,De tudo que era concreto – Uma entrevista com Nina Kopko

Por Marina Calvão

Nina Kopko. Foto de Alan Sousa
Nina Kopko. Foto de Alan Sousa

Nina Kopko é um nome que você deveria guardar. A cineasta deixou seu estado de origem para trabalhar com cinema em São Paulo e lá constrói uma carreira que merece um olhar atento. Nina carrega em suas experiências parcerias importantes que afinaram seu talento genuíno para a sétima arte. Ela trabalha com direção, roteiro, preparação de elenco e montagem E assinou como diretora assistente de “A Vida Invisível” filme de Karim Aïnouz com participação da Fernanda Montenegro, foi primeira assistente de direção de Guigo Offline, telefilme dirigido por René Guerra, “Silêncio do Céu” longa-metragem do Marco Dutra onde atuou também como diretora assistente, dentre vários outros projetos. Agora, Nina assina direção em seu primeiro curta-metragem “Chão de Fábrica” que está no circuito de festivais em todo país. Acompanhe a nossa conversa.

Karim Aïnouz e Nina em set de A Vida Invisível. Foto Bruno Machado
Karim Aïnouz e Nina em set de A Vida Invisível. Foto Bruno Machado

Marina Calvão: Nina, que prazer iniciar essa conversa contigo. Intimamente fico feliz em assistir uma obra  que você assina a direção porque para mim, você é alguém carregada de bons significados, rs. Não apenas pelas pessoas queridas que te cercam e nos cruzam mas por acompanhar seus trabalhos realizados, o desenvolvimento da sua carreira… pela sua sensibilidade, sua atenção, sua generosidade, sua mente ávida como artista cineasta, como pesquisadora, como preparadora de elenco e como professora, eu pude experienciar. Então, quando vi que você assinava a direção do seu primeiro curta-metragem e ele estava lá, em exibição no Festival Internacional de Curitiba, pensei; isto é importante e lá vem coisa boa.     

Chao de Fábrica, se passa em um banheiro de uma metalúrgica no fim dos anos 70, durante o período das greves que houveram no ABC Paulista e conta a história de quatro mulheres que trabalhavam como operarias na fábrica e na hora do almoço se encontravam no banheiro/ vestiário e enquanto almoçavam compartilhavam seus dilemas, suas percepções de mundo, seus sonhos, frustrações e dores. Ele é um filme peculiar, que tem uma voz diferente das que normalmente ouvimos ecoar porque é muito Feminino e Político. É intimo e desconfortável. E as personagens me aproximaram, eu me senti viva e junto a elas dentro daquele vestiário claustrofóbico da fábrica. É um filme que claramente tem  preparo de elenco, pesquisa e uma equipe afinada… Em uma entrevista você conta que foi muito atravessada por uma peça de teatro da Cia do Latão chamada, O Pão e a Pedra e que em um determinado momento da peça havia uma cena composta de mulheres em um banheiro de uma fábrica, estou certa? Isto te  impactou e você ficou com aquele registro consigo. Me conta como ou porque essa temática te atravessou? E se quiser emendar como foi ir para a pesquisa deste universo e descobrir estas vozes femininas abafadas?

Nina Kopko: Oi, Marina. Que alegria essa troca. Que bonito seu olhar para o filme, obrigada por essa entrega. Por se colocar como espectadora ativa para gerar essa conexão com as personagens.

Achei muito bonito como você definiu: um filme feminino e político, íntimo e desconfortável. Achei a escolha de palavras muito precisas para tudo aquilo que foi meu farol durante a realização do filme.

Sim, o curta é inspirado numa cena curtinha da peça “O Pão e a Pedra”, da Cia do Latão. Foi uma experiência imensa para mim assistir a essa peça. A grande greve do ABC e a organização sindical do Brasil sempre foram temas que me inspiraram e intrigaram.

E, especificamente quando eu vi a cena do banheiro (que na peça é bem curtinha), eu fiquei pensando sobre todas essas mulheres, suas intimidades e suas histórias esquecidas em tantos banheiros como esse. Saí da peça e comecei a lembrar dos filmes desse momento, como o “ABC da Greve”, mas na minha memória não tinha nenhuma mulher lá.

Comecei a pesquisar e descobri que, no fim dos anos 70, as mulheres eram em média 30% da força de trabalho das fábricas do ABC. Onde elas estavam na greve, então? Isso não saía da minha cabeça. Será que elas não se importavam? Por que a formação de uma consciência política que estava tão latente nos homens não aparecia nas mulheres?

