,Cinema e Psicanálise – O Triunfar sobre a Castração no filme Crash

Por Caio Ribeiro.

Cicatriz e gozo - uma estranha equação entre o cinema e a psicanálise
Cicatriz e gozo – uma estranha equação entre o cinema e a psicanálise

Apesar de não conseguirmos localizar na obra de Freud tal citação, mas ainda assim todos atribuírem à sua autoria, vamos seguir desta forma, pois fará sentido ao nosso trabalho: “Se quiseres poder suportar a vida, fique pronto para aceitar a morte” (Freud, 19xx). Agora, pensando sobre o tema: O que é a morte? O que acontece depois dela? O que sente uma pessoa ao morrer? Por que algumas pessoas anseiam tanto alcançá-la? Os franceses nomeiam o momento do gozo como a “pequena morte”, afinal, no sexo ou você se entrega, ou você não goza. Estaria então o gozo e a morte relacionados de alguma forma? A morte seria um gozo final, e fatal?

Retomando aos conceitos já comentados em dois ensaios anteriores (“Ensaio sobre a perversão I: O amor, o cotidiano e a clínica” e “Ensaio sobre a perversão II: e o feminino?”), vamos realizar uma análise de um dos filmes do aclamado diretor David Cronenberg. “Crash – Estranhos Prazeres” causou polêmica após seu lançamento em 1996 por misturar erotismo e violência a partir de batidas violentas de carro, chegando a ser retirado de cartaz em Buenos Aires após uma série de manifestações e protestos. Tal incômodo nos leva a pensar: será que devemos realmente descartar detalhes tão importantes que são delicadamente expostos nos corridos 100 minutos da obra? Será que o incômodo causado na população não quer dizer mais sobre eles (ou sobre nós) do que imaginamos?

Antes do início da análise, vamos apresentar a obra e uma importante curiosidade: o filme é baseado em um livro que leva o mesmo título. O autor, James Ballard, cedeu seu próprio nome ao personagem principal do livro, e chocou seus leitores, fazendo-os questionar o que há de tão excitante em latarias amassadas e fluidos mecânicos. “Crash” conta a história de James Ballard (James Spader), um diretor de comerciais que leva uma vida de aventuras sexuais junto de sua esposa, Catherine Ballard (Deborah Unger) enquanto se diverte na sacada do seu apartamento acompanhando o fluxo de carros na avenida.  A vida de James sofre uma reviravolta quando ele se envolve numa violenta batida de carro e passa a se relacionar com a viúva do homem morto no acidente, Helen (Holly Hunter), passando a frequentar encontros com um grupo de fetichistas que se excitam em reencenar brutas e reais cenas de acidentes automobilísticos, sem nenhum tipo de segurança, desafiando todas as leis de trânsito e de autopreservação.  

O filme inicia com Catherine transando com um homem desconhecido em um hangar, e enquanto é penetrada, esfrega o seio no metal gelado de um dos aviões, ao mesmo tempo em que James transa com uma funcionária em seu escritório. O close do mamilo em contato com o metal frio denuncia, já em seu início, sobre o encontro que teremos durante toda a obra entre corpos e máquinas, ao mesmo tempo em que colidem e se encontram.

O casal se encontra na sacada de seu apartamento, e enquanto observam o fluxo dos carros na avenida, trocam confidências sexuais e James penetra Catherine por trás, enquanto conversam, questionam entre si se conseguiram alcançar o orgasmo. A resposta é emblemática: “Talvez na próxima vez…”, já nos relatando aqui que não estamos falando de um gozo que não é facilmente alcançado, e garantindo através dessa resposta de que farão outras tentativas, repetidas vezes, para tentar contemplar a experiência desse gozo que parece tão inatingível. Essa cena inicial termina com a câmera se aproximando da avenida e mostrando o movimento rápido dos carros, como se representasse a pulsão destas duas importantes personagens que estão dispostos a percorrer todos os caminhos da sexualidade, de forma acelerada e sem freios.

