,As Mulheres e os Jogos Olímpicos: Representatividade Conquistada na Raça

Por Sofia Gomes

Fundadora da Classe das Campeãs, Sofia Gomes (@sofiagcesar) conheceu o esporte aos 07 anos e nunca mais o abandonou. Desde 2019 atua como voluntária no Projeto Meninas em Campo e através de Classe das Campeãs conecta atletas olímpicas com projetos sociais de fomento ao esporte feminino de base, gerando impacto em larga escala. Já levou mais de meio milhão de reais para projetos sociais, além de co-criar campanhas com marcas interessadas em apoiar o futuro de meninas apaixonadas por esporte. Acima de tudo, acredita no esporte como poderosa ferramenta de transformação social
Fundadora da Classe das Campeãs, Sofia Gomes (@sofiagcesar) conheceu o esporte aos 07 anos e nunca mais o abandonou. Desde 2019 atua como voluntária no Projeto Meninas em Campo e através de Classe das Campeãs conecta atletas olímpicas com projetos sociais de fomento ao esporte feminino de base, gerando impacto em larga escala. Já levou mais de meio milhão de reais para projetos sociais, além de co-criar campanhas com marcas interessadas em apoiar o futuro de meninas apaixonadas por esporte. Acima de tudo, acredita no esporte como poderosa ferramenta de transformação social

Depois de um ano e meio de pandemia, precisamos confessar que o mundo estava carente de momentos de celebração. Em tempos onde as fronteiras parecem crescer cada vez mais entre países, compartilhar esforços e interesses celebrando as conquistas humanas é uma pitada de vida no meio de tanto medo e morte.

Eu, particularmente, sempre fui apaixonada por esportes, mas confesso que havia algum tempo que não me animava para assistir competições esportivas em geral. Mas as Olimpíadas são raras, especiais, produtos do nosso tempo. Em particular, essa edição: pela primeira vez, tivemos participação igual entre homens e mulheres. Quase metade dos participantes são mulheres, e isso sim é inédito.

Tóquio 2020 ficará na história como os Jogos que marcaram a equidade de gênero, tendo 49% de representação feminina. Delegações como Grã-Bretanha, China e Estados Unidos aterrissaram em Tóquio com mais mulheres do que homens. Um marco que merece ser celebrado, afinal, foi um longo caminho para que chegássemos até aqui.

Naomi Osaka caminha para acender a chama Olímpica e oficializar o início dos Jogos, durante Cerimônia de Abertura. Uma longa caminhada para que chegássemos até aqui
Naomi Osaka caminha para acender a chama Olímpica e oficializar o início dos Jogos, durante Cerimônia de Abertura. Uma longa caminhada para que chegássemos até aqui

Os Jogos Olímpicos também representam um dos raros momentos no esporte onde as mulheres são igualmente valorizadas em termos de visibilidade e premiações pagas. Fora do Circuito Olímpico, por exemplo, a cobertura de mídia em esportes feminino fica em torno de 7%. Elas são quase invisíveis.


Você pode imaginar que a participação feminina nos Jogos, no entanto, nem sempre foi celebrada como é hoje. No passado, as mulheres sequer tinham permissão para competir ou assistir às Olimpíadas.

Na primeira edição dos Jogos Modernos, em 1896, não houve participação feminina. Os idealizadores acreditavam que as mulheres vulgarizariam um ambiente cheio de “honras e conquistas”.

Estádio Olímpico em Atenas, 1986. Nenhuma mulher permitida
Estádio Olímpico em Atenas, 1986. Nenhuma mulher permitida

Pierre de Fredy, o Barão de Coubertin e fundador dos jogos Olímpicos, considerava os jogos um ambiente apropriado para representar a figura competitiva do homem, por relacioná-lo com as questões do uso da força, virilidade e coragem – cabendo às mulheres somente coroar os vencedores.

