,Contadores de Mentira em Estado Celebração e Rito

Por Cleiton Pereira

E(s/x)tirpe Encontro Para Celebração e Rito - cena da queima da casa. O grupo contadores construiu uma casa na rua como provocação ao poder público local, recebeu mais de 40 artistas e no ultimo dia do festival atearam fogo na casa como uma ação protesto.
E(s/x)tirpe Encontro Para Celebração e Rito – cena da queima da casa. O grupo contadores construiu uma casa na rua como provocação ao poder público local, recebeu mais de 40 artistas e no ultimo dia do festival atearam fogo na casa como uma ação protesto

Tudo começou assim…

             Em 2014, despejamos dois caminhões de terra sobre a avenida em volta de nosso espaço e ali, durante trinta dias, construímos uma casa, um assentamento, onde cada artista intervinha de algum modo, deixando um objeto, um canto, uma dança, e no último dia do festival a queimamos. Queríamos ratificar que não éramos a casa, mas o barro onde ela pousa. Era uma ação contrária às políticas públicas do governo local que nos atacava com suas “pedras”. Era um símbolo da efemeridade do território físico, porém de permanência viva em nossos ritos e de um teatro que é testemunha de seu tempo histórico. Naquela edição foram mais de 50 artistas e coletivos que generosamente ajudaram a construir essa casa de persistência. Ali criamos ritos, performances, ações de arte urbana, recebemos obras artísticas de grupos e coletivos que reforçam o teatro de grupo no Brasil.

Assamos a carne e oferecemos um banquete representando nosso próprio corpo. Tomamos cachaça, dançamos, e festejamos a possibilidade de que nosso corpo dançante enfrentasse os tiranos.

Nascia aí o festival E(s/x)tirpe – Encontro para Celebração e Rito… Um festival alinhado por uma dramaturgia cujo tema é memória e assentamento de resistência cultural. É um festejo onde se reúnem apresentações de grupos que possuem identidade nas margens onde produzem. Grupos que criam contágios em seus territórios. É um encontro onde se demarca a terra onde está situado o Teatro Contadores de Mentira, onde os sentimentos de guerrilha e festa se diluem em dias e noites de “celebração e rito”.

            Nas edições seguintes em 2016 amarramos um barco em uma árvore e perguntamos para a cidade se um grupo deveria persistir em viver nela ou se precisava seguir para longe… A resposta veio apenas na edição seguinte, em 2018, onde depois de dois anos de luta conseguimos a conquista de um terreno para a construção da nova sede do Teatro Contadores de Mentira. De modo que esta III edição foi um grande assentamento, o festival trouxe como tema a discussão “Terra, território e Teatro”. Montamos uma tenda e nela recebemos grupos, oficinas, palestras, shows, e ritos.

Cícera - Obra do Grupo Contadores de Mentira. Em cena a atriz Daniele Santana, trata as tradições de guerreiro e a cultura afro indigena da região de Alagoas
Cícera – Obra do Grupo Contadores de Mentira. Em cena a atriz Daniele Santana, trata as tradições de guerreiro e a cultura afro indigena da região de Alagoas

            Há anos nos alinhamos e cruzamos fronteiras com muitos grupos do Brasil e da América

Latina. Para além, transbordamos as linhas do mapa e chegamos a alguns países do Caribe e da

Europa. Com esses grupos criamos redes, intercâmbios e uma relação de vida e ofício. Construímos pontes e fizemos travessia.

            Nossa proposta com este festival é que para além das apresentações, que por si só já representam celebração, esteja presente uma dramaturgia que costure nossa posição e luta frente à região na qual existimos e optamos. Região dura, ausente de políticas públicas, massacrada ao longo dos anos. 

Olhamos nosso entorno, nossos fazeres e vemos o movimento da comunidade ao nosso redor e para ela produzimos. Celebramos através de banquetes, ritos urbanos, performance, publicações, intervenções, reflexões e apresentações. É base deste encontro a reflexão sobre como nossa região olha para o teatro, inclusive aquele que tentamos comunicar.

Trata-se de um encontro para exercitar o olhar, para a estética e para além dela, para atingir o

que nele é essência: o rito. E o rito aqui é traduzido na comunhão da comida, dos artistas e suas

obras, nas trocas e discussões, nas vivências e experimentações sensoriais e físicas. É uma maneira de comunicar nossa existência, nossas recusas, nosso corpo, militância e crença.

