,Carta aberta para Hilma af Klint

Por: Rafael Pajé

Hilma em seu estúdio em Hamngatan,1895, com aprox. 33 anos.
Hilma em seu estúdio em Hamngatan,1895, com aprox. 33 anos.

Quando me foi pedido para escrever um texto sobre a artista Hilma af Klint fiquei extremamente honrado, porém, logo nas primeiras linhas que escrevi percebi que simplesmente contar a história de dela e analisar a questão que me foi proposta (porque o trabalho de Hilma é conhecido e aceito hoje em dia?) não seria o suficiente pois isso era demasiado distante e burocrático para me aproximar do que é a obra dessa grande artista. Assim, resolvi fazer algo que Hilma e Van Gogh (a outra grande referência artística que tenho) fizeram à exaustão: resolvi escrever uma carta. Abaixo esta essa carta.

Carta aberta para Hilma af Klint

Desenhos do diário de Hilma af Klint, 1912 - Estudos sobre musgos, fungos e liquens
Desenhos do diário de Hilma af Klint, 1912 – Estudos sobre musgos, fungos e liquens

Querida Hilma,

Gostaria de começar lhe agradecendo por todo seu ímpeto, sua disciplina e seu amor para com a Arte, e lhe dizer que sua obra e sua história atravessaram mais de meio século e chegaram ao conhecimento do público de uma maneira sem igual.  Hoje, no ano de 2021, cada pintura, cada símbolo e cada mensagem que você nos deixou é estudada e valorizada da melhor maneira possível, também com muito amor e muito carinho. Gostaria também de lhe dizer que esta é a segunda carta aberta que escrevo para um artista desencarnado. A primeira que escrevi foi para Vincent Van Gogh, um dos grandes nomes da arte moderna e que, como você, nutria uma relação ímpar para com a pintura, a arte e a relação espiritual entre as duas coisas. Van Gogh sempre foi para mim o maior de todos os pintores, até conhecer o seu trabalho.

A primeira vez que vi suas pinturas me impressionei com a delicadeza e com o cuidado com o qual elas tinham sido feitas, com os símbolos misteriosos presentes nelas e com a beleza das composições, das formas e de cada significado que encontrei ao me deparar com essas imagens. Mas o que mais me tocou foi o porque delas existirem. A história de uma artista que dedicou toda sua vida para produzir mais de 1.200 pinturas e que toda essa obra era parte de uma encomenda vinda do Plano Astral já me tocou profundamente. Mas além disso, ouvir que essa artista sabia que nenhuma dessas obras seria vista pelo público enquanto ela fosse viva me arrebatou de maneira que nunca mais fui o mesmo pintor.

Veja, sempre foi uma questão do ser humano artista lidar com o reconhecimento e o sucesso, com a aprovação do público, do mercado de arte e da crítica. Essa foi uma das grandes questões do artista que citei anteriormente, Van Gogh. E sempre foi uma das minhas questões também. Mas assim como para Van Gogh, para você, para mim e para inúmeros outros artistas, vivos e mortos, a idéia de viver sem produzir arte é simplesmente impensável. Produzimos para existir e existimos para produzir ARTE. Está no cerne do nosso ser, na nossa função de mundo, na nossa troca com o Universo.

As Dez Maiores, Infância No.1, 3,5 x 2 m, (1907); têmpera guache s/ papel. Todas as pinturas desta série foram pintadas sem esboço, algo diferente do que Hilma fazia até então. Foram feitas em papel e depois coladas em tela
As Dez Maiores, Infância No.1, 3,5 x 2 m, (1907); têmpera guache s/ papel. Todas as pinturas desta série foram pintadas sem esboço, algo diferente do que Hilma fazia até então. Foram feitas em papel e depois coladas em tela

O que faz uma artista produzir sua obra sem se preocupar em como ela vai ser vista, recebida, ou julgada? Ou mesmo, se preocupar com isso mas ainda assim persistir, entregue à essa missão todos os dias? A confiança de que isto é o que tem que ser feito. E de que as coisas são como elas tem de ser. A Fé. Não a fé religiosa, mas a Fé como Entrega, como Confiança. Em si mesma, na ARTE, na existência, na Vida e na Morte, na Natureza.

