,Para dizer o indizível – Documento Ana Suy

Por Alan dos Santos, Flávia Tereza e Felipe Grillo

Nas redes sociais, com legendas didáticas e bem endereçadas, Ana Suy contribui com análises e aforismos acerca do convívio, da psicanálise e da clínica
Nas redes sociais, com legendas didáticas e bem endereçadas, Ana Suy contribui com análises e aforismos acerca do convívio, da psicanálise e da clínica

Reunimos um grupo de psicanalistas para conversar sobre a Ana Suy – seu trabalho, sua influência nas redes sociais e sua incansável e qualificada discussão sobre o amor pelo prisma da clínica psicanalítica. Suy dispensa apresentações! Sucesso inconteste no instagram e autora de diversos livros, é uma das psicanalistas mais lidas, seguidas e influentes do país. Suas postagens conciliam clareza de reflexão com a profundidade necessária para a discussão de questões humanas. E o quê mais humano do que o amor?

Os textos de Ana Suy compõem um verdadeiro patrimônio cultural para a reflexão psicanalítica brasileira. Seus textos têm o poder, ou melhor, a potência de afetar a todos e todas, e isso por conta da transversalidade poética presente nas postagens. Não é preciso ser psicanalista para compreender e se encantar com sentenças como: “o amor não preenche os nossos vazios, mas dá contorno a eles” ou “um dos perigos do amor é que ele não é possível sem uma dose de fantasia”. Vazio, falta e fantasia são mais do que palavras avulsas para a psicanálise (são conceitos de primeira importância). Contudo, são também termos que remetem às experiências mais humanas possíveis. Portanto, basta estar vivo para subtrair sentido dessas frases.

É instrutivo e saboroso acompanhar o instagram de Ana Suy: um acervo de livre acesso. Com o perdão do trocadilho, saber e sabor se misturam de forma intensa nas palavras da psicanalista. Suy extrai da psicanálise toda a sua potência para discutir o amor e suas implicações.

Flávia Tereza inicia suas considerações relembrando a relação intrínseca entre o amor e a transferência – condição necessária de uma análise. Nas palavras de Tereza, Suy discute o amor como uma espécie de laço com o mundo, ressaltando a indefinição polissêmica do termo: amor.

Felipe Grillo, por sua vez, ressalta que a capacidade poética de Ana Suy para tratar do amor se origina na escuta clínica dedicada e afinada. Grillo recupera a máxima lacaniana “não existe relação sexual” para relembrar as dificuldades que o tema adquire para a psicanálise em seu procedimento lacaniano. “As dificuldades do amor é assunto que não sai de pauta no divã”.

Realizamos a conversa por escrito e em tom de diálogo. Ficou uma leitura fácil e contagiante, como se verá a seguir. Esperamos que a conversa homenageie, discuta e apresente o trabalho dessa que é uma das maiores psicanalistas de nosso tempo!

1) Ana Suy é um sucesso inconteste nas redes sociais. E o seu brilho se ressalta ainda mais quando olhamos para os temas que ela articula em seus livros e postagens. Suy fala de amor – isso mesmo, de amor e suas múltiplas implicações. Confesso que não me interessava pela teorização do amor. Entretanto, paro para ler os textos de Suy e me vejo tomado de surpresa e encanto. Suy desenha com palavras definições simples e poéticas sobre o amor. É possível subtrair beleza e compreensão de seus escritos. Seus textos me remetem ao estatuto do amor em nossa contemporaneidade. Há um esforço em nosso espírito de época para proclamar a morte do amor, de algum amor – o amor a dois, o amor monogâmico e conjugal, para ficar num exemplo. Todavia, é nessa mesma temporalidade que Ana Suy se expressa e é reconhecida ao tratar do amor. O que Suy traz de singular para a compreensão do amor? Em suma, por que devemos ler Ana Suy?

Flávia Tereza – Para a psicanálise, a transferência – motor que faz alguém falar livremente numa análise – é uma modalidade de amor, e o que Ana Suy, atravessada pelo discurso psicanalítico, traz de singular para a compreensão do amor é precisamente algo muito sensível de seu estilo de dizer e transmitir. Ela fala do amor como aquilo que faz laço com o mundo, e o diz de várias maneiras, revelando a imprecisão e a indefinição do termo, ainda bem!

Ana contorna as complexidades do amor com suas crônicas do cotidiano para tentar retirar algo da fúria da paixão à qual os amantes e amados são expostos, e cada leitura de um texto seu sobre o amor é um mergulho profundo sem equipamentos, afinal, nunca se está preparado para ir fundo no a(mar).

