,Documento: Acqua Movie com Lírio Ferreira, Chica Mendonça e Paulo Caldas

Por Daniela Coutinho Magro

Acqua Movie, um filme de Lírio Ferreira. Foto: Fred Jordão
Acqua Movie, um filme de Lírio Ferreira. Foto: Fred Jordão

A conversa no bar virtual substituiu a convivência intensa da vida pré-pandêmica de Lírio Ferreira e Paulo Caldas no longo isolamento social dos anos de 2020 e 2021. Eles estão juntos em parcerias de vida e trabalho desde a época da universidade e depois, no início da carreira de ambos, que despontaram na co-direção do já clássico “Baile Perfumado” (1997).

A sala de conferência eletrônica que virou bar na quarentena permitiu que Lirio e Paulo continuassem a se encontrar e receber amigos no ambiente que ganhou até nome: Bar den Powell.

No calor da indignação com o incêndio no galpão da Cinemateca Nacional em São Paulo, mais uma vez nos reunimos virtualmente. Desta vez para celebrar o lançamento nas plataformas digitais do mais recente filme de Lirio, “Acqua Movie” (2019), do qual Paulo participou como roteirista com Lírio e Marcelo Gomes. Conosco estavam, além da dupla, Chica Mendonça, produtora do filme.

Como comenta Chica: “Acho que esses últimos anos com toda essa situação triste e descaso total com a vida, implementada por esse governo de morte e de necropolítica, as novas plataformas como streaming são uma saída para o cinema nacional. O sonho do realizador é ter seu filme exibido e sendo visto. Esperamos que o filme possa alcançar mais pessoas e um público mais abrangente”.

ACQUA MOVIE é o sexto longa do diretor pernambucano Lírio Ferreira (Baile Perfumado, Árido Movie, Cartola, O Homem Que Engarrafava Nuvens, Sangue Azul) e a partir de 10 de agosto está nas plataformas de Streaming Now, Vivo Play e Oi Play.

O trailer do filme você confere aqui:

Boa leitura!

ACQUA MOVIE

Brasil, 2019, 105 min, livre.

Direção: Lírio Ferreira

Roteiro: Lírio Ferreira, Marcelo Gomes e Paulo Caldas

Produção: Chica Mendonça, Lírio Ferreira

Produtora: Chá Cinematográfico

Fotografia: Gustavo Hadba

Montagem: Vânia Debs

Som: Valéria Ferro

Elenco: Alessandra Negrini, Antonio Haddad Aguerre, Guilherme Weber, Augusto Madeira, Maycon Douglas, Marcélia Cartaxo, Zezita Matos, Edgar Navarro, Aury Porto, Fabiana Pirro, Marcio Fecher, Lula Terra, Claudio Assis, Antonio Marinho.

Distribuição: IMOVISION

Daniela C: Gravando!

Chica Mendonça: Eu tava contando aqui pra Dani da história da Cinemateca. Eu passei quatro anos lá, indo direto na Vila Mariana. Como era e o que virou.

Lirio: PQP, que tristeza, hein?!

Chica: Eu fiquei chocada! Quando vi Carlos Magalhães falando no Jornal Nacional, chorando emocionado. Eu fiquei assistindo pra ver o que seria essa repercussão em um jornal como esse.

Paulo Caldas: Uma tragédia anunciada, né? Todo mundo sabia que ia acontecer isso e pode acontecer pior e pegar fogo na Vila Mariana…

Chica: A gente depositou lá um material de João Cabral de Mello Neto. Ontem eu fiquei pensando naquele material… Vi que muito material de arquivos pessoais estavam lá. A questão mais assustadora e triste é que ninguém sabe bem o que estava sendo incendiado. É a questão mais bizarra, não sabermos de fato o que estava depositado lá e o que queimou.

Lírio: Alguma coisa já se sabe. O que queimou mais foi uma parte grande de documentos de filmes, do Concine. Parece que iam fazer um museu e tinha uns documentos, roteiros, cartazes. Muita coisa de documento da Embrafilme. Isso a parte documental. Concine, não era nem Ancine, Paulo Caldas. Você lembra? Tudo isso já é triste. Aí tem alguns filmes que a gente não sabe, que estavam lá, mas são Nitrato, não são acetato, a combustão é maior. E ainda um terço do acervo de Glauber Rocha. Os roteiros, croquis que ele fazia, isso tudinho queimou e foi embora.

PC: E uma parte do material da ECA (ECA-USP, Escola de Comunicação e Artes) também, dos curtas feitos pela escola. Uma boa parte do material mais antigo, ou seja, o mais “raro”. Esses mais novos a pessoa pode ter ouras matrizes e muitos ainda estão vivos. Mas esse material, parece que eram os primeiros materiais, do começo da ECA.

