,Militares e Guerra Híbrida no Brasil atual – Com Alexandre Dal Farra

Por Deus Ateu.

Projeto Verdade - Tablado de Arruar
Projeto Verdade – Tablado de Arruar

O atual foco do grupo Tablado de Arruar é a militarização do poder no Brasil. A companhia vai tratar de questões políticas, tanto em cena quanto num ciclo de debates, buscando nomear e apresentar as estratégias contemporâneas utilizadas pelos militares no país.

Um dos conceitos que o Tablado tem se debruçado, além do psyop*, é o termo ‘guerra híbrida’, uma “guerra por procuração”, em que os verdadeiros agentes do conflito permanecem invisíveis, e que já está em andamento no Brasil (segundo o grupo), com o avanço de militares em várias esferas do Poder federal, de forma silenciosa, sem chamar a atenção.

*PSYOP, um dos assuntos abordados no Ciclo de Debates, é um termo militar para as operações psicológicas, que visam influenciar o comportamento de uma sociedade (ou de parte dela) por meio de informações, linguagens, imagens e dados enviesados. Nos EUA é um termo bastante difundido, mas por aqui ainda não, mas seu uso é recorrente.

Diante destes e de outros termos, de modo agudo e quase sociológico, o projeto aponta contra o simulacro que nos furta a vista clara dos fatos. Para também termos em mãos alguns dos recursos do grupo, numa tentativa de apresentarmos com maior naturalidade as balizas da obra, convidamos Alexandre Dal Farra, dramaturgo, para uma conversa direta. Em poucas questões, nesta rápida conversa, o autor apresenta, agora pelo lado de dentro, suas certezas, intuições e movimentos em direção ao projeto realizado.

Boa leitura!

Deus Ateu – O Brasil está em guerra e não sabemos?

Alexandre Dal Farra – Algumas pessoas dizem que sim, e é uma hipótese largamente documentada. Essa guerra, no entanto, envolve muitos “territórios”: direito, política, saúde. Tudo é visto pelos militares como parte da guerra – e de dentro dessa paranóia, eles de fato vão criando territórios em guerra. Na Alemanha Nazista seria necessário ser um pouco paranoico para imaginar que se estava matando pessoas em série em câmaras de gás. Creio que hoje precisamos correr o risco de pensar hipóteses um pouco absurdas, para entender o mundo absurdo em que estamos vivendo. Chega-se a um ponto em que a razoabilidade começa a se transformar em negacionismo.
Por outro lado, vejo que existe também o outro extremo.

Algumas pessoas que conseguiram de fato (me parece) entender outras camadas do que estamos vivendo correm o tempo inteiro o risco de se tornarem efetivamente paranoicas, e esse é o fio da navalha em que estamos neste momento. Parafraseando David Foster Wallace (e acho que vale levar a pergunta a sério), “sim, eu estou sendo paranoico. Mas será que estou sendo suficientemente paranoico?” Por um lado corremos o risco da razoabilidade negacionista, porque neste momento a realidade é ela mesma uma construção paranoica, por outro lado, corremos o risco de desdobrar de fato essa paranoia em nós. É um território capcioso o que estamos.

Deus Ateu – Por que devemos temer as psyop?

Alexandre Dal Farra – Creio que muitas vezes estamos diante desse tipo de dinâmica por exemplo, no atual governo, e nem sempre nos damos conta. Mas essa é só uma das estratégias, há muitas outras, bem mais complexas e elaboradas. Algumas delas são descritas no livro “Brasil no Espectro de uma Guerra Híbrida”, do antropólogo Piero Leirner.

Deus Ateu – Quais são os riscos da militarização do governo Bolsonaro?

Alexandre Dal Farra – Acho que a nossa narrativa está equivocada. Não existe militarização do governo, Bolsonaro presidente é projeto direto dos militares. Segundo Piero Leirner, a guerra híbrida é feita “por procuração”. Isso possibilita que surjam divisões entre agentes aparentemente antagônicos. Assim, quando achamos que estamos nos defendendo do nosso inimigo, na verdade nos jogamos no colo dele próprio.

