,Aos religiosos e ateus que praticam a psicanálise

Por Pedro Sá

Revisão de Alan dos Santos

Freud e seu retrato
Freud e seu retrato

“Deus é o existirmos e isso não ser tudo”.

(Fernando Pessoa)

Aquele que deseja escrever sobre psicanálise e religião logo descobre que não adotou para si uma temática simplória ou pouco explorada. Essa relação – que tem interessado a ateus e religiosos, teólogos e psicanalistas – é, de fato, abrangente, e não são poucas as pesquisas que são produzidas em torno dela.

Para o psicanalista francês Philippe Julien, encontramos, em meio aos diversos estudos que tentam abarcar o tema psicanálise e religião, duas visões recorrentes.

Para alguns, psicanálise e religião são dois campos separados quanto a seu fim e, portanto, quanto a seus meios. Assim, a psicanálise não seria nem a favor nem contra a religião. Para outros, ao contrário, a experiência psicanalítica conduz necessariamente ao antiteísmo pela descoberta de que toda crença religiosa é em si uma ilusão.

A partir dessa perspectiva surge um interessante questionamento: Qual dessas duas visões encontra apoio na obra do fundador da psicanálise Sigmund Freud? Ao buscar essa resposta, é preciso não minimizar o fato de que Freud era um convicto ateu, nem tão pouco ignorar que muitas das suas obras direcionaram, ao longo dos anos, severas críticas ao modo como a religião se insere na cultura.

No entanto, menos conhecidas do que obras como Atos obsessivos e práticas religiosas, O futuro de uma ilusão, O mal-estar na cultura, Totem e Tabu ou O homem Moisés e a religião monoteísta – famosas pelo modo como se relacionam criticamente com a religião – são as cartas trocadas entre Freud e o pastor luterano, também psicanalista, Oskar Pfister, correspondência que registra o diálogo de trinta anos de amizade.

O tema da religião não passou incólume por Sigmund Freud. Especialmente as religiões monoteístas se tornaram objeto de crítica do fundador da psicanálise. A questão lançada é: as críticas provém do método psicanalítico ou da pessoa de Freud? (crédito de imagem – autoria desconhecida)
O tema da religião não passou incólume por Sigmund Freud. Especialmente as religiões monoteístas se tornaram objeto de crítica do fundador da psicanálise. A questão lançada é: as críticas provém do método psicanalítico ou da pessoa de Freud? (crédito de imagem – autoria desconhecida)

É interessante notar que, ao se relacionar com Pfister, Freud não está apenas escrevendo sobre religião, mas para um religioso, a saber, para um homem que considerava os pressupostos da psicanálise, sem que isso o impedisse de manter a sua fé religiosa.

Essa relação levou Freud a expressar-se de maneira mais fundamental e pessoal sobre os limites do ateísmo e do teísmo no que concerne a prática da psicanálise. Vejamos, por exemplo, um trecho retirado da carta enviada a Pfister em 9 de fevereiro de 1909 em que Freud deixa claro que a teoria psicanalítica não se confunde com a visão de mundo dos seus adeptos, independentemente desses serem ateus ou religiosos: “A psicanálise em si não é religiosa nem atirreligiosa, mas um instrumento apartidário do qual tanto o religioso como o laico poderão servir-se, desde que aconteça tão somente a serviço da libertação dos sofredores”.

Se Freud defende que a psicanálise compromete-se apenas com a sua função de método psicoterapêutico, poderíamos então concluir que toda crítica freudiana à religião deve ser compreendida como uma crítica estritamente pessoal do próprio Freud? Caso sim, devemos então considerar que não existiria propriamente uma crítica psicanalítica a religião, mas apenas a crítica pessoal de um psicanalista?

É exatamente isso que Freud parece querer tornar claro, quando escreve a Pfister em 26 de novembro de 1927, mencionando o livro O futuro de uma ilusão, considerado um dos seus escritos mais expressivamente contrários à religião: “Retenhamos como dado que as opiniões do meu texto não são nenhum componente do edifício da teoria analítica. É minha posição pessoal, que coincide com a de muitos não analistas e pré-analistas, e certamente também não é partilhada por muitos fiéis analistas”.

Desse modo, Freud prossegue argumentando que se em seus textos pessoais, dedicados a criticar à religião, ele utiliza certos argumentos “psicanalíticos”, isso não precisa impedir que outros psicanalistas utilizem a metodologia imparcial da análise também para um ponto de vista contrário ao seu.

Poupemo-nos, portanto, de uma pesquisa exaustiva para mostrar o que já foi dito de maneira lúcida e clara pelo próprio Freud. A psicanálise não é uma visão de mundo, mas um método de tratamento. Um método teísta? Um método ateu? Não: um método a serviço daqueles que sofrem.