Meu encontro com os escritos da autora se deu por meio das redes sociais, mais precisamente, pelo Instagram, rede que tem tecido virtuosas trocas e estabelecido ricos laços, e Ana Suy é um laço bem bonito que me alegra, inspira e ensina muito. Depois disso, tive um feliz encontro com seus rabiscos em torno de um vazio, o livro “Não pise no meu vazio”, que é um convite instigante para encher e esvaziar sentidos, e continuar desejando.

Em seguida, li seu livro “Amor, desejo e psicanálise”, fruto de seu trabalho de mestrado, que traz uma interessante articulação costurada por palavras de amor. E agora, estou morando na leitura de seu livro “As cabanas que o amor faz em nós”. Notem, não são castelos nem fortalezas, e sim cabanas e suas fragilidades. Acreditar que o amor só se dá protegido e amparado dentro de uma grande e consistente construção apenas nos faz viver sob a fantasia de um sonho irrealizável.

Por que ler Ana Suy? Bom, muitas vezes os jargões psicanalíticos e os labirintos da língua impõem um grande desafio para quem arrisca deixar o conhecimento acessível, já que em muitos casos ele é isolado e não circula. Ler os escritos de Ana é sempre um convite irrecusável para sentar, tomar um café fresquinho e compartilhar um papo bom, mas que deixa, ao final, uma pulguinha enigmática atrás da orelha. Ah! Que coceirinha boa!

Felipe Grillo – A meu ver, o que Ana traz de tão singular em sua escrita é fruto tanto de sua escuta clínica dedicada e afi(n)ada enquanto psicanalista quanto do que soube extrair e elaborar de sua análise pessoal, por ter passado ela mesma pelo divã. Isso, claro, somado à sua paixão visceral pela literatura e poesia, e misturado a uma vida amorosamente vivida, isto é, que inclui a construção de possibilidades diante do não sabido. Ana Suy é esse caldeirão que produz magia e encanto com suas palavras! A psicanálise busca trabalhar justamente com o elemento surpresa, aquele que pode tirar o analisante do lugar, distanciando-o do senso comum.

Tal qual nos ensinam os poetas, faz uso das equivocações da linguagem para furar o sentido esperado. Nunca vou esquecer do que disse uma analista minha ao me explicar o que é a psicanálise: É essa cara aí de abobado que você fica quando te digo certas coisas. Cara de abobado, riso, espanto, surpresa, é disso que se trata a psicanálise. E Ana sabe muito bem como nos atiçar em seus escritos, deixando-nos causados. Invertendo a lógica do senso comum, ela acaba não por prometer trazer o seu amor em até 3 dias, mas em provocar desejo de saber mais sobre nossa forma singular de amar, desejar e gozar.

O que diz parece dizer a todos, isto é, toca em algo de estrutural, mas, ao mesmo tempo, a cada um em particular. Não raras vezes, escuto dos meus analisantes que leram tal ou qual post da Ana e se identificaram, levando-os a associações diversas com suas próprias lembranças e histórias.

Com mais de 110 mil seguidores e seguidoras, numa rede social muito bem engajada, a professora inflama o contemporâneo e define em seus posts e legendas muito daquilo que nos importa no amor, no luto e na fala
Com mais de 110 mil seguidores e seguidoras, numa rede social muito bem engajada, a professora inflama o contemporâneo e define em seus posts e legendas muito daquilo que nos importa no amor, no luto e na fala

2) Quando ingressei na graduação em Filosofia, há uma década atrás, deparei-me com diversas definições de amor. Há um amor filial, próximo das relações de amizade e da suspensão de cobranças, o amor erótico, que comumente hegemoniza a definição de amor, ligada a sexualidade, há o amor maternal, mas também germinal, ligado a concessão da vida… Parecia-me, contudo, que o amor era algo que se inseria fora do domínio da linguagem, uma espécie de loucura (ou sanidade?) que nos lança num campo aberto e experimental. Os textos de Ana Suy, por sua vez, revelam um esforço para simbolizar o amor e expressa-lo em palavras, esse domínio caro à psicanálise. Suy suaviza as tensões entre a psicanálise e a poesia para revelar alguma verdade sobre o amor para uma época que desaprendeu a amar. Que potência se extrai dessa convergência entre poesia e psicanálise para a compreensão do amor? Em outras palavras, por que coube a essas duas formações do saber o árduo trabalho de nos recordar a potência de amar?