Chica: É muito triste. E o pior é que para o Acqua Movie por exemplo, tem um material que é o LTO, que é exigência ter. Tá pronto! Aí eu recebi uma diligência me dizendo que eu não entreguei. E eu digo: como é que eu faço? Vou bater lá e entregar na portaria? Porque não existe um protocolo.

PC: Tem que ver se tem uma janela aberta e jogar lá dentro.

Chica: Uma pessoa disse para eu formalizar esse relato. Eu formalizei e disse que é triste essa situação de ter um material que precisa ser entregue e não há formas de protocolar a entrega. Não tem onde deixar o registro de um filme. O LTO custa R$8 mil para fazer! Todo mundo tem a exigência de cumprir.

Lirio: Seria muito bacana a gente começar esse papo hoje maravilhoso, celebrando o filme. Apesar de todas as coisas, o filme foi lançado e vai chegar agora no streaming. De alguma maneira o filme é um retrato de seu tempo e teve que ser lançado na pandemia. É uma experiência que a gente vai levar pro resto da vida e apesar de toda esse panorama nefasto que a gente tá vivendo, hoje a gente tá aqui na verdade não era pra falar sobre isso. Era para celebrar, contar histórias, ser uma coisa bacana. E tá todo mundo pensando no que houve ontem na cinemateca. É muito difícil começar a falar sem resvalar na política desse estado genocida que a gente está vivendo, nesse fato que aconteceu ontem. Mas enfim, vamos tentar.

PC: Podemos tentar. E vamos conseguir, porque aí a gente já abre uma janela pra uma outra coisa. Não podemos ficar deitados sobre as cinzas desse negócio que a gente tá vivendo. Mais disso está acontecendo e vai acontecer até acabar esse governo. Ele vai acabar um dia. A gente vai continuar nossa conversa aqui, que realmente é outra. É importante virar a chave.

Chica: Agora é importante também se organizar, se mobilizar e gritar contra tudo isso. Eu fico muito impressionada com a nossa passividade. É uma coisa surreal.

Lirio: É como o Paulo falou, né Chica? Eu não fiquei chocado porque só ficaria chocado se achasse que a coisa estivesse acontecendo de uma maneira segura. Estamos todos tristes, mas a tendência é a coisa piorar e a piorar.

PC: Mas vamos entrar no nosso tema principal.

Lirio: Então vamos aí! Muito obrigado pelo convite, boa noite. Eu estava com saudade de vocês, da minha querida parceira Chica, do meu querido amigo e parceiro Paulo Caldas.

Chica: Nunca mais tinha visto Lírio. O cabelo cresceu, tá do tamanho do meu!

Lírio: Eu estou voltando a uma coisa assim hippie.

Dani: Mas a barba encolheu!

Lirio: A barba dei uma cortadinha, agora o cabelo ainda não. Eu tô tentando me lembrar dos momentos maravilhosos da vida, então estou tentando voltar a essa minha fase hippie. Ou do cangaço, né Paulo Caldas?

PC: Ou de surfista, né Lirio boy?

Lirio: Ou de surfista. Acho que são as coisas boas que a gente tem que tentar trazer…

PC: E não é isso, cara? A gente não é o país do skate e do surf?

Alessandra Negrini interpreta Duda em Acqua Movie. Foto: Fred Jordão
Alessandra Negrini interpreta Duda em Acqua Movie. Foto: Fred Jordão

Dani: Além de esquentar o coração nesse nosso bar virtual, a conversa é pra juntar vocês três, que participaram do processo do filme. Acqua Movie esteve na Mostra Internacional de Cinema de SP em 2019 e aí veio a pandemia. O filme foi lançado no circuito das salas cinemas e agora finalmente, ainda no isolamento social, acontece o lançamento no streaming. Um filme que teve um percurso de ser filmado antes da eleição do Bolsonaro e tem a chance de atingir o grande público só agora, nas plataformas. O que você intuía na ocasião da concepção do filme, de uma nova ordem no Brasil, se estabeleceu como realidade?

Lirio: Isso dá uma ideia mais ou menos do que o filme dá conta. Ficou bem claro quando o filme foi lançado. Fomos percebendo aos poucos. O filme na verdade foi pensado em 2013, ainda estávamos no primeiro governo de Dilma. A gente começou a pensar o filme e através dos editais ele foi ganhando forma, se transformando. Paulo Caldas e Marcelo Gomes entraram pra escrever uma história que já estava adiantada, mas no momento em que eles entraram mudou-se muito.

Me lembro claramente, como um marco mesmo, a gente ter ido pro sertão: eu, Chica, Paulo e Marcelo. Chica propôs isso e eu achei massa, porque a gente precisava passar essa etapa, já fazendo uma pesquisa de locação e se inspirando nos lugares. Então fomos pro ambiente escrever a história. De manhã a gente saía, visitava as locações, se inspirava e no final da tarde abria um vinho etc e tal. Momento olímpico, a gente começava a ter ideias, escrever. Foi muito bacana o processo todo.