Agora James está na avenida, dirigindo com confiança até o momento em que perde o controle e invade a pista contrária, batendo frontalmente com um carro e causando um acidente fatal. Ao mesmo tempo em que o corpo do outro motorista invade seu carro, James cruza olhares com a sobrevivente, que ao invés de se apavorar com a cena na qual o motorista é atirado pelo vidro, mantém a calma e arranca o cinto, deixando escapar o seio e fixando um olhar curioso para nosso protagonista. A cena, que deveria ser traumática, torna-se erótica. Helen, a recém-viúva do motorista, ao invés de traumatizar-se com a cena do acidente, procura transformá-la em algo erótico, como se o recado ao telespectador fosse: “Perdi meu objeto de amor, mas vou gozar ao invés de chorar”. Esse é o primeiro encontro do nosso novo casal erótico e romântico, a cena do trauma serve aqui como um flerte. Carros que colidem, corpos que se encontram. Do trágico ao sexual.

James está internado com todos os efeitos de um grande acidente: corpo imobilizado, perna engessada, movimentos restritos e desejo contido. Fora toda a restrição corporal, o desejo permanece em andamento, e ele questiona Catherine sobre qual foi o resultado do encontro acidental – e sexual -, no qual ela relata de forma sensual, e com riqueza de detalhes, enquanto o masturba por baixo das cobertas: “… O painel estava completamente amassado para dentro, quebrando o relógio e o velocímetro, a lataria ficou deformada, havia pó, vidro e pedaços de plástico em todo o interior. Os tapetes estavam ensopados. Fedia a sangue e fluidos humanos… e mecânicos”, e então James interrompe a masturbação, afinal não é hora de gozar. O ‘Grande Ato’ ainda não aconteceu… Talvez na próxima vez. O corpo do morto domina a cena, e James demonstra grande interesse em saber sobre o velório, tendo como resposta de sua esposa: “Enterraram… enterram os mortos tão rápido. Deveriam deixá-los expostos por meses”, nos colocando sob o questionamento do motivo de nossas personagens acharem que o corpo morto deve ser admirado. O que acham do corpo morto? Estamos falando aqui de um desejo necrófilo? O corpo morto é aquele que sucumbiu? Esse corpo deve ser desejado? 

Ballard encontra-se com Helen no corredor do hospital enquanto caminha e é aqui a primeira vez que se depara com Vaughan (Elias Koteas), um fotógrafo médico que possui em seu corpo inúmeras cicatrizes espalhadas e que carrega consigo inúmeras fotos de pacientes cicatrizados. Ele parece se enfeitiçar pelos ferimentos de James e analisa cuidadosamente cada uma de suas cicatrizes, questionando sobre o acidente, os olhares se cruzam e eles parecem flertar. “Cuidaremos disso mais tarde”, finaliza.

Crash - Um clássico dirigido por David Cronenberg (1996)
Crash – Um clássico dirigido por David Cronenberg (1996)

De volta para casa, Catherine acaricia os machucados da perna de James enquanto ele observa o tráfego da sacada, utilizando agora um binóculo. “Não posso ficar aqui para sempre (…) O tráfego está mais intenso agora. Parece ter três vezes mais carros que antes do acidente”, denotando para o telespectador que algo dentro dele está se movimentando com maior intensidade, como um desejo que não aguenta mais ser contido e precisa ser urgentemente satisfeito. O acidente acordou algo dentro de James, mas o quê?!

Parecendo iniciar uma compulsão por repetição, James compra o mesmo carro que o anterior, respeitando o mesmo modelo e cor, visita o estacionamento de carros acidentados para poder analisar a situação do carro destruído, e é ali que reencontra Helen, que também foi em busca do carro do marido, como se ambos estivessem em um cemitério de automóveis, e não de corpos. Agora ambos dividem o carro e James leva Helen até o estacionamento do aeroporto, enquanto conversam sobre o aumento do tráfego na cidade. “Acho que não vou conseguir lidar com isso”, garante ele enquanto retira o cinto, abrindo mão da segurança e da contenção de seus desejos – é a hora de se entregar, nem o cinto fará o trabalho da contenção.

O estacionamento do aeroporto é o lugar que James e Helen mantêm a primeira relação sexual, dentro do novo carro de mesmo formato, como se estivessem recriando a cena do acidente e transformando-a agora em algo inteiramente sexual e prazeroso, como uma forma clássica de superar e vencer o trauma que vivenciaram juntos, o que nos remete aqui a uma montagem perversa, que frente a grande angústia da castração, procura de alguma forma negar a cena, achando uma saída na qual não seja tão angustiante quanto à lembrança traumática.  

