,Crítica: A Desumanização

Por Marcio Tito

Sucesso de público e crítica - A Desumanização
Sucesso de público e crítica – A Desumanização

Teatro de capa dura:

O espetáculo “A Desumanização”, adaptação cênica para o romance de mesmo nome, é o marcador sensível de todos os tempos.

Ressignificada a mais particular e profunda cosmogonia, também espedicionada e encontrada uma determinante qualidade estética, sob os perigos de uma corajosa e multidisciplinar pesquisa de cena, mostra-se no palco uma raríssima equalização daquilo que seria o supremo expediente das artes: revisão e método em cada partícula de uma obra mortalmente engajada na entrega, sem vaidade ou assinatura excessiva, de um atual e antigo mistério endereçado somente ao público presente.

A eterna tensão entre vida e morte; o nosso devir; inferno e céu; todas as esperanças da existência; sermos menos ou sermos ninguém, são algumas das dimensões de nossa idiossincrasia presentes, não apenas naquilo que está narrado ou encenado, mas no que apreende-se enquanto significante da experiência livro-cênica teatral evocada pelo espetáculo.

Estão inscritas nas cenas desta prosa encenada as estruturas orgânicas capazes de convergir nossa experiência ao centro do primeiro coração da humanidade. Um raro estado não passivo diante da beleza, mas emergencialmente submisso às palavras e ao código da língua, assumem numa revelação visual, verbal e teatralizada, aquilo que seria o espírito da parnasiana, dramática e felizmente sonora língua portuguesa (no contexto da experiência de duas estrangeiras estranhas ao idioma).

Ser, nascer, encontrar histórias, guardar coisas e memórias, perder-se de tudo e morrer. Então nos diga qual será a maior utopia após o corpo? Qual outra utopia para além do corpo? Corpos misturam-se após algum nível de vínculo?

Maria Helena Chira, Fernanda Nobre e José Roberto Jardim - protagonista de um teatro futuro
Maria Helena Chira, Fernanda Nobre e José Roberto Jardim – protagonistas de um teatro futuro

Livro na ribalta:

Qualquer leitor ou leitora que tenha buscado compreender a mecânica de ler, que é propriamente ver na mente o que se lê, e ouvir a si enquanto procura-se algum significado para caracteres que não significam por si, poderá encontrar em “A Desumanização” um novo contrato entre ver, ouvir a própria voz de leitor e ressignificar o projeto de quem escreveu.

“A Desumanização”, o espetáculo, é aquilo que não se vê e se vê, embora esteja posto concretamente em cena. É a névoa colorida, translúcida e incontrolável dentro da imaginação de quem lê, sobretudo vertida enquanto disciplina fantasmagoricamente encenada.

Aquela cena embasada entre compreendermos e sentirmos a leitura, aquela névoa rarefeita e suficientemente significativa para assumirmos que páginas são pessoas, coisas e lugares, ganha ao dar de encontro com duas atrizes capazes de flutuar suas personagens dentro de apartamentos que, talvez, pelo formato de “u” quadrado também pudessem representar os vãos de uma estante sem livros, porém preenchidas com histórias.

Adaptar é manter o palavreado e sistematizar outras ações para as palavras mantidas. Kubrick fez assim com seu “Laranja”, José Roberto faz assim no seu “A Desumanização”, afinal, não se adapta um livro para o teatro, apenas realoca-se a mídia do livro ao tempo espaço da cena.

Não deixa de ser livro porque é peça, nem torna-se peça pelo expediente de não ser livro. Eis o instante qual borramos em festa as fronteiras entre os suportes. Palco e livro transformam-se nas mesmas coisas. Sendo e não sendo o que são e não são. Vale dizer que não estamos submissos ao abobalhamento pós-moderno ferrado na estúpida ideia de morte às “receitas” e aos limites de cada área, mas estamos, novamente, em festa porque está conquistada a soberania das artes: borrar fronteiras não para desaparecer com o já criado, nem para parir no século XXI um Frankenstein estético. O que está dado neste sucesso é uma renovada via. A vida do encontro, não da fusão estéril.

O teatro que é teatro e livro. O volume que é prosa, cena, leitura extraída do gesto de quem lê.

O espetáculo não está num terceiro produto. Não está num divórcio. Não está num acordo. Porque é também a história do encontro entre o Teatro e um Livro. Além de fabular a impressionante narrativa que procuraremos abaixo.

Mito novo, mitologia renovada:

Todas as culturas, preservadas ou não pelas civilizações seguintes, criaram e recriaram, dentro das mais diversas e variadas linguagens, lendas, mitologias e crenças capazes de transformar memória em arquétipo.

Incontáveis casos de crianças gêmeas atravessam o imaginário ocidental, oriental, do médio oriente e além. Crianças repetidas, almas separadas, gente que teria morrido ao mesmo tempo noutra vida, irmãos e irmãs que tivessem vivido algum desencontro noutra realidade. Não há fim para tudo o que está especulado quando o assunto é o nascimento de pessoas cuja fisionomia apareceu dobrada na barriga da mãe.