Então eu encontrei o filme da Olga Futemma, “Trabalhadoras Metalúrgicas”, e lá eu fiquei sabendo de todas essas mulheres que eu procurava. O filme é rodado em 1978, durante o primeiro congresso das mulheres metalúrgicas do ABC Paulista. Ali eu entendi que tanto pela postura opressora de alguns operários, tanto pela jornada dupla que essas mulheres executavam, tudo isso inibia a presença delas no movimento sindical. Mas elas estiveram lá, ainda assim.

Na mesma época eu estava lendo “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, da Svetlana, e estava muito perplexa com essa história oculta da Segunda Guerra, a história das mulheres que estiveram no front, que não narravam a guerra por suas batalhas e conquistas, mas através das experiências do corpo, de tudo que era concreto.

Foi isso tudo que ficou martelando na minha cabeça, até que eu comecei a escrever o curta. Depois foi um longo processo de pesquisa, de quase desistência, tudo isso que a gente que trabalha com cinema sabe bem. Mas esse projeto teve isso que os filmes independentes parecem sempre ter: ele ficou teimando na minha cabeça. Eu sentia uma necessidade muito grande de contar essa história, precisava que essas questões das operárias também chegassem em outras pessoas. Queria (re)inscrevê-las na História, de alguma forma.

Acredito que fazer cinema sempre é uma mistura de teimosia, paixão e angústia. E faz muito tempo que sou obsessiva em investigar histórias apagadas ou sufocadas das mulheres e, por vezes, fabulá-las, para que elas sejam de alguma forma narradas. “A Vida Invisível” é também sobre isso, e outros projetos autorais que estão em desenvolvimento.

Então, acho que foi mais ou menos assim, que surgiu “Chão de Fábrica”.

Still. Foto Carol Aó
Still. Foto Carol Aó
Still. Foto Carol Aó
Still. Foto Carol Aó
Still. Foto Carol Aó
Still. Foto Carol Aó

Marina Calvão: Sabe Nina, quando  eu comecei a redigir a pergunta anterior, eu ia falar sobre ter captado uma semelhança entre “A Vida Invisível” e “Chao de Fábrica” mas naquele momento as palavras não davam conta do que eu buscava traduzir … mas na sua resposta eu puder perceber que de fato a semelhança que eu vejo, está na atmosfera que as personagens instauram. Ainda que circunstancias e tempos completamente diferente. Ainda que motivações diferentes. E acho belo por isso. A voz feminina cruza o tempo em uníssono. Eu acredito nas histórias que elas me contam. A presença feminina.

Eu vi que a construção das personagens em “Chao de Fabrica” foi feita em um processo colaborativo com o elenco. Fico curiosa em saber sobre a escolha destas quatro mulheres e a preparação das personagens.

Nina Kopko: Que bonito isso, sobre a conexão Vida-Chão. Sim, acredito que vou formando uma constelação enquanto busco essas histórias perdidas pelo espaço-tempo de tantas mulheres…

Sobre as atrizes. Bom, eu fiz esse filme sem nenhum investimento público ou qualquer patrocínio, então, desde o começo eu sabia que precisava de atrizes muy amigas pra topar essa jornada, haha. Até porque eu queria fazer um processo de preparação um pouco mais longo do que se faz em curtas, precisava de ótimas atrizes que topassem investir seu tempo no projeto comigo.

Na largada, eu sabia que a Helena Albergaria seria a Joana, até porque ela é dramaturga da Peça, ela que criou essa personagem, seria impossível imaginar outra Joana (que é a personagem mais próxima da peça, as outras foram se distanciando). E, assim que comecei a conceber o curta, pensei também na Carol Duarte e na Alice Marcone. Carol pela experiência maravilhosa que tivemos n’A Vida Invisível, ficamos muito amigas depois do filme também. E a Alice eu só tinha trabalhado com ela em sala de roteiro, mas uma vez, durante um almoço na casa dela, fiz uma rápida preparação com ela para uma cena que ela iria gravar e fiquei muito impressionada, bastante tentada em trabalhar com ela também como atriz.

