora”. Fizemos algo, mantivemos nossas convicções, suportamos dias sem saber sobre o dia seguinte, geramos arte. Para a história foi um pequeno período do mundo, para nossas vidas, uma eternidade.

Descobrimos pequenas sementes de um tempo novo, que nos exigiu e exigirá força e energia. Teremos que vencer o medo e encontrar a saída do labirinto. Os que já saíram precisam ajudar aqueles que ainda estão confusos. Não há escombros, mas milhões de pessoas não existem mais de forma física.

Aos poucos ganhamos uma sensação de restauro. Aos poucos damos os primeiros passos para seguir a estrada. Curar os ferimentos, realimentar-se, e dar um passo sem velocidade, tentando absorver em si, esse corpo que conseguiu sobreviver e que agora quer seguir adiante.

Não houve cerimônia para a reclusão, para as mortes, e nem haverá para o reinício. A roda da fortuna segue em curso e nos movimenta a sair e vencer o medo. Não estamos e nem há perspectivas públicas de proteção total, mas avançamos algumas casas e de alguma forma, precisamos reestabelecer os laços de humanidade. Olhando para nossas pequenas microculturas teatrais, tentamos restaurá-las ou recomeçar respondendo à princípio nossos desejos de que nosso corpo volte a dançar de braços abertos. Nos encontramos e damos os primeiros sinais de que estamos vivos como artistas. Aceitamos a responsabilidade de recomposição e sabemos que é época de revirar a terra, semear e esperar a colheita em breve. Também começamos a abrir as janelas, nossas portas. Limpamos a casa e colocamos nossos sonhos no sol para tirar o mofo. Começamos a ouvir os chamados de muitos coletivos e percebemos que já podemos ir ao seu encontro.

Estamos em fisioterapia de nosso sitema vital e social.  O corpo começa a dar os primeiros sinais de movimento. Já conseguimos destravar os dedos enrijecidos. É um passo vagaroso mas estamos em movimento. Paciente. Implantando alegria em cada gesto ou movimento reconquistado. Reaprender a encontrar o público, os amigos, os criadores, a comunidade.

Uma microcultura de teatreiros começa a assumir o seu papel de ocupar a praça, a comunidade e seus territórios. Voltam a emergir de um medo profundo e lançam o som dos tambores para  conclamar que o teatro está vivo. Sem grandes cerimônias nossos pés começam a dançar novamente. Escutamos o som do instrumento que nos chama e nos vestimos para o encontro.

Abrimos a porta ainda devagar e escutamos de olhos fechados uma legião de espíritos que se foram. Choramos mais uma vez e sabemos que estão conosco.

Ainda utilizamos a máscara. Portanto nos encontraremos onde nos reconhecemos…

No teatro…

RAÍZES

                Quando desenhamos uma árvore, quase sempre não está no desenho suas raízes que sustentam toda aquela beleza. Nos ocupamos de sua sombra, com o movimento do vento que a faz dançar, com os frutos que ela gera. Porém, essa árvore só é capaz de estar viva porque tem suas raízes firmes gerando energia e força. Abaixo da terra uma rede complexa que gera nutrientes, alimenta e mantém firme uma estrutura que suporta tempestades, secas, outonos e invernos e ainda assim floresce e germina muitas outras da sua espécie.

                E tudo começou com uma pequena semente que cabe em nossas mãos…

                De modo geral, há uma raiz primária principal e várias ramificações que são as raízes que nasceram dela. Outra parte da árvore é o caule que interliga a raiz às folhas, responsável por sustentar a planta e por levar a água e os sais minerais das raízes até as folhas por meio de vasos existentes dentro dele. Além disso, é no caule que são produzidos os hormônios vegetais, que auxiliam no crescimento e desenvolvimento da planta. A folha é responsável por realizar a fotossíntese, o processo através do qual a planta produz o seu próprio alimento. É nas folhas onde ocorre respiração e transpiração. A flor é uma folha diferente das outras, podendo ser de vários formatos, tipos e cores. Elas são responsáveis por realizar a reprodução das plantas. Os frutos são o resultado da fecundação entre a árvore e a complexidade interna e externa da vida.