Estou falando isso porque, foi no primeiro ou segundo dia, a gente ficou lá no Plaza Hotel em Salgueiro, quando a gente saiu na BR, foi a primeira vez que eu vi um outdoor de Bolsonaro. Isso era 2016. Na minha cabeça aquilo era uma coisa… sempre tem um candidato desses, um Enéas da vida que tem 10% dos votos. Era uma coisa que tinha o seu eleitorado ali, mas não ia passar disso. Ao mesmo tempo eu senti uma coisa porque, no meio do sertão de Pernambuco, com o que aconteceu nos governos progressistas de Lula e Dilma, ter um outdoor daquele tamanho de um candidato mequetrefe, um candidato ridículo, folclórico e fascista, me deu uma sensação muito estranha.

O filme foi se modificando, a gente acabou filmando em 2017 e foi montado em 2018. Quando ficou praticamente pronto com corte e tudo, teve a danada da eleição e a tragédia que aconteceu e assolou esse país. O filme a princípio não tinha nada a ver com o momento, mas é incrível que depois que o foi lançado, as pessoas começam a comentar, ele começa a entrar em alguns espaços. Eu percebi que o que a gente achava que já tinha passado, depois desses governos bacanas, dessa conscientização e depois do momento nefasto que a gente viveu na ditadura militar, que essas coisas tinham ficado ali no seu lugar, mas na verdade se constata que elas estavam ali debaixo do tapete e quando teve uma chance, voltaram. Era só retratar o Brasil como estava naquele momento que calhou, encaixou completamente várias situações do filme com o momento triste, nefasto e horrível que a gente tá vivendo hoje. Então isso foi uma coisa que me bateu de cara e que não era previsto…

PC: Mas a viagem ao sertão… você citou exatamente o outdoor. Eu acho que, em primeiro lugar, o lugar do filme é o sertão. E acho que todos nós temos uma relação muito forte com o sertão e nenhum de nós, Lirio, Chica, eu e nem as pessoas mais próximas no processo do filme, somos exatamente sertanejos. A nossa relação com o sertão é profissional, em um primeiro momento. Todas as vezes que eu estive no sertão a vida inteira, e me lembro de muitas vezes, foram pro trabalho. Eu não me lembro em uma situação de turismo, de ter ido passear no sertão. É uma relação muito forte do que significa realmente aquilo. Tem o significado parecido com o terroir pra o vinho, pra comida. O sertão não é exatamente um território delimitado entre o rio ‘tal’ e o rio ‘tal’ e todo mundo que nascer ali é sertanejo. O sertão, ele transcende isso. É uma região sobretudo geográfica e cultural, mas às vezes pode estar com a gente em São Paulo, em outro lugar. O fato de a gente ter feito aquele trabalho do roteiro, trouxe o sertão para o filme de uma forma que acabou atualizando essa imagem e quando o filme ficou pronto ele estava totalmente contemporâneo com o que estava acontecendo, sem que isso fosse uma coisa exatamente premeditada.

Chica: Também tem uma coisa, falando da estética do sertão, como existe esse crescimento. Por exemplo, na época da filmagem a gente acabou ficando em um hotel chamado O Imperador, que ele era basicamente um puxadinho, mas era composto de toda aquela política do porcelanato, aquela coisa da grandiosidade. Também é uma coisa que imprime muito. O fato de a gente ter ido lá deixou isso muito claro. Poder mostrar a história, como Lírio viu o outdoor. Eu vi um menino bem novinho, jovem, parecia que estava com uma camisa do Falcon, só que quando eu olhei, era a foto de Bolsonaro. Um jovem, saindo de uma caminhonete, pra mim pareceu um filme de ficção. Não era um meme, era uma coisa real. Essa ida também propiciou uma vivência pra gente. Pra mim mostrou essa nova estética, essa imagética. Porcelanato em todo canto, isso também tá no filme.

Dani: Lembro de Lirio falando isso na Mostra, que você queria mostrar o Brasil do porcelanato.

Lirio: Acho que foi Caetano Veloso que falou, a estética deles é muito pesada. Como a gente fala, é muito puxada.

Paulo: A fachada de banheiro. Tinha umas cidades no sertão que eram lindas as fachadinhas, simplesinhas. Agora bota o porcelanato, então fica aquela fachada de banheiro, inclusive porque não é azulejo, é piso e os caras botam na parede. Na verdade, essa questão estética no sertão é uma tristeza, dominando muitos dos lugares mais simples e que também têm todo o direito de se modernizar, achar que aquilo é mais limpo, mais econômico. A gente tem um visão muito cultural-artística elitista. É uma questão meio foda também, porque há uma cobrança estética. Todas as coisas estão interligadas. A nossa cafonice e o nosso estado de miséria estética às vezes ao mesmo tempo é a nossa riqueza e por outro lado também é o fluxo de uma sociedade, com todas as desigualdades…

Dani: São questões mercadológicas também, do que e quando se encontra o que é preciso na hora.

