,Diálogo Divergente – conversa sobre a exposição do artista Túlio Pinto no Museu de Arte de Sorocaba.

Por Alexandre Gnipper e Marcio Tito

Complicity #8, 2016
Complicity #8, 2016

Este formato investigado e intuitivo é a nossa mais tradicional intenção perante o tempo das artes. Recordo-me mal ou fizemos a estreia do formato enquanto tratávamos do streaming, contudo, seja como for, é uma das nossas assinaturas enquanto espaço capaz de cuidar e pensar as artes num contexto técnico, intuitivo, racional e irracional. Quem sabe, no sonho mais bonito, seja mesmo o espaço mais capaz de realmente entregar impressões e sensações às impressões e sensações dos e das artistas que entram nesse foco. Dessa vez, afinando a lâmpada que alumbra nossa busca pelo objeto que atravessará a arte e suas inúmeras razões, lançamo-nos pelas obras do artista Túlio Pinto, até janeiro 2022 expostas pelo Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba.

Túlio é bacharel pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e suas obras já foram expostas na Itália, Espanha, Uruguai, Suíça, Estados Unidos.
Túlio é bacharel pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e suas obras já foram expostas na Itália, Espanha, Uruguai, Suíça, Estados Unidos

Tito: Falando em arte contemporânea, parece estar naturalmente expressa nessa colocação um tipo de produção capaz de ocultar mais camadas – não pictóricas, com narrativas interpessoais, vindas de um universo criativo mais obcecado por perguntar de modo sequencial e infinito – quero dizer que, em suma, as relações do Túlio aparecem enquanto “jogos de ver”. Depois de uma ideia, outra e outra. Vencido nosso contato inicial com o uso dos materiais, ergue-se uma renovada noção de equilíbrio. E as formas, e o ritmo, e a oposição, e os títulos…

Alexandre: A arte que oculta é também a arte que quer ser descoberta, investigada. Se trata de uma criação sensível que se dirige simultaneamente aos sentidos e ao intelecto. A exposição do Túlio parece criar esse tipo de curto circuito, nos fazendo ter que decidir entre a fruição e a racionalização. Existe algo de enigmático, embora tudo esteja explícito. Ele parece querer explorar um ponto de tensão máximo entre a fragilidade do vidro e a dureza do aço, se trata de um equilíbrio delicado, frágil como nossas certezas, parecendo que tudo está prestes a ruir a qualquer momento, embora tudo se sustente em suas relações improváveis.

Tito: Cara… A gente que pesquisa arte fica nessas e quereremos compreender algo particular, algo que tenha comunicação com nosso repertório… Procurei na cabeça inúmeras referências e confesso que falhei com prazer nessa busca. É muito autoral, radical, confessional de uma religião que acho que só possui o Túlio enquanto adepto. É bonito demais pensar que de fato é uma produção capaz de expressar não só o racional-lógico e programático do artista, mas também o desejo do fazedor. Senti como se ele estivesse tornando público algo que está sempre aparecendo no desejo que sente pelas formas, pelas dinâmicas todas. Recentemente descobri a palavra “onironauta”, que é quando alguém manipula as condições do próprio sonho. Foram duas descobertas recentes. A obra do Túlio de modo presencial, e essa palavra maluca e linda.

Cumplicidade #12 (carrarinha), 2019
Cumplicidade #12 (carrarinha), 2019


Alexandre: Faz todo sentido. Essa sensação de manipulação onírica permeia a obra do Túlio mesmo. Tem um “quê” de surrealismo embora ele manipule o universo onírico de forma bastante concreta, e até mesmo matemática, diferentemente da obra do Dalí que explora o inconsciente e a subjetividade com uma forma permeada por uma fluidez líquida. O Túlio explora as contradições dos materiais reais apontando para um lugar de surrealismo, sem deixar de ser concreto. Também não me lembro de ter visto esse tipo de abordagem em outro artista, me parece extremamente original, além de atingir um universalismo nada genérico. E mais do que manipular os sonhos, ele materializa essa manipulação com formas que remetem ao universo de Escher de forma bastante sutil.

Tito: Você quebrou tudo com essa equiparação da obra do Dalí num contexto líquido enquanto situou o Túlio numa “oniricidade” concreta. Gosto demais dessa sistematização. Agora, outra referência que você acordou foi o Escher. Perfeito. Engraçado que sempre colocam o Escher para caracterizar e ilustrar as situações das obras do Samuel Beckett, mas o teatro não para, né, e as obras dramatúrgicas sobrevivem até que pousem em novas visualidades. Eu diria que as obras do Beckett, se montadas depois de 2000, para que tivessem interlocução direta com o público, mereceriam as peças do Túlio. É como se reencontrássemos em novos contextos as extraordinárias aporias de “Esperando Godot” e “Fim de Partida”. Relendo o que escrevi parece que estou dizendo que o Túlio refaz o percurso Escher / Beckett, mas não é exatamente isso. Estou querendo dizer que o Túlio adiciona camadas de modernidade ao que supracitada dupla disparou com suas produções. Meio besta sempre precisarmos evocar nomes para nos aproximarmos do que estamos querendo dizer, isso serve muito para simplificar um e outro, mas acho que é uma tendência contemporânea, por medo de não significarmos, precisamos buscar cânones que validem nossas interpretações. Falando em épocas e similares, como você pensa a obra do Túlio nesse contexto? É… Dá pra pensar essas peças em outros contextos? Veríamos Túlio num museu se estivéssemos em 1980 ou a relação das artes e seus críticos e público ganhou estratégias ao ponto de suportar a presença dessas obras ditas não tradicionais?

