,O belo horroroso nos “Encontros Divergentes”

Por Antonio Silva

Obra “Cumplicidade 28”
Obra “Cumplicidade 28”

Aço compondo cubos plenos e vazados, barras e gradeados, alguns oxidados. Há vidro temperado, em placas, e também soprado, em formas orgânicas; rocha bruta, três delas ao todo; barras de mármore alvo; e, ainda, cordas, cuja composição certamente leva plástico. É sobre essa plataforma material é que se erguem as construções dialógicas de Túlio Pinto, em “Encontros divergentes”.

Poucas vezes pode-se notar conscientemente a presença viva do maravilhamento da beleza e do desconforto da tensão, apesar de cotidianos. Mas aqui, tal encontro é inerente, inevitável.

Inicialmente, a arte já superou, ao menos em vastas teses, a uma necessidade de codependência com a Beleza para ser e existir como tal; fez isso sem, no entanto, tangenciar os efeitos e impactos daquilo que é belo, pois quando se é sábio, rompe-se criando pontes, não levantando muros. Nesse sentido, em Túlio, as obras são de fato belas, e entre formas orgânicas e geométricas exibem tal beleza tridimensionalmente. Elas deslocam fisicamente quem as vê, colocam-no de joelhos para que elas possam vê-lo de cima, e também permitem a aproximação dos mais curiosos, numa dança que intercala ângulos Plongée e Contra-Plongée.

Mas se bela, é tensa. Trata-se do contínuo jogo do equilíbrio (metáfora da vida?). As obras que tocam o chão estão na verdade empilhadas e, à medida que sobem, em si mesmas, ou pelas paredes, são esculpidas no ar pela gravidade, é quando se percebe que o belo também pesa, ele ecoa no corpo presente que então hesita, arrepia, curva, arregala, suspira, aproxima, distancia.

Em verdade, as obras exploram aquilo que, na natureza, já ocorre largamente. Trata-se da cobra coral, aquele sujeito cujo padrão de cores salta aos olhos numa beleza que flecha; sabe-se que uns foram alvo quando, de suas bocas, restou, entreabertas, o estado catatônico; outros alvos podem ser notados mais audivelmente, quando dessas bocas escapa um “Deus é perfeito”. Perfeição que não esconde adaptação, pois ela alerta: as cores, se belas, guardam também a morte, “é venenosa!”, é tensão, é, mais uma vez, corpo. Olha-se finalmente para cima, em busca de alívio após a hiperestesia experimentada, e então, bem ali sob as cabeças de quem vê, nota-se o mesmo efeito, o belo-horroroso, causado pelo teto do próprio museu. E que beleza que há no peso do teto compartilhado pelas vigas de madeira e ferro sobre nós e que, ao mesmo tempo, em qualquer tempo, podem cair.

Surfando no mar da subjetividade, na obra “Cumplicidade 28”, a exemplo, dentre os diversos diálogos possíveis, nota-se que o vidro soprado se apresenta em formato de lâmpada, mas com alguma maleabilidade, sugerindo um processo de esvaziamento provocado pela ideia de pressão exercida pelos cubos de aço oxidado. Numa associação rápida, a forma orgânica de vidro ganha parentesco com uma lâmpada que é símbolo da iluminação, da razão, da ideia, crua e transparente, em eterno movimento, como o vidro, que é sempre novo em algum grau. Mas os pesos cúbicos do passado enferrujado ainda atuam sobre o frescor das novas ideias, deformando-as às razões saudosistas, embora não passem de ilusões ocas.

Finalmente, o que Túlio propõe é um congelamento de condições humanas sem, no entanto, cristalizá-las.

Agradecemos pela leitura de nosso ensaio.

A exposição “Encontros Divergentes” conta com 9 obras, ocupando 350 m2 da Galeria 1, segue até janeiro e conta com o apoio das empresas Atom, da Aluvidro, da Galeria Milan e colaboração da Prefeitura Municipal de Sorocaba, e tem entrada gratuita.

Sorocaba – SP. 09/10/21 à 09/01/22 Quarta-feira, Quinta-feira, Sexta-feira das 14:00h às 19:00h
Sábados, domingos e feriados, das 10:00h às 14:00h Avenida Dr. Afonso Vergueiro, 280, Centro.

Museu de arte contemporânea de Sorocaba – MAC Sorocaba @macsorocaba

,Sobre o autor:

Antonio Silva, 21 anos, é Arte-Educador licenciado em Teatro pela Universidade de Sorocaba (2020). Hoje leciona Arte na rede privada de ensino de Sorocaba, atuando ainda como Diretor de Teatro e Ator no estúdio de dança Dançart, também em Sorocaba. É ainda mediador cultural do Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba, o MACS, e Contador de Histórias.

Instagram: @silva.antonio.a

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