,Crítica: Um Picasso – Grupo Tapa

Por Marcio Tito

Jovem clássico do Grupo Tapa
Jovem clássico do Grupo Tapa

O que se pode pensar:

As ditaduras talvez não sejam sempre parecidas entre si, contudo, seus executores, burocratas e paus-mandados em geral, não fosse pelo detalhe ou da etnia ou da língua, seriam sempre assim: sordidamente idênticos em suas almas tomadas pelo mais absoluto e indestrutível impulso por seguir ordens (absurdas ou não).

As histórias da censura brasileira, presa entre uma ou outra armadilha dos e das artistas que tanto fizeram para que suas obras vencessem a interdição institucionalizada e militarizada, se parecem tanto com a (hipotética e poética) “tourada” arquitetada pelo Picasso de Jeffrey Hatcher!

Embora a antagonista do pintor queira revelar-se também uma estudiosa, mesmo quando sua fala socorre a si na luta contra parecer-se com a fascista e censora que de fato é, com o progresso da dramaturgia, torna-se inegável sua personalidade patife perante o discurso de um dos maiores artistas de todos os tempos: Pablo Picasso.

Este teatro em hiperlink com a História, de modo anacrônico, oferece ângulos suficientemente capazes de nos fazer refletir sobre diplomacia, relações internacionais, autoritarismo, negação de si, arte, artistas e, sobretudo, a sagrada resistência daqueles e daquelas que passam pela desventura de um período histórico miserável de valores e milionário nas injustiças.

O texto da obra não está decidido no entretenimento alegórico de uma plateia passiva, assim, por meio de uma fábula capaz de repor o instante, ficamos entre o constrangimento e a catarse. Aliás, vivemos na sala de apresentação o simétrico oposto do que seria uma “alegoria teatral”. Somos infiltrados ao tempo de uma estrutura dramática capaz de ligar-se a qualquer cenário ou tempo. Assim, entregando ao público um teatro inscrito nas perenes e eternas contradições entre o poder, os poderosos, as artes e os artistas, Um Picasso é obra-prima equivalente ao texto Eichmann em Jerusalém, estudo qual, como na peça, explicita-se “A Banalidade do Mal” (conceito elaborado e sistematizado pela filósofa judia Hannah Arendt).

A dramaturgia, por vezes, nega o fluxo e enxerta na obra pequenas apreciações -ora do pintor, ora da antagonista, mas sempre do autor-, capazes de transformar em dado explícito aquilo que encontramos sugerido no convívio entre os artistas e as políticas públicas atuais, os governos, seus opositores e seus mais aguerridos opositores, no Brasil e fora dele.

Vemos, no embate entre ideias, como é tradicional ao bom teatro erguer-se um enredo capaz de lançar de um lado ao outro a nossa opinião (enquanto o elenco, com apuro técnico e brilhante execução, empresta realidade e estoicismo às personagens).

Embora o texto tenha surgido na metade da primeira década do século XXI, sua poderosa explanação já adiantava-nos uma significativa fatia da tragédia atual: tecnocratas enxergando na arte um tentáculo útil ao exercício do poder (e só).

Vigas fortes. Elenco impecável. Poéticas singulares.
Vigas fortes. Elenco impecável. Poéticas singulares.

Grupo, elenco, encenação e senso de oportunidade:

O Grupo Tapa formou, forma (e reformou) boa parte do que se sabe do teatro brasileiro contemporâneo. Seu caráter estético, unido ao apreço pela cultura secular, transpondo com autoridade conquistada períodos, autores, culturas e obras, empresta à produção um caráter especial.

Nesta produção, que posso intuir pelo período pandêmico em que realiza-se, mas não afirmar diante do acabamento em si, talvez financeiramente menos custosa que outras, o que se vê é um raro exercício de bom gosto (raro para outras cias e cotidiano há décadas anos para o Grupo Tapa e seu repertório).

Como autor de pensamentos sobre nosso teatro, ainda que sem interesse algum em metodologias para tanto – pois creio num teatro de experiências livres e numa crítica dialógica-, fico detido diante da ideia de que seria suficiente dizer que Clara Carvalho e Sergio Mastropasqua compõem o elenco dirigido por Eduardo Tolentino, mas influenciado pela ideia de que alguém poderia ler este exercício sem de fato conhecer tais artistas, confesso que, brevemente contrariado, me lançarei ao intuito da busca por transformar em comentário técnico a qualidade estética, cênica, semiótica, espiritual e virtual de “Um Picasso”.

