,Clínicas do inconsciente: Psicanálise e Esquizoanálise em tensão

Por Alan dos Santos.

Autumn Rhythm: No.30 - Jackson Pollock - 1950
Autumn Rhythm: No.30 – Jackson Pollock – 1950

O objetivo deste ensaio é pensar a esquizoanálise como uma dobra interna da clínica psicanalítica – uma ferramenta de uso para o psicanalista. É possível adentrar, fisgar e discutir a esquizoanálise formulada por Deleuze-Guattari (2010) de diferentes modos e por diferentes lugares – o mesmo se aplica à psicanálise. Pode-se discutir a esquizoanálise pela literatura, pela ética, pela (micro) política, mas escolhemos fazer pela clínica, enfatizando o diálogo crítico com a psicanálise lacaniana. Se há algum lugar de fala que subjaz a redação deste ensaio é o ponto de encontro, mas também de dispersão, o lugar de diferenciação entre a psicanálise e a chamada esquizoanálise. Tudo neste ensaio converge para este objetivo, sem qualquer pretensão paranoica de esgotar a amplitude dos temas.

É conhecido o contexto originário da psicanálise, esta técnica clínica centenária criada pelo médico neurologista Sigmund Freud no início do século XX. É importante pensar a psicanálise como uma técnica, um conjunto de saberes e uma prática possível para o tratamento das neuroses, especialmente das histerias, mas também as obsessões e fobias. Sem o sofrimento histérico a psicanálise não teria sido possível.

“Para onde foram as histéricas de outrora, aquelas mulheres maravilhosas, as Annas O., as Doras, todas aquelas mulheres que se tornaram as figuras matriciais de nossa psicanálise?”, interroga Juan-David Nasio (1991). A origem da psicanálise é matricial. Em nossa contemporaneidade, a palavra histeria se converteu numa ofensa de traço misógino contra as vontades e movimentos do feminino e das minorias sexuais. Senso comum! É preciso lembrar que a histeria continua a ser uma entidade nosológica fundamental para a prática psicanalítica. A histeria existe, produz sofrimento e merece um tratamento específico. A questão é bem entender as histerias. Como escreveu Nasio (ibidem), a histeria não é uma doença, mas uma relação, um modo de estar na linguagem e lidar com os outros. Pode-se estender essa definição para todas as neuroses. A psicanálise é efetiva principalmente para o tratamento desses mal-estares.

O ato psicanalítico se dá pela escuta do inconsciente que permite o gesto concreto de repensar a existência e a relação com o desejo. O sujeito deixa de experimentar o Eu como sintoma para experimentá-lo como desejo e, finalmente, como prazer, operando uma destituição e retificação da subjetividade. O Eu é um lugar do psiquismo, e não uma identidade, um ente, muito menos uma essência. Ele pode ser refeito. Nenhum outro saber nos ensina a desconfiar da identidade mais do que a psicanálise. O neurótico acredita no Eu, nesse traço identitário, nesse ente “outrificado”, origem do sofrimento. Retificar a subjetividade aparece como um dos objetivos de análise, sua razão de ser. Correção de si. É um ato de criação: perde-se o Eu sintoma para ganhar novas possibilidades de existência até então estranhas e inexploradas. Para a prática psicanalítica, o inconsciente é produzido pela análise. De algum modo ele existe sorrateiramente nas entrelinhas de uma existência humana, mas sua incidência se potencializa e se define pela experiência de análise, quando se dá a produção de um sujeito do inconsciente.

A psicanálise é uma prática desde a sua origem. A psicanálise é um modo clínico de lidar e superar o sofrimento neurótico. O psicanalista não deve recuar diante das psicoses e perversões, mas sua eficácia se dá no tratamento das neuroses. A psicanálise existe nos limites do setting, no interior de uma relação transferencial. A psicanálise se atém a evidências clínicas, está presa a isso e deve estar. Psicanálise não é filosofia. Freud desgostava da filosofia. Lacan estabelece o elo perdido. A filosofia possui liberdade de criação; a filosofia é criação conceitual do início ao fim, se exercendo nos registros simbólico e imaginário. A psicanálise não é uma cosmovisão e nem um modo de vida; a psicanálise não prescreve uma política ou uma moral, ainda que algumas pessoas se abram mais para a experiência de análise do que outras, e o caráter político pode ser uma das razões. Fazer análise é alguma política, uma espécie de micropolítica, uma política infrasubjetiva de si para consigo (ROLNIK, 2016), uma experiência agonística (“agon” é a palavra grega para conflito, fonte de agonia). Mas antes de dizer que a psicanálise é política, é preciso se interrogar: qual política é a psicanálise? A política aqui se torna um percurso vital, uma estilização da vida, uma pragmática pulsional (SCHIAVON, 2019), uma justa política do desejo.