Helen leva James a um encontro de pessoas que reencenam cenas de acidentes famosos e Vaughan (isso mesmo, o mesmo fotógrafo médico) apresenta a morte de James Dean. O homem cicatrizado aparece acariciando o carro como quem acaricia o corpo de sua amante e reproduz as últimas frases de James Dean antes da morte: “Não se preocupe. Esse cara vai nos ver”, como se estivesse enfeitiçado. O carro, até então intacto, aparece na cena como um objeto sedutor que pede para ser acidentado, tal qual um corpo antes do sexo. A encenação inicia, e dois dublês são convidados: um para interpretar James Dean, e outro para interpretar Donald Turnupseed, o motorista que fatalmente chocou o carro com Dean. Todos os telespectadores aplaudem, afinal, farão ali uma restituição de um forte triunfo de uma grande castração: reencenarão a morte, e tentarão sair ilesos – renegarão a grande cena de uma castração final.

A cena acontece, os dublês entram no carro, afastam e aceleram. CRASH! Uma batida frontal, todos se machucam, mas sobrevivem. Vaughan sai do carro narrando o sentimento e mais uma vez, falando sobre o famoso acidente: “James Dean morreu com o pescoço partido, e tornou-se imortal”. Se quem morre torna-se imortal, quem consegue driblar a morte (como eles fazem ao reencenar e sobreviver à cena), torna-se maior, triunfa sobre a cena, triunfa sobre a morte. A polícia intervém, é a Lei que aparece dando limite, mostrando que não é possível gozar sem cuidado, sem limite. É a grande lei que o perverso irá tentar driblar – e neste caso, dribla – todos fogem. A Lei é motivo de piada para o perverso, a ponto de ele poder traduzi-la para uma linguagem sua, e isso é claramente exposto nesta cena. James questiona: “Quem são eles?”, e Vaughan responde: “Não são policiais, são agentes de trânsito. São uma piada. Não sabem quem somos”. É a resposta do perverso diante da norma.

James e Helen refugiam-se na casa de Vaughan e conhecem sua esposa, Gabrielle (Rosanna Arquette) – uma sobrevivente de um trágico acidente e que agora se locomove com auxílio de aparelhos ortopédicos. Vaughan apresenta o livro de fotos do acidente e expõe a mulher quase morta, ao mesmo tempo que tenta se aproximar de James e seduzi-lo, explicando do que se trata seu projeto: “É algo que estamos todos intimamente ligados. A reformulação do corpo humano através da tecnologia moderna”. Entendemos aqui que o carro-máquina funciona como uma extensão corporal das personagens, que colidem como um encontro sexual e provoca grande descarga de prazer em todos que se envolvem. Estamos falando aqui de uma pulsão que não se satisfaz mais com o corpo humano, mas com um corpo tecnológico, com a colisão e encontro entre corpos e carros.

Agora Catherine está na pista dirigindo e Vaughan a persegue com seu enorme Lincoln negro, procurando tirá-la da pista para provocar um acidente, porém ela não se intimida. A cena é toda presenciada por James, que não intervém e assiste ansioso. Catherine, que até então não estava envolvida com nosso grupo de fetichistas, estaciona o carro em um posto, negando as investidas do carro e do corpo de Vaughan, e ele foge. Mas algo se mexe com a fantasia da resistente motorista, e na mesma noite, enquanto mantém relações com James, passa a se excitar com a figura de Vaughan: “Ele deve ter fodido várias mulheres naquele carrão. É como uma cama sobre rodas. Deve cheirar a sêmen (…) Já imaginou o pênis dele, James? Acho que deve estar cheio de cicatrizes de um acidente”. Vamos pensar aqui sobre o corpo de Vaughan e o porquê a figura deste homem cicatrizado seduz todas as personagens, e seus atos e aparência não causam horror. A cicatriz, em qualquer corpo, demarca que algo aconteceu e foi superado. Neste jogo obsessivo em busca de driblar a morte, Vaughan é a personagem que possui mais marcas e garantias de que foi possível encostar na morte e vencê-la. Ele é o grande poderoso vencedor da castração, e a partir desta lógica perversa, torna-se o objeto-fetiche de todos que o rodeiam. Na constituição perversa de um fetichista, o fetiche é criado para substituir o falo da mãe, é uma forma de salvar-se da imagem castrada que agora é visualmente apresentada, o fetiche é um indício do triunfo sobre a castração, assim como na obra, a cicatriz evidencia o triunfo frente à morte. Vaughan é maior que a própria morte, e essa figura potente, não-castrada, e “imorrível” seduz todas as personagens que se relacionam, tomando um lugar de saber e de satisfação plena, como se possuísse todas as respostas da vida e também da morte.