Como a história nos mostra, a presença feminina nunca é garantida, e os espaços que ocupamos hoje são fruto de uma batalha muito anterior. Se hoje votamos, disputamos Olímpiadas, fazemos arte e temos autonomia para trabalhar livremente é porque lá atrás – sabemos – houve muita luta para que esses espaços fossem conquistados. E vale lembrar que nenhuma conquista é permanente. É preciso estarmos alertas o tempo todo. Simone de Beauvoir, filósofa existencialista nascida no início de 1900 tem uma frase que nos serve muito bem até hoje:

“Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. A vigilância deve ser constante. “

E deve mesmo. O caso mais recente está no Afeganistão: bastou a crise político-religiosa para que houvesse a ascensão do Taleban e a consequente retirada do direito das mulheres. Esse é o mundo em que vivemos em 2021. O jornal Marca – um dos mais tradicionais veículos esportivos da Espanha – destacou a capa com uma jogadora afegã e a chamada “Qué va a ser de ellas?”, na tradução:  O que será delas?

O que será delas?
O que será delas?

O Taleban impôs novamente seu regime de terror, que destrói o direito das mulheres, inclusive o de fazer esporte.

A história, no entanto, é também feita por mulheres pioneiras, que um dia não aceitaram as limitações impostas e abriram o caminho para que pudéssemos aterrissar em Tóquio-2020 com algum nível de equidade.

STAMATA REVITHI É O NOME DELA

Há exatos 125 anos, no dia 06 de Abril de 1896 começou, em Atenas, a disputa da primeira Olimpíada da Era Moderna – exatamente dois anos após a fundação do Comitê Olímpico Internacional por Pierre de Coubertin.

Somente cidadãos gregos tinham o direito de disputar e assistir aos Jogos Olímpicos. Ou seja, todo o espetáculo era apenas para homens livres e nascidos na Grécia. Nada de novo no front.

Pierre de Coubertin ainda não sabia, mas a história estava prestes a mudar porque havia uma grega chamada Stamata Revithi que disposta a desafiar as regras impostas pelo barão.

Única imagem encontrada de Stamata Ravithi. Ela está descalça e com os calçados nas mãos
Única imagem encontrada de Stamata Ravithi. Ela está descalça e com os calçados nas mãos

Na primeira edição dos Jogos na Era Moderna, Stamata quis participar da maratona – a prova mais tradicional da Olimpíada. Os organizadores a negaram como competidora, mas Stamata apareceu em meio aos atletas no local de largada, diante de uma igreja à espera da bênção do padre, para que todos pudessem iniciar o percurso. O padre se recusou a benzê-la e ela acabou impedida de correr.

No dia seguinte, Ravithi decidiu que faria ela própria a rota da maratona, com ou sem o aceite dos organizadores. Conseguiu a assinatura de muitas pessoas para comprovar sua largada às 8h30 da manhã daquele dia. Às 11h30, ela chegou ao estádio Panathinaiko, o ponto de chegada oficial da maratona – mas também foi, mais uma vez, impedida de entrar.

Seu tempo foi melhor que o de muitos homens que correram a prova oficial no dia anterior, mas isso não foi suficiente para que fossem feitos registros oficiais de Stamata Revithi, certamente em uma tentativa de apagar sua conquista da história. Demorou mais de 70 anos até que uma mulher pudesse correr oficialmente uma maratona – somente na Maratona de Boston, em 1967. E ela só pôde correr pois escondeu seu gênero em seu registro. Ainda assim, alguns homens tentaram impedir que ela finalizasse a prova.

Homens tentam forçar Kathrine Switzer fora do percurso da maratona de Boston, em 1967. K. Switzer foi a primeira mulher a correr uma maratona oficialmente – não porque abriram as inscrições para mulheres, mas sim por ela ter decidido correr de qualquer forma
Homens tentam forçar Kathrine Switzer fora do percurso da maratona de Boston, em 1967. K. Switzer foi a primeira mulher a correr uma maratona oficialmente – não porque abriram as inscrições para mulheres, mas sim por ela ter decidido correr de qualquer forma

Apenas em 1984 elas foram aceitas para competir essa prova nos Jogos Olímpicos. Isso mesmo: 1984. Não precisamos ir muito longe na história para ver que mulheres, de fato, não eram bem vindas e tiverem que – em duros e lentos passos – cavar seu espaço nas modalidades que desejassem competir.

A TRAGÉDIA GREGA

Nossa pioneira Stamata Ravithi, após desafiar os Jogos gregos e correr sua maratona de forma extra oficial, passou a ser chamada de Melpomene, em uma tentativa dos homens para não mencionar seu nome no curso da história.

