,Retorno a Lacan? Uma entrevista com Arthur Mendes

Por Alan dos Santos.

Jacques Lacan (1931 - 1981)
Jacques Lacan (1931 – 1981)

Convidamos o professor e psicanalista Arthur Mendes para tratar da atualidade da clínica lacaniana e dos pressupostos da psicanálise estrutural. Esse é o mote central da entrevista. E, logo no início, fomos lançados a uma boa provocação – um retorno a Lacan. Se Lacan propôs um retorno ao sentido da obra de Freud, Arthur Mendes, por sua vez, propôs um retorno a Lacan, ao “primeiro Lacan” – aquele dos seminários dos anos 50-60.

Chama a atenção o modo como Mendes se fez conciso e profundo na mesma medida, tornando a leitura agradável e instigante. Pontos importantes do procedimento psicanalítico lacaniano foram revisitados, como a questão do fim da análise e o predomínio da linguagem falada.

Provocado sobre a importância de Édipo para a psicanálise, Mendes, sem titubeio, repôs a discussão em seu lugar, para além das críticas e exageros que rodeiam esse ponto do edifício psicanalítico. “De espinhoso o tema não tem nada”.

Esperamos que apreciem esse conteúdo e que ele instigue a leitura dos trabalhos de Lacan e dos teóricos lacanianos citados! Como afirmou Arthur Mendes, do ponto de vista da legitimidade editorial (e da clínica), a psicanálise lacaniana vai bem, obrigado!

(As perguntas e as respostas foram trocadas via e-mail)

Alan Santos – Arthur, obrigado pela entrevista! Posso dizer sem hesitação que você me abriu as portas para a psicanálise, tanto pela transmissão do conhecimento através das aulas da EPE, mas principalmente pela clínica. Portanto, é uma satisfação falar com você sobre psicanálise!

Para começarmos, fique a vontade para falar da sua trajetória e para apresentar a EPE – Escola de Psicanálise Estrutural. O que se deve entender por psicanálise estrutural?

Arthur Mendes – Antes de mais nada quero agradecer muito o interesse e a possibilidade de me comunicar com a audiência desse prestigiado espaço digital. Respondendo sua questão:  Psicanálise Estrutural é o nome que Jacques Lacan utiliza, em seus primeiros seminários, para batizar o efeito do choque da obra e do pensamento lévi-straussiano no aparato freudiano, mais precisamente na prática clínica e na sustentação metapsicológica do ato analítico. É dizer que a formulação que normatizou-se chamar estruturalismo, e não vou aqui dissecar o que compõe essa lógica, tem profundas consequências na teoria e na prática clínica, consequências essas que são demonstradas nos primeiros seminários e nos escritos lacanianos da década de 50-60. É esse “primeiro Lacan”, o lacanismo da operação significante, que através da Escola de Psicanálise Estrutural (EPE) busco evidenciar, tal como um ponto-de-estofo para uma prática psicanalítica conhecedora de suas lógicas internas e consciente de seus limites. Às vezes chamo essa empreitada de “Retorno a Lacan”.

Para quem quiser entender o ponto de vista que retorno, e reforço em uma torção estruturalista, peço que se atentem sobre a incidência do ensaio “Estruturas e mitos”, de Claude Lévi-Strauss, no maquinário teórico do freudismo que estava sendo renovado pelo mestre de Paris desde 1953. Quero dizer que aproximar o sintoma freudiano do mito straussiano, e encontrar em ambos a tentativa de solucionar um problema que não pode ser resolvido, demonstra a potência da colaboração estruturalista à uma prática que se entenda psicanalítica. 

Sobre a minha trajetória: sou historiador de formação, pessoalmente me considero, ainda hoje, um genealogista. Tenho rápidas passagens pela PUC-SP e pela Universidade de Salamanca onde pesquisava uma corrente historiográfica em 2009, foi nesse momento que me deparei com a obra freudiana, e concomitante ao advento dessa leitura decidi me submeter a uma análise, à época chamada de didática, e foi no divã que me converti ao freudismo, efeito óbvio da incidência do dispositivo analítico em meu sofrimento, e desde 2011 dedico-me à clínica psicanalítica e à sua transmissão. Já a EPE, foi fundada em 2017, e é a tentativa de desenvolver um ambiente digital onde o discurso analítico possa ser enunciado e dialetizado por seus membros, através dos dispositivos do Cartel, Seção Clínica e Seminário Permanente da Escola.

Cadeia Significante
Cadeia Significante

Alan Santos – Ao seu ver, o que há de mais potente e específico na psicanálise em seu procedimento lacaniano?

Arthur Mendes – Sem dúvida o mais instigante é o poder da palavra, sua capacidade de engendrar e de dissolver sofrimentos. Mas não trata-se de qualquer palavra, trata-se da palavra enunciada, empenhada em uma situação específica chamada ambiente transferencial.  O fato da análise ser uma experiência de linguagem e desenvolver-se de forma linguageira  nos permite alicerçar essa prática clínica em uma disciplina consistente, como a linguística, dando um novo frescor teórico e prático à psicanálise em intenção e extensão.

