,Onde Vivem Os Bárbaros… – Passeio pela origem e processo de criação da peça-filme

Por Wallyson Mota

Fotos de Mayra Azzi @may_azzi_ - Onde Vivem Os Bárbaros
Fotos de Mayra Azzi @may_azzi_ – Onde Vivem Os Bárbaros

Tudo o que tenho feito em arte nesses anos remonta a 2016. Não apenas aos 365 dias que compuseram esse ano, mas a tudo o que o envolve: as tensões sociais estouradas no país, o seu passado-presente escravocrata, o fortalecimento de uma burguesia identificada com padrões colonialistas já antigos, o avanço do conservadorismo religioso, o fascínio pela lógica armamentista, o estouro da pós-verdade e o desenvolvimento de um raciocínio dicotômico que te cola a quem pensa igual a você e faz do pensamento divergente um objeto a ser expurgado, eliminado. Esses e outros pontos que vieram antes, atuaram durante e seguiram em avanço após o Golpe de Estado sofrido no Brasil nesse fatídico ano. 

Quando 2016 começou, e isso era ali em junho de 2013, não entendi minimamente o que estava acontecendo. Por isso me fantasiei de branco e fui pra rua contra o aumento do transporte, pela valorização da educação e da saúde, e por um país menos corrupto. Estava ao lado de amigos que carregavam flores nas mãos e não estranhava quando ouvia a multidão gritar ao redor por um ato sem bandeiras de partidos ou ícones políticos históricos. Não entendia nada. Absolutamente nada. 

Depois, quando o Aécio contestou o resultado da eleição de 2014 (seria esse o segundo mês de 2016?) e a multidão foi novamente pra rua em março de 2015 já pra pedir a anulação da eleição que acabara de acontecer, numa espécie de carnaval macabro (ou uma Quarta-Feira de Cinzas que nunca acabou?), vislumbrei o que estava por vir. E bravejei no vazio. 

Nos dias que seguiram vi um amigo que vestia vermelho ser hostilizado por isso, cachorros latindo contra chicos e caetanos, brancos gestores se engomando ainda mais e vendendo a ilusão de um palanque novo, a queda violenta de todo e qualquer discurso que pensasse o que nos é comum, um outro branco chutando a barraca de artesanatos de um jovem casal de imigrantes latinos. Fui coagido na porta da minha casa pelo fato de ser bicha. Olhei para o calendário e vi que era 2018. Assisti Kléber Mendonça, Anna Muylaert, Ken Loach, vi os desfiles do Leandro Vieira, as palavras do Jhonny Salaberg, a inteireza que a Georgette Fadel e a Frances McDormand oferecem em cena; conversei com a Dani, o Dudu, o Maurício e a Tetembua. Dias calorosos. E coloquei na arena para o Coletivo Labirinto debater, remexer, ressignificar. 

Labirinto vertiginoso.

A pesquisa e criação de ‘Onde Vivem os Bárbaros’ (filme-teatro que agora estreamos) teve início quando estávamos em cartaz com o nosso espetáculo presencial anterior – o provocativo “Argumento Contra a Existência de Vida Inteligente no Cone Sul”. Ali, experimentamos colocar em cena uma discussão que tocasse de maneira direta e sem concessões nos assuntos da vida pública brasileira e latina. Tivemos sessões eletrizadas e com público um tanto heterogêneo, o que propiciou muitas discussões ao redor dessa obra. Bingo! Pudemos perceber de maneira muito viva alguns traços do furacão que pareciam ser o olho e a necessidade de retratarmos o avanço de uma lógica de raciocínio imediatista, sentenciador e moralista no eixo do funcionamento de nossa sociedade. Mais ainda, a urgência de trazermos a público vias de discursos políticos distintas a fim de que possam gerar debate e fricção entre nós, desvelando controvérsias sobre o delicado momento histórico que vivemos. Olhamos pela janela e observamos o aumento das desigualdades concomitante ao desenvolvimento de uma conduta moral que visa um comportamento ‘puro’ entre nós, numa espécie de lógica neofascista. 