A psicanálise está para todos, ainda que nem todos se voltem para a experiência de análise. Ter o desejo capturado e profanado pelos dispositivos de poder e controle suscita um gozo interminável, um território existencial marcado pelo sofrimento. O sujeito histérico faz política o tempo todo, nutre um carisma pela insatisfação. Em análise, todos nos fazemos histéricos em algum momento. Essa política precisa ser raspada e lapidada por uma estética da existência e por uma ética da elaboração de si. A psicanálise é um dispositivo possível para isso. Há filosofias que nos ensinam a produzir uma vida bela e boa, o último Foucault, por exemplo. A psicanálise opera isso. As linhas de força que constituem o dispositivo psicanalítico são a livre-associação, a não-sugestão (suspensão temporária do exercício de poder) e a ética do desejo. A esquizoanálise formulada por Deleuze-Guattari (2010) pode ser usada nesse contexto e dentro desses limites. Nesse lugar, a esquizoanálise se faz uma dobra da psicanálise. Por outro lado, a esquizoanálise pode ultrapassar os limites da psicanálise, e muitas vezes o faz.

O que se chama de esquizoanálise nasceu como criação filosófica. O espírito de época foi fundamental. Os protestos de Maio de 1968, em Paris, foram fundamentais para a criação da esquizoanálise por Deleuze-Guattari. A esquizoanálise surgiu das veias abertas da filosofia pós-estruturalista, da falência libertária das políticas marxistas e em diálogo crítico com a psicanálise lacaniana. Domenico Uhng Hur definiu a esquizoanálise como:

“[…] um conjunto de saberes contemporâneo, multifacetado, plural e heterogêneo – um campo teórico-político criado pelos pensadores Gilles Deleuze e Félix Guattari após as agitações do maio de 1968 francês e que é a expressão filosófica desse acontecimento. Trata-se de uma análise micropolítica dos agenciamentos, investimentos desejantes e de poder que propõe uma cartografia das relações clínicas, institucionais, sociais e políticas não mais no par família e neurose, tal como privilegiado na psicanálise, mas, sim, na articulação entre capitalismo e esquizofrenia.” (HUR, 2019, p. 09)

Esse trecho de Domenico Uhng Hur é honesto e oportuno: a esquizoanálise é 1) um campo teórico-político, 2) a expressão filosófica de um acontecimento intensivo. A maquinação teórica da esquizoanálise articula uma relação interessante entre capitalismo e esquizofrenia, distanciando-se das neuroses (histerias, obsessões e fobias), os mal-estares prediletos da psicanálise, onde a psicanálise revela a sua maior eficiência clínica (redução sintomática, atravessamento do fantasma, uma justa relação com a angústia e a destituição e retificação subjetiva). Como proposta ética, política e estética, isto é, como reflexão filosófica, a esquizoanálise é uma linda expressão de pensamento. Dialogando com Nietzsche, Deleuze-Guattari (2010) postulam a abertura aos fluxos intensivos, às multiplicidades, aos devires, distanciam-se da lógica dialética da contradição, de tudo o que soa à reação, prezam pela afirmação, pela criação, e aproximam a filosofia da arte, apontando-a como uma atividade criativa, e não descritiva – a filosofia produz conceitos. Enquanto filosofia, Deleuze-Guattari são a vanguarda da contemporaneidade. Talvez o século XXI seja de fato deleuziano, e por razões compreensíveis. E como clínica do inconsciente, qual o lugar da esquizoanálise?

