,Sueño – Para insistirmos no fazer.

Por Marcio Tito

Sueño • Por João Caldas
Sueño • Por João Caldas

Poucas e raras são as peças que asseguram a necessidade de seguirmos a fazer teatro repetidas vezes, em variados espaços, idiomas e civilizações. “Sueño” escala tal conquista e faz permanecer fundamental a existência da arte teatral entre (e para) os homens e mulheres que sobrevivem pela expectativa de um mundo mais belo.

Partindo da resistência de um natural espanto perante a genialidade da obra de Shakespeare, que jamais fora coisa além de um artista de seu tempo, Sueño edifica então sua primeira metáfora, a metáfora inicial: um enlace entre tempos que renovarão a paleta de sentidos do real, assim armando a sequência de chicotes que nos entregará um renovado sem fim de qualidades, revisões e prismas acerca da vida, da poesia e das disputas políticas que atravessam os supracitados contextos.

Metáfora pós metáfora, e não escapamos ao inteligente sonho sonhado pelo autor e diretor Newton Moreno (e claramente pelo gênio das proposições do presente elenco que, tristeza nossa, não se viu e não se verá repetido tão rápido assim, simplesmente porque algumas constelações levam anos até configurarem o céu outra vez a sua maneira).

Leopoldo Pacheco, Michelle Boesche, Paulo De Pontes, Denise Weinberg, José Roberto Jardim e Simone Evaristo, pela ordem do cartaz, entregam a coisa que mais nos importa em qualquer obra de arte: o refinamento de uma ilusão.

Sueño • Por João Caldas
Sueño • Por João Caldas

Pense nunca ter visto teatro ou qualquer coreografia e solicite a sua imaginação uma injeção que possa entregar ao espírito qualquer sentimento equivalente a: ficarmos 3 horas diante de artistas que planejaram cada gesto, cada som e tom, cada velocidade, e cor, e textura até que você simplesmente fosse obrigado a pensar que o mundo está vivo e as pessoas precisam lutar.

É, curiosamente, uma peça cuja falta de destaque a destaca definitivamente. O enamorado Édipo revisitado e shakespeariano e revolucionário de José Roberto Jardim. O Mazzaropi “chicoanysiano-molieriano” meio Grupo Galpão do impressionante Paulo Pontes. Michelle Inês Etienne Romeu Dilma Sirkis Boesche enamorada de um “O Que É Isso Companheiro?”. Denise Weinberg é um mecanismo de bomba dentro daquilo que há e está dentro do câncer quatrocentão e oligarca que nos sangra agora mais depressa do que nunca. Simone Evaristo com sua rápida produção de símbolos tragicômicos que instauram teatro dentro do teatro como se não fosse aquilo uma cena de teatro. A presença fantasmagoricamente documental e literária da entidade Leopoldo Pacheco, quase nunca na boca de cena…

Essa apressada e rápida análise dos padrões dos e das artistas procura apenas enumerar convites capazes de fazer com que você vá ao espetáculo, leitor ou leitora que, neste texto, pode sonhar um pouco também.

Sueño • Por João Caldas
Sueño • Por João Caldas

Interrompa o fluxo e busque imaginar um sonho feito de palavras e figurinos. Uma plástica simples e bela contra a realidade óbvia e soberba de uma vaidade que nunca passa, mas vai passar! Isto que se pensa quando se sonha um sonho assim, este filme que desenha-se oblíquo atrás das retinas é Sueño.

Metáfora sobre metáfora e metáfora sobre metáfora. Acordar e saber-se sonhador, adormecer e não saber-se mais onironauta. Despertar, não mais acordar. Despertar e deparar-se com o estado febril da vida real da maioria. E esses verbos todos fazem lembrar um dos títulos mais bonitos do teatro mundial: Acordes, obra do Teatro Oficina.

Muito do trabalho de alguém que produz literatura sobre arte e cultura é fazer quem leu ir visitar a citada cena. Assim, diante da responsabilidade e da obrigação do convite: se hoje eu precisasse dizer “Eu Te Amo” à mulher que amo, certamente diria “Quer ver Sueño comigo na sexta?”.

Incrível, inesquecível, irretocável. Destaque para a canção ao vivo, destaque para todos os destaques! Falta-me paciência para ponderar sobre um teatro cuja recordação me ouriça de modos tão vivazes!

Não penso ter podido em outra situação acompanhar um texto tão bem armado pelo Newton Moreno, e isso não deprecia os demais, justamente porque Sueño faz exceder, em todos os expedientes, tudo o que pensei haver chegado ao limite.

Dormir… Dormir? Talvez sonhar!

Aí está o obstáculo…

Sueño • Por João Caldas
Sueño • Por João Caldas

Fotos: @joaocaldasfilho

@sueno.teatro • elenco
@miboesche @joserobertojardim @paulo.pontes.56 @simoneevarist @deniweinberg @leopoldopachecho

Texto e direção • @newtonmoreno9

Agradecemos pela leitura de nossa crítica.

,Sobre o autor:

Marcio Tito é dramaturgo e diretor teatral, além de editor e entrevistador no site Deus Ateu (www.deusateu.com.br). 

Instagram: @marciotitop

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