,A moça e o porco – Contradições de uma feminista leitora de Bukowski

Por Flavia Alves

Linda King e Charles. Mulher de grande importância e inspiração na vida do escritor
Linda King e Charles. Mulher de grande importância e inspiração na vida do escritor

Olha Charles, eu te escrevo para contar que acabo de terminar aquele seu livro chamado Mulheres e confesso que tive dificuldades em te resenhar. O caso é que eu andei comprando umas brigas por aí quando cancelaram a sua literatura e disseram que homens como você não valiam a atenção de uma leitora. E então, sabendo eu que havia motivos para a zanga, fui ao cerne do problema e li, justamente, aquele seu romance em que você dispõe a falar sobre a vida amorosa de Henry Chinaski, um poeta bêbado que protagoniza, pelo menos, mais quatro das suas obras.

Tá, tudo bem, a literatura não é exatamente um diário, Kafka não virou uma barata, blá, blá blá. Mas, porra, Bukowski! Chinaski?

Sobre seu livro Mulheres, na época, datilografado em dois meses e meio para agradar um editor que comentou, circunstancialmente, com você que romances vendem melhor que poemas… A coisa saiu como que por encomenda. Na leitura, encontrei um autor dando ao mundo o que o mundo espera dele; humor, charme e a autocomiseração dos homens fracos, a certa altura, mais lúcidos da fraqueza, para o bom e velho clichê do final feliz; como se a baixa da libido, associada à uma possibilidade de monogamia, redimisse o lobo escancaradamente escondido embaixo da pele de um carneiro.

E a fórmula que você usou no caso da sua obra Mulheres, meu deus! Como gostam. Já fizeram de um tudo; filmes, livros, séries e mais séries de homens lascivos e sensíveis rodeados de ninfetas e coisas do tipo. O caso é que nem um Blood on the Tracks, do Dylan, colocado de trilha para as cachorradas de Hanck, em Californicarion, deu conta de fazer brilhar aquilo que não brilha.

Tudo bem, você sobreviveu à base da confecção de poesia marginal, comeu enquanto todo mundo morria de fome, bebeu bastante e comprou a sua casa em Miami. Você, vivinho da Silva, presenciou o prestígio da fama em vida como quase nenhum dos caras que você leu. Porém, toda boa fama tem seu preço, e você, meu velho, pagou o seu quinhão. Sim, eu entendo, homens misóginos convencem, mas precisava desse festival de gatilhos em sei lá quantas situações problemáticas em mais de duzentas páginas de livro?   

Ainda assim, confesso que gosto da maneira como você lida com todas as suas relações, em termos literários, claro. É pobre, parco, ilusório e infantilóide, assim como você mesmo é. Mas devo dizer que, apesar do mau jeito, existe uma certa honra com as relações amorosas reservadas para as mulheres com um quê de insanas. Como se, ao escolhê-las, ao menos no mundo da ficção, você conseguisse reverter as regras do jogo e fazer de um bom jogador, um sujeito bom. Ou pelo menos, bom o suficiente para apostar seu carinho nas criaturas mais perigosas. Ainda que elas dispensem a misericórdia do mundo e o seu amor com a mesma desenvoltura com que dispensam bitucas. 

No sexo, é como observar em closed caption os instantes que precedem a peleja de um puma contra um lobo em um ringue de rinha. A fatalidade do lugar e das regras que regem aquele mesmo lugar, e o olhar vítreo e ensandecido das feras na iminência de uma carnificina. Mesmo que, no fundo, em ambos, a vontade de matar brigue com um certo sentimento de finitude por aquela qualidade de conflito.

Uma coisa é certa, se seu deus por acaso existiu, ele, provavelmente, morava menos no seu piru de ouro e mais na velha máquina que insistentemente martelou por toda a sua vida. Em algumas passagens, é quase como se eu ouvisse o canto daquele mesmo pássaro azul que você escreveu, muito anos mais tarde, em um dos seus melhores poemas. À revelia da sua guarda, há momentos em que a sua sensibilidade transborda. E isso é lindo.

O que eu não entendo é por que você não colocou em Mulheres o título que o seu protagonista disse, na obra, que daria para um livro como este; a história de amor das hienas. É um bom título. Melhor que o seu. 

Mas agora, papo reto.

Se te escrevo, não é para dizer que seu livro é uma merda ou vale a pena ser lido ou se você é um porco ou não. Isso não vem ao caso. Te escrevo para contar que, apesar daquelas tantas e tantas passagens indigestas, essa leitura me aproximou um pouco mais de você e daquela loucura que a gente tem em comum.

Uma obsessão, uma doença, sei lá que merda é essa e que nome se dá. Eu senti ela ali, nas entrelinhas, e vi, no seu medo, um medo primo daquele que me assombra. E por isso a bebida, os cavalos e todas essas milhares de distrações que a gente inventa.

Você não me parece temer o mundo, nem o que a literatura é capaz de desanuviar sobre este mesmo mundo. O medo em você, semelhante ao meu, parece vir daquilo que mexe, lá no fundo, e te comove de verdade. Como se ao homem (e a mim, uma mulher fálica) não fosse permitido o choro, a maturidade e os desdobramentos de uma coisa combinada com a outra.

É muito duro essa coisa de dar conta e prestar contas.

Não te perdoo, homem. Porém, entendo. 

A primeira versão deste texto foi originalmente publicada em @alvs_flavia / alvsflavia.medium.com – enquanto a atual publicação nasce de um convite / provocação do site Deus Ateu para a autora.

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

,Sobre a autora:

Flavia Alves é jornalista, ghost writer e dramaturga. Alia a atividade de comunicadora em organizações do terceiro setor com a escrita de ensaios, resenhas e peças teatrais. Saiba mais sobre a autora pelo perfil @alvs_flavia no Instagram e Medium.

Instagram: @alvs_flavia

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