,Piss Christ – Entendendo a Obra Mais Polêmica de Andres Serrano.

Por Luca Giacaglia

Andres Serrano - o pintor que tem na câmera fotográfica seu pincel
Andres Serrano – o pintor que tem na câmera fotográfica seu pincel

Piss Christ (1987), a obra mais icônica (por bem ou por mal) de Andres Serrano possui uma fama que a precede. Seu conteúdo, seu objeto, é considerado extremamente indigesto e de mau-gosto até mesmo para alguns apreciadores de arte. Entretanto, por trás da superficialidade da polêmica, existe todo um estudo e um motivo, um acúmulo de ideias, técnicas e iconografias resultadas de anos de experimentação e exploração por parte do artista que provam que, assim como uma fotografia não é só a imagem exposta e final, Piss Christ não pode ser resumido exclusivamente a controvérsias.

Andres Serrano é um fotógrafo estadunidense de família hondurenha e afro-cubana, nascido nos anos 50. Serrano tem uma forte ligação com a estética, a iconografia e os rituais da igreja Católica Apostólica Romana, influenciado tanto por sua mãe, religiosa, e pela comunidade Ítalo-Americana do bairro onde cresceu no Brooklyn quanto pelas pinturas e esculturas renascentistas e barrocas expostas no Metropolitan Museum of Art (MET), pelas quais era obcecado em sua juventude.

Cresceu em um período de grandes tumultos e revoluções culturais norte-americanas, como, por exemplo, os Protestos de Stonewall que trouxeram a causa LGBT à público, a transição da geração Beatnik para o movimento Punk e também a ascensão do culto à personalidade, fama, dinheiro e ostentação como representados pelo auge do clube Studio 54 e da Pop Art de Andy Warhol. Contemporâneo de artistas fotógrafos como Robert Mapplethorpe e David Wojnarowicz, junto deles, pode ter seu trabalho classificado como parte dos movimentos Shock Art ou Transgressive Art, onde o objetivo principal é chocar o espectador e transgredir os parâmetros daquilo que pode ser considerado como arte (entretanto, o próprio Serrano considera que seu trabalho se descreve melhor como Arte Conceitual). 

De fato, Serrano explora diversas temáticas que podem ser consideradas insalubres pelo público e pelos críticos de arte, como exploraremos a seguir. Entretanto, apesar do conteúdo de suas obras ser deveras chocante, é relevante comentar que as técnicas empregadas por ele para obter os resultados finais também são de grande interesse. Principalmente, o uso de objetos e materiais atípicos como cabeças de boi, cadáveres, sangue, urina e sêmem, além da montagem das composições e da manipulação da iluminação através do uso de acrílico plástico e da impressão em ilfochrome para emular as obras Barrocas que o influenciaram, com uma preferência por cores vivas e alto contraste. Se recusando a manipular a imagem após a foto tirada, todo e qualquer efeito de sombra, luz e exposição é resultado direto do processo da fotografia em si. Serrano, inclusive, não se considera fotógrafo, e sim um pintor que tem como pincel a máquina fotográfica.

Para a estruturação deste texto, e o argumento que pretende ser feito, seguiremos os períodos do artista como divididos por seu site oficial (http://www.andresserrano.org/).

CABEZA DE VACA, 1984. Ilfochrome, 114.8 x 165.1cm
CABEZA DE VACA
1984
Ilfochrome
114.8 x 165.1cm

Primeiros Trabalhos (1984-1987)

Logo em seus primeiros trabalhos é possível observar algumas que viriam a ser características consistentes das obras de Serrano ao longo de sua carreira: As cores vivas, o uso de objetos inusitados e grotescos e as composições que referenciam o período barroco, além, é claro, do uso de iconografia sagrada e simbolismo religioso de maneira transgressora e polêmica. Neste período já é possível observar o simbolismo religioso, como exemplificado pelo sacrifício do bezerro em Cabeza de Vaca (1984), encarando o espectador, do alto de um altar de mármore. Em Heaven and Hell (1984) fica bem clara a crítica à religião organizada e a maneira como ela trata suas fiéis mulheres. Serrano comenta aqui que a Igreja não as enxerga como pessoas e sim como objetos (sangue real é usado no corpo da modelo). Entretanto, o uso de seu colega artista e ativista político Leon Golub no papel do cardeal faz alguns críticos levantarem a possibilidade destas obras também comentarem a sociedade artística e a maneira como ela trata seus membros, também minorias políticas. Em Blood Cross (1985), Serrano enche um tanque de acrílico plástico no formato de uma cruz com sangue de boi, a ponto de vazar pelas extremidades. O artista diz querer comentar a dualidade da Igreja ao reverenciar o sangue de Cristo ao mesmo tempo que repudia a natureza física do mesmo, temática que voltaria a trabalhar futuramente.