Lirio: Eu concordo com vocês. E acho que juízo de valor sempre vai ter. Eu nem acho tão ruim, cafona. Acho o cafona inclusive melhor que o porcelanato. O cafona, o kitsch é muito mais interessante. Também não é uma coisa da estética bolsonarista, essa degradação no sertão já vem há muito tempo. No interior de Pernambuco, acho que tirando Triunfo, que é uma cidade em cima de um morro no meio do sertão, é muito difícil ter uma cidade preservada. Era azulejo, depois veio o porcelanato, aí todo mundo queria que o sertão virasse Miami sem ter mar. É o Sertão Mar do Glauber Rocha. Não tem o mar e tem o porcelanato de Miami que chega lá. É interessante, por esse lado.

Essa semana mesmo teve a votação da Lei Rouanet e a gente viu quais são os objetivos da lei que eles estão querendo colocar. Privilegiar a coisa das belas artes e arte sacra.

Isso está no filme, foi uma coisa que a gente buscou. A gente não ia se omitir de olhar.. Eu tenho uma relação com o sertão porque viajava criança, meu pai tinha armazém no interior da Bahia, então viajava muito pelo sertão. Mas sou menino do litoral, da praia, de Recife.

Eu me lembro, por exemplo quando a gente foi ver locação. Como o Paulo falou, a gente vai muitas vezes ao sertão pra fazer filme. Quando tem uma cena de fazenda por exemplo, normalmente é aquela fazenda de época toda arrumadinha, conservada ou restaurada. Normalmente acontece essas coisas. No Acquamovie foi totalmente ao contrário. A concepção que a gente tava querendo, do porcelanato… A gente dizia: “A gente quer uma coisa moderna, super estragada, super reformada. É essa que a gente quer!” Foi a primeira vez que eu fiz alguma coisa no sertão com fazenda ou com sítio que não fosse esteticamente uma representação histórica. Isso, como Chica e Paulo falaram, torna o filme contemporâneo, atual.

Salgueiro, por exemplo,  é uma cidade muito perto de Petrolina – que é uma cidade muito rica no sertão de Pernambuco, com vôo direto pra São Paulo e de São Paulo vai pro mundo – e eu lembro que andava pelos postos de gasolina, lojas de conveniência e tinha cervejas da Tchecoslováquia, da Bélgica… no sertão!

PC: Uma coisa incrível, né Lirio? É uma realidade econômica que acontece no sertão ciclicamente. Ali teve a transposição do rio São Francisco – que é tema, pano de fundo do filme – e a Transnordestina. Tinha uma fábrica de dormente em Salgueiro pra Transnordestina que empregou milhares de salgueirenses e pessoas de municípios vizinhos. Aí vieram os engenheiros, a cerveja importada, o vinho… Pra gente que tem se dedicado a fazer trabalhos sobre o sertão há anos, desde “O Baile Perfumado”, é muito interessante mostrar essa evolução econômica, científica, tecnológica, da água. Acho que o filme é sobre isso. Desde o “Árido Movie” … os dois filmes – e falta o terceiro que é o “Air Movie”, para não ficar uma bilogia – eles são sobre uma região que mistura a tradição com a renovação desde sempre. Muito tradicional, mas ao mesmo tempo muito revolucionária. Um dos empresários mais revolucionários da história do Brasil foi Delmiro Gouveia, um sertanejo. Um cara que foi lá e fez no sertão coisas que ninguém teve coragem de fazer nem em São Paulo, nem em Minas, nem no Rio Grande do Sul, nem no Rio de Janeiro na época.  E era um cara que tinha um espírito sertanejo. Acho superinteressante essa visão de que o sertão não está estagnado, não tá parado. Ele se movimenta o tempo todo.

Chica: É exatamente isso! Quando a gente fez essa viagem, o que estava construído no nosso imaginário era uma grande contradição. Quando chegou ali era totalmente outra ideia. O filme passa por 5 cidades, algumas delas na beira do rio. A água traz um pouco de prosperidade à cidade, mesmo que não seja prosperidade financeira. Santa Maria da Boa Vista, por exemplo que é uma cidadezinha que fica na beira do rio, tem uma coisa da água trazer uma felicidade para aquelas pessoas. O percurso que o filme fez foi São Paulo – Salgueiro – Sta. Maria da Boa Vista – Cabrobó e Petrolândia. Quando vai chegando nesses lugares da água, vai aparecendo essa passagem da prosperidade. A gente chegou por Cabrobó procurando, investigando, sem saber muito bem pra onde ia, como ia. Chegamos com medo, tinha uma placa lá: “Propriedade privada”, mas quando a gente chegou na terra índigena foi muito legal a receptividade, as pessoas com essa “good vibe” da água. 