E(s/x)tirpe 2018 - A atriz Narany Mireya faz a dança ancestral de assentamento. O grupo Contadores de Mentira conquistou a cessão de área do terreno onde agora está situado o novo teatro contadores de Mentira. Rito de Assentamento
E(s/x)tirpe 2018 – A atriz Narany Mireya faz a dança ancestral de assentamento. O grupo Contadores de Mentira conquistou a cessão de área do terreno onde agora está situado o novo teatro contadores de Mentira. Rito de Assentamento

            E como algo tão presencial, ligado aos sentidos e experiências do encontro, poderia acontecer de forma virtual em tempos pandêmicos? Pensamos então que deveríamos gerar uma egrégora transcontinental. Alguma forma simbólica que pudesse reunir grupos históricos do teatro latino-americano… Para esta edição pensamos nos muitos grupos que visitamos ao longo dos anos. Pensamos naqueles grupos que possuem uma vasta experiência em territórios de luta e convicção pelo teatro de grupo, pela coletividade, e por fazer diferença na história do mundo. Pensamos na cultura popular, nas tradições ancestrais, nos mestres e mestras que dedicam tempo ao ofício e às comunidades onde vivem. Pensamos nos jovens grupos cuja atuação faz transformar a estima e a vontade de viver em territórios sociais precarizados. São artistas e fazedores culturais que nos inspiram a nos manter firmes e aguentar as lutas. São grupos que possuem um comprometimento, identidade e que aos poucos escrevem mesmo em papel de pão ou na oralidade um legado histórico. Para eles dançamos, com eles nos juntamos…

            A edição de 2021 nos exigiu criar conexões internas, revalidar o sentido do teatro de grupo, reposicionar nossa estada nesse Brasil que volta a massacrar seres humanos. Em nossa volta há uma pandemia que assola e devasta, sobretudo os países pobres e nos revolta o fato de que os países hegemônicos continuam pisando sobre nossos corpos. Estamos tentando ser testemunhas deste tempo de tempestades políticas e enfrentando uma outra epidemia de moralização social que passa por cima da democracia, da liberdade do corpo e da liberdade de ter ou não uma crença. Uma guerra cultural nasceu no Brasil e estamos tentando proteger nossa própria história, identidade e ancestralidade que tem sido virada ao avesso pelo governo Bolsonaro e esse modo de pensar o mundo através da violência e ódio.

Um grupo de teatro como o nosso, precisa pensar formas de combate, de criar contrapontos ao gosto médio e a este modelo político que queima livros e inverte o sentido de nossa construção cultural e da própria história.

Cleiton pereira como figura de Encruzilhada no Festival E(s/x)tirpe - encontro Para Celebração e Rito 2018
Cleiton pereira como figura de Encruzilhada no Festival E(s/x)tirpe – encontro Para Celebração e Rito 2018

O E(s/x)tirpe deste ano traz três capítulos: Corpo Ausente, Preservação dos sentidos e Ode aos Profanos. Um corpo que não está, uma cultura devastada e um corpo liberto são temáticas que temos a urgência de tratar como grupo. Convidamos grupos históricos com mais de 50 anos como ODIN TEATRET e Yuyachkani do Peru. Convidamos coletivos de Cuba que lutam contra o bloqueio perpetrado pelos EUA. Convidamos grupos do Equador, Peru, Porto Rico, Colômbia, Argentina, México, Paraguai, Moçambique, Espanha, Cuba, Dinamarca e Brasil… Convidados mestres e mestras das tradições brasileiras. Foram 50 atividades entre apresentações, performances, rodas de conversa e atividades formativas. Uma egrégora, uma epidemia de otimismo, de corpos bailantes, de risos escancarados, de cachaça na mesa, de libertação anti-moralista e uma despedida de corpos que não puderam estar nesta festa, mas que seus espíritos encantados estarão conosco…

Esta IV edição do festival, contou com um total de 131 artistas. E teve um alcance de cerca de 530 mil pessoas.

O grupo Contadores de Mentira é uma “Microcultura”

Contadores de Mentira atuam desde 1995 com sede na cidade de Suzano – SP – Brasil. Atuamos em rede com conexões em vários países. Desenvolvemos pesquisa e possuímos identidade na Antropologia, História, Política e Sociedade. Há anos descobrimos que era necessário se organizar em coletivos, em redes, em fóruns, na luta por condições de trabalho aos fazedores de cultura. Somos uma microcultura que se organiza, que se transforma e que gera energia e muita produção. Realizamos processos criativos – circulação de espetáculos – cursos – vivências – rodas de conversa – demonstrações de trabalho – imersões artísticas – festivais – encontros e trocas artísticas. 

Contadores de Mentira também é um espaço/Instituição e coletivo independente que fomenta arte, cidadania e pensamento. Uma ilha de reflexões culturais, políticas e sociais, que entende o teatro, sobretudo, como uma ferramenta de intervenção na sociedade. No espaço físico fundado em 2012 foram recebidos mais de 400 coletivos culturais, atendendo a mais de 30.000 pessoas. Países como Dinamarca, Colômbia, Peru, Equador, México, Portugal, Macedônia, Índia, Moçambique, Grécia, Cuba, estiveram em Suzano através de ações promovidas pelo Teatro Contadores de Mentira. 

