,O Lobo Atrás da Porta e a tensão do elástico

Por Herácliton Caleb

O Lobo Atrás da Porta é um filme de suspense e drama brasileiro de 2014, dirigido e escrito por 
Fernando Coimbra
O Lobo Atrás da Porta é um filme de suspense e drama brasileiro de 2014, dirigido e escrito por 
Fernando Coimbra

Pela ocasião da chegada de O Lobo Atrás da Porta à Netflix, resolvi rever e escrever um pouco sobre essa bela obra – infelizmente não tão conhecida do grande público -, mas já alerto: Isto não é uma crítica. Isto está mais para um conversa a cerca de um dos melhores filmes brasileiros pós retomada do cinema nacional (1995).

O filme foi baseado livremente na história real que chocou a cidade do Rio de Janeiro, em 1960, história essa amplamente conhecida como “A fera da Penha”.


Seu enredo, contado de forma cronológica, diz sobre uma mulher que, ao descobrir que se relacionava com um homem casado, resolve se vingar da forma mais brutal possível.

A princípio, se analisado de forma linear, o enredo não parece muito complexo, porém é aí que entra a perspicácia do diretor e roteirista em tornar a narrativa mais interessante através de um recurso muitas vezes demonizado por professores de roteiro: o flashback.

Porém, se é um fato que em muitas vezes o flashback pode ser utilizado de forma preguiçosa por alguns escritores, aqui, o artifício é utilizado de modo a constituir versões diferentes de um mesmo fato – o que potencializa a tensão no filme.

No início da projeção, acompanhamos Silvia (Fabiula Nascimento) indo buscar sua filha em uma creche. Quando ela pergunta pela criança, ela ouve, da dona da instituição (Karine Telles), que a menina não está mais lá e que pior: alguém a buscou antes. Logo uma pergunta explode: quem buscou e com qual intuito?

Com mais perguntas do que respostas, pulamos para a investigação na delegacia e percebemos que se trata de uma história de traição envolvendo Bernardo (Milhem Cortaz), Silvia (Fabiula Nascimento) e Rosa (Leandra Leal) e o mais propício para a tensão em um suspense: cada personagem dá a sua versão dos fatos.

Assim, o flashback é usado para reverberar os pontos de vistas de cada personagem e, com isso, confundir temporariamente o público.

O Lobo Atrás da Porta estreou mundialmente no Toronto International Film Festival em 11 de setembro de 2013
O Lobo Atrás da Porta estreou mundialmente no Toronto International Film Festival em 11 de setembro de 2013

Na delegacia, Rosa é acusada de ligar para a creche se passando por Silvia e sequestrar a criança, mas ela nega e conta que foi coagida por Betty (Thalita Carauto) para dar um susto em Silvia, que estaria se relacionando com outro homem. Entretanto, logo em seguida, vemos uma versão que desmente essa e coloca Rosa abordando e pagando Betty.

Com essa contradição interessante, Coimbra nos brinda com um recurso interessantíssimo: coloca Betty em outros momentos como que a mostrar que ela pode ter sido pescada da realidade para construir a versão fictícia.

Com o desenrolar do filme, somos jogados por versões diferentes e, com os conflitos de pontos de vistas, mais perguntas vão se criando, até que uma versão se torna o fio condutor da metade para o final: é a versão de Rosa – a acusada de sequestrar a criança.

Em Flashback, vemos Rosa se aproximar de Silvia, a verdadeira mulher de Bernardo. Rosa parece querer usurpar aquele papel. Ela se aproxima da mulher, toma café, usa o banheiro, e até chega a deitar na cama do casal. Aos poucos, vamos percebendo que a história vai se desenhando para uma brutal vingança.

De partida, uma coisa que chama muita atenção no longa é a forma como o roteirista e diretor, Fernando Coimbra, lida com o material a partir do cinema de gênero – um tipo de cinema feito a partir de convenções consagradas a fim de proporcionar determinadas emoções.

Aqui, por se tratar de um suspense policial, além da criação de uma atmosfera que vai se complexificando até o ápice, o filme de Coimbra joga todas as fichas na criação de uma pujante tensão – para que o público mantenha o interesse em perseguir a linha narrativa atrás de respostas.

Como ouvi de um professor certa vez, podemos pensar na tensão como um elástico que deve estar sempre vibrando, nunca frouxo. Quando se é didático demais, o elástico distensiona e causa tédio no público; quando há perguntas demais, corre-se o risco de irritar o público e o elástico se arrebentar – caso comum em obras herméticas.

Leandra Leal foi agraciada com os prêmios: Grande Otelo de Melhor Atriz, Prêmio Fênix de melhor atuação feminina e Prêmio Guarani de melhor atriz. Também recbeu indicação ao Prêmio Platino de Melhor Atriz
Leandra Leal foi agraciada com os prêmios: Grande Otelo de Melhor Atriz, Prêmio Fênix de melhor atuação feminina e Prêmio Guarani de melhor atriz. Também recbeu indicação ao Prêmio Platino de Melhor Atriz

Entretanto, quando há signos instigantes e justos, o filme nos faz sempre procurar por respostas. E é exatamente essa justeza – tão necessária para um filme do gênero – que pode elevar um enredo comum a uma obra de arte, justificando a máxima que um bom roteiro não é apenas sobre os acontecimentos, mas como se opta por contar a história.

Mas se podemos dizer que o roteiro é forte o bastante para prender a atenção do público, a direção também não fica atrás e consegue produzir imagens à altura, como os planos das personagens enquadradas por frestas, janelas e portas, como se o lobo do título estivesse sempre à espreita.

Por fim, o fato do enredo ser conhecido de uma parte da população não garante o imediato engajamento com a obra. Revendo o longa, a sensação que fica é que, por se tratar de um caso raro de filme que nos prende por toda a sua duração, o engajamento com o público se dá porque o filme nunca distensiona o elástico.

Em 2016, com muita justiça, o filme figurou entre os 100 melhores filmes brasileiros segundo a votação dos críticos da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE).

Agradecemos pela leitura de nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Herácliton Caleb é ator, dramaturgo, roteirista e diretor. Foi aluno da Escola de Arte Dramática da ECA/USP e se formou em atuação pela SP Escola de Teatro e pelo curso Técnico em Arte Dramática do Senac/SP. Também fez o Núcleo Experimental de Artes Cênicas do Sesi e atuou nos espetáculos “Vende-se”, de Marco Kepler; “Na Carreira do Divino”, de Carlos Alberto Soffredini e “Bruto”,  escrito por Alexandre Dal farra e dirigido por Luiz Fernando Marques (Lubi) que fez temporada no Sesi/Fiesp – Av Paulista. Fez cursos livres de atuação com Lee Taylor, Francisco Medeiros e dramaturgia com Silvia Gomez. Publicou as peças “Viva Voz” e “Todos os homens são iguais diante de uma arma” pela Editora Efêmera. Dirigiu o espetáculo híbrido “Viva Voz” que fez temporada na plataforma digital da SP Escola de Teatro. No audiovisual, participou como ator nos curtas “Lado A, lado B”, dirigido por Nath Cavalcante e “Tocando o Barco”, dirigido por Elói Beltrame. Como roteirista, foi co-autor das séries “Envoltos” e “Boxxit” – ambas em processo de produção. 

Instagram: @heraclitoncaleb

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