,O sintoma da cidade amor – e outras fissuras em poema. Sobre a obra poética da escritora Flávia Andrade

Por Marcio Tito.

O primeiro livro da autora (responsável por engajar a artista na luta por um espaço diverso e amplo)
O primeiro livro da autora (responsável por engajar a artista na luta por um espaço diverso e amplo)

Brevíssima introdução – Sobre o livro de poemas “A Cidade do Tempo Cão (e outros poemas de fissuras)”. Da obra da poeta Flávia Andrade, editado pela editora Patuá, em fevereiro de 2020.

“O entardecer revela tua personalidade

E tua provocação

Borderline (…) ”

O verso acima, importante não somente por iniciar a obra, mas também por defini-la dentro de alguns parâmetros de sentido, será o eco permanente desta análise e, quem sabe, um modelo-síntese para o estilo desta produção, cuja fisionomia funciona enquanto batismo para esta época de tanto verso, tantas pequenas editoras independentes, tanto sintoma e pouquíssima- ou quase nenhuma- cidade.                  

A Cidade do Tempo Cão – e outros poemas de fissuras – inscreve a dinâmica do verso poético na busca de uma particular e rara intensão: debater os encontros e pontuar os sintomas no perímetro e na espacialidade urbana.

Todo conforto que o verso tradicional naturalmente programa às nossas percepções, revelando ser rima, soneto, decassílabos ou não, está desfeito na aventura que o afeto da poeta empresta ao experimento da linguagem.

Tratando “rima pobre” ou “rima rica” enquanto utensílios equivalentes na hora da composição de um “tempo cão” da linguagem, Flávia escreve com a premência de uma metrópole onde caminhar pode significar, talvez, simplesmente não ter carro – contudo, meditando acerca da supressão da vida simples e dos encontros verdadeiros, a obra poética, que faz mais do que sequenciar textos em verso num livro de título único, realmente acusa um poderoso paradigma – não só para a arte da poesia, mas também para a investigação do desejo – transmuta a vocação do poema a ser performance de metafórica confissão psicanalítica em forma de verso livre, romântico e cotidiano (sob a influência de uma personagem que, ao longo do processo, confirmará seu lugar de avatar para o espírito deste tempo).

Dados de um romantismo clássico transformam em sentimento a expressão natural da Terra, vertendo em melancolia a chuva ou o frio, ou em paixão, qualquer entardecer calorento. Participam junto aos versos do debate, da construção de corporeidades intrinsicamente desconexas, outros diversos fatores – encontros que se dão no olhar, sentimentos que surgem em perspectiva por meio de janelas, interrogações que interpelam questões impossíveis de serem formuladas ou enunciadas. Por fim, num átrio entre ser livro escrito e ser livro lido, participa também uma espécie de metalinguagem textual (profundamente capaz de nos revelar o suporte do livro, sem com isto nos roubar a experiência).

Noutras horas, e ao que nos parece, em situação nos mesmos ambientes, partes de corpos humanos intervalam a perspectiva da voz-lírica dos versos de Flávia, e esta fricção aponta para a duríssima dimensão de sermos imensamente pequenos diante do que sentimentos e imensamente incapazes de realmente adentrarmos a nossa, ainda que sofisticada, pequeneza afetiva.

Assim, diante da opulência crônica de uma cidade cujo espectro nos envolve na dimensão anônima de sermos passantes ou mesmo amantes desencontrados, a luta por batismo nos faz aceitar conceitos como fossem estes os nossos verdadeiros nomes, ou o verdadeiro prefixo de nossos espíritos.

Detalhe marcante –

Sonho, lembrança e ilusão gostam de surgir quando a voz que expressa a poesia de Flávia precisa recuar. Recuando para sentir em silêncio, ou para compreender linguagem no skyline da cidade, a voz do “tempo-cão” conquista um estado de fissura (ou de febre ansiolítica programada a perceber os estertores da realidade que nos envolve em significados oscilantes – na cidadania, no amor, no sexo, enquanto objetos visuais numa paisagem programada a procurar beleza, ainda que tal busca apenas decepcione o olhar).

Um pouco de definição –

Poesia e psicanálise trocam as cadeiras.

Nesta ocasião, dançada entre as duas principais pulsões da produção, com explícita consciência na construção de ambas, brilha uma das maiores importâncias da obra: a capacidade de transformar a inversão das linguagens trocadas em “ciências poéticas” coesas – fazendo quem lê, dentro do fluxo da obra, não sentir estranheza diante de uma personagem que se chamasse “borderline” e sofresse do “transtorno do amor”.