Na “Entrevista sobre O Anti-Édipo”, presente no livro Conversações, Gilles Deleuze (2010b, p. 23), ao abordar o seu encontro com Félix Guattari, afirmou que seu trabalho se inseria unicamente no campo dos conceitos, que ele não tinha as “responsabilidades de um psicanalista”, e que por isso tinha mais mobilidade e liberdade de movimento. A noção de máquinas desejantes, de maquinação inconsciente, veio de Guattari por influência da psicanálise. Deleuze custou a entendê-la, justamente porque a tomou como conceito, e não como experiência clínica, proposição inicial de Guattari. Deleuze afirmou “dever” algo para Lacan, mas afirmou também a necessidade de superar noções como estrutura, simbólico, significante, por serem totalmente impróprias (ibidem, p. 24). Impróprias para o quê? Para a clínica do inconsciente? A psicanálise ia mal nos anos 1970? Ou impróprias para as vontades filosóficas de Deleuze? A filosofia não é menos legítima do que a psicanálise, só é preciso pôr cada coisa em seu lugar.

Guattari vinha de outros lugares que não os de Deleuze. Vinha da militância política, da Via Comunista, depois da oposição de esquerda; Guattari vivenciou intensamente os protestos de Maio de 1968, as lutas por liberdade comportamental. Vinha também da experiência clínica, da clínica “La Borde”, fundamentada nas bases da psicoterapia institucional. Daí o uso de noções conceituais como “transversalidade” e “fantasma de grupo”. Guattari foi formado por Lacan desde o início dos seminários. Fez análise com Lacan até momentos antes da publicação de O Anti-Édipo, em 1972. Deleuze não tinha a experiência de análise (diz isso na entrevista com certo orgulho). Os lugares da militância e da clínica, os lugares de Guattari não eram lugares de pensamento, lugares de teoria, mas de ação, como ele mesmo afirmou.

Um ponto que me chamou a atenção nessa mesma entrevista é o uso corrente da palavra “terapia”, por vezes psicoterapia, por parte de Félix Guattari. A psicanálise não faz terapia. Parece um ponto menor, mas não é. Terapia supõe um retorno ao estágio prévio de saúde, supõe uma zona de normalidade para a qual podemos retornar; a psicanálise, sobretudo em seu procedimento lacaniano, não trabalha desse modo. Parece óbvio que Deleuze-Guattari não trabalham com essa ideia estranha de normalidade própria das psicoterapias, que definem as psicopatologias como a perda desse lugar seguro e saudável. O elogio de Deleuze-Guattari aos devires-esquizo, ao passeio do esquizo no parque, é autoexplicativo. Lacan, em seu retorno ao sentido de Freud, se esforçou para distinguir a psicanálise das psicoterapias. Deleuze-Guattari não tiveram esse cuidado, e seus leitores também não têm. Disso decorrem consequências clínicas e práticas. Fazer da esquizoanálise uma psicoterapia parece-me um problema relevante, uma perda de potência.

A psicoterapia trabalha com a sugestão, que tem por origem a hipnose e que pode ser lida como uma relação de poder. O terapeuta sugere práticas para uma vida boa e bela. Esse poder de sugestão se originou na hipnose: a pessoa entrava em transe e o terapeuta exercia o comando, “faça isso ou aquilo” para diluir o sofrimento. Era possível ver uma paralisia se deslocar de um braço para o outro em resposta ao comando. A coisa funcionava temporariamente. O sofrimento voltava e com mais força, baixo poder de eficácia. A psicoterapia moderna não põe mais a pessoa em transe. Mas mantém o poder de sugestão: faça isso ou aquilo para ser feliz ou qualquer outra coisa. A esquizoanálise traz o imperativo da vida potente, essa noção é subtraída de Nietzsche, a vontade de potência como critério de desejo. Em nossa contemporaneidade vemos muitos psicólogos e terapeutas articulando noções da esquizoanálise, sugerindo caminhos para uma vida potente, aberta aos fluxos, supostamente livre e etc. A sugestão de algo belo e desejável ainda é uma sugestão: rebotalho imaginário. O terapeuta esquizoanalista chama a sugestão de “experimentação”, termo mais palatável. Mas a coisa fede. O terapeuta, supostamente livre e resolvido, se dá o direito de comandar o processo terapêutico propondo experimentações ao analisando. “Experimentação, e não interpretação”, eis um dos mantras da esquizoanálise. Nesse ponto fico mesmo com Lacan: é preciso salvar a psicanálise dos terapeutas e psicólogos. 

