,007 – Sem Tempo Para Morrer. Por Fábio Bach

Por Fábio Bach

Destaque para as impressionantes e bem acabadas cenas iniciais
Destaque para as impressionantes e bem acabadas cenas iniciais

Após se estabelecer como o melhor James Bond de todos – considero aqui o trabalho dele enquanto ator, visto que Sean Connery ainda reina como o criador central do personagem –, Daniel Craig tem o luxo de se despedir de maneira digna do agente secreto com este ótimo SEM TEMPO PARA MORRER que, junto com o já citado CASSINO ROYALE e o igualmente excelente SKYFALL (2012), formam um corpo muito consistente de histórias modernas do personagem, e que inclusive conseguem a proeza de salvar minimamente QUANTUM OF SOLACE (2008) e SPECTRE (2015) dentro deste escopo de “saga”.

Aposentado do serviço secreto desde a prisão de Ernst Stavro Blofeld (Christoph Waltz), James Bond – não mais 007 – vive de velejar e fazer amor mundo afora com sua companheira Madeleine (Léa Seydoux). Porém, sua aposentadoria é interrompida por agentes da Spectre ainda na ativa apesar da prisão de seu líder, além de outras organizações igualmente perigosas que armam uma emboscada bem no momento em que Bond está começando a fazer as pazes consigo mesmo e com seu passado. 

A partir dessa guinada, Bond se vê envolvido com conspirações, armas perigosas que podem praticamente destruir o mundo, vilões deformados e megalomaníacos, etc, etc, etc… enfim, a princípio um roteiro de 007 bem modelar.

Mas é exatamente aí que está o charme desse novo filme. Ao invés de focar nas tramoias amalucadas de ação típicas dos filmes mais antigos, o filme se concentra muito mais em temas pessoais da vida do agente, tornando-o vulnerável como poucas vezes se viu ao longo da franquia. 

Não tem como não lembrar de 007 – PERMISSÃO PARA MATAR (1989) ou 007 – A SERIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE (1969), filmes que investiam suas tramas de maneira significativa na faceta pessoal de Bond, assim como o início de 007 – UM NOVO DIA PARA MORRER (2002), onde a fragilidade do personagem era evidenciada na longa sequência de torturas no início (o único ponto positivo daquele pavoroso filme). Bond precisa desapegar da alcunha “007” em detrimento de uma nova agente (Lashana Lynch em excelente performance), precisa entender-se como indivíduo em relação ao seu passado e suas responsabilidades (com ecos de Vesper Lynn, Mr. White e a M de Judi Dench), e precisa retornar momentaneamente à frieza assassina de eu profissional para que o lado pessoal possa ser preservado – e é absolutamente fascinante vê-lo indeciso, ferido, confuso e embasbacado diante de certos acontecimentos e revelações.

Ainda que o roteiro peque por não dedicar mais tempo para personagens interessantes como os de Ralph Fiennes, Ben Whishaw, Naomie Harris, Jeffrey Wright e Ana de Armas (curioso dizer isso de um filme com quase TRÊS HORAS de duração), seus intérpretes conseguem compensar essa falha com muito carisma, aproveitando ao máximo seus relativamente curtos tempos de tela – em especial Ben Whishaw, que dá apontamentos de uma relação afetiva muito reveladora de seu personagem. 

Outro problema reside no mal desenvolvimento da premissa central, envolvendo o passado de Madeleine e a trajetória do vilão interpretado por Rami Malek, que jamais soa convincente o bastante. Ao seu favor, pelo menos, a trama consegue estabelecer relações com os filmes predecessores (não só da “saga Daniel Craig”) sem soar como mero fan service, tendo funções narrativas muito bem delineadas – como as consequências da operação de Felix

Leiter e a recriação da icônica sequência do cano da arma que abre praticamente todos os filmes da franquia (aqui recriada como a continuação de um tiroteio). E já que mencionei essa sequência de abertura recriada na diegese do filme, vale destacar que, ao longo de toda a obra, uma série de iconografias do personagem vão sendo reconfiguradas e, em casos mais extremos, destruídas para ressaltar a ideia de uma conclusão. 

O filme é um dos mais (senão o mais) iconoclastas do personagem que, com a mesma ousadia de SKYFALL, deixa o espectador incerto sobre o destino de vários personagens.

Todo o design e mixagem de som merece destaque pela ambientação criada, assim como a fotografia de Linus Sandgren que, mesmo inferior ao trabalho magnífico de Roger Deakins em SKYFALL (é difícil superar um mestre…), demonstra muita eficiência ao enfatizar uma paleta de cores levemente dessaturada e mergulhando o protagonista em tons frios, ressaltando sua incerteza diante de seu destino (como na ótima sequencia do bosque) e adotando uma tonalidade mais quente para uma cena chave do terceiro ato – com um belo tom crepuscular. Vale destacar também a montagem da dupla Tom Cross e Elliot Graham, que deixa todas as cenas bem fluidas e – o mais importante – não caem na armadilha que aconteceu com QUANTUM OF SOLACE.

