,Musical “Brenda Lee e o Palácio das Princesas” nos presenteia com um lugar de escuta

Por Luiz Vieira

"Brenda Lee e o Palácio das Princesas". Crédito da foto: Ale Catan
“Brenda Lee e o Palácio das Princesas”. Crédito da foto: Ale Catan

Uma câmera inquieta e curiosa acompanha de perto os relatos de algumas meninas num local familiar – um cabaré, pensamos! Mas há algo estranho, os relatos passeiam por dores e lamentos de existências que parecem estar trancadas em cativeiro. O musical inédito “Brenda Lee e o Palácio das princesas” começa assim: com um convite para um lugar de escuta e de muita atenção. A história de Caetana está prestes a ser contada.

Particularmente, eu gosto muito de uma frase de Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012), que em suas duras críticas à situação política, econômica e social brasileira de sua época, disse uma vez que: “O Brasil tem um enorme passado pela frente”.  E a frase me soa cada vez mais atual, isso porque a nossa sociedade ainda cultiva um enorme desinteresse pela sua própria história e fica muito difícil seguirmos em frente sem reavaliarmos os nossos erros do passado.

O espetáculo inédito do Núcleo Experimental sobre a história de vida da travesti Caetana, também conhecida como Brenda Lee (seu nome de guerra), que se tornou um marco na luta por direitos LGBTQIA+, ressoa no público como um grito de socorro para algo que venceu as dobras do tempo: o preconceito contra as pessoas LGBTs que ainda permeia o nosso cotidiano.

O Musical tem dramaturgia, letras e direção de Fernanda Maia, direção e figurinos de Zé Henrique de Paula e música original de Rafa Miranda. Além disso, conta com seis atrizes transvestigêneres (Verónica Valenttino, Olivia Lopes, Marina Mathey, Tyller Antunes, Ambrosia e June Weimar) e um ator cisgênero (Fabio Redkowicz).  

A orquestra é formada por Rafa Miranda (piano), João Baracho (bases), Pedro Macedo (baixo), Abner Paul (bateria) e Leandro Nonato (violão). Espetáculo conta, ainda, com preparação de atores de Inês Aranha e coreografia de Gabriel Malo.

Apresentada boa parte da equipe do espetáculo, é preciso falar do que que há de mais importante nele: a história de Caetana. O musical inédito, na verdade, é uma homenagem àquela que não virou as costas para as suas irmãs e que sempre lutou contra todas as formas de discriminação que uma sociedade refém de suas próprias mazelas é capaz de promover.  

Brenda Lee nasceu em Pernambuco, em 1948, e foi uma militante transexual dos direitos da população LGBTQIA+. Morando em São Paulo, e depois de muito tempo trabalhando nas ruas, comprou um sobrado no bairro do Bexiga e começou a acolher travestis portadoras do vírus HIV numa época em que quase nada se sabia sobre a epidemia e em que o preconceito condenava pessoas com HIV ao abandono e à solidão. A importância de Brenda Lee foi enorme, sua casa de apoio e acolhimento à população trans ficou conhecida como Palácio das Princesas, firmou convênios com a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo e com o Hospital Emílio Ribas e em conjunto, aprimoraram a forma de atender pacientes soropositivos, independente de gênero, sexo, orientação sexual e etnia. Aos 48 anos, em 28 de maio de 1996, no auge de seu projeto, Brenda foi assassinada, encontrada no interior de uma Kombi estacionada em um terreno baldio com tiros na região da boca e no peitoral. O crime teria sido motivado por um golpe financeiro cometido por um funcionário da casa. Em 2008, foi criado o “Prêmio Brenda Lee”, que contempla personalidades que se destacam na luta contra o HIV e prevenção da Aids.

Apesar de muitas pessoas não se recordarem, nos anos 80, deu-se o primeiro caso de AIDS no Brasil, e a comunidade LGBT sofreu um grande golpe. A síndrome trouxe de novo um estigma para a população LGBT, que foi vista como portadora e transmissora de uma doença incurável, à época, chamada de diversos nomes como o “câncer gay”, a “peste gay” ou a “doença dos 5 H (homossexuais, hemofílicos, haitianos, heroinômanos (usuários de droga injetável) e hookers (profissionais do sexo).

Em 1987, deu-se início em São Paulo a Operação Tarântula, que tinha como objetivo principal prender e torturar travestis e mulheres trans que se prostituíam nas ruas. Apesar da operação ter durado pouco tempo, muitas mulheres trans e travestis passaram a ser assassinadas de forma misteriosas ou simplesmente sumiam sem ninguém saber para onde tinham ido.

Pessoas LGBTs funcionam com escopo numa sociedade preconceituosa e homo-lesbo-tranfóbica. Ainda há um grande complô de violências e atos brutais direcionados às pessoas que não se encaixam em um panorama heteronormativo e cisgênero. Mesmo na sociedade atual, marcadas por grandes espetáculos vazios, fazer chacota com travestis e homens gays afeminados ainda é um dos grandes baluartes da mídia sensacionalista. Foi somente no ano de 2019, através de uma emenda constitucional, que o colegiado em tendeu que a homofobia e a transfobia se enquadravam no artigo 20 da Lei 7.716/1989, que criminaliza o racismo.

O espetáculo cumpre com o seu papel de manter viva a memória de Brenda Lee e traz para o centro da cena grandes talentos transvestigêneres que merecem cada vez mais destaque no cenário cultural paulistano e mundial. Que o Brasil é um país sem memória nós já sabemos, mas nunca é tarde para ouvir histórias que a história não conta. Que a memória de Brenda Lee se mantenha sempre viva e que sirva de farol para nos lembrar dos caminhos que já pisamos em falso.

SERVIÇO:

7 de outubro a 12 de novembro

Sessões diárias, às 21h, pelo canal do Núcleo Experimental no Youtube.

Nos dias 12, 13 e 14 de novembro (sexta e sábado, às 21h / domingo, às 19h) o espetáculo também será transmitido pelas redes sociais do Teatro Alfredo Mesquita e nos dias 19, 20 e 21 de novembro (sexta e sábado, às 21h / domingo, às 19h) o espetáculo também será transmitido pelas redes sociais do Teatro Paulo Eiró.

Grátis

Classificação indicativa: 12 anos

Duração: 1h40.

Agradecemos pela leitura de nossa crítica.

,Sobre o autor:

Luiz Vieira é ator e jornalista, tem 25 anos, natural de Carbonita – MG. Veio para São Paulo com o objetivo de ser artista e influenciador cultural, buscando sempre levar conhecimento e informação àqueles que não se encontram dentro de bolhas sociais privilegiadas. É diretor e curador do site www.responderfazendo.com e do perfil @responderfazendo

Instagram: @luizvieira.art

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