,Sobre o trabalho de luto e o amor (seguido de conversa com a autora)

Texto Por Licene Garcia, conversa por Alan dos Santos

 Rachaduras, uma estrutura que se abala momentaneamente; uma ótima imagem de pensamento para ilustrar a experiência de luto
 Rachaduras, uma estrutura que se abala momentaneamente; uma ótima imagem de pensamento para ilustrar a experiência de luto

Freud escreveu sobre a morte em diversas ocasiões. Uma delas a partir das experiências da guerra e da pandemia de gripe espanhola que levou sua filha Sophie à morte em 1920.

Falar sobre a morte em tempos como hoje, é ler a atualidade nos textos freudianos. Em “Considerações contemporâneas sobre a guerra e a morte”, Freud diz: “A morte já não se deixa mais renegar; temos de acreditar nela. Os seres humanos realmente morrem, e não mais um a um, mas muitos, às vezes dezenas de milhares num só dia. Não se trata mais de nenhum acaso”.

Mas e o que quer dizer acreditar na morte? Significa que em nosso inconsciente, o que rechaçamos é a nossa própria morte, no máximo podemos nos imaginar como espectadores de nosso próprio velório. Freud nos ensina que, no inconsciente, cada um de nós está convencido da própria imortalidade e que o empenho será sempre em tentar transformar a morte em um fato acidental, e não em uma necessidade. É por isso que não é incomum escutarmos por aí quando alguém morre: “mas chegou a hora”; “Deus quis assim”; “pelo menos descansou” e assim, por diante.

Quando a morte nos atinge tão de perto, enterramos com um ente querido, uma parte de nós mesmos, enterramos com ele, o lugar de ser a falta para quem partiu.

Não há como estar pronto ou preparado para perder quem se ama, sempre será cedo demais para nos despedirmos de quem amamos. Por isso, no trabalho do luto, trata-se de uma reescrita do Outro, do lugar que se ocupou no desejo do Outro e do lugar que esse Outro passará a ocupar em nossa economia psíquica. Há coisas que jamais se perdem, já que (só) se pode escrever, na medida em que houve para alguém um lugar de inscrição no desejo e no amor de um outro alguém.

Deste modo, é possível ler no trabalho de luto, um ato de amor, na medida que o que está em jogo tanto no trabalho do luto, como no campo do amor, é ser aquilo que pode faltar para alguém. Assim, seguindo Lacan, em sua conhecida frase “amar é dar aquilo que não se tem”, significa dizer que, amar é poder faltar, é entrar perdendo, advertido que o objeto que causa é sempre perdido.

Talvez seja isso que Freud nos indica, ao dizer que o único meio de suportar o “fardo da existência”, é não perder a orientação da vida, já que consentir com a vida, implica incluir a morte como parte dela.

O que aprendo dia após dia, em minha própria análise e na escuta de meus analisantes, é que em um trabalho de luto, não há saída padrão, uma resposta universal. O que há é uma invenção, onde cada um, ao seu modo, construirá um saber fazer com esse espaço, não mais ocupado pela presença de alguém, mas por um vazio que comporta a vida, aquilo que anima e segue pulsante em cada um.

Encerro com um trecho de uma carta de Freud a Ferenczi em 1920, falando sobre a morte de sua filha Sophie: “A morte, por mais dolorosa que seja, não perturba a orientação da vida”.

Rachadura e plantas – quebra e recomeço; vida e perda
Rachadura e plantas – quebra e recomeço; vida e perda

Conversa com a autora:

Alan dos Santos: Licene, parabéns pelo texto. Muito bonito e preciso. Você mostrou que não precisamos de muitas palavras para produzir um texto belo e relevante.

Infelizmente é mais atual do que nunca falar sobre luto, morte e experiência de perda. A pandemia de coronavírus está aí. Ultrapassamos o número assustador de 5 milhões de mortes no mundo. Só no Brasil foram mais de 600 mil mortes. Perdi o meu pai para o vírus. Muitos de nós encontram-se em situação parecida. Sem dúvida fazer análise me ajudou a elaborar e encontrar uma saída para afirmar a vida para além da perda. Costumo dizer que a melhor homenagem que posso prestar para o meu pai é viver bem, o melhor possível!