Antes dos impedimentos advindos pela virulência da estúpida pandemia que nos cerca, tenho em claríssima memória Mastropasqua numa das cenas finais de “O Jardim das Cerejeiras”. A inteligência cênica da “virada” de sua personagem, manipulada pelo temperamento do intérprete e da montagem, embora eu não seja grande conhecedor de tantas montagens assim deste texto, pareceu um tipo de flor raríssima. 

Seu sórdido triunfo patife mesclado com a docilidade do ressentimento oculto nas entranhas da personagem foi uma das mais brilhantes e emocionantes evocações da natureza humana dentro do teatro universal. Aquele grito de glória, constrangimento e fúria ecoando contra uma revolução indomável, sem lado bom ou lado ruim! O que se via naquela “virada” era apenas uma das fatias da agônica luta de classes. Não revoltosa, nem mesmo obrigatória, porém dolorida como se o próprio Tempo em forma de sujeito não pudesse fitar o semblante de sua maior e mais mortal criatura: o “novo”.

Cito esta memória para juntos imaginarmos a delicadeza da construção de um instante assim. Cito este trabalho para elaborar não a capacidade técnica, mas as qualidades e delicadezas poéticas que cercam Mastropasqua e Clara Carvalho em cena (na oportunidade deste Picasso). Poderia citar enredos com maiores questões humanas, poderia citar Clara em suas dezenas de atuações brilhantes, mas repiso o argumento acerca da qualidade poética da artista, do artista, dos elencos que Tolentino assina. 

Tudo remete às delicadas tintas de outras partituras do Tapa. Insuflar esta dupla é defender o que não carece de incenso. A soberania do Grupo Tapa escapa ao expediente do elogio. Em “Um Picasso”, recente montagem do grupo na sala da Aliança Francesa, o que se vê é a mais constante e incansável elaboração de estratégias para que as personagens funcionem como vias de mão dupla, supra capazes de confrontar na mesma frase duas teses e duas antíteses -estratégia qual Clara performa com irretocável perfeição.

Acredito que dramaturgias eficientes sempre fazem entregar idiossincrasias às suas personagens, contudo, a dramaturgia de olhares, gestos, tons e ritmos é produto de quem emprestará vida ao trabalho cênico. Logo, Um Picasso remete ao mais antigo exercício cênico: imaginarmos a encenação sem texto. Com o elenco a mover-se igualmente pelo espaço, sem texto, respeitando as marcações. Luz e trilha, figurinos e cenários idênticos, e sem texto algum. Assim, neste teste final, dentro deste jogo não verbal, seríamos certamente capazes ver a essência de todos os textos teatrais: duas opiniões capazes de fazer com que variadas culturas coloquem em lente quadrangular suas questões e contradições fundamentais e urgentes.

E queremos algo além?

Um possível resumo final:

Elenco perfeito. Dramaturgia irregular, porém eficiente (com certo efeito de roteiro). Tolentino fazendo surgir uma compreensão nada óbvia do enredo (por meio das poéticas de cada elemento da cena). Perfeita equalização e cena. Pesquisa de luz não tradicional, incomum ao grupo, muito bem-vinda. 

Enfim, perfeita para pensarmos o que nos ocorre e como a história devorará os imbecis que tentam ir contra Picassos de todos os tempos e meios. A mais preciosa montagem da atualidade: Um Picasso!

Um Picasso
Temporada: de 19/08 a 26/09
Quinta a Sábado, às 20h
Domingos, às 17h
Duração: 80 minutos
Classificação Indicativa: 14 anos
Evento Presencial
Local: @teatroaliancafrancesa 
Venda de ingressos SOMENTE online.https://bileto.sympla.com.br/event/68350

FICHA TÉCNICA
Texto
Jeffrey Hatcher

Direção
Eduardo Tolentino de Araujo

Assistente de Direção
@arielcannal

Iluminação
Nicolas Caratori

Elenco
@atriz.claracarvalho e @sergiomastropasqua

Redes Sociais
Bianca Nóbrega

Design Gráfico
@MauMachado_

Costureira
Judite Lima

Alfaiate
Miguel Arrua

Fotos
@fotosgutierrez

Adereços
Jorge Luiz Alves

Assessoria de Imprensa
@ABalsanelli e @RenatoFernandesGon

Assistente de Produção
@RafaellyVianna

Direção de Produção
@ArielCannal

Agradecemos pela leitura de nossa crítica.

,Sobre o autor:

Marcio Tito é dramaturgo e diretor teatral, além de editor e entrevistador no site Deus Ateu (www.deusateu.com.br).

Instagram: @marciotitop

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