,A Cia Gira Dança: lembretes para o não-esquecimento

Por Alexandre Américo, diretor artístico da Cia Gira Dança

BANDO a dança que ninguém quer ver (2020) - Por Brunno Martins
BANDO a dança que ninguém quer ver (2020) – Por Brunno Martins

Em 2005, no contexto da Cidade de Natal no Rio Grande do Norte, surge a Cia Gira dança tendo como fundadores os artistas da dança Anderson Leão e Roberto Morais. Logo agrupando outros artistas a Cia se estabelece, já em seus primeiros trabalhos, como uma zona capaz de gerar tecnologias inacabadas (coreografias) operadoras de corpos discursivos ou de discursos corpados com o enfoque nas relações tensionais entre corpos com e sem deficiência.

Mas nem sempre foi assim, portanto cabe aqui uma primeira reflexão: ao mesmo tempo em que geramos o contexto, somos produtos de nosso entorno e na dança isto não é diferente. A dança não é especial, ela é um processo da vida e por isso é sujeita às mesmas prerrogativas que qualquer outro processo do viver. Para não esquecermos: a dança é a própria vida. Dito isto, seguimos.

Na década de 2000 imperavam (?) , no contexto da dança, as estruturas hegemônicas e suas normatividades. Esse traço ganhava contornos nos lugares mais improváveis, nas escolas de danças, nas periferias, na educação básica formal e também na Cia Gira Dança. Ora, não há antídoto simples para uma questão tão complexa. Quero dizer, reproduzíamos, e se bobear ainda deixamos os colonizadores em nós ganharem voz, os padrões impositivos que herdamos no âmbito da dança. O diretor com a maior voz, o bailarino que anseia a execução de ordens, o corpo tido enquanto algum tipo de ferramenta para a expressão de algo que não sua própria fala. Estas são armadilhas delicadas que fomos percebendo ao longo desses 15 anos.

Precisamos nos esforçar para nos mantermos perguntando, precisamos de um esforço hercúleo para que nos tornemos corpos críticos de si e assim seguirmos a produção em dança contemporânea. Aliás, para mim e para nós, este é um dos traços fundantes da dança contemporânea: a capacidade de produção de corpos que são, em si, questão.

Teço esses apontamentos com o compromisso de escrever um texto honesto ao nosso fazer/ser. Escrevo com o desejo de profanar a imagem construída da Cia, a imagem que insiste em nos afastar de quem somos, uma imagem feita a partir de perspectivas outras que não as nossas. Profanar como Agamben, no sentido de devolver à Terra, ao mundo das coisas ordinárias, todo o construto imagético que nada diz sobre o que a Coisa (Cia Gira Dança) é. Estamos despindo a Cia Gira Dança de qualquer imaginário consensual de homeostase sem tensão aonde se vive junto de maneira dócil e tranquila, sem discrepâncias e sempre em corcordância. Esta escrita ruma para algum tipo de abalo, de rachadura enquanto ideia de Cia de Dança e tenta avançar/propor uma Imagem inacabada de si mesma.

Lembrete: percebemos a Cia enquanto zona que atua no dissenso de vozes plurais, num jogo de tensões ininterrupto a partir de corpos-artistas com e sem deficiência.

E quem ou como somos? A Gira Dança, bem como qualquer organismo lutando por sua sobrevida, se adapta e organiza seus contornos a partir de seu modo único de negociar. Em nosso caso, trabalhamos, essencialmente, com a interferência direta de outros artistas e suas pesquisas.

Aqui outro lembrete: não estamos interessados em construir uma linguagem própria, fixa, rígida, controlada, bem contornada, mas em inacabar a nossa linguagem enquanto bando que dança.

