,Coletivo Impermanente – Um game tribal

Por Marcio Tito

O Que Meu Corpo Nu Te Conta? - Estreia do Coletivo Impermanente no presencial
O Que Meu Corpo Nu Te Conta? – Estreia do Coletivo Impermanente no presencial

“O Que Meu Corpo Nu Te Conta” parteja arquétipos da pós- modernidade, sob moldura pós-teatral e dinâmica, habilidosamente gamer e tribal, despertando a sociologia do futuro.

Cinema, literatura e poesia são artes cuja estruturação tem demandado, no mínimo, meia década até que público e crítica se afinem de modo a fazer com que seus produtos participem da cultura (de massa ou não, por conta dos meios de produção), e isso é tempo demais para um parto. Já o teatro, compreensão somente ligada a corpos que se queiram presentes em algum território visitável, no calor da hora, pode surpreender a sociologia e, antes de qualquer outra estética ou mídia, fazer eclodir um poderoso nascimento – como é poderoso o nascimento que se vê no game cênico do Coletivo Impermanente.

O nu é simples, inteligente, necessário e narrativo, portanto, assim sugere-se que situações engendradas em mentes conservadoras ganhem em complexidade e deixem de discutir o que não está em pauta (visto fazer parte profunda e imprescindível ao trabalho). Ou, em suma, que caretas de toda parte aceitem que ninguém se autocensure na arte para que o mundinho tosco e sem fricções mantenha-se num falso e hipócrita equilíbrio, afinal, toda arte significa a ruptura inteligente de um povo.

Em aspectos técnicos, impressiona a equalização sonora-vocal do grupo que, além de programática e também elegante, faz brilhar junto ao irretocável da montagem, o mérito de sabermos ali, junto às tantas rupturas, uma teatralidade intensa e pulsante a resistir maravilhosamente sob outras situações narrativas (mais e menos cênicas). Este parágrafo técnico se faz possível sob uma única qualidade (o extenso elenco gozar a conquista de uma raríssima situação): ótimas atrizes e atores num trabalho co-dependente da troca sem protagonismos (e a presença de uma direção cujo efeito está em não assinar com tinta forte, mas de fato orientar a tese e tornar ação o fato cênico).

Amigo pós-peça, em profundo encantamento, mas impelido em extrair opiniões de mim, chegou a perguntar-me acerca das decisões visuais do coletivo e, talvez com mais intensidade do que devesse ter empregado no curto passeio entre a sala e a rua, passei a falar sobre a bonita situação “não teatral do grupo”, em melhor sentido possível. Quis dizer que entendo o grupo estar posto em cena, em um teatro, por conta da obra ter sido concebida por gente de teatro e com lógica de teatro, assim provoquei-o a pensar como seria se algumas 10 pessoas do coletivo fossem, por exemplo, curadoras em museus.

Será, então, que esses testemunhos não performariam entre telas e suportes? Ou, caso fossem 10 ou 15 estudantes de cinema, não seria um curta, um longa? No caso de estudantes de Letras ou Filosofia, quem sabe se não teríamos então a “cena” vertida ao parque, a uma sala, ao espaço de um campus? Isso tudo não acusa a obra, mas eleva sua situação cultural.

Quero dizer que durante sua duração, vez teatral, outra vez sociológica, às vezes plástica, torna potente seu desnudar e, desnudado, mesmo o palco se abre e, assim revelado, com fitas brancas criando telas e corpos buscando esculturas, o texto dramático encontra também um refúgio em ser tese, ser prosa, ser legenda.

Embora realizado por atrizes e atores, não há obrigatoriedade em ser teatro – e aponta-se nesta ânima uma saborosa qualidade estética – porque também não é performance. Assim, quem sabe, seria o teatro pós-dramático não uma revolução do teatro, mas uma revisão do game?

Pós-dramática e pós-moderna, pós-parto e positiva, num caminho muito verdadeiro a partir de suas pioneiras experiências no Zoom, o Coletivo Impermanente alcança uma segunda vanguarda: a de fazer resistir de modo coletivo aquilo que outrora fora tão digital quanto “individual” na maioria dos sentidos, uma peça digital elevada ao estado presencial.

Sobretudo, é mostra de inteligência cênica e confissão coletiva. Não tive críticas aos procedimentos, não restou aparas contra sua fórmula. Somos uma Babel de corpos e desejos. Somos o triste estado de graça de um corpo à deriva. E haverá salvação? O teatro sublima um pouco essa experiência ou este foi e será sempre um artifício?

Não existe resposta possível.

Por ora, a verdade foi bela e a beleza foi real. Parabéns aos Impermanentes, que espero ver permanecidos nas salas, salões, átrios e praças e parques. O caráter cidadão grita por todos os poros.

@coletivoimpermanente
@marcelovarzea

Agradecemos pela leitura de nossa crítica.

,Sobre o autor:

Marcio Tito é dramaturgo e diretor teatral, além de editor e entrevistador no site Deus Ateu (www.deusateu.com.br). 

Instagram: @marciotitop

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