,A luz e a treva pela ótica de Martin Scorcese

Por Fábio Bach

 filme: TAXI DRIVER
 filme: TAXI DRIVER
filme: VIVENDO NO LIMITE
filme: VIVENDO NO LIMITE

(uma breve reflexão sobre os filmes TAXI DRIVER e VIVENDO NO LIMITE)

Quer entender o Deus de um povo, olhe para seu Demônio

– Gregory Motton.

Dirigido por Martin Scorsese, TAXI DRIVER foi recebido com reações mistas no Festival de Cannes de 1976 e, apesar de ter ganho a Palma de Ouro, foi sumariamente ignorado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, permaneceu marginalizado, alcançando o status de clássico do cinema moderno apenas na década seguinte, quando seu realizador já estava estabelecido como um grande artista na indústria – mesmo sendo ainda considerado um “veneno de bilheteria” (vide os anos 80 da carreira do diretor). Na mesma estirpe de filmes marginalizados, temos VIVENDO NO LIMITE, de 1999, que, assim como KUNDUN (1997), que foi um respiro muito pessoal de Scorsese – sua mãe havia falecido pouco tempo antes –, estava afogado por dois grandes filmes de máfia do diretor: CASSINO (1995) e GANGUES DE NOVA YORK (2002). Diferentemente de TAXI DRIVER, o filme de 1999 foi injustamente relegado a um limbo na carreira de Scorsese, onde permanece até os dias de hoje (pouco ou nada se fala sobre ele).

Robert De Niro em TAXI DRIVER
Robert De Niro em TAXI DRIVER
Nicolas Cage em VIVENDO NO LIMITE
Nicolas Cage em VIVENDO NO LIMITE

Porém, a beleza da filmografia de Martin Scorsese está em sua incrível capacidade de se ajustar a variados gêneros, ainda que sua assinatura estética se mantenha intocada ao longo de sua carreira. Do musical NEW YORK, NEW YORK, aos terrores psicológicos CABO DO MEDO e ILHA DO MEDO, passando pelo surrealismo de DEPOIS DE HORAS, as comédias dramáticas O REI DA COMÉDIA e O LOBO DE WALL STREET, a trilogia involuntária de épicos religiosos A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, o já citado KUNDUN e SILÊNCIO, além das cinebiografias TOURO INDOMÁVEL e O AVIADOR, são filmes que andam de mãos dadas com sua estabelecida coleção de filmes de máfia – subgênero que Scorsese ajudou a firmar ao longo da carreira. E mais impressionante é a coerência temática de suas obras, que retratam seres humanos à beira do pecado e do inferno, com um julgamento moral severo e impiedoso de um Deus muito mais próximo do Antigo Testamento bíblico retratado pela pungência de sua câmera – isso se dá por conta da criação católica de Scorsese (que inclusive chegou a ser seminarista).

Nessas condições, para Scorsese, nada melhor do que a parceria com o roteirista Paul Schrader para compor o quadrante mais intenso de sua carreira. Scorsese estabeleceu quatro obras-primas com o roteirista/diretor, que também vinha de crises existenciais e educação católica fervorosa e opressora. De TAXI DRIVER a VIVENDO NO LIMITE, passando por TOURO INDOMÁVEL e A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, a dupla investigou as agruras do Homem condenado a um limbo existencial, essa criatura que habita as fronteiras entre a noite e o dia, negando sua natureza, errando pelas curvas do mundo, perdido em um eterno umbral crepuscular. Trabalhos estes realizados no maior estilo Nelson Rodrigues do ciclo mítico (nos dizeres de Sábato Magaldi): três tragédias e uma farsa trágica.

Para além da crítica cinematográfica em si – com seus apontamentos que tratam o filme somente como um quebra-cabeça exibicionista de habilidades técnicas a ser desmontado e sem nenhum pensamento ou possibilidade de leitura filosófica por trás – proponho aqui uma dissertação da mitologia das obras em questão, como um estudo poético do ser humano a partir dessas obras e que serve de ponto de partida para uma mais ampla visão da vida – afinal, este é o principal objetivo da Arte e dos artistas plenamente em exercício.

