,Pequena coreografia do adeus – Helena Cerello entrevista Aline Bei

Por Helena Cerello e Aline Bei.

Revisão: Aline Machado.

Pequena Coreografia do Adeus
Pequena Coreografia do Adeus

Helena é, até então, intérprete una da personagem narradora do já clássico “O Peso do Pássaro Morto”. Única atriz a viver esta icônica personagem em carreira profissional, certamente fora também a artista a ter mais sucesso na empreitada de capturar uma coisa importantíssima na hora de desbravar o campo cênico digital – a obra mais aguda, com uma ampla fisionomia narrativa e mais cheia cenas entre o instante e a memória (que possibilitaram, de fato, um tempo teatral ao trabalho não presencial)

Aline Bei, recente não tão recente fenômeno das letras no país, tem dito muito acerca da produção e o do impacto de sua obra no feminino de suas leitoras e leitores. Contudo, e eis aqui o programa deste acerto que já nos aponta uma autora que não minguará adiante – sua produção sobrepõe o nicho e se apresenta enquanto um livro no espaço do livro.

Uma obra na biblioteca deste, de outros, e dos tempos que virão.

É de certo uma entrevista impossível (senão para estas que abaixo se deram). E não sabemos o quanto da entrevistadora está performando o que a mulher conhece da personagem que fez. Como também não sabemos o quanto a autora responde para a amiga, para sua  atriz, para a voz de seu primeiro livro também.

A pequena coreografia de uma conversa, ou o peso do encontro entre duas –

Marcio Tito, dramaturgo e editor de arte e cultura no site Deus Ateu.

Trechos do livro em itálico e negrito entrecortarão o fluxo entre ambas, como um livro de páginas soltas, ou como numa conversa entre muitas, que se revezam entre autoras, atriz e autora, personagens e personagens…

para todos aqueles que procuram uma

Casa dentro de casa

em especial aos que procuram

desesperadamente.

Helena Cerello – Dizem que tudo que nos acontece nos primeiros sete anos das nossas vidas nos marca profundamente e de maneira irreversível. Sinto que no início do livro você fala para todas as Júlias como se sua Júlia pudesse ser a voz de muitas Júlias. Uma vez Júlia, tem como escapar? Ou nós que nos identificamos com Júlia, seremos Júlias para sempre?

Aline Bei: Que pergunta linda!

Eu acho que o livro todo é um exercício de esperança de alguma forma. A Júlia tem uma busca que é não ser definida pelo que aconteceu, ou pelo peso da família, por esses traumas que ela viveu. Ela tem essa coragem de se mover.

Eu acho que quando a gente carrega essa disposição, essa coragem, eu acho que é possível transformar aquilo que nos acontece que não é bom, não só problemas familiares de uma forma geral, mas tudo aquilo que nos atravessa e nos puxa pra baixo e nos traz uma tristeza, um trauma.

A gente tem a possibilidade de ressignificação. Mas, claro, esse processo nunca é rápido, é muito denso. É um processo de uma vida. Tomar consciência do que aconteceu é importante, fazer terapia, fazer análise é muito importante. E no caso da Júlia, o que acaba trazendo ela para um lugar de ressignificação é a própria arte e o afeto que ela vai recebendo ao longo da vida, da jovem Júlia. Porque o livro é todo focado numa Júlia muito jovem, mas por outras pessoas, especialmente da viúva argentina.

Eu sempre digo que o afeto é revolucionário. Se a gente receber afeto, eu acho que é possível se curar, não importa exatamente de onde ele veio. Às vezes ele não veio desse seio familiar, mas ele pode vir de outros corpos e eu acho que ajuda nos processos de cura sim.

pernas

com varizes

a Morte nos circunda

de dentro pra fora e por todos os cantos, ainda assim, impressionantemente, o medo não é o nosso estado natural.

liguei o rádio.

Helena Cerello – Qual é para você o nosso estado natural, mesmo sabendo que no rádio tocará Beethoven e que “a morte nos circunda de dentro pra fora e por todos os lados”?

Aline Bei: [O] estadonatural, eu acho que é um estado de não-tensão. Não é um estado que se prepara pra algo como a morte, por exemplo. Até porque essa notícia, quando nos atravessa, é sempre um susto. Ainda que a gente saiba que vai acontecer com todos nós, mas ela sempre atravessa num lugar de surpresa, de falta de chão, de incredulidade.

Então eu acho que nosso estado natural é um estado que busca uma certa neutralidade, um equilíbrio pra gente conseguir viver. Pra gente absorver o que nos acontece, fazer o que precisa ser feito – essa questão da rotina e todas as funções, todas essas demandas da vida cotidiana. Então eu acho que é um estado que busca – não sei se encontra-, que está sempre buscando algum equilíbrio emocional pra continuar vivendo.