Referência ao livro Totem e Tabu (2013) em que Freud descreve as semelhanças entre a vida mental dos selvagens e a dos neuróticos (crédito de imagem – autoria desconhecida)
Referência ao livro Totem e Tabu (2013) em que Freud descreve as semelhanças entre a vida mental dos selvagens e a dos neuróticos (crédito de imagem – autoria desconhecida)

II

Quem foi o pastor e psicanalista Oskar Pfister? Quais foram as suas colaborações para a psicanálise? E como ele, enquanto psicanalista, se relacionou com a crítica de Freud à religião? Essas foram algumas questões que julguei serem interessantes para qualquer psicanalista que não compartilhe de algumas das críticas pessoais que Freud direcionou a religião e que por vezes são interpretadas erroneamente em alguns meios ditos intelectuais como “críticas psicanalíticas”.

Em seu livro, A psicanálise e o religioso, o renomado psicanalista francês Philippe Julien também questiona: “O que Freud descreve sobre o religioso concerne a qualquer religião? O divino que ele descobre ‘na religiosidade’ humana será o de toda crença religiosa?”.

Julien defende que, historicamente, devemos considerar que qualquer crítica à religião é uma crítica específica a alguma forma de religião, pois não é possível sintetizar o grande universo das diversidades e divergências religiosas, presentes no mundo, apenas dentro do termo religião. A religião, nesse sentido, não existe, existem religiões, cada uma com suas diferenças e, em alguns aspectos, em contradição entre si.

Partindo das reflexões de Philippe Julien, também podemos afirmar que não existe exatamente o religioso, existem antes os religiosos, e se ampliarmos essa instigante consideração à individualidade, devemos também afirmar que não existe apenas o ateísmo, mas existem ateus, cada um com sua singularidade, visão e perspectivas.

Freud, apesar de afirmar-se como ateu, também afirmou que a psicanálise não deveria ser confundida com uma visão de mundo, pois ela repousava sobre a visão científica.

Oskar Pfister também afirma que a psicanálise não deve ser compreendida como uma visão de mundo; porém de forma mais ampla do que vemos na visão de Freud, ele incentiva e defende que a ciência e a religião podem dialogar de maneira mais complexa e menos conflitiva. Ele chega a considerar que a vivência religiosa se feita sobre bases saudáveis, pode auxiliar o homem em sua luta pulsional e capacita o Ego no cumprimento de suas funções.

É claro que sobre este vasto tema Ciência e Religião há, para além do que foi dito por Freud ou Pfister, muito mais a se dizer e a se considerar. O diálogo crítico continua em aberto! Pensar o “significante religião” enquanto aspecto clínico é uma tarefa a ser desenvolvida não por mera defesa da fé, mas em defesa da lucidez analítica; podemos, por exemplo, nos questionar se é possível utilizar alguns argumentos do edifício teórico da psicanálise para defender uma argumentação que contraponha a visão de Freud sobre a função da religião. Será que o fato da psicanálise repousar sobre a visão científica impede o desenvolvimento colaborativo entre essas duas áreas? Será neutra uma clínica que considere a prática daquele que fez opção religiosa sob o significado restrito do patológico, ao invés de investigá-la como um significante particular?

Espero que tenhamos, com o tempo, cada vez mais psicanalistas abertos para dialogar sobre isso e que saibam se pronunciar de modo a merecer crédito.

Ilustração de Deuses do Olimpo - panteão grego (autoria desconhecida)
Ilustração de Deuses do Olimpo – panteão grego (autoria desconhecida)

REFERÊNCIAS

FREUD, S. Cartas entre Freud & Pfister [1909-1939]: um diálogo entre a psicanálise e a fé cristã. In: Ernst L. Freud e Heinrich Meng (Org.). Viçosa: Ultimato, 2009.

JULIEN, P. A psicanálise e o religioso. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

KANDEL, E. Entrevista concedida a Globo News. Disponível em

<https://www.youtube.com/watch?v=E4FDDygbOMQ>. Acesso em 01 de novembro de 2020.

PESSOA, F. Citações e pensamentos. Organização Paulo Neves da Silva. São Paulo. Leya, 2011.

PFISTER, O. Cartas entre Freud & Pfister [1909-1939]: um diálogo entre a psicanálise e a fé cristã. In: Ernst L. Freud e Heinrich Meng (Org.). Viçosa: Ultimato, 2009.

Agradecemos pela leitura de nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Pedro Sá é Psicanalista Clínico com formação certificada pelo IBPC (Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica) graduado em Pedagogia pela UNEB (Universidade do Estado da Bahia – Campus VII) e Mestrando pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) no Programa de Pós-Graduação em Ensino Filosofia e História das Ciências desenvolvendo pesquisas sobre a história da psicanálise com enfoque sobre a crítica freudiana à religião e a prática da clínica psicanalítica. Atuante como Psicanalista Clínico e professor de psicanálise em modalidade presencial e on-line.

E-mail: psicanalistaclinico.sa@gmail.com

Instagram: @pedro.sa__

Whatsapp: (74) 9 9159-5237

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