                Assim tem sido nossas motivações com o ofício do teatro. A relação com nossas raízes e o entendimento de nossas origens são responsáveis por todo o sistema de nosso trabalho. Grupos de teatro também precisam de condições, de incentivos, de fluxo de relações orgânicas e coletivas, de podas sazonais para que cresça com mais vitalidade, de circular oxigênio e idéias, de gerar flores e frutos.

                Assim é nosso ofício: o Teatro e suas Raízes mais profundas… Encontrar nossas raízes através dos mestres, mestras que nos guiaram e guiam nossos princípios e aquilo que fazemos. Para além disso, descobrir outras maneiras de cultivo, outras maneiras de organizar e produzir nos faz criar nutrientes em nossa própria existência. Quando entramos na intimidade desses teatreiros tentamos com eles aprender e experimentar outras maneiras de ver o mundo. O resultado é sempre profundo e inspirador.

SEMENTES

                O projeto “Ofício e Raízes” nasceu como um projeto piloto onde nos encontramos com o grupo Ói Nóis Aqui Traveiz de Porto Alegre – RS – Brasil. Fomos tomados dentro da casa de um grupo que atravessou a história do teatro brasileiro com força política e um teatro enraízado de origens do próprio teatro. Não foi ao acaso que fizemos nossas obras dentro do cenário de suas obras. Era um ventre gigante que nos acolheu e nos gerou desejos de nos manter firmes.

                No ano seguinte, Eugenio Barba e Julia Varley (ODIN TEATRET – Dinamarca) entravam em nossa sede, em Suzano, na periferia do Estado de São Paulo – Brasil. Ali, germinava uma relação duradoura com um dos maiores mestres da história do teatro. Olhávamos para ele e pensávamos nas sementes que ele semeara há muito tempo antes de sequer existirmos. E essas raízes estavam ali, germinando em nosso pequeno quintal. Éramos parte dela e ao mesmo tempo, uma outra árvore que também gera seus próprios frutos.

                Logo depois estávamos em La Merced – Quito – Equador, levando nossas flores para um intercâmbio com o grupo Contraelviento Teatro junto ao vulcão Cotopáxi. Descobrimos que estávamos nos ramificando, abraçando raízes de outros teatreiros e fertilizando o solo e logo chegamos ao Peru onde nos encontramos com Fusion Teatro e o grupo Yuyaschkani. Muitas viagens e encontros depois nos sentimos parte dessa árvore entrelaçada do teatro latino americano. Já somos uma floresta vasta e diversificada.

TERRA e MOVIMENTO

                Um longo período de seca, parasitas, fungos, insetos assolaram nosso plantio. Porém, graças à força de nossas raízes mantivemos viva a nossa microcultura teatreira. Alguns galhos preciosos se soltaram mas nos mantivemos firmes. Guardamos as flores e frutos e nos alimentamos durante o período de tristeza. Cuidamos da casa, da terra, do território. Ainda sob a tempestade plantamos desejos e relações. Esperamos o tempo… E floresceram…

                Construímos um teatro às próprias custas, com toda energia, convicção, sonhos e recursos que tínhamos em nossas mãos. E ainda contamos com a grande generosidade e apoio de outros teatreiros, artistas e admiradores do grupo Contadores de Mentira. Sempre achávamos que haveria o grande dia cerimonial de abertura… mas a vida é mais sorrateira… Em poucos dias, um teatro nasceu e rapidamente abrimos as portas para receber o povo.