PC: Os indígenas têm que ser um assunto da gente o tempo inteiro e ainda vai demorar pra que isso seja “justiçado” de uma forma que não se precise falar disso o tempo inteiro. Coincidentemente, quando o filme ficou pronto essa era uma questão muito em voga. Então parecia, para algum desavisado, que a gente estava sabendo que ia ter esse massacre indígena que está tendo no país nesse momento. Não se sabia disso, mas essa questão estava no filme porque é uma necessidade premente de se falar. A gente esteve lá na ilha deles, conversando, falando sobre os problemas deles. Não era ficção!     

Lirio: Esse negócio da terra…. as pessoas também precisam ter conhecimento daquela região que a gente tava pesquisando, assuntando. É uma região de terras indígenas em Pernambuco e de nações indígenas baianas, unidas em volta do rio por causa da água. Essa história pra mim vem desde o Árido Movie. Ali acende uma coisa que explode agora no Acqua Movie. A gente passou por um protesto na estrada indo de Cabrobó para Petrolina, passamos uma hora e meia lá e acabou entrando no filme. Na Ilha da Conceição algumas comunidades já têm a posse da terra, mas várias outras não têm e ainda estão brigando. E a briga ainda é feroz, mas completamente precisada por uma questão maior. As pessoas acham que só tem indígena no parque nacional do Xingu e na Amazônia, mas no Nordeste tem muito, também no Mato Grosso e até em São Paulo lá no Jaraguá.

2 meses atrás teve um protesto das nações indígenas ali na região de Porto Seguro, fecharam a estrada e a cena era igual à cena que a gente fez. Eram os indígenas protestando pelas terras que não estavam demarcadas. Isso está presente desde o Árido Movie. A maioria das questões não está resolvida, nem culturalmente diga-se de passagem. Ano passado, pela primeira vez uma pessoa oriunda de nações indígenas ganhou uma eleição para prefeito, em Pesqueira. É o Marquinhos Xukuru. Ele foi proibido de assumir. Até hoje ele não conseguiu.

PC: Não conseguiu. É o golpe, né?

Lírio: Enfim, é uma questão mal resolvida.

PC:  Tem uma galera jovem, indígena muito foda, que foi pra universidade, estudou, se formou em cinema. Eu acompanho vários grupos no Instragram, de indígenas LGBTQI+, é lindo. Eu arrepio quando falo. Acho que tem uma esperança aí brotando na realidade indígena. A Priscila Tapajowara  (@priscilatapajowara) é uma cineasta formada em São Paulo e é lá de Santarém, no Pará, super ativista, do audiovisual.

É ótimo que o filme toque nisso para as pessoas que se acham não-indígenas – em vez de negar, excluir e botar no gueto, devíamos assumir que somos uma herança indígena, de várias formas. Nós somos! Está na nossa cultura brasileira o indígena presente. Nós temos hábitos, coisas, alimentos, vocabulário, hábitos culturais. A relação da água, da fruta. Várias coisas.

Lírio: Quanto à resistência, eles sempre estiveram aí e inclusive mandaram um recado quando Bolsonaro assumiu: “Vocês estão preocupados com a gente? A gente é que está preocupado com vocês. A gente sabe resistir e a gente resiste há 500 anos, desde que vocês chegaram aqui.”

Paulo Caldas: Está no “Abismo Tropical” (filme de Paulo Caldas, 2019) essa frase. 

Lírio: É uma coisa que não está resolvida.

PC: Acho importante que seu filme trate disso porque é, por outro lado, um filme mais intimista. Ele tem menos personagens que outros filmes seus, em que há uma proliferação de personagens, de histórias. Esse filme se prende a uma relação de uma mãe com o filho. Muito importante como narrativa e como opção. Ter todas essas coisas, mas não ser um clichê. É muito difícil tratar dessas questões sem que a personagem da Duda seja clichezada. Pra cair no panfletário e cair no “ecochato” é um pulo. O que salvou isso no filme de uma forma muito bacana é ser a história da mãe e do filho, que no fundo também estão descobrindo o Brasil, descobrindo o sertão, se descobrindo. Isso eu acho o mais bonito. Transformar todas essas em questões humanas, do drama pessoal de cada um.

O Diretor Lírio Ferreira. Foto: Barbara Cunha
O Diretor Lírio Ferreira. Foto: Barbara Cunha

Dani: Deixa eu entender uma coisa: Esse trajeto que vocês fizeram na viagem do roteiro é também o trajeto que a Duda faz no filme?