Autora atenta aos detalhes da narrativa. Claros e escuros na medida, Aline Bei
Autora atenta aos detalhes da narrativa. Claros e escuros na medida, Aline Bei

mas eu não queria olhar pra eles novamente, então

levantei da cama, lavei o rosto. vesti um jeans,

uma camiseta e calcei a bota.

desci as escadas

dei

bom-dia pra viúva da recepção

de longe, assoprando um beijo

e ganhei

a rua

caminhei

até o ponto de ônibus, estava com os olhos

encaroçados de tanto sono.

a casa em que meu pai mora é a mesma da minha

infância.

a cozinha em que quase o perdi

ainda estava lá

também a madeira da sala, os poucos móveis

de convento ou pub, no entato era tudo muito diferente agora, eu era Outra

ele

era Outro

e nós não parávamos de mudar, esse carrossel que

é

a Vida, com os seus cavalos congelados em poses

ternas, girando e girando no mesmo lugar

quando

saímos, por fim, da roda: onde é que está o mundo

que a gente conhecia? ainda que ele esteja

Helena Cerello brilhou em importante montagem digital. O Peso do Pássaro Morto, com direção de Nelson Baskerville_
Helena Cerello brilhou em importante montagem digital. O Peso do Pássaro Morto, com direção de Nelson Baskerville

Helena Cerello – Onde é que está o mundo que a gente conhecia? Ainda que ele esteja…

Aline Bei: A questão da mudança é uma questão muito profunda, e eu acho que no livro essa transformação acontece o tempo todo, já que a Júlia é uma personagem que está em movimento.

E eu acho que estar vivo é estar em constante transformação. A gente perde a cada minuto quem a gente era no minuto anterior, porque o tempo tá passando, porque o nosso olhar tá mudando, e a gente vai conhecendo pessoas, lugares, leituras. Então a gente está sempre se transformando porque a vida é isso.

A Simone de Beauvoir fala, em um ensaio lindo sobre a velhice, que a lei da vida é mudar. E eu concordo. E esse movimento faz parte de estar vivo.

Véspera, uma palavra que coloca

todo o seu coração no que virá.

quase posso tocar a sua pele de animal pequeno

                que prepara o público

                    para a chegada do grande Animal

                         a qualquer momento, agora:

   música

nas casas, lues

       na praça:

Véspera e

Helena Cerello – Você se sente hoje na véspera de algo?

Aline Bei: É interessante essa pergunta. Eu tava lendo um ensaio da Janet Malcolm e ela tava contando de um pintor, chama “41inícios falsos”, se eu não me engano. Mas ela começa o ensaio, e recomeça, e começa, e recomeça do ponto inicial, mas de outra perspectiva, tentando começar um ensaio 41 vezes. E ela vai tentando encontrar o jeito de começar, e no fim, o ensaio é sobre esses começos que ela vai proporcionando pra gente.

E em uma conversa que ela tem com o pintor, ele diz pra ela que ele tem a impressão que a gente está sempre à espera de uma vida, de uma vida que vai finalmente acontecer, a vida que nos pertence. É quase como se a gente estivesse vivendo uma vida que vai começar. A gente está numa espera para finalmente ser quem somos, para finalmente chegarmos no lugar onde queremos. E ela diz assim, “Eu acho que sei do que você está falando”, e termina.

Eu acho que tenho essa sensação às vezes, apesar de ser uma pessoa muito focada no presente, e gostar muito de desfrutar do processo do que a gente vive, e claro, o peso dessa época que estamos vivendo também. Eu fico pensando que há uma vida que vai começar a qualquer momento, e que talvez seja mais minha do que essa que eu estou vivendo agora.

el que no anduvo su pasado/

no lo cavó/no lo camió/ no sabe

el misterio que va a venir

                                         Juan Gelman

Helena Cerello –

e.

O que

Júlia Terra

Escritora

diria para a

Protagonista

do Pássaro?

Aline Bei: Que linda essa pergunta. Eu acho que a Júlia mostraria a arte pra protagonista do “Pássaro”. A arte que ela conhece nesse estágio, vulcânica. Eu acho que ela compartilharia com a protagonista do “Pássaro” essa alma de artista, porque ela quer tanto voar, né?! E talvez ela possa encontrar um meio dentro do próprio corpo já que ela não quer se mover tanto, e não consegue se mover tanto a partir de tudo que lhe aconteceu.

Então eu acho que talvez a Júlia a convidasse a ir pra uma escavação artística interna, poética, lírica, e emprestasse uma pazinha ou um véu, ou alguma coisa que ela pudesse procurar dentro de si com liberdade sem o olhar do outro.

Agradecemos pela leitura da nossa entrevista.

,Sobre:

ALINE BEI – autora

Depois de ganhar o Prêmio Toca, criado pelo escritor Marcelino Freire, escreveu em 2017 seu primeiro romance, “O Peso do Pássaro Morto”, pela Editora Nós. Com ele, foi a vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018 na categoria Melhor Romance de Autor com Menos de 40 anos.

Instagram: @helenacerello

HELENA CERELLO – atriz

Trabalhou como atriz com os grupos Cemitério de Automóveis, Parlapatões, Pia Fraus, entre outros. Integra a Cia Le Plat du Jour, e colaboradora na criação dos espetáculos, sendo eles “ALICE no País das Maravilhas” (espetáculo indicado para o Prêmio Coca-Cola FEMSA de 2009 na categoria inovação do teatro e as artes circenses) e CINDERELA LÁ LÁ LÁ (Prêmio APCA de melhor espetáculo adaptado de conto clássico; São Paulo de melhor texto adaptado – 2015; indicação ao Prêmio de Melhor atriz no Prêmio Zilka Salaberry); espetáculo adaptado de conto clássico e Prêmio São Paulo de melhor texto adaptado – 2015); recebeu indicação ao Prêmio de Melhor atriz no Prêmio Zilka Salaberry. Foi indicada ao prêmio APCA juntamente com Raul Barretto por ter levado ao teatro as obras de Hundertwasser.

Instagram: @alinebei

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