Com isso, é importante dizer que compreendemos os processos criativos enquanto zona intrinsecamente formativa e é através deles, dos processos criativos, que damos cabo de gestar também a nossa noção corpoda de educação. Compreender que o nosso fazer é educação é vital à nossa dança uma vez que nós atuamos como uma Cia que opera junto a noção de que não há distinção entre as práticas que preparam os corpos para as peças e a própria corporificação da peça. Digo que estamos interessados em tecer relações de continuidade entre treino e obra, entre vida e dança, na tentativa de dissipar a dicotomia vigente que persegue o fazer dos grupos de dança ainda hoje. Não há assim, uma Técnica Universal capaz de assegurar as singularidades corpóreo-mentais dos indivíduos componentes da Gira. O que existe é a prática de experimentação constante e a profusão de poéticas advindas dos nossos processos criativos em dança.

E que dança é essa? Uma dança para se fazer criticar, não via dureza racionalista, mas por meio de algo da ordem do sensível. Uma dança que nos habilita ao exercício de sermos sujeitos a partir de nossas diferenças corpóreo-mentais. E é neste sentido que nos importa a consciência de uma educação que vai nos fazendo no e com o mundo.

BANDO a dança que ninguém quer ver (2019) - Por Brunno Martins
BANDO a dança que ninguém quer ver (2020) – Por Brunno Martins

UMA ESTRUTURA SATISFATÓRIA.

Ao escrever, me dou conta que esta é uma reflexão muito íntima nossa. Este texto parece ganhar tom de um pensamento em voz alta. E lá se foi mais um lembrete. Seguirei, ou melhor, seguiremos.

Em sua historiografia em dança, seu específico percurso na produção da dança brasileira pós-primeira década dos anos 2.000, o grupo se organizou entorno de um modo de operação que consistiu em convidar artistas da dança contemporânea para compor junto aos corpos da Gira. Artistas como Mário Nascimento, Mauricio Motta, Clébio Oliveira, Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira, Toula Limnaios, Jaquelene Linhares e por último, Elisabete Finger. Além de alguns trabalhos desenvolvidos com o antigo diretor artístico Anderson Leão e agora comigo, Alexandre Américo, enquanto criador residente.

Nesse contexto de troca informacional e muita oxigenação fomos maturando, com muitos desvios, picos e depressões uma política-estética de nossa dança que fizesse atentar para o modo de nos relacionar com as informações estrangeiras que vinham dissimuladas com os artistas convidados e suas pesquisas em andamento. E é aqui que o desejo de criarmos um campo dialógico e horizontal, quanto às relações de convivência, começa a ganhar carne.

No atual ano, graças a projeto contemplado no Rumos Itaú Cultural 2019-2020, iremos desenvolver uma criação com a Elisabete Finger. Sem a pressa de sermos capturados pelo sistema-mundo, mas com o intento de sermos honestos em nossas relações a Carne da Gira estará sendo gestada sobre o imperativo da cooperação e este é mais um lembrete.

Sob a égide da cooperação encontramos, atualmente, a chave para a diluição de um dos traços que imperava nas relações de natureza coreográfica desde a formação da Cia: a reverência colonial. Esta chave nos lança ao exercício de destituir o estrangeiro de certa aura magnífica, de detentor de um saber mais validado, de explicador e nos reposiciona em pé de igualdade quanto às tessituras das inteligências.

É importante relevar que, na dança, é comum conferirmos certa autoridade descabida a figura do(a) coreógrafo(a), pois frequentemente o(a) percebemos como esta imagem que detém o saber e o monopoliza. Contudo, queremos dizer que estamos rumando para outro tipo de relação entre o local e o estrangeiro, entre quem está desde dentro da Cia Gira Dança e quem interfere desde seu exterior. Estamos interessados em dissolver essa fronteira para que possamos também produzir um saber outro, um saber nosso, uma ecologia em dança que admita lógicas e poéticas do Sul.

Para isso, propomos uma relação de cooperação, o que implica a manutenção empática de estar com o outro admitindo e acolhendo suas diferenças, nos colocamos em terreno horizontal capaz de fazer brotar uma dança plural alinhada politico-esteticamente aos nossos interesses e desejos provisórios.

BANDO a dança que ninguém quer ver (2022) - Por Brunno Martins
BANDO a dança que ninguém quer ver (2020) – Por Brunno Martins

A NOSSA REVERÊNCIA COLONIAL FOI SE TRANSMUTANDO EM COOPERAÇÃO A PARTIR DA NOÇÃO DE CORPOS ENQUANTO ZONA DE CRUZAMENTOS E FLUXO CONSTANTE.