Existem no varejo diversas práticas clínicas que reivindicam o título de esquizoanálise, muitas delas situadas fora dos limites da psicanálise. O esquizodrama é um exemplo. Sistematizado por Gregorio Baremblitt – médico psiquiatra argentino muito versado na filosofia de Deleuze-Guattari -, o esquizodrama rompeu seus laços com a psicanálise, com o setting clínico, com a relação transferencial, com a escuta do inconsciente, com a cadeia significante, com a livre-associação, com a não-sugestão, com o divã do neurótico, rompeu com a predominância da linguagem falada em prol de experiências com o corpo e com músicas, fez da esquizoanálise uma terapia do corpo e do movimento, que para um psicanalista soa como uma gincana refinada, uma espécie de coaching com glamour filosófico. O esquizodrama articula um agenciamento clínico bastante diferente do setting psicanalítico. Tive uma experiência rápida com o esquizodrama através de um curso ministrado por Domenico Uhng Hur no Instituto Pichon Rivière de Porto Alegre. Gostei bastante. Mas pareceu-me algo distante da psicanálise.

Arte de Stefan Zsaitsits
Arte de Stefan Zsaitsits

Outro exemplo é a atuação do livre-pensador brasileiro Luiz Fuganti, talvez a maior referência da esquizoanálise brasileira. Aprecio o seu trabalho. Fuganti parece um homem em perpétua elaboração de si. O fato de Fuganti trabalhar para além das amarras acadêmicas torna o seu trabalho mais interessante. Com Fuganti, a esquizoanálise se envereda de vez pela filosofia, torna-se algo para fazer com o corpo, com a vida e o pensamento, uma trajetória de autopoieses, um trabalho sobre si, uma espécie de autoanálise. Todavia, eu me questiono se a filosofia tem de fato esse poder. Desconfio principalmente da autoanálise. Ou melhor, desconfio de tudo o que se estrutura na consciência, no pensamento e na razão – registro do imaginário. A potência da psicanálise foi descobrir o inconsciente e suas maquinações. A consciência ocupa um lugar diminuto e enfraquecido no psiquismo humano. Por mais que utilize do termo “inconsciente”, as propostas de autoanálise, as filosofias éticas do fazer a si mesmo, a estilização da existência como razão filosófica lançam o procedimento criativo para o eu consciente.

Há também o Núcleo de Estudos da Subjetividade, da PUC-SP, organizado em torno da notória professora e pesquisadora Suely Rolnik, que conviveu com Guattari. O livro Micropolítica: cartografias do desejo, publicado por Rolnik (2005) em parceria com Guattari, é indispensável para o estudo da esquizoanálise no Brasil. Há de se destacar também o trabalho teórico de João Perci Schiavon, especialmente a sua tese de doutorado publicada em livro com o título de Pragmatismo pulsional: clínica psicanalítica, orientada pelo Peter Pál Pelbart – professor, escritor e tradutor de Deleuze-Guattari -, que redireciona a compreensão das pulsões ao aproximar os pensamentos de Lacan e Guattari. Aqui, a esquizoanálise se apresenta como um complemento da psicanálise, uma dobra interna, uma ferramenta a mais de trabalho. Tanto Rolnik como Schiavon se apresentam como psicanalistas e utilizam da esquizoanálise para repensar a clínica psicanalítica do inconsciente. Grupos de estudos, psicanalistas e ativistas proliferam desse núcleo e operam trabalhos muito afirmativos voltados para a clínica. A meu ver, o núcleo opera o tratamento mais bonito e potente da esquizoanálise no Brasil.