A pensadora Judith Butler, que articula noções de psicanálise em seus trabalhos, se pergunta por quais vidas fazemos luto enquanto sociedade. Com o advento da pandemia, talvez precisemos passar por um luto histórico-mundial. O trecho de Freud que você citou no início do ensaio é intrigante e dialoga com isso. “Os seres humanos realmente morrem, e não mais um a um, mas muitos, às vezes dezenas de milhares num só dia. Não se trata mais de nenhum acaso”. Essa afirmação me lembrou o pensamento de Michel Foucault quando, ao definir o biopoder, afirmou que a morte deixou de ser um elemento meramente natural, mas um fenômeno político e social.

É possível falar numa experiência coletiva de luto? Ou a experiência de perda remete ao que há de mais singular numa existência?

Licene Garcia: Primeiramente, gostaria de agradecer pelo convite à escrita sobre essa temática que também, de maneira particular, me coloca a trabalho. Perdi meus pais por complicações em decorrência da covid, em um intervalo de 21 dias entre cada um. Então respondendo a sua pergunta, acredito que sim, é possível falar de uma experiência coletiva de luto, sem deixar de lado o modo sempre singular, que cada um encontrará para saber-fazer com a própria história. Marie-Hélène Brousse em seu livro “O inconsciente é a política” nos diz que pensar uma oposição entre individual e coletivo não é válido, na medida que o desejo que sujeito em análise visa decifrar é sempre o desejo do Outro, uma vez que ele passa pela cadeia significante. Por isso, a linguagem é aquilo que historiciza, conta uma história da língua que nos marcou, é isso que Lacan quis dizer quando propõe que o “inconsciente é político” e que Miller mais tarde dirá que “a política é o inconsciente”.

Alan dos Santos: É correto dizer que ao longo de uma análise todos passamos por uma perda fundamental, todos passamos por um luto – o luto do Eu-sintoma? Antonin Artaud escreveu sobre o fenômeno da “perda de si”. Em que medida a experiência analítica supõe uma perda de algo que precisa morrer em nós? Tenho a impressão de que a noção de destituição subjetiva em Lacan passa por isso, não?

Licene Garcia: Acredito que a “grande perda” em jogo em uma análise, é consentir em perder o objeto perdido. Ou seja, que se possa abrir mão daquilo que nunca teve e que idealmente supõe que um dia teve. Esse é o grande sofrimento neurótico – acreditar que um dia foi completo e que um dia deixou de ser. Desse modo, passamos boa parte da vida tentando restituir um lugar em nós que nunca existiu.

Alan dos Santos: Esse trecho é fantástico: “O que aprendo dia após dia, em minha própria análise e na escuta de meus analisantes, é que em um trabalho de luto, não há saída padrão, uma resposta universal. O que há é uma invenção, onde cada um, ao seu modo, construirá um saber fazer com esse espaço, não mais ocupado pela presença de alguém, mas por um vazio que comporta a vida, aquilo que anima e segue pulsante em cada um”.

Essa é a grande lição a ser aprendida com o luto: suportar o vazio imanente à vida? Podemos apontar isso como um ganho que se subtrai da experiência de luto?

Licene Garcia: A vida é feita de lutos, alguns pequenos, outros grandes e irreparáveis. Saber-fazer com o vazio que nos habita, talvez seja a saída, o ganho de saber que se extrai de uma análise, na medida que o vazio não se obtura, mas se contorna.

Horizonte cindido, outra imagem para o luto
Horizonte cindido, outra imagem para o luto

Agradecemos pela leitura de nossa conversa.

,Sobre a autora:

Licene Garcia é psicanalista, participante da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Sul. Formada em Psicologia pela PUCPR. Especialista em Psicologia Clínica: abordagem psicanalítica, pela PUCPR.

Instagram: @licene_garcia

,Sobre o autor:

Alan dos Santos é psicanalista e professor de filosofia. Licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia Contemporânea e doutor em Educação, Arte e História da Cultura. 

Instagram: @alan_santos_radar

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