Influências –

Quando a autora elege Hilda Hilst e Clarice Lispector enquanto referências presentes, é trabalho da crítica fazer até o leitor da trilha capaz de conectar a presente produção a estas duas canônicas influências. Neste tipo de empresa é preciso formular um instrumento capaz de reunir os tempos, no caso, fiz a opção por pensar nos instrumentos antropófagos que, dentro da cultura brasileira, partem com maior vigor pela intelectualidade de Oswald de Andrade, e hoje constituem a principal fórmula do Teatro Oficina.

Hilst surge nesta evocação do sexo enquanto problemática entre nós, contudo, não estamos aqui para falar do sexo enquanto arte reprodutiva ou recreativa entre adultos, porém, sim da prática sexual enquanto pulsão para a nossa produção social, ou seja, o sexo, ou a sexualidade, ou a excitação sexual como vetores para que nossas identidades possam performar um afeto tátil e capaz de nos identificar dentro de uma relação corporal.

Eis um novo triunfo da obra: realocar os paradigmas do ato, sem contanto impermeabilizar nossa leitura segundo a tradição psicanalítica. Curiosamente, justo nessa hora, somos todos capazes de não ver a teorias.

Lispector surge com maior revelação, contudo, à luz da mesma estratégia parteira, ou seja, por meio da mesma estratégia anterior – encontrarmos uma na obra de referência e a esta entregarmos as fechaduras da produção que protagoniza o presente debate.

Ou será que alguém aqui não vê Macabéa chegar à cidade e deslumbrar-se diante dos frontais dos prédios? Esta orquestração de sentimentos que a cidade entrega às nossas percepções transforma em repertório afetivo a nossa desconexão.

Eles, imperiosos perto do céu, constrangem o maior órgão do nosso corpo, a nossa pele. Nós, enfiados com os pés na – duras poesias das esquinas e, tragédia nossa, nunca imperiosos, sempre perambulamos a busca por amores impossíveis, que parecem possíveis, e são impossíveis.

Flávia Andrade – autora e curadora. Mulher de artes
Flávia Andrade – autora e curadora. Mulher de artes

Anexo final –

Agora, ao sabor de quem lê, dois poemas que demarcam as fronteiras do verso e, solidificando, apresentam as assinaturas da autora –

Cidade do tempo cão

Flávia Andrade, A Cidade do Tempo Cão (e outros poemas de fissura)

O entardecer revela tua personalidade

E tua provocação

Borderline

Teus movimentos diurnos corridos e corriqueiros

Enlouquecedores e donos do tempo

Senhora do tempo e da masmorra

Da rotina desregulada e irregular

Provocativa e silenciadora

e tuas noites

Liberdades condicionadas

Possibilidades megalomaníacas

Contigo se tem romance bandido

Sexo selvagem com tua luxúria noturna

Com tua mania de grandeza

Muito templo

Pouco faraó

amanhece e você é só sadismo

Nos bate na cara

Segue a ambivalência

Amor e ódio

De dia te quero longe

De noite lembro porque não te deixo

Cidade do tempo cão

*

Origem

A lua prata que ilumina a noite preta

Redonda, cheia, reluzente

Lâmpada acesa no brilho do espelho d’água

Lâmpada tão acesa quanto o sol no azul fácil do dia

Sua luz, sua imensidão e sua falta de cobrança

Não pede resposta pela luz que dá

Nem o espelho pede retribuição pelo espetáculo que torna visível

O silêncio da noite, a brisa barulhenta e o silêncio ensurdecedor de tuas águas

O mistério encantador e sedutor de teu poder, tua majestade, teu império da natureza

Me seduz desde quando eu não sabia nomear teus encantos

Tenho necessidade de estar com teus barulhos calmantes

Hoje eu precisava estar com tuas espumas

Tua frieza molhada na noite prata da lua cheia

És meu maior encantamento

Soberana imensidão

Praia

Rica casa verde/negra/noite/azul

Morada de mãe Iemanjá

Agradecemos pela leitura da nossa entrevista.

,Sobre a autora:

Flávia Andrade é psicóloga, poeta e docente. Mestre em Filosofia e doutoranda em Psicologia de formação; poeta e inquieta de pele. Autora do livro “A cidade do tempo cão e outros poemas de fissuras” (Editora Patuá). Seu primeiro livro foi citado entre os 20 destaques na categoria poesia de 2020 no site Literatura e Fechadura. Teve poemas publicados em várias revistas de literatura como: Ruído Manifesto, Mallarmargens, Acrobata, Arribação, Revista Toró etc. Curadora da página Mulheres na Poesia.

Instagram: @mulheresnapoesia / @fla.andrade9

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