Em sua formulação originária, a esquizoanálise se pretende transversal, vide as reflexões de Félix Guattari sobre o conceito de transversalidade antes de seu encontro com Deleuze. A esquizoanálise transita pela política, sistematiza as micropolíticas, prolifera devires minoritários, também chamados de “devires revolucionários” por Deleuze (2010c), a esquizoanálise se aproxima e se fortalece nas artes, supervaloriza a experimentação sem interpretação e prescreve um imperativo ético de singularizar a existência. A esquizoanálise prescreve um modo-de-vida. A psicanálise é muito mais modesta. A psicanálise é um discurso clínico, ou, como gosto de pensar com a ajuda de Michel Foucault, um dispositivo clínico, isto é: um conjunto heterogêneo de forças que se organizam em torno de uma urgência específica: estruturar uma técnica eficiente de acesso e produção de um inconsciente capaz de superar os sofrimentos psíquicos, sobretudo as neuroses – os sofrimentos do homem “normal” (entre muitas aspas; vale lembrar que normal deriva de norma, ou seja, limite; isso é fundamental para a compreensão do sofrimento neurótico em que a psicanálise visa a ser uma resposta clínica). A ética da psicanálise se restringe ao consultório, ao setting, à relação transferencial. Fora do consultório, o psicanalista pode agir e se comportar como quiser – pode ser liberal, conservador, marxista ou anarquista, cristão, ateu ou qualquer outra coisa, militante, ativista ou preguiçoso (e essa última é uma luta digna). A psicanálise não é uma cosmovisão e não faz prescrições. A esquizoanálise é mais uma forma de vida do que a psicanálise.

A esquizoanálise produz certas subjetividades a partir de critérios mais ou menos objetivos: uma política de contestação, uma ética da singularização e uma estética da experimentação. O que escapa disso se torna objeto de crítica. A psicanálise não prescreve subjetividades; antes, ela cria condições para que os assujeitados possam se conduzir melhor, com mais autonomia, menos reféns das repetições e dos sintomas. O que o analisando fará da sua vida fora do consultório é problema dele. O psicanalista escuta os efeitos das escolhas do analisando. A psicanálise não ensina a viver bem e não prescreve saídas para a afirmação da vida. Ela empurra o sujeito para o lugar desconfortável de ter que encontrar a sua própria saída. Certos esquizoanalistas acreditam ter esse poder: o de saber como viver bem. Para a psicanálise lacaniana, é possível identificar estruturas clínicas de sofrimento. As pessoas sofrem de modo parecido, a depender da estrutura clínica que se constrói no bojo da neurose transferencial. Mas o que fazer da vida e qual saída percorrer a partir da experiência clínica é algo singular ou particular, próprio de cada um. Enquanto técnica, a psicanálise cria essa possibilidade; o analista em si pouco participa disso.

Desde Deleuze-Guattari, a esquizoanálise se esforça para denunciar a transversalidade do Outro. Para os trabalhos da dupla, o registro do simbólico é composto por acontecimentos histórico-mundiais: o Capital, o Estado, os circuitos discursivos, as estruturas de poder, o patriarcado, o racismo e por aí vai. Os traumas não seriam subjetivos, mas coletivos. No plano político, essas conceituações são oportunas e relevantes. É urgente combatermos as formas históricas de opressão ainda presentes na contemporaneidade. Na clínica, na escuta da livre-associação, o Outro se manifesta quase sempre como pai e mãe – os corpos mais próximos e íntimos do inconsciente em questão. Pai e mãe se tornam os objetos de queixa. É como se as relações de poder que permeiam o tecido social, assim como as diversas formas de opressão social, se apresentassem ao sujeito e ao seu inconsciente através dos comandos familiares. Édipo como exercício de poder, como o dispositivo que instaura na criança os traumas histórico-mundiais. Nas conferências proferidas no Brasil em 1973 e publicadas em livro com o título de A verdade e as formas jurídicas, Michel Foucault (1999) problematizou Édipo deste modo: como exercício de poder. Pai e mãe são os semblantes dos bloqueios, proibições e comandos diversos. A escuta analítica comprova isso. A psicanálise não insiste em Édipo, mas tão-somente identifica a sua incidência. O que define a psicanálise é a ética do desejo, o compromisso com o desejo, e não o Édipo.

Há diferenças conceituais importantes entre a psicanálise em sua vertente lacaniana e a esquizoanálise. Essas divergências se acentuam no debate teórico-filosófico e se arrefecem na prática clínica, evidenciando o fato de que a esquizoanálise pode ser uma ferramenta a mais para a clínica psicanalítica. Dialogando com a filosofia dialética de Hegel, Jacques Lacan conceituou o desejo como o exercício de uma falta fundamental que não cessa de incidir e se mobilizar em busca de um objeto fugidio causa do desejo chamado de “objeto a”. Esse é um traço da antropologia filosófica da primeira metade do século XX que Lacan reverberou de modo próprio. Essa falta fundamental aparece em Heidegger, na sua definição de Ser-aí, como bem evidenciou Giorgio Agamben (2017) em seu livro O aberto; aparece também no Sartre leitor de Heidegger, na definição do ser-para-si, que se autoproduz a partir do exercício da liberdade. O homem, na perspectiva existencialista de Sartre, não tem liberdade, ele é liberdade, é uma definição ontológica, já não há uma essência universal prévia, resta o furo, o vazio do existir e o imperativo de construir sentido para a existência subjetiva. Esse é um grande debate filosófico, um dos maiores do século XX: a querela do sujeito e a emergência da ontologia. Não o esgotaríamos nem se quiséssemos.