Como havia dito, a criação cristã exerceu grande influência na obra de Scorsese e de Shrader, portanto não há outra maneira de abordar os filmes que não pela ótica da mitologia cristã. Aqui cabe um esclarecimento: trato a mitologia cristã assim como trato a mitologia grega, ou seja, como obra de linguagem poética e alegórica que nada tem a ver com doutrinação, afinal a Bíblia está para a sociedade cristã como a Ilíada e a Odisseia estão para o mundo grego, os poemas xintoístas para a Ásia, e as epopeias Iorubás para o povo Africano.

Uma criatura da noite: Robert De Niro em TAXI DRIVER
Uma criatura da noite: Robert De Niro em TAXI DRIVER

Comecemos com TAXI DRIVER. Travis Bickle é uma criatura das trevas. De ar satânico e aura infernal, como a fumaça que o cerca na abertura, ele tenta se localizar na luz do mundo, recusando sua natureza, mas está fadado ao fracasso desde o início, já que sua vibração, muito mais ligada à noite, o impede de se comunicar com o mundo iluminado. Como um Exu, por exemplo, na umbanda. Natural da sujeira e do lodo, um Exu não pode e nem deve mitologicamente tentar ser um Caboclo ou um Preto Velho, visto que sua vibração está quase que totalmente ligada à densidade da terra – algo que as outras entidades não estão, sendo elas muito mais sutis em suas frequências. Por mais que tente se ligar à luz, sua função arquetípica o impede. Da mesma forma, Travis tenta a todo custo estar na luz do dia, quando seu habitat natural é a noite densa e carregada. Ele tenta se ligar a Betsy (sua Virgem Maria simbólica), mas sua frequência está mais próxima de Iris (a fração Madalena da entidade Maria) – e é gritante a relação de espelhamento entre as duas, seja pela semelhança do figurino, como pelas atitudes diametralmente opostas.

Detalhe das ruas noturnas em TAXI DRIVER
Detalhe das ruas noturnas em TAXI DRIVER
Detalhe do retrovisor em TAXI DRIVER
Detalhe do retrovisor em TAXI DRIVER
O figurino de Cybil Shepherd em TAXI DRIVER
O figurino de Cybil Shepherd em TAXI DRIVER
O figurino de Jodie Foster em TAXI DRIVER
O figurino de Jodie Foster em TAXI DRIVER

O Satanás de TAXI DRIVER está tentando ser o Cristo, torturando-se no processo de negação. Ao compreender que sua existência essencialmente sombria e destrutiva pode servir à Lei da vida, Travis utiliza-se de toda a sua força violenta para salvar Iris do mal que a acomete e, aceitando-se como uma criatura noturna, ele encontra – ainda que momentaneamente – a paz interior de pertencimento, simbolizada no retorno de Betsy à sua vida, como uma recompensa de luz ao aceitar sua própria treva. Como lidamos com o âmbito da Arte, a violência apresentada é catártica para o espectador, dando-lhe a mesma sensação de alívio e pertencimento, afinal, a liturgia da arte está em dar vida na tela aos nossos demônios mais íntimos. Assim como na tragédia grega, a própria poética bíblica retrata essas curvas ao longo de suas narrativas, como o martírio de Cristo, de Jó ou de Jonas, ou mesmo toda a epopeia no livro do Apocalipse. Este tipo de jornada permeia a maioria das obras ocidentais, diga-se de passagem, e em Martin Scorsese esse conceito de Ascensão/Queda/Redenção é latente em praticamente toda sua obra, assim como na obra de Paul Schrader (vide os excelentes HARD CORE e FÉ CORROMPIDA).