Como quando torcemos para que o exército nos “salve” da “loucura” de Bolsonaro. Esta por exemplo é muito provavelmente uma operação psicológica em curso: tentar fazer com que parte do exército comece a aparecer como salvação para aquilo mesmo que eles criaram.


Deus Ateu – Como encontrar uma poética para este tipo de investigação? Ou te parece necessário apresentar o dado concreto, não representado, como toda a sua dureza “jornalística”? Como o teatro, uma área que pressupõe ao mesmo tempo um jogo implícito, pode jogar sem talvez “amenizar” a crise que o tema revela?

Alexandre Dal Farra – A situação atual nos jogou em alguns cenários que, até onde tenho acompanhado, são mais ou menos endêmicos.

Ou estamos atirados a uma espécie de “tautologia” constante, ou seja, de repente fomos como que instados a “defender posições” muito claramente no terreno artístico, e vejo muitos de nós às voltas com essa armadilha, que consiste em uma espécie de discurso pré-existente que só nos cabe reproduzir – dizer que somos contra a ditadura, que defendemos a democracia, somos contra a tortura, contra o machismo, etc. Isso pode aparecer dessas maneiras mais óbvias, mas também em formatos aparentemente elaboradíssimos e por vezes extremamente dispendiosos, mas cuja formulação no fundo se reduz muito claramente a isso: “Bolsonaro é mau, não estamos de acordo, somos contra o retrocesso que ele quer nos impor…”, etc, etc. E dizer tudo isso… para nós mesmos. Não vejo realmente pra quê.

Creio que é uma situação de pânico que se instaura, onde parece restar apenas uma reação de “defesa”, ou de “ataque”, completamente codificados, onde o discurso perde totalmente a força para movimentar qualquer coisa. Me percebi caindo nisso, e também percebi muitos outros caindo nisso.

Alexandre Dal Farra, um dos mais intensos e importantes autores da atualidade
Alexandre Dal Farra, um dos mais intensos e importantes autores da atualidade

Reafirmar simplesmente as nossas posições diante do ataque, como se isso fosse uma defesa – sem levar em conta que talvez justamente isso seja o ataque (contra nós). Ou seja, assim nos tornamos tão previsíveis que na realidade talvez seja justamente desse jeito que façamos a nossa parte para manter o mesmo mecanismo que nos ataca. Falando as coisas “que nos cabe falar”, sem nos questionarmos, sem nos mover, não estamos nos defendendo: estamos parados, torcendo para o ataque cessar. Por outro lado, vejo uma outra tendência, que é a de, digamos, “se refugiar” em outros territórios, e tentar não tocar nesse assunto, o que possibilita talvez um nível maior de elaboração (eu mesmo estou trabalhando em um livro que não parte de nada disso, e onde tais questões, se aparecem, estão completamente mediadas e irreconhecíveis).

Para mim, no entanto, pela minha própria característica, é difícil ignorar esse tipo de questão, sobretudo no teatro – porque tendo a pensar o teatro politicamente, e a me movimentar a partir de questões políticas. Então, nesse sentido, eu acho que o tamanho do problema que se nos apresenta é realmente imenso, e é, para mim, inevitável olhar para ele – o que não significa que ele se apresente como o que verdadeiramente é (embora seja justamente esse o seu gesto performativo). Ou seja, respondendo à questão mais diretamente: não se trata de ser jornalístico, mas também não consigo evitar olhar para o terror frontalmente. O desafio, acho, é encontrar uma maneira de olhar para o terror que nos possibilite voltar a nos mover diante dele.

Deus Ateu – O que você não gostaria que a peça fosse? Na primeira hora, quando decidiu-se pelo trabalho, e quando elegeu suas estratégias… O que você negou mais rapidamente?

