,Inácio – Um conto de Luiz Vieira

Por Luiz Vieira.

Ilustração de Julio Lapagesse para o conto Inácio de Luiz Vieira.
Ilustração de Julio Lapagesse para o conto Inácio de Luiz Vieira.

Tinha chovido muito na noite anterior, e naquele sábado, quando veio o dia, o céu parecia um hematoma no rosto de uma criança que, por descuido, chocou-se contra a parede. A impressão era de que o mundo inteiro havia acordado depressivo naquela manhã. Apesar de todas as coisas ruins que estavam acontecendo na vida de Lucas, ele sabia que ficar em casa dormindo até tarde não iria, de maneira alguma, resolver seus problemas, muito pelo contrário, só pioraria ainda mais a sua situação.

Então, ele se levantou, foi ao banheiro, esvaziou a bexiga, lavou o rosto, encarou-se no espelho e deu uma arrumada na bagunça que seu cabelo loiro estava por causa da noite mal dormida; escovou os dentes, depois pôs um copo no fogão para fazer o café. Estava sozinho em casa e na grande cidade onde morava, mas ficar sozinho não era tão ruim assim, ruim mesmo era estar rodeado de pessoas que só ligavam para o seu próprio umbigo.        

Foi até o quarto para arrumar a sua cama e colocar dentro da mochila todas as suas coisas do trabalho. Voltou à cozinha e coou o café, depois de tomá-lo e comer o resto de algumas bolachas velhas que estavam dentro de um pote transparente no armário, foi se arrumar para pegar o primeiro ônibus que o levava até uma estação de metrô, dali seguia para o serviço.

Trabalhava como garçom em um restaurante chique em um bairro nobre no centro da cidade de São Paulo chamado Crisalis. Seu trabalho era basicamente servir bem e educadamente a todos. Um papel que ele desempenhava de maneira excelente, pois era um dos melhores atendentes do lugar, e talvez fosse a sua rebuscada cortesia que fez com que Inácio olhasse diferente para ele. Quando estava preparando o estabelecimento para receber os clientes para o almoço, naquele dia, Inácio e sua família entraram no restaurante; quando eles chegaram, o maître de Lucas tinha lhe pedido para ir atendê-los.            

— Seja muito simpático com aqueles ali, são pessoas bem faladas, se é que você me entende. O homem é um empresário muito bem-sucedido, então não se esqueça de recomendar os pratos mais caros da casa.

­— Pode deixar, Sr. Alberto.

Enquanto Lucas se dirigia à mesa da família, o som ambiente era preenchido com a belíssima voz de Nina Simone, a música que estava tocando era “Feeling Good”. Lucas observou que Inácio era galante, tinha traços bonitos, cabelos bem cuidados e não aparentava ser tão velho como os outros homens da sua idade. Além disso, obviamente malhava, porque tinha um físico bem robusto. Já a sua mulher tinha um rosto jovem, olhos da cor de um azul intenso, que lembravam águas profundas de um oceano que, a princípio, temos medo de mergulhar apesar da curiosidade de saber o que tem lá embaixo; o volumoso cabelo castanho caia como uma cachoeira de sua cabeça. Além disso, estava usando um belo vestido preto que, no mínimo, devia ter custado uns dez mil reais. A filha do casal, a garotinha, era muito parecida com ela, porém herdara os olhos verdes do pai. Lucas aproximou-se e disse:

— Sejam muito bem-vindos ao Crisalis! Já consultaram o nosso cardápio? Se não for muito incômodo, eu gostaria de recomendar o nosso prato do dia: Caviar Bombinhas. 

— E qual é o seu nome, meu jovem? — indagou Inácio.

— Me chamo Lucas, Senhor… Sr…    

— Inácio. 

— Sr. Inácio! 

— Só Inácio, por favor. Chame-me apenas de Inácio, senhor faz-me sentir velho.

— Será como desejar, Inácio.  Então, gostariam de pedir alguma entrada.

— Olha, vamos começar com esse carpaccio de vitela. Traga-nos dois, por favor. E depois vou pedir uma massa, acredito. 

— Vamos comer algo mais leve. – Dessa vez quem falou foi a mulher, incisiva. 

— Ilsa, não estou a fim de comer algo mais leve. Quero comer algo que me satisfaça. Depois nos indique algumas massas, está bem, meu jovem? Vocês também servem comida italiana aqui, né?  

— Sim, servimos! Nosso chefe de cozinha faz um espaguete alla carbonara maravilhoso! 

— Então, vamos comer esse espaguete depois!

— Ah, temos um menu infantil também, gostariam de pedir algo para a pequena? Assim já adiantamos o dela.

— Tem alguma massa para crianças nesse menu, caro Lucas?

— Tem uma com filé mignon e outra com frango.

— Bethânia, frango ou carne vermelha?

— Frango, papai! Frango!

— Quanto à massa, penne ou espaguete? — pergunta Lucas ao pai da menina sem olhar para a mulher.

— Bethânia…

— Espaguete!  

— Hum… E de bebida, o que vão querer tomar? – dessa vez Lucas olha fixamente para a mulher. Ela não responde, quem responde a sua pergunta é Inácio.

