,3 Depoimentos de Susano Correia

Por Marcio Tito

Homem tentando perdoar a si mesmo.
Homem tentando perdoar a si mesmo

Não raro o nosso poder de contemplação termina diante de uma técnica falha. Muitas vezes não acessamos obras que seriam interessantes e complexas se a técnica, primeiro vetor de comunicação entre fazedores, fazedoras e seu público, por diversas questões, não houvesse partido o fio e terminado a nossa ligação com o objeto artístico.

De modo cruel, cruel da nossa parte, utilitário até, obras com técnicas irrepreensíveis sofrem de assimétrica equivalência – ao vermos uma obra cujo acabamento não parece precisar de nossa chancela, quase sempre aceitamos que aquele ou aquela artista possui um “dom” capaz de fazê-lo realizar aquilo (sem que de fato precisássemos valorar sua produção).

São raras as vozes criativas que, mesmo apresentando uma técnica irretocável, ainda assim, nos fazem parar para pensar em seu processo, em sua dimensão criativa e, sobretudo em como é que aquilo se deu na hora da feitura.

Qual conta paga aquele ou aquela artista para nos entregar um traço que nos faz transcender “bom” e “ruim” para de fato acessarmos a mensagem impressa no pós-técnica da presente obra? Tenho me dedicado ao encontro e ao garimpo de figuras cuja técnica irrepreensível me convide ao estudo de suas póstumas camadas.

Basta investigar, sobretudo o aparato em “Artes” e “Contos” para encontrar quais são as vozes que prazerosamente tive a oportunidade de amplificar aqui no Deus Ateu, e agora evoco citação. Contudo, timbre recente, se faz chegada a hora de incluirmos ao álbum uma nova persona, um novo artista cuja produção surpreenderia a mais atenta cabeça. Sua extraordinária técnica está surpreendida por outras qualidades orbitalmente magníficas, e sua técnica é convite claro para essas demais possibilidades, Susano.

No Museu, no livro ou no feed do Instagram, como disse Bukowski num de seus poemas, ao acessarmos sua produção:

– Não há outro sentimento como este
Ficará sozinho com os Deuses
E as noites serão quentes
Levará a vida com um sorriso perfeito
É a única coisa que vale a pena. *

Homem morando onde não lhe cabe mais.
Homem morando onde não lhe cabe mais

Me dou permissão para tão longa abertura porque tenho cada vez mais acreditado na ideia de que toda produção escrita é um pouco a biografia acidental e coletiva de uma época. Escrevo como quem assina pelos demais e pelas demais assombradas pelos Embruxados de Susano. Eu talvez jamais volte a escrever sobre este artista único, portanto é preciso falar como se falar de fato resolvesse este nosso encontro – eu falo do encontro da minha febre e da minha busca com seu remédio e seu caminho amargo, Susano.

Susano Correia, artista que faço questão de pesquisar pouco e saber pouco, porque é de fato um artista cuja essência está em aceitarmos a arte que está ofertada, é o entrevistado da vez.

São três perguntas simples, diretas e pensadas para que o artista pudesse deixar no Deus Ateu seu depoimento nada preocupado em de fato responder qualquer interrogação.

Considero a produção desse jovem artista uma das maiores atitudes estéticas das artes nesse começo de século (sobretudo se localizarmos sua expressão nas redes sociais e mídias digitais).

Para nunca darmos conta de coisa alguma,

Boa leitura!

Foda-se.
Foda-se

Marcio Tito: O nosso site se dedica a materiais não imediatos. São sempre conversas com artistas ou outras pessoas que possam dizer o inesperado ou coisa profundamente autoral, e que certamente não teriam espaço em uma mídia tradicional. Fique livre para usufruir do espaço e escreva com tranquilidade. Sem prazo, sem pressa.

Susano! É prazer podermos falar sobre a sua produção tão significativa, tão bem distribuída nas redes. Sua obra é hoje um ponto de apoio, um lugar para retomarmos o papel da arte em nosso cotidiano. Seu personagem mais destacado, o homem de cabeça alongada e corpo magro, tem qual origem? E em qual tela fez sua primeira aparição? 

Susano Correia: Obrigado pelo carinho. A imagem desta figura remonta a outra época da minha vida, a infância, quando eu desenhava sozinho no meu quarto figuras de duendes e homens quase sempre assim esguios. Eu tinha uns 10 anos, acho. Lembro de um livro chamado “O duende da ponte”.

Os desenhos do livro eram lindos, coloridos em aquarela se não me engano. Havia um duende e ele possuía um gorro imenso que se estendia indefinidamente dando voltas e voltas, nunca cabia na página. Não sei bem, mas esse livro me vem à cabeça. É uma construção. Tem algo de profundamente autoral nesse homem sem identidade. Algo de autobiográfico, talvez. Ele é eu, todos e ninguém.