Então, quando eu sentei para escrever o roteiro com a Tainá Muhringer, a gente desenhou as personagens já pensando nas atrizes. Faltava só a atriz para a personagem Miriam. A Joana Castro eu tinha conhecido num teste de elenco, depois vi ela no longa “Madalena” e ela ficava rondando pela minha cabeça. Mesmo sem conhecê-la direito, resolvi arriscar e fazer esse convite audacioso para fazer um curta sem dinheiro. E pra minha alegria ela embarcou – literalmente, ela veio do Rio para SP pra ensaiar e depois pra filmar.

Elenco dos sonhos, né? Foi um prazer imenso o trabalho com elas, uma alegria no processo todo, eu ria e chorava com elas, foi foda.

O centro do meu trabalho todo é a construção de personagens (no roteiro, na sala de ensaio, no set e na montagem) e fazia tempo que queria experimentar escrever um roteiro a partir das pesquisas na sala de ensaio, junto do elenco. Realizei nesse curta. Quase dois meses antes de filmar ficamos duas semanas juntas, experimentando o roteiro, improvisando, adensando as personagens. Transcrevi tudo e dali eu e a Tainá escrevemos a versão final do roteiro.

Quero fazer um longa assim, um dia. Mas é um formato difícil de convencer a produção, risos.

Agora estou doida pra arriscar a direção de teatro. Esse processo de descobrir a dramaturgia em cena me deixa muito motivada e apaixonada. Vamos ver, quem sabe.

Cena rodando. Foto Marcela Prado Alvarenga
Cena rodando. Foto Marcela Prado Alvarenga

Marina Calvão: Queria saber como vocês chegaram nessas historias. Essas narrativas são de histórias reais?

Nina Kopko: Sim e não, risos.

Eu pesquisei muito, li e ouvi muitas histórias das mulheres metalúrgicas do ABC desse momento. Então, quando a gente escreveu esses futuros, claro que muitos detalhes dessas vidas impactaram no texto. Mas não seguimos exatamente uma inspiração real localizada. Eu sabia o que queria dizer com esses futuros e a Tainá foi dando forma para essas narrações a partir do sentido que eu buscava.

A escolha do tempo verbal é muito importante. É um futuro indeterminado (faria, veria, teria, etc), que é chamado de ‘futuro do pretérito’, acho tão lindo isso, rs. Tem a ver com o filme, né? E indica que também pode ser uma fabulação da personagem Irene. E é uma fabulação nossa sobre essas personagens, que são específicas e, de forma alguma, representam a “massa das mulheres metalúrgicas”.

Só a fala final é num futuro determinado (“nós nunca esqueceremos…”), porque esse é o discurso nuclear do filme. Isso é o que eu afirmo junto dessas personagens. Elas, as mulheres, estiveram presentes nessas fábricas e nessa greve. E, ao contrário dos relatos históricos, elas não esqueceram que estiveram lá.

Nina e a fotógrafa Anna Júlia filmando na fábrica. Foto Dayse Barreto
Nina e a fotógrafa Anna Júlia filmando na fábrica. Foto Dayse Barreto

Marina Calvão: Eu já estou bem curiosa em saber desses outros projetos autorais… longa metragem, peça de teatro… Mas fiquei aqui me perguntando, na sua experiência, qual foi o maior desafio em fazer um curta metragem de tamanha qualidade, completamente independente no Brasil?

Nina Kopko: Poxa, Marina, que pergunta ótima. hahaha. Fiquei aqui pensando… porque fazer cinema no Brasil é difícil sempre, né? Acho que em qualquer contexto. Tem que ser muito teimoso mesmo, como eu disse, rs.

Acho que dá pra dividir os maiores desafios desse curta em dois grupos: o concreto e o abstrato.

Concreto diz sobre a questão prática mesmo, sabe? Como conseguir rodar um roteiro de vinte páginas em duas diárias, como conseguir trazer materialidade para a locação e para o dispositivo cinematográfico sem financiamento, etc. Mas aí, além da sorte de ter contado com uma equipe muito inventiva e eficiente, eu trabalhei na lógica da restrição criativa. Pesquisei o VHS já que não podia ter película, a produção conseguiu encontrar uma fábrica desativada com o apoio do Sindicato dos Metalúrgicos, elaborei uma mise-en-scéne e decupagem que fosse possível de executar. A restrição me forçou a criar a partir do sentido do filme e não da estrutura. Foi um baita aprendizado.

O desafio abstrato foi aquele de superar certas amarras psicológicas. Não desistir diante das dificuldades, perder a vergonha de pedir ajuda, saber o que eu poderia abrir mão e o que não. Parece simples escrevendo agora, mas não foi.