— Traga uma garrafa de Barolo para mim e minha esposa, para a garota, traga suco natural, por favor.

— O.K., qual sabor?    

— Melancia, papai! Eu vou querer o de melanciaaaa!

— Comporte-se, Bethânia! Não precisa gritar, ninguém aqui é surdo! – Repreendeu-lhe a mulher.  

— Ilsa, não seja assim tão grossa – Disse Inácio.

— Não estou sendo grossa, apenas estou tentando dar alguma educação para essa sua filha.    

— Nossa filha, sua estúpida! Quantas vezes vou ter que repetir isso?  Traga um suco de melancia para a nossa linda Bethânia, rapaz. Vou querer uma água sem gás também. Ilsa, você vai querer?

— Não, obrigada, querido.

— Anotado, daqui a alguns minutos estará tudo pronto. Aguardem um pouco, por favor. Com a sua licença.

— Ah, rapaz, podemos ter uma conversa depois?

— É… Claro! 

Lucas mantinha uma expressão convidativa no rosto, mas quando se virou em direção à cozinha do restaurante, franziu as sobrancelhas. “O que aquele homem está querendo conversar comigo? E aquela mulher, por que ela é tão grossa? Onde foi parar toda a beleza e elegância dela?”.

Deixou os pedidos na boqueta da cozinha e foi até a adega pegar o vinho. Perguntou-se também se eles discutiam assim em casa. Coitada da garota — murmurou. Assim que os cozinheiros terminaram de preparar o carpaccio e a massa da menina, Lucas organizou os pratos na bandeja e pediu a ajuda do hanner de cozinha para levá-los até a mesa, precisava abrir o vinho para o casal. Ao cruzar o salão para servi-los, viu que ele e a mulher ainda estavam discutindo. Quando estava abrindo o vinho, percebeu que Inácio não tirava os olhos de si. A mulher, por sua vez, não escondia a insatisfação também.  

— Salute! — disse. E, depois de servir as taças, se retirou, pois não queria ser mais um motivo para a infelicidade daquela família.

Atordoado com toda a situação, Lucas resolveu ir até a cozinha para beber água e fugir um pouco dos olhos indiscretos de Inácio. Os pratos principais demorariam a ficar prontos, e ele ainda tinha mais alguns minutos para tentar entender o que estava acontecendo. Quando entrou, não deu muita bola para o que os cozinheiros do chefe Daniel estavam falando sobre si, pois já tinha se acostumado com as chacotas diárias dos colegas de trabalho que adoravam chamá-lo de Gisele Bicha; um apelido “carinhoso” que havia recebido por andar sempre desfilando no salão.  

Já tinha passado mais de uma hora que Inácio e sua família haviam chegado no Crisalis, e Lucas não conseguia tirar a terrível pergunta do homem da cabeça: “Ah, rapaz, podemos ter uma conversa depois?”. Era como se a frase tivesse aberto a porta de um quarto escuro e Lucas não soubesse ao certo se deveria entrar. Enquanto estava parado no bebedouro da cozinha pesando sobre a situação desconfortável com Inácio e sua mulher, nem se deu conta quando o Sr. Alberto entrou ali. 

— Lucas, finalmente te achei! O que você está fazendo aqui? Era pra você estar lá fora, no salão, o Sr. Inácio e sua família não podem ficar sem um garçom exclusivo.

— Inácio. Apenas Inácio. Segundo ele, chamá-lo de senhor o faz sentir-se velho. Chefe Daniel, por favor, já pode liberar os pratos principais.

— Ok, Gisele! Quer dizer… Lucas! 

— Haha, estou morrendo de rir! Com a sua licença, Sr. Alberto.

— Apenas, Alberto, por favor. Senhor faz-me sentir velho.

— Deus, é contagioso isso?

Ao voltar para o salão, Lucas preferiu ficar um pouco próximo ao bar e olhar os barmen preparando alguns drinks para os outros clientes. Ilsa o encarava como uma pantera. Era como se não existisse mais ninguém ali além dos dois. Ao aproximar-se da mesa para retirar os pratos já usados da entrada, Lucas sentiu uma tensão muito grande entre ele e a mulher. O desconforto e a raiva de Ilsa criaram uma atmosfera insuportável entre os dois, parecia até que a qualquer momento ela iria explodir ao seu lado. Inácio, mantendo a sua postura de homem cortês e educado, disse que o carpaccio estava maravilhoso e agradeceu. Lucas sentiu um arrepio muito grande no corpo, como um calafrio, ao terminar de recolher os pratos. Percebeu também que a pequena Bethânia não havia mexido muito no seu franguinho com espaguete, e o motivo era óbvio, por isso não quis perguntar, simplesmente se retirou e voltou novamente à cozinha para deixar os pratos sujos na pia onde Vanusa era responsável por lavá-los. 

— Não esquece de limpar antes de jogar eles aqui, bicha – Disse Vanusa irritada.

— Calma, mulher, eu sempre limpo, você sabe muito bem!

