,O Fantasma de Nova York – A primeira ficção de Sérgio Roveri

Por Sérgio Roveri. Ilustrações de: Junior Santos

Junior Santos, especial para O Fantasma de Nova York
Junior Santos, especial para O Fantasma de Nova York

Quando abri o envelope, desses de papel pardo, encontrei nele apenas meu atestado de óbito. Nenhum bilhete, nenhuma recomendação, apenas um atestado de óbito em meu nome, emitido pela Prefeitura de Nova York, trinta e seis dias após a data da minha suposta morte. Preferi não segurar o documento; deixei-o sobre a mesa com tampo de vidro e passei a encará-lo a distância, saboreando aquele momento impensável na vida de qualquer pessoa: quantos homens, antes de mim, tiveram a chance de ficar assim, frente a frente com o próprio atestado de óbito? Passamos a vida inteira carregando e exibindo nossas carteiras de identidade, de motorista, de sócios do clube, de membros da biblioteca e de usuários do sistema de transporte, mas olhar para o próprio atestado de óbito era diferente, era um sinal indiscutível de que alguma coisa não estava indo muito bem.

Eu passara os últimos dias esperando por um novo contato com Susan. Um telefonema. Um e-mail. A campainha tocando desesperada na madrugada. Um som agudo no meu pager, seguido de um recado econômico. “Henry, me telefone, Susan”. Nunca me passou pela cabeça a idéia de que ela fosse me enviar apenas este mísero envelope de papel pardo. Os casais, quando terminam, devolvem o quê? Fotos, certo? Certo, e mais alguns CDs, um ou outro cartão-postal, anel elas não devolvem, difícil. Devolvem sempre as poesias, escritas naqueles papeizinhos meio amassados, meio amarelados, e com aquelas rimas que nem as traças tiveram estômago para enfrentar. Susan, quando decidiu acabar comigo, me devolveu apenas meu atestado de óbito.

O (re)encontro

“Por quê?”, perguntou ela. Susan até que não havia mudado tanto. Tinha voltado a fumar, o cabelo estava um pouco mais curto, continuava magra e ainda passava a mão em volta do pescoço enquanto procurava as palavras. Nem sei quantas vezes, nestes três anos, eu me perguntei qual seria a reação de Susan quando me visse vivo. Cheguei a pensar em abraços, lágrimas, gritos raivosos, até em um cinematográfico desmaio. Mas agora, ali na minha frente, eu observava que não era só nos bips que Susan costumava ser econômica.

“É o que eu ainda me pergunto diariamente”, respondi. “Por quê? Acho que eu apenas fugi atrás de uma nova chance, além daquela que eu tinha acabado de ganhar naquela manhã.”

“Uma nova chance?”, ela continuou. “Como se tudo na vida se limitasse a uma nova chance, como num jogo de baralho ou uma partida de boliche? Canalha, há três anos que eu estou viúva de um homem que estava vivo este tempo todo e agora ele reaparece na minha vida e diz: Pô, Susan, eu só queria uma nova chance…”

“Susan”, eu tentava prosseguir, “nunca foi uma coisa que me passou pela cabeça antes, eu juro. Quando eu vi aqueles dois prédios caindo, o escritório, os meus amigos lá dentro. Se eu tivesse chegado dez minutos antes eu também estaria ali. Era tanta destruição que eu parecia ouvir uma voz na minha cabeça gemendo assim: recomeçar, recomeçar, recomeçar. Eu senti uma vontade estranha de ir embora dali, de fugir, de ficar cada vez mais longe, mais longe…

“Mas Henry…”

“Fui a pé até a Estação Central e entrei no primeiro ônibus que me levasse para longe de Nova York. Primeiro Filadélfia, depois Baltimore, depois uma série de cidadezinhas, Winchester, Romney, Farmont, Morgantown…”

“Chega, Henry. Eu não quero saber deste seu tour da covardia enquanto eu me ferrava sozinha aqui em Nova York. Henry, você me fez acreditar que estava morto, lá no meio daqueles escombros, soterrado, desaparecido, mutilado, sei lá, sofrendo no meio de um monte de corpos, canalha, escroto…”

“De Morgantown para Brownsville, de Brownsville para Wheeling, de lá para…”

“Por favor, Henry, agora chega.” Susan tinha a voz cansada. Estava claro que ela não queria saber o que eu tinha feito para sobreviver nestes três anos. Os empregos nas locadoras de vídeo, nas oficinas, as aulas de inglês em salinhas de fundo de quintal na fronteira com o México, os supermercados, todos os bicos que não me valeram mais que uns trocados.

“Seu pai morreu no ano passado, Henry”.