Um acidente de carros é muito mais um fertilizante do que um evento destrutivo. Uma liberação de energia sexual medindo a sexualidade daqueles que morrem com tamanha intensidade que é impossível de outra forma. Vivenciar isso é o meu projeto”, diz Vaughan enquanto dirige com James, apresentando novas fotos de um novo acidente que deseja reconstituir. A experiência de quase-morte e de triunfo é o que excita nossa personagem-fetiche, brincar com a morte é uma forma de se sentir vivo.

Catherine encontra-se com seu marido James e o amigo fetichista, e os três juntos presenciam um acidente. A cena dos mortos e sobreviventes a convida para o jogo perverso e ela se sente atraída pelos corpos mortos e quase-mortos, passando a prestar mais atenção nas cicatrizes de Vaughan, fazendo com que transem no banco traseiro do carro enquanto James dirige e presencia, de maneira bastante voyeurista. O corpo, marcado pelo sexo violento e pelas mãos brutas de Vaughan acaba por ser acariciado e cuidadosamente observado por James ao voltarem para casa, como um motorista que analisa o estrago da lataria do veículo após um grave acidente. Mais uma vez a cena sexual sendo retratada como uma colisão entre máquinas.  

Gabrielle e James visitam uma concessionária, e ainda com as dificuldades dos aparelhos ortopédicos, a sobrevivente procura uma forma de seduzir o vendedor, encostando-se no carro e mostrando as profundas cicatrizes dos membros inferiores. Exibe tais cicatrizes como quem exibe um troféu, e em uma mente perversa, é isto que é: a cicatriz mais uma vez aparecendo como uma validação do triunfo frente à morte. Ela experimenta a entrada no carro junto de James, ambos começam a trocar carícias sexuais enquanto o vendedor assiste, visivelmente constrangido. É a forma perversa de apontar a impotência do outro frente ao seu desejo.

Vaughan decide fazer uma tatuagem sobrepondo suas cicatrizes, como forma de revalidar sua vitória frente a tantas tentativas de morte. Se a cicatriz representa a vitória frente ao trauma, a tatuagem sobreposta à cicatriz é uma segunda inscrição de seu triunfo, como se revalidasse e afirmasse seu lugar de poder frente à angústia e a uma possível castração. Ele convence James a também tatuar em seu corpo algo que marque sua sobrevivência ao primeiro acidente que vivenciou e o diretor escolhe tatuar o símbolo de sua Mercedes-Benz. Ao inscrever o trauma na pele, James passa a ser um objeto desejado por Vaughan, e é dentro do carro que eles trocam sua primeira experiência sexual, sempre mediada pelas trocas de toque nas cicatrizes – James beija e analisa cada cicatriz com o “enfeitiçamento” típico do fetiche, totalmente inebriado e apaixonado por essa validação de poder, que esconde a impotência dos nossos corpos frente à vida – ora, ele está beijando um corpo que se acidentou, sobreviveu e se inscreveu como vitorioso. Este é o poderoso corpo que deve ser desejado. Junto a tantas carícias, James penetra Vaughan por trás, atuando agora como agente ativo da relação sexual.

Após o encontro sexual, James caminha para um ferro velho para terminar seu momento de prazer dentro de um carro acidentado, e é ali que ele entra e começa a se excitar com o volante, como se estivesse em seu momento de masturbação. Mas Vaughan o persegue e bate no carro parado diversas vezes, como se estivesse devolvendo a James as investidas sexuais que recebeu. “Você bate em meu corpo, eu bato em seu carro”, acredito que a dinâmica já é familiar para nós, o carro servindo mais uma vez como extensão do corpo.