Melpomene é a Deusa grega da Tragédia. Dizem que o fizeram para que se marcasse o drama e o infortúnio que seria ter uma mulher participando dos Jogos.

Representação da Deusa Grega, Melpomene. Seu símbolo é a máscara da tragédia
Representação da Deusa Grega, Melpomene. Seu símbolo é a máscara da tragédia

Para infelicidade dos gregos da época, foi tudo em vão. A coragem de Stamata Ravithi não teve reconhecimento internacional, mas provocou o início de uma onda de mulheres que viriam buscar seus espaços para ingressar, gradualmente, em competições oficiais.

Apesar das inúmeras tentativas de eliminá-la, Stamata está na história como a primeira mulher a enfrentar os obstáculos esportivos da era moderna, abrindo os caminhos para muitas outras.

O LEGADO DE STAMATA E OS JOGOS OLÍMPICOS DAS MULHERES

A ideia de exclusão nunca foi aceita pelas mulheres, e uma delas – para garantir representatividade feminina no esporte – decidiu criar os Jogos Olímpicos das Mulheres em 1921.

Alice Milliat estudou para ser professora e foi sempre muito ativa nos esportes, sendo praticante de remo. Ela passou a reinvidicar uma maior participação feminina na Olimpíada, já que até então as mulheres eram aceitas somente em esportes considerados “adequados” para elas: golfe, tênis, tiro com arco, natação, patinação e esgrima.

Alice Milliat
Alice Milliat

Foi em 1919 que Milliat foi até o Comitê Olímpico Internacional pedir a inclusão do atletismo feminino no programa das Olimpíadas. A resposta foi um uníssono “Não”.

O resultado? Mais protagonismo feminino. De acordo com Alice, foi isso que a motivou a criar os Jogos Olímpicos das Mulheres.

A primeira edição aconteceu em 1922, em Mônaco, e contou com a participação de delegações femininas da França, Inglaterra, Itália, Noruega e Suécia.

Delegação inglesa desfila na abertura dos Jogos Olímpicos das Mulheres, em 1922
Delegação inglesa desfila na abertura dos Jogos Olímpicos das Mulheres, em 1922

No ano seguinte, foram 38 países de 5 continentes que se afiliaram à organização também fundada por Melliat – a Federação Esportiva Feminina, FSFI – onde foi decidido que os Jogos Olímpicos das Mulheres seriam realizados de quatro em quatro anos, deixando óbvia a disputa com o Barão.

Isso aconteceu entre 1922 e 1934, e as edições olímpicas feminina reuniram centenas de atletas e milhares de torcedores. Houve até mesmo um jornal parisiense comparando o sucesso da competição idealizada por Milliat com o da Olimpíada criada pelo barão Coubertin.

Entre 1920 e 1930, a iniciativa de Alice foi a que mais incentivou mulheres no esporte, enquanto o COI (Comitê Olímpico Internacional) ainda fechava os olhos para a representação feminina nos Jogos.

Somente em 2012, finalmente, houve pela primeira vez igualdade nas modalidades oferecidas nas Olimpíadas entre homens e mulheres. Com a inclusão do boxe feminino, quase 130 anos após o início dos Jogos Olímpicos, é possível dizer que chegamos em algum lugar de equidade entre homens e mulheres na história dos Jogos.

Beatriz Ferreira, bicampeã mundial e prata em Tóquio: a primeira medalha olímpica da história do Brasil no boxe feminino
Beatriz Ferreira, bicampeã mundial e prata em Tóquio: a primeira medalha olímpica da história do Brasil no boxe feminino

Foram 130 anos de lutas, reivindicações e muita coragem para que as mulheres pudessem, hoje, representar quase metade dos participantes das Olímpiadas de Tóquio 2020. A igualdade nas premiações também foi uma conquista importante, bem como o direito de assistir aos Jogos. São tantas coisas que parecem óbvias, mas que até ontem nos eram negadas.