Alan Santos – É possível afirmar que Jacques Lacan foi o responsável por aproximar a psicanálise da filosofia e das ciências humanas? Sabe-se que Sigmund Freud não era muito afeito à especulação filosófica.

Intelectuais diversos da segunda metade do século XX elaboraram críticas contundentes à psicanálise (talvez a publicação de O Anti-Édipo, de Deleuze-Guattari, seja o clímax disso). Qual é a atualidade da clínica lacaniana?

Arthur Mendes – Freud, como sabemos, observava a filosofia como um sistema paranoico, o que não estava errado de sua parte, entretanto o que ele pode não ter levado em conta seriam os benefícios epistemológicos para a psicanálise sobre a consciência do aparato paranoico que sustenta o ato filosófico. Benefícios esses que Jacques Lacan notou desde cedo quando começou a frequentar os seminários de Alexandre Kojève sobre a filosofia de Hegel, ainda nos anos 20. Sim, foi Lacan que abrindo sua Escola para não-analistas, permitiu que o público da Sorbonne e demais estudiosos, dos mais variados departamentos, ficassem a par de seu ensino, de seu freudismo, tornando comum a todos os universitários franceses e europeus o trânsito da obra freudiana.


Sobre a atualidade da clínica lacaniana pouco tenho a dizer além da minha, sou um homem de setting, transcorro minhas horas produtivas entre a escuta e a leitura,  e como não sou dado aos ritos acadêmicos pouco sei do que acontece nos fóruns e demais ágoras. Entretanto, por acompanhar a obra de alguns psicanalistas contemporâneos, gente como Luciano Lutereau, Nora Trosman, Alfredo Eidelsztein, Marco Antonio Coutinho Jorge e Colette Soler posso inferir que os lacanismos vão muito bem obrigado, em termos de circulação, debate e legitimidade editorial, ao menos.

Alan Santos – Por que falar ainda em Édipo? Qual a compreensão atual desse tema espinhoso?

Arthur Mendes – O tema de espinhoso não tem nada, é até simples, o que dificulta é a falta de leitura das formulações edipianas, associada a uma resistência racionalizadora, um tipo de perversão defensiva muito comum. Falávamos, falamos e falaremos de Édipo, pois Édipo – que é apenas um nome – é uma estrutura e como tal é efeito da incidência da linguagem na vida humana, sendo assim onde houver linguagem haverá Édipo. Por quê? Porque toda linguagem pressupõe que se saiba contar  – pôr em ordem – e Édipo nada mais é do que a capacidade de contar até quatro. Onde houver espécime humana que conte até quatro, haverá Édipo. Quando a criança aprende a contar: mamãe, eu, papai e falo, lá está o “tal” do Édipo. 


Vou tentar esclarecer: Édipo opera como função matemática que faculta o espelhamento identificativo constituinte do aparelho psíquico, foi apresentado por Freud de forma metafórica, tal como é comum aos mestres, com o objetivo de elucidar o mistério da constituição subjetiva humana, trata-se de uma constatação sobre o destino do desejo, seu estatuto e incidências. Será um tema pertinente enquanto houver ser falante sobre esse planeta, independente das resistências denegatórias, usualmente de origem fálico-fantasistas, em seus mais variados discursos, como o filosófico, por exemplo; entretanto, a filosofia é um mal necessário, até para a psicanálise.

Sade (1740 - 1814)
Sade (1740 – 1814)

Alan Santos – Para concluirmos, o que se deve entender por “fim da análise”?


Arthur Mendes – O fim da análise é constatado quando o analisante fica feliz em ter consciência de ser o resto que se é, sem o cinismo que tal afirmação faculta e liberta, caso esse fim de análise seja a antecipação de uma certeza. Segundo Lacan, ao longo de uma análise vamos da impotência à impossibilidade, e assim sendo é possível entender a experiência analítica como uma experiência-limite com as bordas do ser.

O aclamado fim da análise é um evento muito buscado e pouco encontrado nas análises, pois depende, entre outras coisas, da decomposição da fantasia do analisando, decomposição essa que tem todas as características de uma verdadeira destituição subjetiva, destituição essa que vai em sentido oposto às demandas de identidade tão comum nas psicopatologias de nosso tempo, e tão fustigadas pelas paixões contemporâneas.

Agradecemos pela leitura da nossa entrevista.

,Sobre o entrevistador e o entrevistado.

Alan dos Santos é professor de Filosofia e Psicanalista. Mestre em Filosofia. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura.

Instagram: @alan_santos_radar

Arthur Mendes é psicanalista, transmitente de psicanálise e fundador da Escola de Psicanálise Estrutural. Mantém a plataforma de ensino online da EPE (www.psicanaliseestrutural.com.br) e o canal do youtube EPE – Arthur Mendes.

Instagram: @epearthurmendes


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