Lirio: Não só a trajetória…  Ajudaria muito se o roteiro fosse filmado na ordem cronológica. Então a gente precisava que tanto a equipe quanto Alessandra (Negrini) e o Antonio (Haddad) sentissem aquele impacto da chegada. Eles não foram pro sertão antes. Eles tinham que ter aquele impacto porque eram pessoas completamente estranhas ali. A gente começa a filmar em São Paulo a primeira semana e depois vamos pro sertão e fazemos o mesmo caminho. Tem essa coisa de impregnar isso na tela. É algo que vem do “Baile Perfumado”, que teve no “Árido Movie”, no “Sangue Azul” muito –filmar na ilha pra equipe e o elenco terem essa sensação de estarem em um ambiente insular e ir para a tela – então isso também faz parte do Acqua Movie.

O início do filme tem 23 minutos de um luto, um filme mais escuro, na penumbra e explode no sertão numa luz mais impressionista. Aquela coisa vem e você se perde, mais ou menos isso, se perder pra se achar. E tem o que Paulo falou, de ter essa relação da mãe com o filho em um road movie, cruzando com essas situações. Na verdade, é uma maneira de juntar a relação dos dois.

PC: Eu e Marcelo (Gomes) falávamos muito disso e você também, do fato de ter uma personagem principal mulher. Na nossa geração temos questões muito fortes com o machismo, porque viemos do analógico e de uma cultura extremamente machista. Lirio começa o filme com a morte do homem, do pai. Ao mesmo tempo, o filme inteiro tem o menino carregando o corpo daquele machismo, dessa presença do homem. São muitas camadas interessantes. Por mais que o cara tenha morrido, eles estão lá para levar essas cinzas, pra o menino conhecer a família, pra conhecer de onde veio o pai. É uma coisa muito contraditória, como é a vida, como é o drama. É uma busca que cria mais facetas para o filme. O filme me agrada extremamente porque tem uma presença forte o tempo todo, mas não é radical. Nem os personagens nem a história são radicais. O filme lhe pega nessa vontade daquelas pessoas de se conhecerem, de estarem juntos e conhecerem aquilo que é diferente de São Paulo. Porque era meio chata a vida daquele menino, do que estava acontecendo. No fundo, é uma aventura. Enfim, tô aqui falando como crítico já…

Lirio: Estamos vivendo esse momento, Paulo Caldas!

PC: É legal falar sobre o filme, ficar pensando, elucubrando. Na verdade, muitas das coisas são descobertas, não são coisas que você faz porque sabe que existe e então “vou fazer, vou mostrar aquilo”. Você vai descobrindo.

Lirio: Lá atrás, a coisa já foi muito batida, a história das perguntas nas entrevistas, nos lançamentos dos filmes mais antigos em que juntava todos os jornais numa tarde. Hoje em dia é mais espalhado, é Blog. Hoje você vai dar entrevista pra uma pessoa, é um estudante em Bauru. São novos tempos de lançar filme.

PC: Não tem mais aquele negócio de você acordar e ir até a banca, comprar os jornais, sentar na padaria e ficar lendo as críticas. Às vezes se divertindo, às vezes não se divertindo, dependendo do resultado. Era outro momento, completamente diferente. Hoje é muito legal também, muita gente vê, muita gente lê. É uma coisa que a gente não imagina, o que acontece nesse mundo aqui do que a gente está fazendo agora, do online. 

Lirio: É um salto muito bacana de uma coisa que estava enraizado na gente e de repente não tinha… É dizer assim: por que eu nunca tive uma protagonista feminina nos meus filmes anteriores? E agora eu tenho. Pronto, isso é bacana pra caramba a gente pensar. Muito joia. E não entra de uma maneira forçada. Tem a ver com a coisa da água, da fertilidade. O filme ser um spin-off da última cena do Árido Movie, ser aquela barriga da Giulia Gam e aquela barriga ser o menino Cícero. Essa extensão do Árido Movie, como eu sempre fui meio espiritual, funcionou muito. Acho isso muito bacana pra minha carreira. Eu e Chica passamos um tempo ralando, o filme passou por muitas coisas, muitas ideias. Não foi um filme fácil de fazer, de um orçamento muito grande, mas com o elenco e a equipe abraçando a ideia e construindo o filme. A gente filmou em deslocamento, que é uma coisa difícil, em 5 cidades. Saíamos de uma cidade, a equipe ia na frente, a gente ia filmando na estrada, não podia perder dia.

PC: Mas é um filme que tem um valor de produção muito grande, com padrão internacional, fotógrafo, diretor, elenco… Tem o Antônio Pinto na música. O filme tem uma qualidade e um valor de produção que, se fosse na gringa, iam gastar cinco vezes mais. Aliás, um dos milagres do cinema pernambucano é esse.