Cumplicidade #14, 2017
Cumplicidade #14, 2017

Alexandre: Nesse sentido, o Túlio me parece filho do seu tempo, mas sem ignorar a tradição. Acho que desde os anos 70, os museus têm espaço para obras como as dele. O que aconteceu é que de lá para cá essa tendência vem se tornado hegemônica e estamos cada vez mais habituados com obras questionadoras e disruptivas como é o tipo de obra que ele faz. Ele quer nos provocar, mas sem abdicar da dimensão da fruição estética, o que pra mim é um mérito grande da obra dele.

Quanto às referências elas são inevitáveis porque estão todas ali em sua obra, assim como estão em nós como frequentadores da exposição. Mas a despeito desse tipo de racionalização que fazemos a posteriori, a experiência que temos diante de suas obras dispensa qualquer referência. Muito pelo contrário, penso que elas nos convidam para nos entregarmos ao presente, nesse lugar onde a característica de materiais banais são colocadas em cheque, nos interrogando sobre a natureza da rotina do nosso olhar para o mundo.

Por exemplo nessa obra:

Uma escada de metal vazada, uma superfície de vidro plana e um contrapeso de duas pedras brutas ligadas por uma corda. Três objetos em perfeito equilíbrio parecem explorar um ponto de tensão máxima que permite a sua sustentação como um todo orgânico, completamente disfuncional do ponto de vista prático, mas que  compõe um todo ordenado.

Tudo parece girar em torno da escada, como forma improvável de sua sustentação e que ao mesmo tempo impede a sua utilização. Trata-se de uma proposição arquitetônica que desafia os princípios da engenharia ao propor uma ordem disfuncional, porém necessária. Sem qualquer um dos elementos postos, o todo ruiria, sem a ordem proposta tudo se resumiria a escombros, fazendo da ordem estabelecida uma relação necessária para que o equilíbrio e a sustentação aconteçam.

Há um contraste entre a fragilidade do vidro e a dureza do metal e da pedra que causam uma sensação de que estamos diante de algo paralisado no tempo um segundo antes de ruir. No entanto, a ordem persevera, constituindo um objeto de contemplação que nos faz questionar nossas categorias de ordem, de equilíbrio e de funcionalidade.

Tito: Acho que eu diria: filho ilegítimo de seu tempo. Aquele filho que é a cara do pai e da mãe mas carrega uma pulsão que a gente rastreia mas não rastreia por completo. É uma obra responsável, com lastro, organizada, mas que, ao mesmo tempo, faz questão de enredar valores (dos mais aos menos explícitos). Alê, caríssimo, é um prazer enorme esse tipo de documento intuitivo com você. Aliás, acho até que esse formato nasceu para termos trocas nesse “nível de vínculo”. Esses documentos que saem pro mundo com o tempo dos rituais, agora citando Ferreira Gullar (Dentro da noite veloz), mas dentro da noite veloz das ideias que não mergulho nessas intuições que estamos buscando desvendar nesses últimos 15 dias. Nos mostrando que uma obra aberta sempre pode se expandir em uma infinidade de caminhos distintos, que vamos percorrendo e desvendando na temporalidade de nossas consciências. Foi muito bacana percorrermos esse caminho juntos e nesse formato, formalizando a experiência e as intuições que Túlio nos abriu as portas.

Em exposição no MAC Sorocaba
Em exposição no MAC Sorocaba

Alexandre: Gostaria apenas de citar e comentar Wittgenstein, “Diante daquilo que não podemos falar devemos nos calar.” Grandes artistas como Túlio criam obras que são um convite ao silêncio, à contemplação, a nos entregarmos a essa inquietação em nosso interior despertada por suas obras. Mas, ao mesmo tempo, é uma inquietação que nos dá sede de palavras, temos isso enquanto seres humanos, de querer tornar cognoscível o incognoscível. Suas obras certamente não são reduzíveis a nenhum conceito ou a nenhuma referência, embora mil conceitos e referências estejam contidas nelas. Sua essência sempre nos escapará em palavras.

Land Line #9 - 2007 cubo de aço, lâmina de vidro e pedra
Land Line #9 – 2007 cubo de aço, lâmina de vidro e pedra

Agradecemos pela leitura de nossa conversa.

Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba: @macsmuseu

,Sobre os autores:

Alexandre Gnipper Trevisan é músico, poeta, filósofo, dramaturgo e professor de filosofia, sociologia e artes.

Instagram: @alexandregnipper

Marcio Tito é dramaturgo e diretor teatral, além de editor e entrevistador no site Deus Ateu (www.deusateu.com.br). 

Instagram: @marciotitop

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