,Guattari e Kogawa: psicanálise e micropolítica – entrevista com Anderson Santos

Por Alan dos Santos

Capa do livro: Guattari/Kogawa: rádio livre, autonomia, Japão - organizado e traduzido por Anderson Santos
Capa do livro: Guattari/Kogawa: rádio livre, autonomia, Japão – organizado e traduzido por Anderson Santos

Antes de mais, gostaria de agradecer ao Anderson pela entrevista e ressaltar uma vez mais que as páginas dele estão entre as minhas favoritas nas redes sociais. O trabalho que o Anderson realiza de divulgação do pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari em diálogo crítico com Jacques Lacan e com o lacanismo é primoroso. Ao meu ver, você, Anderson, estimula muito bem o debate sobre a esquizoanálise como dobra da psicanálise (ou em relação com ela). Essa é uma chave de leitura que eu compartilho contigo!

Alan dos Santos: Aliás, começo por aí: a psicanálise respira ainda após os trabalhos de Deleuze e Guattari? O que dá vida a psicanálise hoje?

Anderson Santos: Agradeço o convite, Álan. É bom poder trocar algumas palavras com você. E a resposta para sua primeira questão é: sim, pois penso que os trabalhos de Félix Guattari e Gilles Deleuze não vieram para dar um fim a psicanálise, mas para contribuir de maneira radical ao campo psicanalítico e para além da psicanálise. Do meu ponto de vista, para além de Lacan, quando os dois se juntaram e publicaram “O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia” (1972), produziram um furo em determinada bolha psicanalítica. Por mais que muitos houvessem resistido a leitura dessa obra, seu conteúdo ressoa até os dias atuais nos campos da psicanálise, da psiquiatria, da psicologia, entre outros.

Portanto, é inegável que Guattari e Deleuze enquanto interlocutores tiveram um papel importante ao produzirem aberturas nos poros da teoria e prática analítica. Recentemente pude publicar o vídeo legendado em português de uma entrevista de Guattari[1] para um programa de TV em 1987. É importante vê-lo dizer com suas próprias palavras que seu ataque (com Deleuze) contra Freud e Lacan foi em nome da descoberta psicanalítica, pois a psicanálise não poderia continuar se afundando através de brigas dogmáticas em capelas que tornam a prática analítica pobre e estéril.

Apesar das limitações de Freud, desde a origem da psicanálise, podemos perceber um movimento crítico, repleto de alianças e deslocamentos, e acredito que sejam esses elementos que ainda mantém a psicanálise viva em nosso tempo. Desse modo, diria que o que dá vida a psicanálise ainda nos dias de hoje é seu nomadismo.

Félix Guattari e Kogawa
Félix Guattari e Kogawa

Alan dos Santos: Passemos para o livro que você organizou com textos de Félix Guattari e que foi publicado pela Sobinfluência. Belo trabalho! Além de organizar você também traduziu as entrevistas, não? Conte um pouco sobre o livro e como ele surgiu. 

Anderson Santos: Há alguns anos venho pesquisando a obra de Félix Guattari e no decorrer deste mapeamento foi possível observar uma quantidade de textos e entrevistas não publicadas em português. E de algum modo, além de estudar tais textos, tenho como objetivo possibilitar o acesso desses textos às pessoas que também se interessam por esse trabalho. Foi assim que em uma destas pesquisas, reencontrei a entrevista de Guattari realizada por Tetsuo Kogawa no Japão e resolvi traduzi-la imediatamente.

As entrevistas estavam somente em áudio no site do Kogawa e como havia uma grande demanda de trabalho, convidei um amigo, Álan Belém, o qual é professor de francês e que contribuiu com as traduções e revisões no livro. Além da contribuição de Álan, entrei em contato com Kogawa, que prontamente se propôs a contribuir conosco. Ele encaminhou a entrevista transcrita em francês e inglês, porém ao comparar com os áudios das entrevistas pude perceber que haviam recortes nas publicações dos dois idiomas, e tomo sempre o posicionamento de publicar os conteúdos em sua integralidade. Assim continuei com Álan o projeto de escutar, transcrever e traduzir todos os áudios, sem que seja feito nenhum recorte destes encontros, visto que são de suma importância para nós, leitorxs e pesquisadorxs de Guattari.

Kogawa contribuiu com importantes dados históricos da chegada de Guattari no Japão, e através de seus velhos amigos pode obter informações mais concretas daquele período, inclusive, nos concedeu imagens inéditas de jornais e fotografias do encontro com Guattari. Portanto, esse livro trata-se de um trabalho coletivo, com pessoas de diversos territórios e por isso todo o processo de organização, tradução e finalização do livro pode ser realizado em apenas três meses.