SEMEN AND BLOOD III, 1990, Ilfochrome, 68.58 x 100.33cm
SEMEN AND BLOOD III
1990
Ilfochrome
68.58 x 100.33cm

Bodily Fluids (1986-1990)

Em sua série subsequente Bodily Fluids, Serrano faz uso de fluidos corporais, especificamente o uso de sangue, sêmem, urina e leite, para explorar composição, textura, cores e iluminação em suas fotografias, muitas vezes misturando dois ou mais destes fluidos (como leite e sangue, sangue e urina e sêmem e sangue) para entender as interações destes entre si e os resultados disso na câmera. Aqui, suas obras passam a ter qualidade de pinturas abstratas. Ou como o próprio Serrano coloca, são peças de anti-fotografia, eliminando cenários, foco, sujeitos, objetos e perspectivas para pintar obras conceituais com a câmera. Uma das interpretações recorrentes dessa série, melhor representada por Blood and Semen V (1987), que mistura sangue e sêmem, é a crescente preocupação com a crise de AIDS, e consequentemente o preconceito com indivíduos soropositivos (e a comunidade LGBTQIA+), que se tornou um assunto público nos EUA por volta da década de 1980. Tanto Semen and Blood III (1990) quanto Piss Blood XXVI (1997) foram licenciadas como capas para os álbuns Load (1996) e ReLoad (1997) da banda de thrash metal, Metallica.

RED POPE I, II AND III, 1990, Ilfochrome, 114 x 268cm
RED POPE I, II AND III
1990
Ilfochrome
114 x 268cm

Immersions (1997-1990)

Misturando as referências Barrocas, as imagens religiosas e a experimentação de iluminação e textura dos fluídos corporais, conceitos de suas últimas duas séries, não é exagero argumentar que a série Immersions, sua mais famosa e polêmica, é a culminação de todos seus trabalhos até então. A série é composta de diferentes figuras de silicone, geralmente peças religiosas ou reproduções de esculturas clássicas (como O Pensador, por exemplo), submersas em um tanque de acrílico plástico preenchido com algum fluido: água (substituindo o leite de Bodily Functions) usado principalmente em suas fotografias monocromáticas como Black Mary (1990), sangue, como em Red Pope I, II and III (1990), urina, como em Madonna and Child II (1989), sêmem ou uma mistura de dois ou mais destes. Nesta série, os fluidos humanos podem ser vistos com dupla função, tanto como um filtro de luz, colorindo as figuras de silicone e dando textura às imagens, como quanto comentário social, retomando a ideia de humanizar o divino. Todos elementos que são melhores exemplificados pela obra mais emblemática deste período e, discutivelmente, do artista em si, Piss Christ.

PISS CHRIST, 1987, Ilfochrome, 152.4 x 101.6cm
PISS CHRIST
1987
Ilfochrome
152.4 x 101.6cm

Piss Christ (1987)

A obra mais famosa e mais controversa de Serrano, responsável por alavancar sua carreira a nível internacional e torná-lo alvo de ataques e ameaças de morte de grupos religiosos e conservadores, além de senadores e políticos que usaram a obra como peça central nas chamadas “guerras culturais” dos anos 90, argumentando-se um limite para a liberdade artística de expressão e o fim de financiamento público para a produção de obras consideradas “degeneradas” ou “blasfêmias”. Nela, um crucifixo é submergido em um tanque de acrílico plástico preenchido com urina, presumidamente, do próprio artista.

Apesar de seu fator de choque, muitas vezes considerada a obra representativa do movimento Shock Art, Serrano, ainda devoto Cristão, argumenta que ela é tanto uma crítica quanto uma obra de devoção. O autor explica que a fotografia simboliza a maneira como Jesus morreu, humano, coberto de sangue e muito provavelmente também de fezes e urina, humilhado e torturado por horas e deixado para morrer, sem forças para controlar suas funções corporais. Afinal, Jesus era divino, parte da Santíssima Trindade, composta por Pai, Filho e Espírito Santo, todos aspectos de um único Deus, mas também era humano, feito de carne e osso, nascido de uma mulher terrena como outra criança qualquer. O que Serrano argumenta aqui, é que a Igreja enquanto instituição, parece se esquecer das implicações deste segundo aspecto.

O artista sugere também que a obra é uma crítica da comercialização da religião através da produção em massa de souvenirs baratos, questionando se ainda se enxerga os horrores que a imagem da crucificação representa.