Chica: Realmente é difícil essa história do deslocamento. O valor de produção do filme, as pessoas não imaginam que tenha custado quanto custou. E voltando à questão dessa política atual, a gente vê que um filme como esse, com as possibilidades de captação que a gente conseguiu, hoje não seria possível. Desde 2017, que foi quando começou exatamente o golpe, não é mais possível um filme como esse, com uma produtora proponente pequena. A gente foi construindo por conta de edital. Um após o outro. Só de assinatura com o fundo setorial foram três. É um filme que se tornou viável por causa de uma política que está sendo extinta. Fora o valor de produção, existia também um reconhecimento às produções de filmes de autor e hoje em dia está havendo uma tentativa de aniquilação de todas essas possibilidades.

PC: De todos, entre eles, nós. Essa questão é fundamental hoje. Também falando um pouco disso, eu acho que em relação à pandemia e ao próprio governo Bolsonaro e à tragédia toda que está acontecendo, eu to com uma esperança. Por exemplo, eu e a Chica estivemos agora em Cannes, foi completamente diferente das outras edições e é uma prova linda do cinema. Todas as sessões que eu fui, as pessoas aplaudiram a vinheta de Cannes. Jamais aplaudiriam antes desse ano. Não era mais do que uma obrigação de Cannes fazer o festival e ter uma vinheta antes dos filmes passarem, era normal. Só que a ausência, a possibilidade de não existir mais uma coisa, fez com que as pessoas aplaudissem. Diferente de qualquer festival que eu já tenha visto antes.

Chica: Tudo era aplaudido fervorosamente!

PC: É uma demonstração de que a gente vai viver um renascimento, como houve em outros momentos. Eu me vejo no meu cinema assim, aberto a várias possibilidades que possam aparecer agora e aberto muito a uma possibilidade de que tudo pode ser refeito de outra forma, mesmo. Porque se você pensar de uma forma fria e calculista, talvez nunca tivesse existido “Deus e o Diabo na terra do sol” se tivesse um edital na Embrafilme na época. Será que Glauber seria um cara bom de fazer pitching de produção num festival? A situação é outra, a realidade é outra. A gente tem que se autogerir como indústria e ter um jeito de as pessoas pagarem pra ver as nossas coisas, porque são boas, e isso ser uma maneira de você sobreviver.

Chica: Mas o Fundo Setorial gerava muitos empregos. Acho que sim, está sendo reinventado porque é uma obrigatoriedade e a gente segue fazendo, mas não acho que tenha que ser extinto.

PC: Não, ao contrário, acho que deve ser retomado. A gente sabe que participa de 30 editais para ganhar um.

Chica: Eu acho que tem que haver mais editais, tem que ter essa política. Na França existe isso. A gente estava em um ambiente no festival, com todo mundo testado, muito por conta do governo da França. Uma política que é justamente contra tudo isso que está acontecendo aqui. Tem que voltar, tem que haver editais, tem que haver fomento. São duas coisas paralelas.

PC: Mas a gente sabe que os editais premiam muito pouca gente…

Lirio: O que a gente deveria conversar agora em cima disso tudo é que a gente foi atropelado, né?

Em dia se produz audiovisual em todo o Brasil por conta de uma política de estado, que começou com o governo de Lula, do Gilberto Gil como ministro da cultura. Hoje em dia se filma no Amazonas e o cinema da Amazônia vai pra Cannes. A gente foi atropelado por um vírus e por um verme. Duplamente atropelados! Já existia um discurso meio surdo ali, meio explícito, inclusive em Cannes que não aceitava filme de streaming porque o filme não estrearia no cinema, de como os filmes seriam lançados no futuro. Alguns filmes lançavam simultaneamente, outros chegavam mais rápido, ou lançava e em menos de um mês já lançava no streaming, lançava em paralelo, outros lançaram só no streaming. Só que com a pandemia essa coisa adiantou, essa discussão foi atropelada e a gente foi obrigado a lançar o filme da maneira como foi: arremessando o filme. O fruto tá ali na árvore, se não tirar ele cai. Ele amadurece e tem que ser lançado pra chegar no streaming com uma rapidez muito grande. É a discussão de como vão ser lançados os filmes pós-pandemia. Eu fico imaginando, você vai num cinema e a pessoa começa a tossir! Isso vai ficar, não vamos passar incólumes.

PC: Só os editais nunca vão cumprir toda a possibilidade de produção mais alternativa, mais independente. Essa daí não passa no edital, então tem que ter outro tipo de espaço, que é criar o mercado. Apesar de não ter espaço de financiamento, tem um espaço de público.

Lirio: A gente realmente tá repensando. A gente não vai sair dessa pandemia do jeito que a gente entrou, isso está claro.

Chica: Eu tenho um amigo que trabalha com caos ambiental e ele me disse que Recife daqui 11 anos tá alagado. Ou seja, não vai ter mais… Essa pandemia trouxe uma coisa que é muito do apocalipse.