Contudo, após apreciarmos o espetáculo, parece acontecer em nós uma completa substituição do já conhecido, transformando as personagens de “A Desumanização” nas mais significativas e únicas irmãs gêmeas da história da literatura e do pensamento.

Vater Hugo Mãe - Renovador de mitologias
Vater Hugo Mãe – Renovador de mitologias

Elenco:

Sir Arthur Conan Doyle, através de seu genial Sherlock Holmes, resolvera o que seria o maior marcador para identificarmos um ou uma artista – a qualidade de saber parar.

Doyle, em algum de seus contos de mistério, credita a prisão de um criminoso ao fato do bandido, após a reparação de um crime perfeito, ter seguido na melhoria daquilo que já seria suficiente. “O senhor, fosse um artista, teria sabido a hora de parar”.

Tal passagem me ocorre porque Fernanda Nobre e Maria Chira, dentro de um apuradíssimo bom gosto e refinamento, souberam a hora de parar. Não transformaram semelhanças em caricatura, não transformaram seus dramas em dramaticidade, não entregaram a fábula antes de entregar o que de fato assina a montagem: um significante capaz de não dizer com metáfora, mas permanentemente capaz de metaforizar por meio de impressões e sensações o significado maior.

A chave no tempo:

Embora tecnologicamente expressivo, num outro acerto similar ao supra citado excerto de Conan Doyle, o espetáculo não se torna opulento na direção de impressionar visualmente quem vê, como fosse uma catedral belíssima onde não se vê, mas teme-se a presença de um Deus. A conjuntura tecnológica está absolutamente inscrita, mais uma vez, nos significantes e não no projeto narrativo, ou seja, é uma baliza para a moldura que sequestra nosso cognitivo e visita a nossa emoção.

Retorno ao truque:

O trabalho acontece pela perpétua vocação de sua disposição ao equilíbrio enquanto tônica entre as forças visuais. A estrutura narrativa e dialógica, espaço, cores e trilha também ativa nos sentidos uma especial vibração entre compreensão e sensação. Sem este triunfo torna-se um trabalho esquemático, “A Desumanização” brilha sua flecha em direção ao próximo teatro do século XXI, um teatro que retomará o “truque” enquanto instinto da cena.

A falta de truque tem sido uma doença da cena contemporânea. A dureza indevidamente posta em cena procura impressionar por meio de um documento que, programado para não driblar os sentidos, enxerga-se “honesto” justamente por isso. A “verdade” do real atrapalhando a “verdade” da cena tem quebrado a expectativa de um público que visita a caixa preta não para ver um coelho sair da cartola, mas para ser também, a um só tempo, cartola e coelho nas mãos de artistas que manipulam magias.

Importante espetáculo que internacionaliza outra vez a latência do diretor José Roberto Jardim, desta vez elegendo o português Valter Hugo Mãe enquanto matéria principal e, sobretudo, enquanto paradoxo de uma encenação livre ao ponto de revisar procedimentos da obra do diretor  (sem com isso deixar de crer outras condições dentro da obra).

Uma das mais profundas e contemporâneas produções dos mais recentes anos do teatro brasileiro e do mundo, capaz de reunir não apenas tendências, mas os valores criativos que definirão o que haverá de mais especial no teatro do futuro. É tendência e influência. Não apenas uma percepção, mas principalmente e essencialmente uma instituição entre mitologia, teatro, livro e as demais artes capazes de transformar o tempo…

… em momento.

O Centro Cultural Banco do Brasil RJ - reduto de artes e programação impecável
O Centro Cultural Banco do Brasil RJ – reduto de artes e programação impecável

FICHA TÉCNICA

De Valter Hugo Mãe
Direção:  José Roberto Jardim
Adaptação:  Fernando Paz
Elenco:  Fernanda Nobre e Maria Helena Chira
Música Original: Marcelo Pellegrini
Desenho de Luz: Wagner Freire
Coordenação de Produção:  Mônica Guimarães
Cenografia:  Belisa Pelizaro
Figurinos: João Pimenta
Videografismo e videomapping: André Grynwask e Pri Argoud (Um Cafofo)
Visagismo: Leopoldo Pacheco
Assistência de Direção: Louise Belmonte
Produção Executiva: Lívia Pinheiro
Administração: Julia Sousa
Assistência de Cenografia: Mariana Godone
Fotos: Victor Iemini
Idealização do Projeto: Maria Helena Chira
Realização: MoG Produtora
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Agradecemos pela leitura de nossa crítica.

,Sobre o autor:

Marcio Tito é dramaturgo e diretor teatral, além de editor e entrevistador no site Deus Ateu (www.deusateu.com.br).

Instagram: @marciotitop

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