Sem falar no desafio da pós, especialmente da montagem. A gente filmou o curta menos de um mês antes de entrar em estado de pandemia. Como achar forças naquele estado sem horizonte das coisas para seguir acreditando que esse filme deveria existir? Montar à distância também foi um sufoco, porque deixou tudo muito mais demorado e desconectado, não pude estar presente na ilha – o que foi uma loucura pra mim que venho da montagem, que tenho uma necessidade de conexão com o material bruto. Por sorte, eu trabalhei com a Lis Paim, que foi absurdamente generosa no processo, teve uma entrega total para o filme, e não me deixou nem pensar em desistir.

No fundo, esse filme só foi realizado mesmo por essa parceria com tantas artistas maravilhosas. Desde a produtora, Letícia Friedrich, que esteve teimosa na lógica de “cinema de guerrilha” do início ao fim, a cada uma das profissionais que contribuíram demais para que esse filme pudesse acontecer.

Visita das atrizes na locação, antes de filmar. Foto Carol Aó
Visita das atrizes na locação, antes de filmar. Foto Carol Aó

Marina Calvão: O som do filme é provocador. Ele amplia a sensação de opressão. Tem um som de goteira se eu não me engano que permeia o filme. Pra mim esse elemento fala sobre o tempo que passa. A janela aonde elas fumam também. Mas são tempos diferentes. O tempo fora e o tempo dentro. O tempo da luta e o tempo dos dilemas individuais. Fala sobre isso?

Nina Kopko: Sim, era bem por aí nosso conceito na construção. Queria trazer para o som do banheiro tudo que remetesse ao desconforto de se almoçar nesse local: as torneiras que pingam, a descarga enchendo, confiná-las nesse local quente e úmido. Falava para o pessoal da Foley Crew (empresa chilena que fez a mixagem, na parceria) para “sujar sujar sujar” o som. O som direto foi bem comprometido pela rodovia que passa ao lado da fábrica. E eu gosto daquela estrada do lado de fora, nos lembra que é São Paulo; mas ela era muito presente às vezes. Então primeiro eles limparam tudo que deu e depois foi construídos esse desenho sonoro de clima abafado.

Mas a contradição desse ambiente, é que mesmo que ele seja desagradável de se conviver, é o ambiente que essas mulheres podem existir com alguma liberdade, dentro da intimidade feminina, no horário de descanso do trabalho. Então tem essa diferenciação do ambiente externo (masculino, opressor) e esse ambiente feminino, onde os elementos sonoros são mais delicados, sutis.

E quando acaba a hora do almoço vem aquela avalanche sonora das máquinas da fábrica.

Nina no set de filmagem. Foto Ana Rovati
Nina no set de filmagem. Foto Ana Rovati

Marina Calvão: Nina, quem foi a pessoa que foi o “ponto virada” na sua narrativa, que alterou sua percepção sobre cinema e atuação?

Nina Kopko: Que delícia de pergunta. Fiquei aqui viajando pelos meus pontos de virada artísticos. Vou responder com uma cronologia da minha constelação principal de influências, pode ser? Rs.

Acho que eu decidi fazer arte quando eu vi “Matrix”. Eu já era uma pequena obsessiva em contar histórias, algo que vem da minha avó. Mas quando eu vi Matrix, na adolescência, uma chave literalmente virou. Certamente as irmãs Wachowski são até hoje das minhas grandes inspirações artísticas. O cinema que eu quero fazer não tem nada a ver com o cinema delas – se você pensar em gênero, estrutura, linguagem. Mas, no fundo (nas inquietações, nos temas), tem sim muito a ver.

Quando eu entrei para a faculdade de cinema, o meu grande ponto de virada foi assistir “O Pântano”, da Lucrécia Martel. Aquilo revirou absolutamente tudo sobre como eu encarava o cinema. Na verdade, eu estava prestes a desistir do curso, mas depois dessa sessão eu sabia que queria continuar ali, porque eu não era mais a mesma depois daquele filme. Eu queria criar esse atravessamento no público também um dia (ainda quero, rs). E a Lucrécia me salvou indiretamente na trajetória do cinema outras vezes depois. Espero um dia poder agradecer ela pessoalmente por tudo isso, rs.