                Estabelecemos um propósito com a IV Edição do projeto Ofício e Raízes -2021: incentivar nossos corpos a dançarem juntos mais uma vez. Assim como o público, chegamos com nossas máscaras, ainda zelosos e com alguma incerteza. Poucos dias depois sentimos essa sensação de restauro contagiando o ambiente à nossa volta. Começamos o projeto deste ano, em uma ação híbrida, encontramos o grupo Maguey Teatro (Lima- Peru) de forma online com a sensação de que era ainda o momento da transição. Um dia depois chegava no aeroporto de São Paulo, o artista Lucho Ramirez (Lima – Peru) com seus 50 anos de teatro e 67 anos de vida. Toda a tradição do teatro latino americano traduzido em seu corpo de velho mestre em plena atividade. Sua energia e amor ao teatro nos contagiaram de imediato e sem cerimônias de inicação ou de recomeço estávamos todos na sala de trabalho colocando o nosso corpo à disposição. Sentimos nossos dedos e sorrisos emergindo. Nossos esqueletos começaram a produzir os primeiros sons coletivos depois de um longo período de ausências.

Poucos dias depois retomamos a estrada e encontramos outros dois grupos em seus próprios territórios. Nossos corpos se entrelaçaram e sentimos todos juntos um movimento coletivo. O Grupo Refinaria Teatral (São Paulo – Brasil) nos fez entrar em transe coletivo com a profundidade das tradições indígenas brasileiras impregnadas em seu teatro. O Andaime Teatro (Piracicaba – SP – Brasil) com mais de 35 anos de trajetória nos impulsionou a ver o rio que é o coração de sua cidade. Improvisamos, e geramos movimentos que estavam adormecidos nos corpos dos três grupos.

Dividimos a comida, tomamos uma cachaça com todos eles. Nos olhamos com cumplicidade certerios de que passamos por todo o período de tristeza e que passo a passo nos colocamos para dançar. A voz e os intrumentos, o choro e o abraço, o rio e o vento, a cachaça e a prosa, o corpo e o outro corpo, a escuta e o desejo. O silêncio para absorver todos esses nutrientes.

Fomos impulsionados pela vontade de estar vivos, de escutar as tribos.  Não houve cerimônia de abertura. Nossas florestas de teatreiros voltam a gerar folhas, flores, frutos. Assim como aprendemos a sobreviver às pestes, aprendemos também a gerar vida. A natureza se recompõe, estabelece novos modos de sobreviver e se espalha.

Paciência para germinar da terra e encontrar o sol, produzir troncos fortes. Escutamos os sons das árvores renascendo. Sabemos que nossas raízes estão firmes… então fechamos os olhos… movimentamos a coluna… e escutamos o chamado… o teatro está…

Agradecemos pela leitura de nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Cleiton Pereira – Iniciou sua relação e trabalho com teatro em 1987. É um dos fundadores e integrante do Grupo Contadores de Mentira desde 1995. Trabalha em gestão, criação, direção, atuação e investigação. Com os Contadores de Mentira, desenvolve métodos de organicidade corporal na busca da presença e das energias. Atua em redes colaborativas, organiza festivais, encontros, intercâmbios, demonstrações técnicas, espetáculos, ritos, performances, além de articulações e lutas por políticas públicas. 

Instagram: @cleitonpereira_c

Um comentário em “,Fisioterapia do Reencontro”

  1. Gostei muito do relato/ensaio do Cleiton do grupo Contadores de Mentira. É um relato poético e ao mesmo tempo filosófico e instrutivo sobre a dinâmica e pedagógica do grupo. Vida longa ao teatro d’ Os Contadores, que firmem cada vez mais suas raízes, que a seiva alcance com vigor os galhos e folhas, que as flores esparjam seu perfume por muitos territórios, que seus frutos alimentem a fome de arte que assola nosso século, por fim, que as sementes germinem em solo fértil, que cresçam regadas pelo amor do fazer, fazer para a comunidade, amor de fortalecer o território, as almas pueris que tanto precisam da arte.

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