Cleiton Pereira e Daniele Santana na obra Curra-Temperos Sobre Medéia
Cleiton Pereira e Daniele Santana na obra Curra-Temperos Sobre Medéia

Realizamos projetos, espetáculos, festivais, encontros, feiras, e, sobretudo, um diálogo de sobrevivência, crescimento, articulação e atitude entre cidadão e cultura. Existimos fora do grande centro, indo no fluxo contrário ao pensamento de que apenas os grandes centros são produtores de cultura. Atuamos em redes colaborativas e criamos articulações com grupos e instituições de todo o Brasil e de outros países.  Atuamos em fóruns, organizações e militâncias históricas de organização da cultura no Brasil.

Somos uma microcultura que tenta dar as mãos a outros coletivos humanos. Há muita gente produzindo algo e alguns são extremidades anônimas que geram força em seus territórios. Não são da indústria do entretenimento nem são da vanguarda estética, mas são criadores de vida e para isso criam seu próprio sistema orgânico. Grupos cujas escolhas pessoais e acontecimentos históricos transformam a matéria do teatro. Grupos que vivem a discriminação pessoal ou cultural, profissional, econômica e política. Grupos que não são observados pelos escritores, grupos que precisam escrever, ainda que nas paredes, sobre sua própria história para demarcar o tempo e preservar sua memória.

Somos uma complexidade de microrganismos culturais que se desenvolvem sob outros aspectos de organização e vida. Durante muitos anos grupos sofreram mutações numa tentativa de sobrevivência, alguns só resistiram à epidemia de serem aceitos quando de fato foram capazes de confrontar com sua própria organização e refletir sobre seus fazeres. E estas reflexões só foram possíveis quando estes grupos encontraram outras microculturas vivas sob condições

inviáveis à própria vida. Somos um desses grupos que só conseguiram sobreviver quando atravessaram a margem para encontrar outros sobreviventes.  

K-ique Calisto como Beatinho na obra O INCRIVEL HOMEM PELO AVESSO, obra dos Contadores de Mentira sobre o massacre de Canudos
K-ique Calisto como Beatinho na obra O INCRIVEL HOMEM PELO AVESSO, obra dos Contadores de Mentira sobre o massacre de Canudos

Construir uma casa…

Após muitos anos de luta e de uma discussão profunda sobre espaço público, sobre história e identidade cultural, conseguimos, através de um decreto municipal a cessão de área pública para a construção de nossa nova sede. Em tempos que vemos espaços fecharem suas portas, sabemos da força e da relevância histórica em poder abrir as portas de um novo espaço cultural independente. A obra foi iniciada em agosto de 2018, a relação de tempo foi modificada por conta da pandemia, portanto, completamos três anos de construção do espaço e que os Deuses nos permitam finalizar esta etapa em dezembro deste ano.

Inspirados pela experiência da Cia Mugunzá – SP construímos também um espaço com containers entendendo o valor ambiental e de construções contemporâneas. Estamos ali todos os dias, na marcenaria, na pintura, utilizando máquinas na expectativa de que o espaço possa ser uma proteção cultural para muitos grupos da região do Alto Tietê. Queremos manter nossa tradição de redes, de relações, de fruição, de acesso a bens culturais, de combate… Não haveria a possibilidade de construir este espaço não fossem as redes, a generosidade de grupos que fecharam suas portas e doaram seus equipamentos, de grupos que cederam cachês para alimentar o sonho, de gentilezas inesperadas, de uma logística grandiosa apoiada por muitos colaboradores.

Entendemos que o que fazemos só faz sentido se a cidade, se os artistas, se as políticas públicas e sobretudo a comunidade, entender que o teatro que estamos construindo será uma coautoria social. Será um bem comum gerado por um coletivo organizado e será uma microcultura de seres humanos dispostos a não desistir. Será um espaço para dançar… livre…

Agradecemos pela leitura de nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Cleiton Pereira – Atua no teatro desde 1987. Fundador do grupo Contadores de Mentira que nasceu em 1995. Atuador, diretor, dramaturgo do grupo Contadores de Mentira. Gestor, Produtor e Orientador.

Contadores de Mentira – Grupo de Teatro e instituição Cultural, com sede na cidade de Suzano – SP – Brasil desde 1995. É uma microcultura que acredita nas redes. Produz espetáculos, demonstrações de trabalho, performances, shows, fomento, Festivais, encontros, Intercâmbios, e formação cultural e cidadã. Atuante na luta por políticas públicas. Participante de redes com grupos dos 4 continentes. É um território de relações.

Instagram: @contadoresdementira

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