Catherine reclama com James que seu carro foi batido e eles concluem que se trata de uma ação de Vaughan, o que os assusta – o desejo está saindo do controle. Dirigindo durante a noite da cidade, James percebe que o tráfego está diferente: “O tráfego. Onde estão todos? Desapareceram todos”, evidenciando aqui o desejo que se dissipa pela figura-fetiche, a libido desapareceu frente ao forte trauma. Agora é preciso buscar um novo caminho para a pulsão. “Eu quero voltar, James”, é o pedido de Catherine, como pedido de sair deste jogo perverso. Tarde demais: Vaughan , que estava deitado em seu carro como um desejo adormecido, desperta e persegue o carro do casal. Não há mais escolha.

Um romance de J.G Ballard
Um romance de J.G Ballard

Após uma perseguição desenfreada e diversas investidas e batidas no carro, Vaughan sai da pista, atravessando a mureta e findando a busca pela satisfação total em cima de um ônibus: “Para Vaughan, o desastre de carro e sua própria sexualidade haviam celebrado o casamento final” (Ballard, 1997, p.11). Matou o corpo, junto com a sexualidade e a pulsão que caminhava desenfreada em busca de expressão, nos levando a refletir sobre o caminho da pulsão e do desejo: o quanto a busca da realização dos nossos desejos pode nos levar à destruição? Todos os desejos podem ser realizados?

James decide resgatar o carro de Vaughan do ferro velho, se a figura-fetiche que representava o triunfo sobre a castração não existe mais, alguém precisa cumprir este papel para manter o desejo ainda vivo, e é assim que ele sai pelas ruas após realizar a reforma do carro: de forma desgovernada, como o desejo, persegue Catherine. A mulher, ao perceber a perseguição, rapidamente retira o cinto de segurança – é preciso se entregar para alcançar o que desejam – e o acidente é provocado, causando um grave capotamento do veículo. James se apressa para ver o resultado da colisão e encontra a esposa bastante machucada, apesar de viva. Isso não impede que iniciem ali, no meio do acidente, dos fluidos e da lataria, uma relação sexual. E o filme termina assim, com uma cena sexual e a emblemática frase inicial: “Talvez na próxima, querida. Talvez na próxima”.

Em 1927, Freud, no texto “Fetichismo”, trata da perversão como tipo clínico propriamente dito e propõe que o objeto fetiche é o substituto do pênis da mãe. Diante da castração materna há uma cisão do Eu que, por um lado, constata a castração, e por outro, a desmente. O perverso é aquele que, pelo mecanismo do desmentido, busca triunfar sobre essa castração, tal como as personagens que apresentamos em “Crash”. Conseguimos identificar também a cristalização do desejo do sujeito perverso, que diferentemente do neurótico – que desliza pelas possibilidades da vida – mantém-se preso e enclausurado em uma cena repetitiva e tediosa, não permitindo o avanço ou novas formas de criação. Ao contrário do que o nosso imaginário comum alimenta, que o perverso é aquele sujeito que sabe lidar com o gozo e goza sem limites, tais cenas e experiências engessadas e cristalizadas nos apresentam, na verdade, o vazio deste sujeito: a dificuldade de criar, a impossibilidade de gozar com um objeto completo, fixando-se apenas em suas parcialidades e repetições. Manter-se preso em uma única cena – seja ela sapatos, pés, calcinhas ou batidas de carro – é uma forma de acreditar que se domina todas as formas de gozo.

Na perversão, o sujeito busca recusar a descoberta da castração materna como tentativa de escapar da constatação da própria. O objeto-fetiche tenta encobrir a realidade dessa castração, tentando triunfar sobre ela. Ao longo do filme, as personagens lançam-se em uma busca frenética e repetitiva de um gozo ímpar que garanta tal triunfo, levando alguns ao limite do fatal, e fracassam – uma vez que esse gozo não existe. Apenas a morte pode apaziguá-los.

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Caio Ribeiro é psicólogo clínico, graduado pela Universidade Nove de Julho e especialista em clínica psicanalítica e psicologia organizacional com ênfase em saúde mental pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), certificado em curso complementar de clínicas e estruturas lacanianas e freudianas pelo Instituto Real Psicologia.

Instagram: @caio_psycho @filhosdefreud

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