A direção de Cary Joji Fukunaga é segura o suficiente para estabelecer ótimas sequências, como a que mostra o agente secreto do lado de fora de um trem, retirando-o do enquadramento com um gradual traveling para a direita sem a necessidade de transformar o personagem em um fantasma que evapora no ar em meio à multidão (algo clichê em filmes do gênero), e em sequências de ação espetaculares, como o excelente plano-sequência das escadas (que merece entrar para a galeria das melhores sequências de conflito da franquia).

Em um filme com uma gama muito grande de personagens e uma trama muito longa (ainda que eficiente), o elenco acaba sofrendo pelas próprias limitações ou pela falta de oportunidade. Se Christoph Waltz soa meio empalidecido, tornando-se mais um cameo do que propriamente um agente narrativo, Léa Seydoux demonstra certas limitações para sustentar uma personagem que praticamente empurra a história toda para frente, e vê-la se esforçando para chorar em determinado momento do filme se mostra algo frustrado e relativamente automático, pois logo em seguida ela se mostra fria e decidida tanto quanto o próprio Bond (aquele clichê de andar e atirar ao mesmo tempo). 

Já o vilão Lyutsifer Safin de Rami Malek poderia muito bem passar batido da trama. Péssimo ator e tentando ao máximo soar como “vilão excêntrico”, Malek apenas ridiculariza o personagem ao adotar uma dicção forçadamente pausada e um olhar congelado que mais parece uma emulação dos antagonistas mais antigos da franquia, e sua tentativa de imitar o Blofeld de Donald Pleasence na cena em que segura uma criança no colo é ridícula por jamais ter o tônus do saudoso ator – muito mais satisfatório foi ver o carismático Billy Magnussen se divertir com as peculiaridades de seu Logan Ash (aquele sorrisinho dele é hilário e incômodo ao mesmo tempo).

Mas falar de 007 – SEM TEMPO PARA MORRER é falar necessariamente de seu ator principal. E Daniel Craig não decepciona. Eficiente como sempre, Craig transmite uma série de sensações e sentimentos através de um olhar, ao mesmo tempo em que seu vigor físico não fica em nada limitado por sua já avançada idade. Com a mesma segurança técnica que realiza cenas de luta e perseguição, o ator consegue imprimir uma fragilidade ainda mais tocante ao agente – trabalho contínuo ao longo de sua participação na franquia – que torna possível para o espectador enxergar o ímpeto cruel do agente de CASSINO ROYALE e QUANTUM OF SOLACE, ao mesmo tempo em que percebemos que seu comportamento mudou e ele está mais inseguro de si. Tudo isso sem perder aquela velha ironia, como ao parar um tiroteio para beber um gole de uísque com sua eventual parceira de missão. Mas minhas cenas favoritas com ele se dão em dois momentos emocionalmente densos: a primeira quando ele confronta M (Fiennes) e enfatiza seu lado sarcástico sem perder a oportunidade de condoer-se de uma perda recente, e a segunda que se dá no ato final – sem se entregar ao clichê, Craig carrega um caminhão de emoções. Como um a síntese perfeita dos interpretes anteriores, visto que ele combina a virilidade icônica de Sean Connery ao sarcasmo e à ironia de Brosnan e Moore, passando pela intensidade aterrada de Timothy Dalton (esquecendo-se sabiamente da apatia de George Lazemby), Daniel Craig torna-se oficialmente o rosto de 007 para o novo milênio.

Mesmo com problemas narrativos, este 007 – SEM TEMPO PARA MORRER consegue se manter plenamente como um filme bom e que se encerra em si mesmo e não como mera desculpa para cenas de ação – defeito este que os filmes protagonizados por Roger Moore e por Pierce Brosnan sofriam. Nesta nova guinada, a franquia 007 se despe de vez do que estávamos acostumados até então – filmes rasos, machistas, de ação genérica e implausíveis (não no sentido de trama, mas de desenvolvimento dramático de roteiro) – para uma nova e mais revigorante fase. O próximo intérprete (nas palavras da crítica Isabela Boscov) vai precisar de muita sorte para substituir este que foi o melhor ator a interpretar o agente secreto Bond… James Bond.

Ímpeto cruel e fragilidade presente - O James Bond de Daniel Craig
Ímpeto cruel e fragilidade presente – O James Bond de Daniel Craig

Marcio Tito – É um James Bond, personagem e obra, com maior preocupação cultural? O agente inglês e hétero, garanhão e branco, vindo de uma terra enriquecida por violenta colonização, está renovando seu arsenal de perguntas sobre o mundo? Ou nada disso faz parte do quadro de fragilidades que o filme expõe? A dor é outra? 