Alan dos Santos: O tema da micropolítica aparece com força ao longo do livro. Qual a relação (se é que há) entre psicanálise e micropolítica? Há alguma política no ato de fazer análise?

Anderson Santos: Toda vez que penso na relação entre psicanálise e micropolítica lembro da psicanalista Suely Rolnik quando afirmou, em uma palestra, que Freud foi o inventor da micropolítica, realizando um gesto de resistência no plano da subjetividade, possibilitando a produção de um ritual que não existia em nossa cultura. De acordo com Rolnik, Freud não fez somente uma revolução no âmbito da psiquiatria, mas também em nossa concepção de política e através da psicanálise pode produzir uma intervenção na cultura e na política.

Outro psicanalista aliado ao pensamento da filosofia da diferença é João Perci Schiavon, o qual ressalta que os problemas do inconsciente sempre foram éticos e políticos e que as formações do inconsciente (sonhos, sintomas, chistes, lapsos, atos falhos) são formações micropolíticas. Portanto, essas formações envolvem as problemáticas do pensamento, do desejo e da política.

E, se as formações do inconsciente são micropolíticas, é preciso ver que há uma política no ato de fazer análise. A análise enquanto um exercício ético, clínico e político não se trata somente de um exercício realizado em consultório, instituição ou qualquer espaço público e/ou privado que se possa imaginar. Pois a análise atinge a vida em diversos âmbitos, principalmente na vida cotidiana de cada pessoa em processo analítico, assim podemos dizer que está intrinsecamente ligada a políticas e micropolíticas. Além do mais, vale ressaltar que a vida se propõe eticamente e o que é exposto na análise é a vida enquanto prova ética da existência, e nesse processo estão as forças pulsionais (agir, avaliar, dizer e existir) apresentadas por Schiavon em seu livro Pragmatismo Pulsional (editora n-1, 2019).

E deslocando-me um pouco e aproveitando mais a temática do livro Guattari/Kogawa, gostaria de dizer que os conceitos de micropolítica, transversalidade e molecular foram as principais engrenagens para a prática da rádio livre e performance de Kogawa no Japão dos anos 80. Atualmente Kogawa está mais ligado a performance com o que ele nomeia como rádioart.

O filósofo japonês ainda diz que a psicanálise de Guattari sobre Franz Kafka abriram uma nova porta para a micropolítica e a micrologia dos detalhes. Aí está a questão do que ele percebe em Deleuze e Guattari como o molecular, como sendo a unidade mínima de singularidade e multiplicidade. Kogawa afirma que se esse nível não for modificado, nada se modificará. Através das nossas trocas de e-mail foi possível a realização de uma entrevista com Kogawa, a qual compõe o livro. Quando conversamos sobre micropolítica, ele chegou a dizer que a diferença entre democracia e repressão é: se o controle é invisível ou visível, sutil ou óbvio e que o campo de batalha da micropolítica está nesse controle invisível e sutil, e que, portanto, aí aconteceria uma revolução molecular, a qual não se trata de uma mudança radical, mas que dado seu nível molecular, já está acontecendo.

Félix Guattari e Kogawa
Félix Guattari e Kogawa

Alan dos Santos: Ao seu ver, o livro nos revela algo da singularidade do Guattari? O que há de próprio do Guattari para além da construção conjunta com Deleuze? O livro aponta para um outro agenciamento de enunciação coletiva, desta vez entre Guattari e Kogawa? 

Anderson Santos: Não somente no livro Guattari/Kogawa, mas em toda a obra de Guattari podemos encontrar sua singularidade se presentificar em ética, sua militância, seu modo de agir, o qual não temeu levantar críticas à psicanálise, psiquiatria, psicologia, movimentos sociais, entre outros âmbitos. Guattari é aquele que não separa as palavras dos atos, cada escrito, cada dizer é um agir, uma experimentação.

Penso que para além da construção conjunta com Deleuze, o que podemos ver de próprio em Guattari é seu nomadismo, sua força em articular e criar alianças com diferentes territórios, seu olhar crítico e clínico, sua experiência como analista, sua potência enquanto filósofo, um grande criador de conceitos. Após o falecimento de Guattari, Deleuze escreveu um texto em que diz que a obra de Félix está para ser descoberta e redescoberta e isso é uma das maneiras de mantê-lo vivo.