Foi quando parei para pensar sobre isso que percebi. Porque, afinal, o seu trabalho não pôde ser visto e exposto na época em que você estava produzindo? O que havia por trás dessa encomenda feita à você que não deveria ser visto pela humanidade nesse momento? Hoje percebo que a resposta talvez esteja na própria pergunta.

No início do Séc XX muitas mudanças estavam em curso, a industrialização já havia se firmado como uma grande parte da sociedade, a velocidade das mudanças era cada vez mais violenta, a maneira como o ser humano se relacionava com o mundo mudava a cada ano e o capitalismo e o materialismo se apresentavam como filosofias a serem espalhadas ao redor do mundo. As vanguardas tomavam o meio artístico. Cubismo, futurismo, surrealismo, dadaísmo, abstracionismo, Kandinsky, Klee, Picasso, Duchamp…Os artistas se organizavam em grupos com ideais e manifestos que explicavam os conceitos de suas obras, manifestos que sustentavam o porque daquele trabalho existir naquele momento daquela maneira estética. O seu manifesto, querida Hilma, estava impresso em cores e símbolos, nos seus cadernos, nos seus relatos e nas suas pinturas. Na sua dedicação em produzir uma obra tão extensa e primorosa. Nas suas ações. Você viveu na mesma época que estes grandes artistas e pensadores, mas a sua obra estava presente em uma outra camada; a da Alma. Não que alguns deles não falassem sobre isso ou trouxessem isso em seu trabalho; Jung e  Kandinsky são alguns deles. Mas ninguém fez o que você fez.

Encomenda para o Templo, 1906 - 1915 . essas foram as últimas 3 pinturas de uma série de 119 que Hilma produziu. A real ordem destas pinturas tem o triângulo apontado para cima como sendo a No. 1, o triângulo apontado para baixo sendo a No.2 e o círculo a No. 3
Encomenda para o Templo, 1906 – 1915 . essas foram as últimas 3 pinturas de uma série de 119 que Hilma produziu. A real ordem destas pinturas tem o triângulo apontado para cima como sendo a No. 1, o triângulo apontado para baixo sendo a No.2 e o círculo a No. 3

Como seria possível apresentar todo esse trabalho e explicar para o mundo que você e suas companheiras recebiam os desenhos, símbolos e instruções para as pinturas de Mestres superiores do Plano Astral que se apresentavam a vocês em sessões meditativas organizadas ritualisticamente, e orientavam você nessa encomenda que consistia em registrar a existência da humanidade, seus processos de desenvolvimento, sua relação com o Cosmos, com a Natureza? Como explicar em forma de manifesto tudo isso? Como explicar a Alma? A relação da Alma com a arte? Como explicar o indizível?

Numa época onde o racional era inúmeras vezes mais valorizado e estudado do que o espiritual uma obra como a sua seria apagada e ouso dizer, má interpretada. Saiba que, na década de 1980, seu trabalho chegou aos olhos da Antroposofia, fundada por Rudolf Steiner, o único ser humano a ver seu trabalho enquanto você estava viva. E mesmo com toda essa bagagem da Ciência Espiritual esse grupo de pessoas não foi capaz de se aproximar da sua obra com o devido cuidado e atenção.

O que quero dizer é que a resposta para a pergunta é a mais óbvia possível; o mundo não estava pronto para receber o seu presente. A sociedade não tinha estofo para absorver o que está na sua obra. Como uma criança que escuta, fala e sabe reproduzir todas as palavras, mas ainda não as compreende a ponto de organiza-las em um pensamento a sociedade ainda não era capaz de compreender o quanto a espiritualidade está presente na Arte e a Arte na Espiritualidade. Não era capaz de apreciar e receber a Dádiva que é a sua história e a sua pintura. A humanidade não era capaz de sentir.

Por que foi isso que me aconteceu quando vi sua obra pela primeira vez, e pela segunda, terceira e todas as outras quinze vezes em que fui visitar a sua exposição; eu senti a Arte. Eu senti a Arte de uma nova maneira. Eu percebi e apreciei Arte não com a minha cabeça, mas com os olhos, com a minha Alma e com o meu coração. E tudo fez sentido. Tudo aquilo que eu pensei durante anos, que eu cogitava falar sobre quando pensava na minha pintura, tudo aquilo que até então era indizível, me tomou e me abraçou.