Fábio Rocha – O filme aborda questões mais pessoais do personagem. As questões culturais e quebras de paradigma são pinceladas. Isso não só neste filme, mas como uma constante da “saga Daniel Craig”. Questões muito relevantes da franquia que foram levantadas ao longo dos anos, por exemplo, como a possibilidade de uma 007 mulher ou um 007 negro foram escancaradas neste último filme, quase que como um deboche com o fã conservador, assim como ocorreu em SKYFALL, onde uma possível bissexualidade do James Bond foi posta em cheque num pequeno insight e não precisou mais voltar. É elemento dado. Está lá e lidem com isso. Da mesma forma, a nova agente é colocada em ação e é simplesmente isso. Sem levantar bandeira na obra em si, a presença dela e da personagem de Ana de Armas estão levantando a bandeira plenamente do lado de cá da tela. Através do drama pessoal de Bond, o filme naturalmente se encarrega de desconstruir o garanhão que o personagem era, dando-lhe curvas dramáticas dignas. E a mimese que o filme busca exercitar reflete bem os dias e questões atuais.

Marcio Tito – É um filme sobre memória. A primeira palavra do filme é Madeleine. Quando Bond já não mais 007 surge, como que para carregar todo o restante do filme, quase tudo está olhando para trás. Uma criança atravessa o gelo, uma mulher adulta emerge das águas. Curiosa tensão para um filme de ação… ação, quase sempre, nos empurra para o evento seguinte, que no caso do filme tem como evento seguinte desvelar uma coisa do passado (que de fato conecta Bond aos eventos do presente). Fábio… é um filme de ação? É um filme de gênero? 

Fábio Rocha – Gênero? Sim. Ação? Depende de como se encara o conceito de ação. O grande trunfo desse novo filme está nas ações menores. O gênero ação é presente sim – vide o fantástico conflito na floresta, além de toda a sequência da festa, onde membros da Spectre são envenenados, mas principalmente o plano-sequência das escadas (tão simbólico em sua construção, quanto um exemplar trabalho de esmero técnico). Mas a ação dos filmes de 007 raramente traziam suas consequências mais brutais. No caso da “saga Daniel Craig” (em especial, este filme), as consequências ecoam muito fortes (a própria necessidade de se lembrar dos filmes anteriores já nos coloca como agentes da investigação desse James Bond. Diria que é um filme do gênero “ação”, mas também diria que é um filme DE AÇÕES, onde cada uma irá reverberar para o bem ou para o mal do personagem – logo, também para nós enquanto espectadores.  

Marcio Tito – Qual elemento “tradicional” ficou de fora e fez falta? Ou as renovações dão conta do filme não ficar refém dos acertos da franquia?

Fábio Rocha – Eu diria o contrário. Aquele sarcasmos exacerbado do personagem, tão presente nos filmes com Daniel Craig, não fazem falta alguma. O único vício de linguagem que se tem – e que permanece em inúmeros filmes de ação (não só de 007) – é a insistência de se ter um vilão com alguma deficiência física (as queimaduras, no caso deste filme), o que gera certo olhar simplista de “pessoas com deficiência, ou com traumas” que existem apenas para se vingar do mundo e/ou dominá-lo. 

Marcio Tito – Concordo… mas nada da tradição faz falta? Aquele lance do 007 sempre alinhado, ou aquela dificuldade em arfar, o cabelo no lugar, todo aquele fetiche… tudo certo? 

Fábio Rocha – Não creio que falte, porque o próprio Daniel Craig brinca um pouco com essa iconografia. Ele constantemente ajeita a manga para permanecer na elegância e às vezes ri do próprio absurdo do universo do filme (com em Spectre, onde ele ri sutilmente por ter caído sentado em um sofá após sobreviver à queda de um prédio). Mas mesmo assim, são iconografias que ficam apenas pela franquia e não dão consistência ao personagem. Ainda mais neste último, onde a curva dramática do personagem é tão complexa que não há espaço para pequenos gestos dos  

Marcio Tito – Sua crítica é um sobrevoo pela personagem e, acima disso, um documento sobre nossa época e a franquia. Um abraçaço! Valeu! 

007 – SEM TEMPO PARA MORRER (2021). Título original: No Time to Die. Direção: Cary Joji Fukunaga. Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, Cary Joji Fukunaga e Phoebe Waller-Bridge, baseado no personagem de Ian Fleming. Elenco: Daniel Craig, Léa Seydoux, Rami Malek, Lashana Lynch, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Bem Whishaw, Ana de Armas, Rory Kinnear, Jeffrey Wright e Christoph Waltz.

Agradecemos pela leitura de nossa crítica.

,Sobre os autores:

Fábio Bach é cineasta, ator, dramaturgo, poeta e professor de cinema. Ministra aulas de teoria cinematográfica, História do Cinema, Roteiro e análise de linguagem cinematográfica no STUDIO FÁTIMA TOLEDO, além de trabalhar como preparador de elenco. É fundador do grupo de estudos de teatro e cinema LITURGOS; autor do livro ESCRITOS: PALAVRAS DE GROTESCO E DE SURREAL, publicado pela editora Primata; e diretor de peças teatrais.

Instagram: @fabio_bach89j

Marcio Tito é dramaturgo e diretor teatral, além de editor e entrevistador no site Deus Ateu (www.deusateu.com.br). 

Instagram: @marciotitop

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