E em relação a sua última questão: sim, o livro aponta para um agenciamento entre Guattari e Kogawa, infelizmente um agenciamento muito pouco conhecido por aqui, mas imensamente potente. Em um dos capítulos do livro encontra-se uma tradução que fiz do texto de Pali Meursault, o qual fala acerca desse agenciamento entre Kogawa e Guattari, principalmente da experiência radiofônica no Japão, a qual produziu uma diferença em relação ao acontecimento dos movimentos das rádios livres na Europa.

Kogawa destaca essa diferença por dois motivos: primeiro, porque a experiência italiana e francesa estava ligada a fazer a palavra circular, visto que as autoridades daqueles territórios estavam produzindo silenciamentos no campo social, portanto, através das rádios livres também haveria uma mensagem a transmitir; e o segundo motivo está ligado ao fato de que no Japão a experiência acontecia para encontrar novas formas de cuidar de uma sociedade em sofrimento produzido pelo individualismo – podemos dizer que a sociedade japonesa já sentia nos anos 80 os efeitos do neoliberalismo.

E digo isso, pois segundo Kogawa, logo após o colapso dos movimentos dos anos 60 no Japão houve um período chamado de “apatia”. Para ele esse colapso aconteceu duas vezes: primeiro com a repressão policial e posteriormente em face da onda de mídias de massa. Então, as mídias – aliadas ao capitalismo – produziram uma cultura de isolamento na sociedade japonesa e o que puderam encontrar foi um rápido deslocamento da ação política da juventude para um lugar na sociedade de consumo individualista, a qual se expressa no fenômeno hikikomori, descrito por Kogawa como uma forma de fobia social, sendo para ele o estágio mais avançado da cultura de isolamento no Japão.

Foi nesse contexto que em 1982 Kogawa fundou a Rádio Polybucket no campus da universidade e posteriormente com a contribuição de seus alunos a rádio mudou-se para o centro de Tóquio e foi nomeada de Rádio Home Run, a qual Guattari visitou em 1985 e disse que os esforços ali eram direcionados para uma espécie de revolução molecular.

Cabe ressaltar que no Japão os movimentos de rádio livre foram chamados de movimento mini-FM, e foi através deste que Kogawa testemunhou as especificidades de um movimento e de uma rádio que estava se tornando algo para além de rádio e transmissão de conteúdos sonoros, pois nestas experimentações, encontrava-se sua dimensão comunitária, constituindo um instrumento de experimentação social e coletiva, uma terapia social alternativa.

Foi assim, que a sede da Rádio Home Run se tornou um ponto de encontro para estudantes, militantes, artistas, jovens, idosos… Kogawa disse para Guattari durante uma das entrevistas que suas atividades foram inspiradas nos conceitos de “micropolítica”, “transversalidade” e molecular”. Enfim, portanto, para finalizar essas diferenças, na experiência japonesa não se tratava de liberar a transmissão, mas de libertarem-se do individualismo que tomou o país.

Alan dos Santos: Para concluirmos, sinta-se à vontade para comentar algo do livro que eu não tenha perguntado

Anderson Santos: Agradeço pela proposta da entrevista e pelas perguntas em relação ao livro, pois pude aqui reatualizar muitas reflexões sobre esses relatos históricos, clínicos e políticos que se encontram no livro “GUATTARI/KOGAWA. Rádio livre. Autonomia. Japão” publicado em português pela editora sobinfluencia e que reverbera nos projetos de pesquisa, tradução e escrita porvir.  


[1] https://www.youtube.com/watch?v=j5FKIjmInH0

Agradecemos pela leitura de nossa entrevista.

,Sobre o entrevistado:

Anderson Santos: Psicanalista, graduado em Psicologia, especialista em Saúde Mental, Imigração e Interculturalidade (UNIFESP) e membro do coletivo de Psicanálise na Praça Roosevelt. Foi organizador do livro “GUATTARI/KOGAWA. Rádio livre. Autonomia. Japão” publicado pela editora sobinfluencia em 2020. Idealizador da página Há luz nas análises, do canal Clinicand no Youtube e do site clinicand.com onde movimenta uma “caixa de ferramentas” repleta de conteúdos relacionados aos diálogos entre psicanálise e esquizoanálise.


Instagram: @clinicand_

,Sobre o autor:

Alan dos Santos: Psicanalista e Professor. Licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia Política Contemporânea e doutor em Educação, Arte e História da Cultura. Pesquisador de lacanismo, Michel Foucault, políticas libertárias e curioso da esquizoanálise. 


Instagram: @alan_santos_radar

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