,Sistema religioso: ritual por ritual, limitação por limitação

Por Mauro Pellegrini

Seres humanos e seus rituais seculares, milenares, fundamentais...
Seres humanos e seus rituais seculares, milenares, fundamentais…

Eu sei que os sistemas rituais antigos precedem as religiões, como os ciclos agrários etc. Iniciamos um ciclo, encerramos o mesmo ciclo, para depois iniciarmos um novo ciclo. E de certa forma podemos considerar que o elemento ritual está inscrito nos arquétipos do ser humano. Se negarmos a prática ritual negaremos parte da nossa própria humanidade. Porém, contudo, todavia, entretanto, não obstante. Quero implicar com o sistema religioso …

O ritual religioso é um dos elementos mais recorrentes nos dias de hoje, em seu sentido clássico; como sistema, método e pacto, formando um conjunto de gestos, palavras e formalidades, imbuído de um valor simbólico, cuja execução é prescrita por uma religião. Tal ritual religioso é executado por uma comunidade de pessoas religiosas em locais específicos, em intervalos regulares (como reuniões de culto) ou em situações específicas (como batismos, casamentos e funerais). Penso que o real propósito de se realizar o ritual religioso é promover a tentativa humana de criar uma ocasião – um mito reparador. Entendo que o apego ao ritual religioso serve apenas como um calmante, entendo ainda que o ritual religioso não passa de uma psicoterapia breve. O ritual religioso é comum e limitado em si, não oferece harmonia possível, ele apenas funciona como uma maquiagem sem encontrar de fato uma justa posição Santíssima.

Para mim o ritual religioso é um sagrado qualquer com disfarce de santo numa função de ruptura com o plano real (supostamente interpretado como profano). No velho condicionamento primitivo que nos leva a escolher o ritual como um recurso de feitiço – um portal mágico, que supostamente irá causar algum efeito entre o aqui e o além. O ritual religioso é simplesmente um elemento de magia (que no fundo não passa de elemento cultural) para tentar tirar do lugar o ser humano de onde ele está e sempre estará, não importando todo o esforço que possa ser feito por ele. O que de fato percebemos no ritual religioso é puramente o vício e o desejo em manter sempre o mesmo estado de concordância; numa obtenção da aceitação humana, num fortalecimento dos laços sociais, assim como numa satisfação das necessidades emocionais, estabelecendo por fim, papéis, obrigações e afiliações. Daí, toda a rede de interesses que se forma em torno de uma suposta verdade projetada e apresentada como tal no ritual, o que proporciona no fim das contas uma via de entorpecimento real da consciência, assim como uma consequente necessidade de reagir mais cedo ou mais tarde ou de ficar perpetuamente estagnado na prática meramente religiosa, isso é claro, dependendo da forma como tal pessoa lida com as regras delineadas por sua própria experiência e perspectiva.

E tem mais, hoje muito se aponta a instituição como ofensiva em relação ao cultivo de uma espiritualidade, mas será mesmo honesto criticar a instituição enquanto somos viciados nas mesmas coisas e estamos pendurados no mesmo ritual religioso?

Posso afirmar com segurança, que quanto mais ritual religioso, mais cultura religiosa e por fim, mais necessidade de institucionalização reguladora. Quem continuar curtindo sempre da mesma forma pequena o ritual religioso, mesmo que seja ele até nos mais leves formatos, não poderá nunca reclamar da institucionalização. Sinceramente, entendo que enquanto existir o mesmo cerimonial existirá a mesma institucionalização castradora da vivência da genuína espiritualidade.

Agora com isso não estou radicalizando o ritual em termos gerais, estou aqui apenas tratando contundentemente a respeito do ritual religioso, até por que entendo que diversas ações comuns, como um aperto de mão ou um alô pelo telefone são pequenos rituais do cotidiano. Portanto não sou radical a ponto de propor a inércia imobilizante do fim completo do ritual, já que realizo automaticamente uma série deles no dia a dia, mas em termos espirituais aprovo apenas o ritual mais profundo em si, a experiência do essencial e não do ritual, ou seja, creio que o Evangelho faz celebração invisível do mistério apenas no coração e rompe com a ritualística externa e barulhenta. Sim entendo que o ritual exibicionista repetitivo não leva a lugar nenhum e me agrada a depreciação e o declínio desse ritual religioso na sociedade contemporânea e que assim venha a nascer o espaço maior para consumação do ritual íntimo da espiritualidade. A prioridade maior é a mística do encontro com o Ser dos Seres – o verdadeiro ritual que permanece vivo, e está sustentado em constante transformação interna, num movimento da Espiritualidade Viva, que cresce internamente nos desalojando das posições equivocadas, restaurando a Espiritualidade Essencial, a mais profunda que nos incentiva ao progresso do novo modo de pensar e agir. A justa posição para o homem – O Evangelho do Espírito para o espírito.

Enfim, se amadurecidos, e até mesmo iluminados pela Graça Divina, que possamos ir muito além do obstáculo ritual, buscando reordenar a vida ao ponto de viver sem as regras e as fronteiras religiosas que podem nos limitar em desejos e ambientes.

De uma vez por todas, e lembrando, o que reza a tradição judaico-cristã na Bíblia em Lucas 17.20 b: “O Reino de Deus não vem com aparência exterior”

Bibliografia consultada e recomendada:

MOISES E MONOTEÍSMO – SIGMUND FREUD

O HOMEM E SEUS SÍMBOLOS – CARL GUSTAV JUNG

O PODER DO MITO – JOSEPH CAMPBELL

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Mauro Pellegrini, é Teólogo, com ampla experiência como Professor de Teologia em diversas Faculdades e Seminários. Tendo sua formação inicial de Bacharel em Teologia (ThB), uma especialização em Aconselhamento Bíblico pela Faculdade Cristã Teológica de São Paulo, possui o título de Doutor honoris causa em Teologia (Th.D h.c.) concedido pelo College Baptist Church in Brazil — International Theological Seminary, possui também o título de Doutor honoris causa em Humanitas pelo Instituto Superior de Pesquisas Teológicas em seu Seminário Maior & Academia Brasileira. Ligado à Associação dos Pastores e Ministros Evangélicos do Brasil, membro da Academia Brasileira de Letras e Oradores Evangélicos e da Academia Brasileira de Mestres e Educadores. Por conta de sua relevante ação no município de Apiaí, recebeu o título de cidadão em 2016. Escritor diletante, assina uma coluna no Jornal Apiaí Tem e na Revista Karate & Kickboxing. Também é Professor de Artes Marciais e Psicanalista.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s