Travis (Robert De Niro) entregue à insanidade em TAXI DRIVER
Travis (Robert De Niro) entregue à insanidade em TAXI DRIVER

Na contramão, temos o Frank Pierce de VIVENDO NO LIMITE. Um ser exclusivo da Luz, um exemplar Salvador da humanidade que, habitando um mundo igualmente de trevas, luta para que toda a vida que caia em suas mãos seja salva. Seu grande conflito se dá pelo fato de nunca aceitar que a Morte faz parte do ciclo da vida, culpando-se severamente ao deixar uma paciente morrer enquanto prestava socorro, entrando em um torpor de autopunição (a impossibilidade de dormir) e resgate desnecessário da sua Maria Madalena perdida – a moça que o assombra. É como se ele buscasse seu Sagrado Feminino complementar dentro de uma figura que não faz parte da mesma frequência (assim como Travis em relação a Betsy).

Detalhe da ambulância em VIVENDO NO LIMITE
Detalhe da ambulância em VIVENDO NO LIMITE
Frank (Nicolas Cage) à beira de uma crise em VIVENDO NO LIMITE
Frank (Nicolas Cage) à beira de uma crise em VIVENDO NO LIMITE

Frenético como DEPOIS DE HORAS, este filme mergulha o espectador em um turbilhão de paranoia e esgotamento físico e mental do protagonista, que apenas vai frear quando este passa a entender a presença da Morte como algo inevitável. E ele, sendo naturalmente uma criatura arquetípica da luz, passa a abraçar suas dualidades como salvador da vida e da morte, entendendo que o mais importante é dar paz ao indivíduo em sofrimento. A moça morta o assombra não porque queria ser salva, mas porque queria morrer, assim como o moribundo que fala diretamente com Frank- e essa revelação é antecipada lindamente no plano em que traz Frank “ressuscitando os mortos” em uma rua escura.

Rose (Cynthia Roman) é o sentimento de culpa em VIVENDO NO LIMITE
Rose (Cynthia Roman) é o sentimento de culpa em VIVENDO NO LIMITE
Cullen O. Johnson em VIVENDO NO LIMITE
Cullen O. Johnson em VIVENDO NO LIMITE
A ressurreição dos mortos em VIVENDO NO LIMITE
A ressurreição dos mortos em VIVENDO NO LIMITE

Assim como o mergulho de aceitação das trevas de Travis é retratado pelo passeio pela cidade em TAXI DRIVER, Frank Pierce aceita que a morte também é uma continuação natural da vida e que ela também opera pelas suas mãos, deita-se no colo de sua Pietá e adentra a um mundo de luz, como a frequência que lhe é comum – uma recompensa emocional e simbólica perfeita que gera uma rima belíssima com o filme de 1976. O entregar-se à noite de Travis e o deitar-se no colo da Luz de Frank catarticamente nos aliviam, pois essa é a grande necessidade do ser humano moderno: abraçar suas dualidades tão diametralmente opostas, tão paradoxalmente humanas, e deixar-se seguir neste fluxo de vai e vem interminável que é a busca por cada uma dessas facetas. Bauman agradece.

A "Pietá" (Patricia Arquette) conforta Frank (Nicolas Cage) em VIVENDO NO LIMITE
A “Pietá” (Patricia Arquette) conforta Frank (Nicolas Cage) em VIVENDO NO LIMITE

TAXI DRIVER (1976). Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader. Elenco: Robert De Niro, Cybil Shepherd, Jodie Foster, Harvey Keitel, Peter Boyle, Albert Brooks.

VIVENDO NO LIMITE (1999). Título original: Bringing Out The Dead. Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader, baseado no livro de Joe Connelly. Elenco: Nicolas Cage, Patricia Arquette, John Goodman, Ving Rhames, Tom Sizemore, Cliff Curtis, Marc Anthony, Mary Beth Hurt.

Agradecemos pela leitura de nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Fábio Bach nasceu em março de 1983, em São Paulo. É cineasta, ator, dramaturgo, poeta e professor de cinema. Ministra aulas de teoria cinematográfica, História do Cinema, Roteiro e análise de linguagem cinematográfica no STUDIO FÁTIMA TOLEDO, além de trabalhar como preparador de elenco. É fundador do grupo de estudos de teatro e cinema LITURGOS; autor do livro ESCRITOS: PALAVRAS DE GROTESCO E DE SURREAL, publicado pela editora Primata; e diretor de peças teatrais e curtas-metragens desde 2010.

Instagram: @fabio_bach89j

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