Alexandre Dal Farra – De cara, não me interessa utilizar a arte ou o palco para “dar conta” de tal ou tal assunto. Os trabalhos acadêmicos o fazem. No entanto, é necessário elaborar artisticamente as questões com que estamos nos defrontando, elaborá-las a ponto de ser possível construir uma obra que nos coloque diante da complexidade que se nos afigura, uma obra que nos possibilite vislumbrar, em relação a esse nosso presente tão constantemente visível e autorreferencial (pois que esta guerra em que estamos é feita dessa forma também, justamente por meio da sua aparente superexposição – que é simultaneamente o seu disfarce), é preciso então construir uma elaboração artística capaz de percorrer esse jogo de forças todo, mas, como que a contrapelo, na direção inversa, de conseguir entrever, em meio aos fogos que estão o tempo inteiro sendo lançados em volta  (os de artifício e os reais), entrever aqui no meio a própria sombra disso tudo, aquilo que ao mesmo tempo talvez faça isso tudo se mover, e acabar… buscar o ponto cego dessa atualidade, que talvez seja ao mesmo tempo um ponto de fuga e um abismo…

As questões políticas sempre me interessaram, nesse sentido, não como ponto de chegada, mas como ponto de partida. Nunca tive vontade de fazer uma obra para mostrar isso ou aquilo, ao contrário, sempre se tratou de, partir de questões políticas (simplesmente porque são do meu interesse pessoal, físico, concreto), partir delas, para encontrar, no meio dessas questões, desses jogos de força, encontrar ali outras camadas, que eu não sabia que estavam lá, e que eu não sei definir, delimitar…

Nesse sentido, trata-se de voltar a descobrir, na atualidade, justamente aquilo que não entendemos. Porque, nesse momento, uma das maneiras de nos manter quietos é sempre nos dar a sensação ilusória de que nós já entendemos tudo o que está acontecendo. Com esta obra, quero descobrir novamente o que eu não entendo sobre a nossa atualidade.

Agradecemos pela leitura da nossa entrevista.

,Sobre o entrevistado:

Tablado de Arruar

Fundado em 2001, o Tablado de Arruar desenvolve desde então trabalho
continuado de pesquisa, tendo recebido diversos prêmios, indicações e o apoio dos
principais fundos e instituições de apoio ao teatro. O grupo tem mais de 15 peças, sendo as principais: Pornoteobrasil (2019), Trilogia Abnegação (2014 – 2016, três peças, indicadas ao APCA, Prêmio Aplauso Brasil), Mateus, 10 (2012, vencedora do prêmio Shell de melhor autor para Alexandre Dal Farra e indicada a melhor ator para Vitor Vieira), Helena pede perdão e é esbofeteada (2011, último espetáculo de rua do grupo), entre outras. O grupo foi apoiado diversas pela Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, pelo Proac, e pelos editais de apoio ao teatro, que possibilitaram que sustentasse 20 anos ininterruptos de trabalho.

Para seguir o Tablado de Arruar nas redes:
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Site: www.tabladodearruar.com.br
 

Alexandre Dal Farra

Doutorando pelo PPGAC da ECA/USP e mestre pelo Departamento de Letras
Modernas da FFLCH – USP, Alexandre é dramaturgo, diretor e escritor. Foi vencedor
e indicado diversas vezes a todos os principais prêmios brasileiros, tais quais, prêmio Shell, APCA, Prêmio Governador do Estado de São Paulo, Prêmio Questão de Crítica, Aplauso Brasil. Algumas de suas mais importantes textos são Abnegação III – Restos (Aplauso Brasil, encenada em Buenos Aires, onde ficou mais de dois anos em cartaz, com direção de Lisandro Rodrigues), Abnegação 1 (APCA, editado na França pela Les Solitaires Intempestifs, cumpriu temporada em Paris no Teatro Le Monfort com ampla aceitação de público e crítica), O Filho (APCA e Prêmio Governador do Estado de São Paulo). Teve textos traduzidos e montados no exterior, como na Argentina, Portugal, Inglaterra, Alemanha e França, e suas peças participaram de todos os importantes festivais do Brasil, assim como no exterior, tais quais o FIBA (Buenos Aires), FITEI (Porto), Out Of The Wings festival (Londres). Lançou em 2013 o seu primeiro romance, Manual da Destruição, pela editora Hedra.

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