,Simplesmente Clô – Retrato exato

Por Marcio Tito

Por Claudia Martini @cacaumartini - Simplesmente Clô
Por Claudia Martini @cacau.martini – Simplesmente Clô

Começo de conversa:

Se numa espécie de viagem mental ao que seria possível e natural na cultura estadunidense, se, numa coisa sem propósito dessas, a voz condutora orientasse ventura imaginária ao encontro com uma cadeira na Broadway, então, em uma sessão com música, figurinos, atores e coreografias evoluíram cenas capazes de bem narrar e trazer as contradições e a história de David Letterman. Não teríamos nada contra isso. Seria coisa naturalíssima ao ethos do teatro.

Em algum momento da “viagem mental” você talvez afastasse a confusão e chegasse a dizer: “Mas isso é totalmente possível e até bacana que exista. Boa coisa é biografar a vida da maioria por meio dos sujeitos que surgem na TV ou em outras mídias, e com suas vidas e personas, traduzir um mundo de variedades para os demais”.

Pois, em suma, esta ideia comercial e cultural, possível para uma tradição mais ocupada com o cuidado de suas figuras e agentes históricos, não parece nada estapafúrdia.

Falando em Brasil, falando Clodovil, figura assimétrica contra Letterman, também porque contribuiu de modo mais intenso em diversos outros setores (inclusive como candidato eleito) e não somente na TV, tenho certeza, a sugestão de tal biografia teatral ainda pode emprestar espanto aos cadernos de cultura e guias teatrais – como fosse coisa simplória ou menor atentar o olhar àquilo que está na própria composição do teatro: tempo presente, realidade e beleza.

Assim, num programa de pensarmos de modo elevado a nossa identidade nacional, sugiro que você abra os olhos e perceba no ar a enorme e belíssima possibilidade narrativa dessa personagem da fenomenologia puramente brasilis.

Clodovil ganhou monólogo e não é comédia. Por que seria? Fazer rir seria a porta dos fundos de uma personagem cuja maior contribuição está em fazer ver (o tempo presente, a realidade e o que é belo).

Fazer ver a beleza lançada por mãos profissionais, fazer ver o pensamento iluminado pelas próprias emoções – esta foi a estratégia adotada pelo autor, jornalista e crítico Bruno Cavalcanti. Esse foi o seu primeiro acerto, antes de sequenciar os demais.

Clodovil Hernandez, figura mítica do imaginário brasileiro e absolutamente indispensável quando pensamos a história da cultura da moda desse país, ganhou dramaturgia de Bruno Cavalcanti e interpretação de Eduardo Martini. Do encontro nasce um clássico do retrato teatral nacional.

A peça cujas temporadas não estão mal pensadas e sempre ressurgem em temporadas capazes de lotar plateias em “final” de pandemia, segue cartaz. Não perca sua chance. Acompanhe as redes sociais dos artistas e das artistas e espere a boa notícia!

Sucesso de Bruno Cavalcanti @bruno.cavalcanti_
Sucesso de Bruno Cavalcanti @bruno.cavalcanti_

O caminho do texto:

Encenado pelo excelente Martini, cuja construção da personagem impressiona em variados momentos, sem com isso parecer um fotograma reprodutivo da persona, e também carregando um certo “comentário de ator”, há profunda e respeitosa liberdade.

Apresentando as opiniões de um Clodovil póstumo (acerca de opiniões outrora expressas em veículos ou anedotas) desenrola-se a ação. A criação de Bruno renova o fôlego criativo de Clodovil e entrega ao público uma corajosa reapropriação do que seria a marca central da personagem: sua rápida e arguta maneira de radiografar instantes, costumes, valores e tomadas de decisão (em nível federal, íntimo ou artístico).

O texto encontra boas sacadas quando apresenta elementos da vida privada de Clodovil num ir e vir de cenas que já pareciam ter sua verdadeira expressão nos profundamente emocionantes silêncios de Martini, mas nem mesmo este sublinhar do já dito é tão bem encaixado quanto os instantes de interação com a plateia (que durante a prática nos faz ver também um Clodovil entregue e apaixonado por este povo e suas prerrogativas).

Não há como sair do espetáculo sem notar que o destino do teatro é de fato comungar as distâncias e fazer valer no tempo presente a força do encontro daquilo que há de belo em todos os tempos. Este aspecto está evidenciado na opção dramatúrgica de colocar todos os tempos da vida de Clodovil no tempo de uma única reflexão.

Jovem e velho Clodovil se encontram na força de uma identidade que confirma e reafirma certezas lançadas em muito mais de três décadas de vida pública, e aí então percebemos expressa a delicada e intensa produção de sentido que Clodovil impôs ao mundo ao seu redor.

Espetáculo excelente, que merece permanência e grande público. Pudesse surgir no grupo uma cia de repertório capaz de tratar desses fenômenos da TV, sorte a nossa!

Agradecemos pela leitura de nossa crítica.

,Sobre o autor:

Marcio Tito é dramaturgo e diretor teatral, além de editor e entrevistador no site Deus Ateu (www.deusateu.com.br). 

Instagram: @marciotitop

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