Quando eu me formei, me mandei pra São Paulo com muitas incertezas. Até que consegui meu primeiro trabalho como assistente da montadora Cristina Amaral. Ali não só foi um ambiente muito acolhedor, no convívio com ela e o Tonacci, mas também foi uma nova escola. Mudou a forma como eu via cinema e também o mundo.

Depois teve o encontro com três diretores maravilhosos com quem trabalhei e que mudaram profundamente a forma como eu percebo e concebo o cinema.

Primeiro, foi o Marco Dutra, quando eu fiz a direção assistente para “O Silêncio do Céu”. Foi com o Marco que eu descobri que eu poderia (e queria) dirigir cinema. Trabalhar com ele mudou o rumo das coisas pra mim.

Depois veio o René Guerra, quando fui assistente de direção no “Guigo Offline”. Com René eu perdi o medo dos atores, eu me reconectei com um passado de teatro, eu passei a deixar a racionalidade um pouco de lado e alimentar a intuição. René me devolveu a paixão por trabalhar com interpretação. Ele despertou isso de forma muito forte. É um mestre até hoje.

E, então, teve um outro ponto de virada fundamental que foi quando conheci o Karim Aïnouz. Esse encontro foi uma explosão na minha cabeça. Karim é um furacão, está sempre tirando todos da zona de conforto, derrubando certezas, provocando novos olhares. Eu amadureci e aprendi demais trabalhando ao lado dele em “A Vida Invisível” e no Porto Iracema das Artes. Não consigo nem mensurar, porque continua acontecendo, a gente segue em parceria. E nunca é igual; então o aprendizado é realmente constante.

Carol Duarte na sala de ensaio. Foto Nina Kopko
Carol Duarte na sala de ensaio. Foto Nina Kopko

Marina Calvão: Nossa Nina quantas pessoas importante vc cruzou e te cruzaram na vida. Muito inspiradora essa conversa. Tem gente que diria que é sorte. Eu penso em posicionamento, direcionamento dos seus intentos com muita honestidade em seu processo. Penso que cinema é um trabalho coletivo até mesmo na construção de referências. E é tambem divisão e tarefas não hierárquica (pelo viés da subjugação) porque cada um tem sua função. E você passou por várias delas. A sensacao que tenho é de que isso te deu muita amplitude no olhar e alinhou  tuas intenções com o cinema. Vc falou da teimosia como uma característica que te fez insistir em momentos de dúvida e realizar o que tinha que ser feito. Que outras características da tua personalidade você considera que foram fundamentais para seguir e concretizar teus projetos?

Nina Kopko: Ah, que lindo. Acredito nisso também, Marina.

Dessa vez vou tentar ser sucinta, sobre as minhas características: curiosidade, inquietude, vontade de experimentar e paixão pelas pessoas e suas histórias. Também certa raiva, que é muitas vezes o combustível necessário para criar.

Atrizes em processo na sala de ensaio. Foto Nina Kopko
Atrizes em processo na sala de ensaio. Foto Nina Kopko

Marina Calvão: Para finalizar, eu gostaria de saber, na sua perspectiva, considerando o momento político-social  lamentável que estamos vivendo, como você acha que isto impacta nas nossas produções  audio-visuais e nas nossas criações artísticas? Qual a nossa saída de resistência?

Nina Kopko: Impacta em tudo, né?

Nas produções existe esse estrangulamento, a gente vê cada vez menos editais, com números gigantes de inscritos para míseras vagas. Do outro lado, o mercado de séries bem aquecido, mas dominado por poucos e pelos mesmos. Está cada vez mais difícil fazer arte e cada vez mais fácil fazer entretenimento. Não que eu acredite que as duas coisas não possam coexistir, pelo contrário; me interessa muito a arte que comunica em larga escala e também diverte. Mas quando só a demanda de um mercado dita as oportunidades e os temas é, no mínimo, muito preocupante.

A saída para uma resistência coletiva eu não sei te dizer. Tenho pensado muito nisso, mas sem horizonte. Tendo a ser otimista, mas anda difícil. Uma saída pessoal é não deixar que o fogo da paixão e também da raiva se apague, para que a teimosia não me abandone.

Processo na sala de ensaio. Foto Letícia Friedrich
Processo na sala de ensaio. Foto Letícia Friedrich

Agradecemos pela leitura de nossa entrevista.

,Sobre a autora:

Marina Calvão é editora em cinema e cultura no site Deus Ateu, é também formada em cinema pela FAAP. Atualmente atua na área de sonoplastia e edição.

Instagram: @mcalvao

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