Felipe Grillo – As dificuldades do amor é assunto que não sai de pauta no divã. Lacan exprimiu essa problemática no aforisma “não há relação sexual”, que podemos traduzir por: não há a metade da laranja que nos completaria. Se há a ralação sexual, o ato sexual, não há a relação sexual. E o divã é esse leito de amor onde deitamos para falar de quê? Dos encontros e desencontros amorosos.

Mesmo com a pandemia que levou muitos a procurar por uma análise, os sujeitos acabam, mais cedo ou mais tarde, desembocando nas árduas questões sobre amor. Portanto, o amor tem um lugar privilegiado na psicanálise seja como temática trazida pelos analisantes seja como mola do tratamento, a transferência. Um dos efeitos do atravessamento desse processo analítico é amarmos melhor e, para que isso se dê, só enfrentando o impossível em jogo no amor.

Assim, passamos da impotência do não dou conta ao impossível do que não tem remédio, remediado está. A potência do amor mora, paradoxalmente, na impossibilidade de completude, na castração, em suportar e saber-fazer-com a diferença radical que é o outro. E tanto a psicanálise quanto a poesia, em sua marginalidade, não cessam de tentar dizer sobre esse impossível, que cada vez mais é rechaçado na sociedade de consumo com as ofertas de novos e mais novos gadgets, vendidos como que supostamente nos completariam.

Flávia Tereza – A psicanálise precisa da palavra poética para falar do indizível, e Freud, muito sabido, encontrou na arte e na literatura alguns pilares para a construção psicanalítica. Ele era um grande leitor de escritores e poetas e os considerava profundos conhecedores da alma humana. A literatura e outras expressões artísticas carregam um saber sobre o tempo presente, bem como sobre as crises e as transformações de uma época, e geralmente fazem insurgir debates que não se encontram nos discursos vigentes.

Nesse sentido, não sei dizer se concordo que vivemos numa época que desaprendeu a amar. Acredito que, de século em século, as civilizações passam por mudanças e adaptações, e muitas vezes essas mudanças são representadas e até mesmo denunciadas pela arte. A música, a literatura e o teatro dão palco para releituras do amor. Talvez, de tempos em tempos, há que se inventar um novo amor.

O nosso amor a gente inventa – já nos disse o exagerado Cazuza –, e inventado entre o simbólico e o imaginário, um amor ganha muitas cores e nomes ao longo da história: são produtos da arte criados por várias formas de sublimação. Assim, talvez coube à poesia e à psicanálise o caráter inventivo que ambos carregam. Se aproximarmos o trabalho do psicanalista ao do poeta, os dois buscam restos e vestígios. Estão constantemente contornando o indizível em busca do objeto perdido, desde sempre e para sempre. Como saída, o fazer poético e o psicanalítico têm uma incrível capacidade de criar e inaugurar novas realidades. Nesses tempos sombrios em que vivemos, desejo profundamente ao mundo o que Ana certo dia me desejou: saúde, amor e saúde no amor.

Tenho um grande encantamento pelo falar singelo, que busca nas insignificâncias das palavras a potência do dizer desacostumado, e que encontra coragem para desaprender a grande linguagem da vida. E o amor, como Ana nos apresenta, tem coragem de criação, equívoco e intensidade. Não se sabe quando começa ou termina, está no dia a dia, num gesto, numa palavra ou duas. Acontece no silêncio e naquele olhar meio aberto e meio fechado que faz aparecer aquela ruga dupla na glabela. Cabe no nascer do pôr do sol e tem cheiro de xícara de café que esfriou ouvindo alguém falar. Está no atravessar da rua quando há dúvida para qual lado olhar. Começa numa mensagem inesperada às 15:10h na segunda-feira e acaba numa outra, na quarta-feira à noitinha.

É também fazer uma trilha com pés descalços, tropeçando pelo caminho, com um mapa que não leva a lugar nenhum e, ainda assim, é respiro com cheiro de mato, é descanso e é um bocadinho de lar…

Agradecemos pela leitura do nosso documento.

,Sobre os autores:

Alan dos Santos é professor de Filosofia e Psicanalista. Mestre em Filosofia. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura.

Instagram: @alan_santos_radar

Flávia Tereza é psicóloga, psicanalista, mestranda em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília, pesquisadora do Laboratório de Psicanálise e Subjetivação – LAPSUS, membro da Internacional dos Fóruns, da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil e do Fórum do Campo Lacaniano de Brasília.

Instagram: @flaviatereza

Felipe Grillo é psicanalista e professor (pós-graduação). Membro do Fórum do Campo Lacaniano Região Serrana/RJ (EPFCL-Brasil); mestrado em Psicanálise pela UERJ; especialização em Psicologia Clínica pela PUC-Rio

Instagram: @_felipegrillo_

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