O interessante aqui é evidenciar o substrato filosófico da noção de falta em Lacan, tão criticada por Deleuze-Guattari (2010). O tema da falta possui várias entradas no pensamento de Lacan. A filosofia pré-socrática é invocada na definição de hiância, o hiato entre o que não existe e o que está prestes a existir, uma espécie de falta que impulsiona uma existência possível, o vazio de algo não nascido e que logo se fará. Esse debate tem lastro e história. Lacan o lapida e o veicula como montagem metapsicológica. Deleuze-Guattari trazem outra perspectiva, diferente ou contrária; apontam o desejo como produção e acúmulo, o exato oposto da falta, aquilo que não cessa de produzir, como uma máquina, uma “máquina desejante”. Essa definição aparece com força n’O Anti-Édipo, de 1972. Nos mil platôs, a noção de produção é complementada pela noção de devir, de vir-a-ser – outro grande debate filosófico (Ser x Devir; Parmênides x Heráclito). Na clínica, contudo, importa mais a escuta do desejo, a identificação de seu percurso, a vontade de se fazer e os bloqueios subjacentes que impedem a sua realização. A falta ou o acúmulo, o debate filosófico desaparece na superfície da escuta clínica. O desejo pede mais, quer mais, seja a sua origem a falta ou o excesso produtivo, esse é o ponto.

Em nossa contemporaneidade há muitos terapeutas em interface com a esquizoanálise se esforçando para erigir os fundamentos de uma clínica da diferença – ou da potência. Considero esse debate da maior importância, sobretudo quando dialogamos com as questões sociais. Como tarefa primeira, entretanto, é importante interrogar: que lugar o inconsciente revelado por Freud ocupa nessa nova clínica? Sem isso, o diálogo crítico com a psicanálise – com qualquer psicanálise – estará rompido. Correr-se-á o risco dessa clínica da diferença se enveredar pelo rol das psicoterapias da consciência. Só vejo perda de potência nisso. As psicoterapias lidam com as sugestões e com os jogos de consciência, mas somos aonde não pensamos. Não basta escrever sobre o inconsciente, é preciso operar a sua pragmática. A psicanálise, especialmente com Freud e Lacan, fez a lição de casa. Já existe uma clínica sólida e centenária do inconsciente. Psicanálise é uma coisa, psicoterapia é outra. Nem sempre vejo esse corte epistemológico nas práticas esquizoanalíticas de nosso tempo. Não é inútil lançar a questão: é a esquizoanálise uma nova terapia, a melhor terapia do século XXI, ou a extensão da psicanálise e da clínica do inconsciente?

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. O aberto: o homem e o animal. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo. São Paulo: Editora 34, 2010.

DELEUZE, Gilles. Entrevista sobre o Anti-Édipo (com Félix Guattari). In: Conservações. São Paulo: Editora 34, 2010b.

DELEUZE, Gilles. Controle e devir. In: Conservações. São Paulo: Editora 34, 2010c.

FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Nau / PUC-Rio, 1999.

HUR, Domenico Uhng. Psicologia, Política e Esquizoanálise. Campinas: Alínea, 2019.

NASIO, Juan-David. A histeria: teoria e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.

ROLNIK, Suely; GUATTARI, Félix. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 2005.

ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina / UFRGS, 2016.

SCHIAVON, João Perci. Pragmatismo pulsional: clínica psicanalítica. São Paulo: n-1, 2019.

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Alan dos Santos é professor de Filosofia e Políticas Públicas. Licenciado em Filosofia. Mestre em Filosofia Política. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura. Psicanalista, participa do Seminário Permanente de Psicanálise Estrutural da EPE.

Instagram: @alan_santos_radar

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