Lirio: A gente acha que na hora que estiver todo mundo vacinado, quando baixarem os números todinhos, as coisas vão voltar do jeito que eram. Não vão voltar! Vão se normalizar nesse novo contexto, mas não vão voltar do jeito que eram porque ninguém passa incólume por essa situação que o mundo tá passando. Vai acontecer nas ideias dos filmes, nos relacionamentos, na sociologia, na antropologia, na saúde mental… em tudo! Em como a gente vai exibir nossos filmes, como a gente vai captar, de como a gente vai se relacionar. Eu tô morrendo de medo! Não pode mais dar beijo demorado!

Dani: Nem tirar a máscara pode, quanto mais beijar!

PC: Bom, agora Lirio resumiu tudo. A gente tem que esperar, não é isso Lirio boy?

Lirio: A gente vai ter que aprender desde essas relações interpessoais, até a relação com a profissão que a gente exerce, com o público que a gente vai atingir, com os caminhos que a gente tem pra construir essas interações. É uma coisa doida, porque é puxado mesmo o negócio. Deixa marcas, vai deixar uma cicatriz.

Agradecemos pela leitura do nosso documento.

,Sobre os autores:

Lirio Ferreira codirigiu, com Paulo Caldas, o longa Baile Perfumado (1996), um dos filmes mais marcantes da retomada do Cinema Brasileiro. Melhor Filme no Festival de Brasília, também foi exibido nos festivais de Toronto, Havana, entre outros.

Árido Movie (2005), o seu segundo longa-metragem, foi selecionado para o Festival de Veneza. Participou ainda dos Festivais do Rio, Miami (Melhor Diretor), Karlory Vary, Paris, Nova York, e CINE PE, onde ganhou seis prêmios, incluindo o de Melhor Filme e Direção

Em 2007, lançou a cinebiografia Cartola, codirigida por Hilton Lacerda, sobre o lendário sambista carioca, que se tornou o documentário de maior bilheteria do ano no Brasil. O Homem que Engarrafava Nuvens(2009), teve sua estreia internacional no MoMA, em Nova York e foi selecionado para o IDFA (Festival Internacional de Amsterdam), além de percorrer inúmeros festivais internacionais. O filme ganhou o prêmio de Melhor Documentário do Ano (2010), pela Academia Brasileira de Cinema. Sangue Azul (2015), premiado nos festivais do Rio e Paulínia, abriu a seção Panorama, do Festival de Berlim.

Instagram: @ferreira.lirio

Paulo Caldas é diretor, roteirista e produtor seus filmes participaram dos mais importantes festivais do mundo; Berlim, Veneza, Toronto, Roterdã, Havana, Guadalajara, Buenos Aires, Paris e Lisboa, no Brasil; São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Gramado entre outros. Recebeu mais de cinquenta prêmios nos melhores e maiores festivais do Brasil e do mundo.

FILMOGRAFIA: Baile perfumado (1997); O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas (2000); Deserto feliz (2007); País do Desejo (2013); Saudade (2018); Abismo Tropical (2019); Flores do Cárcere (2019); O Circo Voltou (2021)

SÉRIES DE TV: Saudade (2018); Borboletas e Sereias (2019); Comida é Arte (2020); Pequenos Mestres (2022)

Instagram: @paulocaldasfilmes

Chica Mendonça é produtora audiovisual, freelancer e sócia da Chá Cinematográfico.

Produziu os filmes Acqua Movie, dirigido por Lírio Ferreira; o documentário musical Erlon Chaves: O Maestro do Veneno!, dirigido por Alessandro Gamo e exibido no Canal Curta!; o documentário musical Eletronica:mentes, de Dácio Pinheiro, em coprodução com a Gore Filmes; o episódio A Sinuca e a Espiritualidade; o curta metragem O Poeta Americano ambos dirigidos por Lírio Ferreira. Foi diretora de produção de alguns filmes, entre eles A Luta do Século, de Sergio Machado e Não Devore meu Coração, de Felipe Bragança.

Participou da equipe de produção de filmes como Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas; Cinema, Aspirina e Urubus, de Marcelo Gomes; O Passado, de Hector Babenco; Depois de Ontem, antes de Amanhã, de Christine Liu; Rio Doce / CDU, de Adelina Pontual; Meu Amigo Claudia, de Dácio Pinheiro; Gata Velha Ainda Mia, de Rafael Primot, entre outros. Trabalhou em projetos de documentários para televisão, como as séries Nordeste feito à mão; Indústria Cultural; o documentário O Rei do Carimã, dirigido por Tata Amaral.

Instagram: @chicamendonca

Daniela Coutinho Magro é estudante da Pós-Graduação em Dramaturgia: Cinema, Teatro e TV do Célia Helena Centro de Artes e Educação.

Instagram: @dani_elacoutinho            

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