Em um âmbito puramente estético, se elogia muito a iluminação da fotografia, que consegue capturar uma feixo de luz que se assemelha às representações artísticas renascentistas e barrocas de uma aura divina que desce dos céus. O que torna Piss Christ inquestionavelmente uma obra de arte é exatamente este cuidado com a composição, a qualidade técnica e a maestria estética do trabalho final.

Curiosamente, mesmo sendo peça central de uma polêmica que chegou ao senado estadunidense, discutindo-se os limites da arte e da liberdade de expressão, sendo alvo de diversos políticos e grupos conservadores e religiosos, foi esta mesma polêmica que alavancou a carreira do artista, levando-o de uma única galeria em Nova York para salões, museus, catálogos e exposições ao redor do mundo, fechando contratos com bandas de rock e marcas de roupa para a reprodução de suas obras e elevando significativamente o valor das suas obras e de sua marca pessoal, além de gravar definitivamente seu nome como parte da história da arte moderna.

Piss Christ, e consequentemente diversas outras obras da série Immersions podem ser consideradas a culminação de seus trabalhos e suas ideias exploradas até então, pois trazem a experimentação técnica de Bodily Fluids com os comentários e as críticas religiosas e sociais de seus primeiros trabalhos. É compreensível o tipo de reação que esta obra causa, o uso de iconografia religiosa, especialmente cristã-católica, e a difamação do sagrado continuam sendo assuntos polêmicos em um mundo cada vez mais vocal em seu conservadorismo. Entretanto, a crítica feita pelo artista é extremamente relevante, exatamente por ser consequência direta desse preciosismo com a imagem e o simbolismo do apostólico-romano. Ademais, enquanto existirem tabus, existirão artistas dispostos a questioná-los. Esta é uma das certezas da arte.

Trabalhos Recentes

Depois de Piss Christ e a conclusão de sua série Immersions, Serrano, que é ativo até hoje, continua explorando suas influências artísticas através da fotografia, temáticas consideradas tabus, críticas sociais e a multiculturalidade de si e do mundo que o cerca. Entre suas séries mais interessantes pós-Piss Christ, estão:

The Klan (1990): Retratos de membros da ordem Ku Klux Klan, uma série especialmente interessante não só pelo sigilo dos membros da ordem secreta, mas também pelo fato de Serrano, por não ser branco e especialmente logo após a controvérsia de Piss Christ, ser considerado um inimigo do Klan.

The Morgue (1992): Serrano em sua fase mais barroca, fotografando corpos em um necrotério, em poses, composições e jogos de luz que remetem aos chiaroscuros de Caravaggio.

A History of Sex (1995-1996): Retratos de indivíduos de diferentes identidades sexuais que são considerados de uma forma ou outra, tabus pela sociedade. Casais homossexuais, pessoas transgêneras, com algum tipo de deficiência física, idosos ou simplesmente praticantes de alguma modalidade sexual fora do “usual”.

America (2001-2004): Série realizada logo após os ataques de onze de setembro às Torres Gêmeas e a onda de terror e suspeita que varreu os Estados Unidos e grande parte do mundo ocidental logo em seguida, são retratos do que Serrano considera as diferentes faces e a multiculturalidade de seu país natal. Nesta série podemos ver, entre outras coisas, um escoteiro, um bombeiro, uma carteira, um cozinheiro, um palhaço, uma devota do Islamismo, um bispo da igreja ortodóxa russa, uma homem em situação de rua, uma rainha de rodeio, um praticante de BDSM, uma nativo americana, um imigrante mexicano, um cafetão, um veterano de guerra e uma vencedora de um concurso de beleza mirim e uma sobrevivente de Auschwitz, além de personalidades como B.B. King, Donald Trump, Snoop Dogg, Anna Nicole-Smith e Yoko Ono.

Shit (2007): Uma série de fotografias de fezes animais e humanas.

Infamous (2019): Sua série mais recente, fotografias de objetos históricos ligados ao ódio, principalmente racismo, como bonecos, brinquedos, e produtos da época das leis de Jim Crow, além de vestimentas e bandeiras Nazistas e do Klu Klux Klan.

Fontes:

http://www.andresserrano.org/

http://www.artnet.com/artists/andres-serrano/

https://www.theartstory.org/artist/serrano-andres/life-and-legacy/

https://www.theartstory.org/artist/serrano-andres/

https://www.widewalls.ch/magazine/shocking-photographs-andres-serrano

Agradecemos pela leitura de nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Luca Giacaglia é Mestrando em Artes Visuais com foco em Curadoria, formado em Design Gráfico, artista e músico.

Instagram: @luca_loucura

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