Estávamos/estamos em 2019, 20, 21 e 22… Até quando? 

Fotos de Mayra Azzi @may_azzi_ - Onde Vivem Os Bárbaros
Fotos de Mayra Azzi @may_azzi_ – Onde Vivem Os Bárbaros

“Onde Vivem os Bárbaros” é uma obra que discute as ideias que temos hoje – e quanto tempo dura o hoje? – sobre civilização e barbárie. 

O que seria uma sociedade civilizada e o que seria uma sociedade bárbara? A quem interessaria estabelecer essas definições, essas fronteiras entre uma coisa e outra? Quem são os cidadãos dessa sociedade e quem são os seus selvagens? E mais, quem pode ocupar esses espaços – de uma pressuposta cidadania? 

Apesar de tocar em discussões complexas e nada pacíficas, o espetáculo as apresenta através de uma dramaturgia fluida e ágil, apoiada em uma situação ficcional bastante reconhecível: um encontro familiar entre três primos que há muito tempo não se veem. Cada um levou a sua vida de maneira distinta, tem histórias e experiências diferentes e ao se reencontrarem percebem o quão diferentes são/estão. E o quanto essas diferenças, no modo de vida contemporâneo, podem representar uma ameaça.

Em “Onde Vivem os Bárbaros” eu estou em diversas funções: traduzi a dramaturgia do original em espanhol/chileno para o português e depois segui como encenador deste trabalho que tem como futuro um palco, mas que agora (também em virtude de todo o contexto que envolve a pandemia da COVID-19) se apoia essencialmente no audiovisual. Todo esse processo criativo foi reelaborado então para que desse origem a um filme. Um filme que trouxesse em si o exílio, a saudade e o amor pelo teatro, mas que não se ressentisse disso e que buscasse na linguagem cinematográfica os apoios necessários para se desenvolver estética e politicamente.  E por fim, mas não por último, estou nesta obra como ator. Como alguém que faz do seu corpo um canal para que todo esse jogo possa se estabelecer. 

Desempenhar essas múltiplas tarefas forçou em mim a necessidade de entender este trabalho por diversos pontos de vista – desde alguém que pensou na inserção de uma palavra específica no texto antes mesmo de os ensaios começarem até aquele que observa de maneira atenta e plano-a-plano os matizes da colorização e da mixagem de som do filme. Estar em observância com esses distintos pontos me ajudou a pensar a obra em sua complexidade e pelo viés do embate e da interlocução entre as diversas lógicas de discurso e raciocínio. Não à toa vejo a cena que criamos como uma luta praticada pelo pensamento, um território em disputa por essas suas lógicas – defendidas pelas personagens que a compõem e também pelo olhar, sensibilidade e abordagem de cada artista integrante. 

Este filme, peça-filme, cinema-teatro (qual será o termo que o veste melhor?) integra o projeto “Histórias de Nossa América”, do Coletivo Labirinto, contemplado pela 35ª. edição da Lei de Fomento ao Teatro Para a Cidade de São Paulo. Nele, o Coletivo tem promovido um amplo passeio pela dramaturgia latino-americana contemporânea através de leituras encenadas, traduções de peças, laboratórios de pesquisa e esta criação agora apresentada à fruição das pessoas. 

Agradecemos pela leitura de nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Wallyson Mota – Bacharel em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Diretor dos espetáculos “Sem_Título”, de Ariel Farace (Coletivo Labirinto / 2014), “Santiago Morto”, adaptação de Liana Ferraz para a “Crônica de Uma Morte Anunciada” de Gabriel García Márquez (Estação Teatro / 2011) e do espetáculo de cena expandida para a internet (online) “Experimento Sem_ Título” (Coletivo Labirinto / 2021). Dirigiu os curtas-metragens “Caranguejo Homem” (2018) e “Casulo” (2016), em parceria com Aline Pellegrini. Cofundador do Coletivo Labirinto.

Instagram: @wally.motta.eu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s