Logo, a partir de nossos corpos em fluxo, aqui estamos. Construindo, destituindo, reconstruindo, conferindo, admitindo, autorizando, questionando, complexificando, verificando, horizontalizando. Estamos direcionando o nosso percurso em dança a partir dos discursos que estes corpos persistem em convocar.

Somos corpos em fluxo constante, abertos às interferências do entorno. Corpos criando o entorno. Somos os senhores e senhoras de nossos destinos. Reivindicando a regulação de nossa própria vida. Para tanto dançamos, pois é nesta Coisa chamada Dança que encontramos espaço para sermos no mundo. Poderíamos nós, termos nos valido de qualquer outro artificio, no intento de criticar e ser no mundo. Mas somente a Dança conseguiu nos tomar, somente ela possui a chave acessível da abstração capaz de nos fazer tropeçar no fluxo ordinário do cotidiano nos lançando ao infinito extraordinário do pensar o mundo. A dança, o nosso jeito de Pensar as Coisas. O nosso jeito de criar os nossos próprios lembretes.

Para encerrar este devaneio textual com tom de pensamento em voz alta ultra-secreto lanço o nosso último e mais importante lembrete:

DANÇAMOS PARA NÃO NOS ESQUECER DE QUE CONVIVER COM O DIFERENTE COMPLEXIFICA A VIDA TERRESTRE E ESTE É O NOSSO EXERCÍCIO ÉTICO-POLÍTICO-ESTÉTICO.

BANDO a dança que ninguém quer ver (2023) - Por Brunno Martins
BANDO a dança que ninguém quer ver (2020) – Por Brunno Martins

Ficha técnica Gira Dança

Direção artística: Alexandre Americo
Bailarinas (os): Marconi Araújo, Joselma Soares, Wilson Macário, Álvaro Dantas, Jania Santos, Ana Vieira e Samuel Oliveira.
Produção executiva: Celso Filho
Direção Financeira: Cecilia Amara
Direção Espaço Gira Dança: Roberto Morais

VOZES REFERENCIAIS OU BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

AGAMBEN, Giorgio. Profanações. Tradução de Selvino J. Assman. 1ª reimpressão. São Paulo: Boitempo, 2007.

DEWEY, John. Arte Como Experiência. São Paulo: Martins Fontes- selo Martins, 2010.

GREINER, Cristine, ESPÍRITO SANTO Cristina, SOBRAL, Sônia (2010). Cartografia Rumos Itaú Cultural Dança: Mapas e Contextos, São Paulo.

GREINER, Christine; KATZ, Helena (2005). O Corpo: pistas para estudos indisciplinares. São Paulo: Annablume.

LEPECKI, André . Exaurir a Dança: performance e a política do movimento; Tradução Pablo Assumpção Barros Costa. – [1.ed.] – São Paulo: Annablume, 2017.

MEDEIROS, R. M. N. Uma educação tecida no corpo. São Paulo: Annablume, 2010.

PORPINO, K. de O. Dança é educação: interfaces entre corporeidade e estética. Natal, RN: EDUFRN – Ed. da UFRN, 2006.

RANCIÈRE, Jacques. O Mestre Ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual. Tradução de Lílian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula. (Orgs.) Epistemologias do Sul. São Paulo; Editora Cortez. 2010. 637páginas.

SETENTA, Jussara (2008). O fazer-dizer do corpo: dança e performatividade. Salvador: EDUFBA.

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Alexandre Américo Artista e Pesquisador da Dança com Licenciatura em Dança e Mestrado pelo PPGARC, ambas pela UFRN. Hoje é atuante na área da investigação em Dança Contemporânea, com enfoque em estruturas performativas e seus desdobramentos dramatúrgicos. Ex-aluno especial de Doutorado em Estudos da Mídia, UFRN e atual Diretor Artístico da Cia Gira Dança (Natal-RN).

Instagram: @alexandreamericooficial @ciagiradanca

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