AS MULHERES DO BRASIL

Em Tóquio, foram 140 atletas (o equivalente a 46,5% da delegação nacional) que competiram em vinte modalidades. Para efeito de comparação, nos Jogos de Tóquio em 1964, também realizados no Japão, houve apenas uma representante entre 67 homens – a carioca Aída dos Santos, que conquistou o quarto lugar no salto em altura. Para se ter uma ideia, Aída foi para Tóquio sem patrocinador, e sem roupa para competir. A Delegação Brasileira nem sequer providenciou o material necessário para os treinos, e Aída participou das provas sem técnico. Ela teve que improvisar absolutamente tudo para conseguir saltar do outro lado do mundo, representando o nosso país.

Aída dos Santos saltando em Tóquio, em 1964
Aída dos Santos saltando em Tóquio, em 1964

A nadadora Maria Lenk foi a primeira representante feminina do país em Jogos Olímpicos, no ano de 1932, três décadas após a estreia das mulheres em Olimpíadas. O Brasil foi o campeão no quesito atraso na inclusão das mulheres nos Jogos, e mesmo no final dos anos 60, enquanto atletas de diversas partes do mundo passaram a responder por 14% do total de competidores, no Brasil o índice havia estacionado em torno de 1%.

Maria Lenk, aos 17 anos: a única mulher da delegação brasileira nos jogos de Los Angeles-1932
Maria Lenk, aos 17 anos: a única mulher da delegação brasileira nos jogos de Los Angeles-1932

A situação só melhorou na década de 80, quando o Comitê Olímpico Brasileiro percebeu que elas poderiam ser boas provedoras de medalhas, e em 2004 as mulheres representaram quase metade da equipe nacional.

O FUTURO É BRILHANTE, MAS O PRESENTE AINDA É PASSADO

O lema dos Jogos de Tóquio 2020 é a Diversidade e a Igualdade – mas o caminho até aqui não foi nada fácil, e, apesar dos importantes avanços e direitos conquistados, ainda há muito pela frente.

Fora do espírito de igualdade e união de Tóquio, algumas das cabeças que decidem as regras e as autoridades das principais entidades esportivas do mundo, ainda dão muita bola fora. Infelizmente, temos um exemplo recente disso dentro de casa: Rogério Caboclo, presidente da Confederação Brasileira de Futebol – acusado de assédio sexual com provas – foi afastado por um ano da CBF, podendo retornar ao cargo no futuro.

Quando o assunto é Comitê Olímpico Internacional, apenas um terço dos membros do board são mulheres, e o Chefe dos Jogos de Tóquio foi afastado em Fevereiro após dizer que “mulheres falam demais”.

Yoshiro Mori, o Chefe dos Jogos de Tóquio, afastado após declaração machista
Yoshiro Mori, o Chefe dos Jogos de Tóquio, afastado após declaração machista

Por mais que as conquistas sejam visíveis, ainda há um longo caminho pela frente até que se estabeleça – de fato – um lugar de profunda igualdade que transpasse apenas números de mulheres em competições. Para chegarmos lá, é preciso que as cabeças por trás dessas entidades estejam, também, verdadeiramente comprometidas em promover um real espaço de inclusão, visibilidade, valorização e respeito para mulheres na sociedade, e, consequentemente, também no esporte.

REFERENCIAS

Jefferson Lenskyj, Helen. Gender Politics and the Olympic Industry. Palgrave/MacMillan 2013

Wamsley, Kevin B. “The global sport monopoly: a synopsis of 20th century Olympic politics” International Journal 57.3 (Summer 2002): 395-410.

Oliveira G, Cherem EHL, Tubino MJG. A inserção histórica da mulher no esporte. R. bras. Ci e Mov. 2008; 16(2): 117-125.

https://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/08/as-mulheres-que-desafiaram-a-logica-e-mudaram-a-historia-do-esporte/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Melpômene

https://en.wikipedia.org/wiki/Stamata_Revithi

https://www.sbs.com.au/topics/zela/article/2016/05/03/women-olympic-games-uninteresting-unaesthetic-incorrect

https://veja.abril.com.br/esporte/nos-resultados-e-causas-a-extraordinaria-participacao-feminina-em-toquio/https://istoe.com.br/presidente-do-comite-de-toquio-2020-descarta-renuncia-apos-declaracoes-machistas/

Agradecemos pela leitura de nosso ensaio.

,Sobre a autora:

Para conhecer Sofia, seu trabalho e vocação: 
@classedascampeas

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www.classedascampeas.com.br

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