— Nem sempre, querido. E que cara é essa? Parece que está com coisa ruim no corpo! Sai pra lá com essa energia pesada! Ogum que me protege e meu corpo está fechado, veado!

— Mulher, eu queria é que ele me protegesse também, viu? Chefe Daniel, já pode liberar os pratos principais, por favor.

— Juliano, libera a mesa 36 da Gisele!

— Ok, chefe!

— Obrigado, querido! Sei que você também é meu fã! – brincou Lucas com chefe Daniel.

— Claro, sempre fui, Gisele! Hahahahaha! 

Não demorou muito tempo para que os dois espaguetes ficassem prontos. Lucas não quis ir até a mesa para servir o casal, preferiu, novamente, que o próprio hanner fizesse isso. Apesar do receio, lembrou-se que, mais cedo ou mais tarde, quando Ilsa e Inácio terminassem a refeição, teria que ir até lá para retirar os pratos. Incomodado com toda aquela situação, Lucas começou a sentir um calor forte subindo no corpo, mesmo com o dia não estando tão quente e os ares-condicionados do restaurante funcionando muito bem. Fora isso, o estabelecimento não estava cheio e Lucas cuidava apenas de uma única mesa. Colocou a mão na testa para sentir se estava com algum grau de febre; estranhamente, nenhum. O Sr. Alberto estava parado na porta conversando com a hostess e Lucas percebeu que ele olhava com a cara fechada para a mesa de Inácio e, simultaneamente, para si. A princípio, não entendeu muito bem o recado, mas quando olhou para as taças de vinho, viu que elas estavam fazias; apressou-se em direção a elas. Ilsa estava ficando cada vez mais desconfortável com as aproximações de Lucas, era nítido até mesmo na própria postura corporal da mulher que sempre mudava de posição quando ele chegava perto da mesa. O olhar dela carregava inquietação e raiva. Mas ele era profissional, e de forma educada, perguntou:

— A senhora está gostando da massa?

— Se eu não estivesse gostando, eu não estaria comendo.

As águas inquietas dos olhos de Ilsa, de repente, ficaram extremamente agitadas. Foi como se algo muito perigoso resolvesse subir para superfície e Lucas não soubesse muito bem como nadar rápido para longe daquilo.

— Ilsa! O que há de errado com você hoje? – perguntou Inácio incrédulo com a resposta da mulher.

— Eu só respondi o que esse atendente me perguntou.

— O nome dele é Lucas, sua imbecil! Peça desculpas agora, está me ouvindo?

— Desculpa – Disse Ilsa sem ao menos olhar para Lucas.

— Lucas, eu peço perdão pelas atitudes dessa arrogante. 

— Imagina, Inácio. Está tudo bem. Mais uma vez, salute. – Disse Lucas em um tom constrangido e se retirou.

Ao voltar para o bar, teve que disfarçar para os meninos a humilhação que tinha acabado de passar com um sorriso amarelo no rosto. A única coisa que ele conseguia pensar era: eu ainda vou ter que voltar lá para recolher os pratos. Passaram-se cerca de trinta minutos até que Ilsa e Inácio terminassem as suas refeições, neste meio tempo, a mulher mastigava de forma lenta o seu espaguete e não levantava, em hipótese alguma, os olhos do prato, era como se o corpo continuasse a fazer as ações mecânicas, porém a mente estava em outro lugar. Ao se dirigir novamente à mesa da família, Lucas sentiu que o chão abaixo de seus pés estava irregular, mesmo que o piso do salão não apresentasse nenhuma protuberância. Sua perna começou a pesar no meio do caminho e ele achou que não conseguiria cumprir o seu objetivo. Virou a cabeça e deparou-se com o olhar sério e autoritário do Sr. Alberto que parecia dizer: “Lucas, foque-se no seu cliente e recolha esses pratos agora”. Ao aproximar-se da mesa, foi surpreendido com uma estocada de faca bem no meio da barriga. Quando se curvou para pegar o guardanapo e estancar o sangue, a mulher deferiu mais duas estocadas em suas costas. Sua camisa branca rapidamente ganhou tons de um vermelho vivo. O mundo começou a girar ao seu redor e os sons do ambiente se misturavam em meio a gritos, “I Put a spell on you” e o choro de uma criança. A única palavra que saiu de sua boca foi:

— Inácio!

Agradecemos pela leitura do nosso conto.

,Sobre o autor e o ilustrador:

Luiz Vieira é jornalista, ator e escritor. Natural de Carbonita – MG, veio para São Paulo com o objetivo de ser artista e influenciador cultural – Curador em @responderfazendo

Instagram: @luizvieira.art

Julio Lapagesse, 1985, Brasília.

Formado Bacharel em Artes Visuais pela Universidade de Brasília. Trabalha principalmente com desenho, colagem e desdobramentos dessas duas linguagens.

Trabalhou como ilustrador e infografista por 3 anos no Jornal de Brasília e depois 5 anos para o Correio Braziliense, produzindo diariamente para o jornal.

Foi integrante do Espaço Laje (DF), e fundador do Ateliê Nova (DF) e do Espaço BREU (SP).

Atualmente vive e trabalha em São Paulo (SP).

Instagram: @jlapagesse

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