Cisne, No 17, grupo IX, têmpera s/ papel, 1908
Cisne, No 17, grupo IX, têmpera s/ papel, 1908

Por isso tudo minha querida amiga, por nos apresentar As Dez maiores, as pinturas para o Templo, o Caos Primordial, pela série Átomo, a série sobre as grandes religiões do mundo, por iluminar e trilhar o caminho que incontáveis artistas irão percorrer integrando a Arte e o mundo Espiritual, por tudo isso querida Hilma, eu agradeço humildemente a você uma vez mais. Sabendo que não será a última vez. Muito Obrigado Hilma. Que a sua luz nos ajude a percorrer o nosso caminho. Salve tú.

Por que um pintor pinta? Por que um musico compõe? No meu caso, eu pinto porque sinto. Sinto coisas em mim e tenho a necessidade de coloca-las para fora, no mundo, para lidar com elas.

Por que hoje no ano de 2021 Hilma af Klint é percebida de uma maneira que não foi na década de 1980, na primeira vez que a sua obra surgiu para o mundo?

O que a sociedade carrega hoje em dia que da sentido para o trabalho desta mulher?

E aproxima o público da sua obra?

Hilma af Klint foi uma mulher sueca nascida em 1880, teve uma vida inteira dedicada a arte e a cuidar de sua mãe. Mas, ao contrario da esmagadora maioria dos artistas Hilma não produzia arte com o intuito de ter “sucesso” comercial principalmente. O que é sucesso?

Sucesso para ela era realizar suas encomendas. encomendas essas que vieram de um plano superior, de mestres superiores, de além do mundo material.

A Pomba, grupo IX, UV, têmpera e folha de ouro e prata s/ papel, 1915
A Pomba, grupo IX, UV, têmpera e folha de ouro e prata s/ papel, 1915

“Houve um tempo em que sacerdotes e magos desenhavam imagens e símbolos que acessavam, eles eram os tradutores de mensagens, àqueles que não tinham as mesmas capacidades. Estes mesmos xamãs, hierofantes ou mahatmas, dependendo de como seu povo os nomeava, eram os curandeiros, os alquimistas, que sabiam usar os elementos da terra em comunhão com os sinais das estrelas, do sol e da lua. Transmissores de toda sabedoria, representavam a memória da humanidade.”

Trecho retirado do livro As Cores da Alma, A vida de Hilma af Klint, escrito por Luciana Pinheiro.

A visão de Budha na Terra, 1920
A visão de Budha na Terra, 1920

Agradecemos pela leitura de nossa carta.

,Sobre o autor:

Rafael Pajé (1986) é formado pelo Centro Universitário Belas em 2011 e é pintor, gravurista, performer e educador artístico. Sua pesquisa investiga a pintura simbólica, e a relação do espectador com a obra e seu valor. Aborda temas que passam pela Umbanda, a simbologia de objetos ritualísticos e do cotidiano e o estudo do Oráculo ( Runas, I Ching e Tarô). Apresentou a exposição individual “Objeto Artístico Ritual” ( Espaço Vitrine, 2017) e “Propedêutica das Coisas” ( Espaço Capsula, 2015). Dentre suas exposições coletivas destacam-se o “Salão dos Artistas sem Galeria” do Mapa das Artes ( São Paulo e Minas Gerais, 2020), Espaços Independentes – a alma é o segredo do negócio ( São Paulo, 2012) e Ocupação Cabana Extemporânea (São Paulo, 2009 a 2010) ambas na Funarte – SP e a Feria de los Matta ( Santiago, Chile, 2010). Em 2019 criou a Oficina Quebra Demandas, um projeto que visa explorar o processo de criação artístico como ferramenta de auto conhecimento e cura.

Instagram: @rafael.paje

3 comentários em “,Carta aberta para Hilma af Klint”

  1. Muito inspirativa e inovadora essa percepção da Arte relevando o humano e o divino em comunhão por uma vivência além da estética.

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  2. Que maravilha de texto, que coisa mais linda escrever uma carta homenagem a um artista que não está nesse plano, porém tenho um quê de certeza que leu…a pintura é das mais belas que já ví…o uso das formas e cores…perfeição!

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