,Sobre o espetáculo Neblina – Roverianamente autorais.

Por Marcio Tito

Leonardo Fernandes e Fafá Rennó - Artistas
Leonardo Fernandes e Fafá Rennó – Artistas

Neblina é daquelas obras que, quando bem encenadas, tornam-se capazes de verter seu título em pequena metáfora para a verdadeira narrativa – Neblina, texto de Sérgio Roveri, lentamente nos entrega os pontos mágicos que conectam em um espaço real e irreal as tragédias que, no tempo presente da peça, serão toda a vida da dupla de protagonistas.

A escultura dramatúrgica é absolutamente possível enquanto forma porque, ao que parece, a equipe gozou de grande inteligência quando aceitou “enfrentar” os laços da complexa dramaturgia e, de fato, transformar em potência cada uma das suas proposições – sem escapar pela via das soluções que viessem a narrar coisas ao mesmo tempo, com excelente efeito, o que se tem é um dramático mergulho ao fundo das últimas estruturas da cena (e aqui se dá o feitiço mais vibrante do teatro nos últimos tempos: realmente encontrarmos produções que lidam com obras comprometidas em colocar em pauta os debates propostos e não negam tal vocação). 

Embora pareça arbitrário eleger o texto enquanto maior disciplinador das vantagens do espetáculo, visto que não participamos do seu processo de feitura, ao sabermos que todo o projeto nasce de um convite do ator para o autor, nessa bonita paixão que é vermos uma encomenda nascer tão bem nascida, resolvemos também a dramaturgia enquanto ponto de força da encenação e encontramos algum ângulo para que disso possamos extrair teorias complexas e coerentes acerca do trabalho.

Leonardo Fernandes e Fafá Rennó entregam trabalhos equivalentes em seus brilhantismos. É, de fato, o trabalho natural de duas personas que outrora puderam encantar e que, nesse momento de confirmação de seus trabalhos não se viram seduzidos em apresentar “virtuosismo” em lugar de boa, clara e responsável comunicação.

O que de fato está posto é a calma, individual e coletiva, da dupla (em não adiantar emoções que, como acima apontado, desmontariam a estrutura “roveriana”).

A dupla está numa afinação raríssima (sem com isso deixar de entregar pontos autorais). Fafá imprime silêncios muito enloqüentes e surpreende com viradas “bruscas” (aonde, no entanto, podemos acompanhar com tranquilidade a evolução e a agitação crescente no interior de sua personagem).

Leonardo é alguma coisa entre a espera e uma dor gigante e devagar. Sua escolha retesada e demorada em planos introspectivos é também chave para percebermos que a cultura impressa entre a dupla é um subproduto muito mais de seu interior, do interior do homem, do que alguma troca interativa entre o casal.

Os silêncios de Leonardo são constitutivos do espaço-tempo aonde o casal está inserido, sem com isso dizermos que a obra se passa numa irrealidade “controlada”. Aliás, a questão é justamente a irrealidade fora de controle e, neste ritmo, os perigos do manipulador tentar retomar o controle em pleno descarrilo. Portanto, religando aqui o texto a seu início, retomo a ideia de “neblina” enquanto palavra-guia para as demais proposições.

Jovem e oportuno clássico.
Jovem e oportuno clássico

A sombra clara produzida pela neblina, tradicionalmente encontrada em serras e estradas frias, mas também em manhãs bucólicas e úmidas, faz ver e distorcer o mundo ao nosso redor (ao mesmo tempo em que nos entrega lentamente o detalhe e a forma das coisas – e me parece ser esta a melhor forma para compreendermos a narrativa da peça homônima – um densa neblina de significados nos entrega também uma outra densa forma ainda nublada e que, ao cair da sombra clara, no ritmo da natureza e da cegueira, nos entregará uma profunda e agora pesada realidade obscurecida).

A luz e o cenário também apresentam vagarosas e bem determinadas evoluções. Neste ponto, pela terceira vez, retomo o título enquanto acerto e acordo coletivo entre cada uma das partes do espetáculo que, por ser um dos mais instigantes da retomada, não apresenta “partes” e performa enquanto célula única. É um trabalho que não se pode desmontar. Todas as áreas imperam num sem fim de ajustes internos que, claramente na neblina, querem entregar com elegância e força a mensagem central.

Temos no teatro e na cultura cênica brasileira uma doída ausência de clássicos e uma programada falta de cuidado com a dramaturgia nacional. Vez ou outra, ou quase sempre, alguém com a cabeça no lugar sugere que companhias de repertório pudessem surgir para salvaguardar boas produções que nos entregassem autorias expressivas. Este é um projeto direcionado para a constituição de uma verdadeira rede de teatros populares capazes de produzir uma cultura que pudesse sempre encontrar novas e renovadas gerações. Nelson Rodrigues é quase sempre o autor que encabeça tais justificativas (e temos companhias obstinadas nesse fazer, não que isso signifique que o Estado tenha abraçado suas iniciativas, mas elas existem e são da maior importância) contudo, ainda que tenhamos aí um espaço largo de tempo entre Um Possível Kurt Cobain e Não Contém Glúten (duas produções dirigidas por José Roberto Jardim), Neblina (com direção de Yara de Novaes), parece entrar com fôlego para a tradição de textos aonde as características deste importante autor estão não somente respeitadas, mas também potencializadas em produções que dignificam e resignificam suas qualidades artítiscas.

Em linhas gerais: É uma produção sem defeitos e em total harmonia com a proposta. Apresentar uma autor cuja elegância está nos detalhes, afinar um elenco cujo poder está na consciência do verdadeiro significado da obra e dar poder para que as áreas (luz, cenário e figurino) realmente participem de modo simbólico, sem parecerem adereços, mas enquanto narrativas sincrônicas e simbólicas. Parece receita de bolo, parece um modo prático de colocar as coisas complexas de uma obra de arte, mas é quase sempre assim quando não podemos mais apontar as fissuras (e o aplauso é quem pode melhor falar por nós).

Imperdível, impressionante, ideal.

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Depois de passar com o carro sobre uma pedra no trevo de uma estrada deserta, uma mulher, Sofia, caminha mais de uma hora em busca de socorro, até encontrar uma casa com as luzes acesas, onde mora Diego, um homem solitário e de personalidade pouca amistosa. O frio e a neblina daquela madrugada obrigarão Sofia a esperar até o amanhecer para poder partir. Estranhamente, o amanhecer para os dois personagens demora muito a chegar. Questões existenciais relacionadas a como lidar com a perda, o luto, o sofrimento e formas de alcançar a superação estão inseridas na história desse misterioso casal. Texto: Sérgio Roveri. Elenco: Fafá Rennó e Leonardo Fernandes. Direção: Yara de Novaes.

A temporada do espetáculo Neblina, no Teatro do CCBB São Paulo, será com público presencial e as representações acontecerão às sextas-feiras, às 18h30, e aos sábados e domingos, às 17h.

@espetaculoneblina

@sroveri

@fernandesleofernandes                      

@fafarenno        

@wagnerantonio    

Agradecemos pela leitura de nossa crítica.

,Sobre o autor:

Marcio Tito é dramaturgo e diretor teatral, além de editor e entrevistador no site Deus Ateu (www.deusateu.com.br). 

Instagram: @marciotitop

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