“Eu sei. Ou melhor, eu desconfiei. Todo dia 11 eu ligava para a casa deles. Às vezes atendia meu pai, outras vezes, minha mãe. Eu ouvia o alô e desligava. Acho que eles nunca perceberam que os telefonemas eram sempre no dia 11. Nos últimos meses, só minha mãe atendia. Achei que tinha acontecido alguma coisa com ele”.

“Algumas semanas antes de morrer, ele quis visitar o que restou dos prédios. Ele nunca mais tinha voltado lá depois dos atentados e daquela vez pediu para ir sozinho. Não sei por que eu estou te contando isso, como se você fosse se importar com o que eu e os seus pais passamos.”

“De alguma forma eu…”

“Cala a boca, Henry”, me interrompeu Susan. “Nós não temos mais nada para conversar”. Enquanto ela tirava os óculos escuros da bolsa, olhei para os cinzeiros e contei: foram quatro cigarros pela metade. Susan não se despediu de mim, pôs os óculos, fechou a bolsa e começou a andar em direção à rua. Quando já estava chegando à calçada, deu meia-volta e tornou a se aproximar. Apoiou as mãos na cadeira e curvou o corpo sobre a mesa, como se fosse me cuspir.

“Henry, você nunca pensou que teria sido muito melhor para todo mundo se você continuasse morto?”

A cuspida teria sido melhor.

Please, do not disturb

Há quatro dias que estou neste quarto de hotel e o telefone não tocou uma única vez. Saio à rua apenas para comer, mas eu já não me sinto em casa aqui em Nova York. É como se a cidade, me reconhecendo no meio dos seus milhões de moradores, me apontasse um dedo gigante de concreto e dissesse: “É ele, é ele que fugiu naquele dia”.

Se Susan tivesse me perguntado se eu estou arrependido, talvez eu respondesse que não. Li uma vez, já não lembro onde, que mais da metade das pessoas desaparecidas tinham saído para comprar cigarro, e nunca mais voltaram. Eu, pelo menos, tenho ao meu favor o fato de que desapareci diante de uma situação muito mais grandiosa. Não que mereça perdão por isso, talvez Susan nunca mais queira ouvir falar em meu nome. Mas aos poucos estou ficando em paz novamente.

Volto a olhar para a mesa e lá está ele, o atestado, lembrando a todo momento que eu sou um cara morto. Caminho até a janela do quarto e vejo que em alguns minutos a noite já terá engolido toda a cidade. Minha cabeça se volta novamente para o envelope e, de repente, um pensamento parece me consolar. Para quem queria uma chance de recomeçar, até que eu não posso reclamar.

O Fantasma de Nova York
O Fantasma de Nova York

Sérgio Roveri

Outubro de 2001

Este foi o primeiro texto de ficção que escrevi, depois de passar muitos anos dedicado exclusivamente ao jornalismo. Graças a ele fui selecionado para participar de uma oficina de monólogos no Centro Cultural São Paulo que trazia, no corpo docente, mestres como Rubens Rewald e Renata Pallottini. Depois deste curso, a ficção entrou de vez na minha vida e me ensinou que, às vezes, algumas torres precisam desabar para a gente encontrar um outro caminho.

Agradecemos pela leitura de nosso conto.

,Sobre os autores:

Sérgio Roveri é um dos nomes mais importantes do nosso teatro recente. Vencedor dos prêmios Funarte de Dramaturgia, Cidadania em Respeito à Diversidade, Diversidade e Cidadania e Shell, Roveri é também um criativo roteirista. Biógrafo de Gianfrancesco Guarnieri e também jornalista com longa experiência cultural, Roveri é certamente um dos mais montados e marcantes dramaturgos do teatro brasileiros. É jornalista, dramaturgo, roteirista e contista.

Instagram: @sroveri

Junior Santos, tem vinte e quatro anos, é artista plástico, ilustrador e quadrinista profissional. Autodidata, nunca se formou em nenhuma das áreas em que atua profissionalmente, com exceção do cinema. É formado em atuação e arte cinematográfica pela “Verzini Escola de interpretação e cinema”.

Começou a sua carreira profissional aos 19 anos trabalhando como ilustrador e artista conceitual para filmes, desenhando e criando storyboards e personagens. Dois anos depois migrou para os quadrinhos e criou sua primeira HQ “A Rua da Luz Vermelha”. Em 2019, com 23 anos, sua HQ participou do concurso online criado pela plataforma de quadrinhos “AGAKÊ” no qual foi campeão. Atualmente trabalha ilustrando livros, contos, capas de discos e quadrinhos.

Instagram: @jr_santti

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