Eu desenho algo assim há muito tempo. Essa figura tem sido construída também com o tempo. Ele surge por lá, talvez, mas agora já é outra coisa. Tem a referência de Franklin Cascaes, e toda a coisa do bruxólico da “Ilha do Desterro”. Do chapéu das bruxas na forma da cabeça. Do chapéu de burro também. A primeira aparição da cabeça pontuda foi num desenho que chamei de “O ignorante proativo”, e a coisa da cabeça era justamente para fazer alusão ao chapéu de burro. Mas há também um trabalho desta mesma série um pouco anterior chamado “Homem soterrado”, onde a forma aparece ainda como chapéu e não propriamente como cabeça. Ambos estão presentes no livro “Embruxados” (publicado recentemente na coletânea Para Sempre, Nunca Mais). E com o tempo vou agregando referências. Construindo o processo. A obra vai ganhando corpo e passa a se auto influenciar.

Homem com culpa, sem sentido
Homem com culpa, sem sentido

Marcio Tito: Tanto em termos pictóricos quanto na escrita sua produção flerta com situações quase nunca visíveis. Seja um sentimento, seja uma expressão da língua. Como você arma as telas antes de executá-las? Sua pesquisa, para além da arte visual, está em qual direção? 

Susano Correia: “Como você arma as telas antes de executá-las?” Interessante porque, para mim, como pintor, penso logo em como eu estico as telas. Isso porque o trabalho de um pintor vem sempre cheio dessas questões práticas. Neste caso, eu costumo estender o tecido preparado sobre um tapume com a ajuda de fita crepada. No entanto, creio que você quis saber a respeito de armar as ideias, imagem/título. Ou não?

Isso já é bem mais complicado de explicar. Meu pai me ensinou a fazer arapucas e laços para caçar passarinhos. Ideia que hoje pessoalmente eu abomino. Mas de alguma maneira acho que eu aprendi a fazer arapucas e laços para caçar ideias para meus trabalhos. Minha pesquisa é essencialmente existencial, e com isso, muitas vezes acabo me servindo da literatura, da filosofia e até da psicanálise.

São áreas de interesse que acredito ajudar muito no meu trabalho. Mas tudo que eu quero é pintar. 

Marcio Tito: Para quem vê a sua obra fica o sentimento de que você realiza coisas difíceis. Encontra símbolos exatos. Deixa traços quase onipotentes quando o assunto é a lida com o tema. Há algum sentimento ou expressão que você ainda não tenha sabido transpor ao papel? Se sim, qual? Se não, por favor, relembre aqui alguns desafios ou momentos de insatisfação com alguma solução.

Susano Correia: Acredito que, de modo geral, a vontade de expressão sobre o sentimento se impõe com a ideia em si, de modo que essa frustração fica quase impossível. No entanto, me recordo de algumas ideias como “embaralhando a carne e a alma”, onde precisei me debruçar com muita atenção, pois, apesar de eu saber exatamente onde queria chegar, a ideia do desenho era complicada graficamente e exigiu algumas versões até que eu ficasse satisfeito. Nestes casos os desafios são mais da natureza de execução da ideia em desenho. 

Homem ao mar de uma saudade
Homem ao mar de uma saudade

Sobre: Mais do que simples expressão, a arte é um delicado canal de interação e um elemento vital para o desenvolvimento humano. É assim que Susano Correia conceitua o seu trabalho. Natural de Florianópolis, ele começa a se consolidar como um dos expoentes da nova geração de artistas visuais do país.

Formado em licenciatura em Artes Visuais pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) em 2015, o jovem popularizou seus trabalhos pelas redes sociais, o que deu ao artista projeção nacional e possibilidade para dedicação exclusiva à arte.

Desde então, Susano desenvolve uma linguagem pictórica contemporânea, com preocupações didáticas, e usa meios democráticos para expor seus trabalhos ao grande público. Com isso, atrai em suas exposições também um público que não tem o hábito de frequentar museus.

Em meados de 2019, mudou seu ateliê para a maior cidade da América Latina, São Paulo, que é também um importante polo cultural, com a finalidade de expandir os horizontes, buscar novas experiências e contatos no meio artístico.

Fonte: https://www.susanocorreia.com.br/

Homem cheio de suas próprias opiniões, impróprias
Homem cheio de suas próprias opiniões, impróprias

Agradecemos pela leitura de nossa entrevista.

,Sobre o autor:

Marcio Tito é dramaturgo e diretor teatral, além de editor e entrevistador no site Deus Ateu (www.deusateu.com.br). 

Instagram: @marciotitop

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