,Forjada na prática antropófoga! – Uma entrevista com Isabela Mariotto

Por Marcio Tito.

Um clássico da cultura brasileira digital e não - A Vida de Tina. Por Isabela Mariotto e Julia Burnier
Um clássico da cultura brasileira digital e não – A Vida de Tina. Por Isabela Mariotto e Julia Burnier

Poucos fenômenos culturais foram capazes de transformar a contradição de um país em verdadeira arena de debates. Contudo, nenhum fenômeno desponta sem que exista uma linha verdadeiramente original antes do sucesso.

Isabela Mariotto, atriz vocacionada a pensar o teatro e as artes enquanto possibilidade de encontro, numa parceria com Julia Burnier, alcançou este lugar com sua personagem Tina ( A Vida de Tina).

Antes disso, e durante, porque pausa não significa final, sobretudo para um grupo com mais de 58 anos de história imparável, Isabela transformou e foi transformada pelo teatro exercitado pelo tradicional e vanguardadista Uzyna Uzona – O Teatro Oficina.

Aqui, para enredarmos parte do processo criativo e das intuições da artista, uma tão breve quanto intensa conversa acerca do teatro, da arte e das mídias enquanto motivo para seguirmos experimentando.

Boa leitura!

MT – Isabela… Seu trabalho aparece do teatro, e agora se coloca diante e dentro das redes sociais. Como você percebe a sua produção nesse espaço? Te trouxe maiores possibilidades, ou você sente falta de alguma prática de antes…

Isabela – O teatro tem importância fundamental na minha trajetória, não só enquanto atriz, mas como pessoa. Por ser um lugar de vida, de atuação. Apesar de também adorar trabalhar e experimentar diversas linguagens como o cinema, a televisão e agora a internet, o teatro é meu ponto de partida e para onde sempre quero retornar.

Durante a pandemia tenho sentido muita falta do teatro. De estar em cena. Olhar nos olhos do público, sentir sua presença em carne e osso e contracenar com ele. Sinto falta de criar em conjunto, de sentir meu corpo no espaço junto com todos os artistas que atuam nas mais diversas áreas da companhia. Saudade sem fim. A pandemia veio e isso nos foi roubado. E então comecei a fazer os vídeos com a Júlia (Júlia Burnier, atriz, parceira em A Vida de Tina)… de maneira despretensiosa. Postava na minha página pessoal, e agora isso virou, mudou.

Então, de um ano pra cá, essa tem sido a minha produção artística – o trabalho na internet. Nunca imaginei que isso poderia acontecer, nunca foi um objetivo.

Tem a coisa maravilhosa do alcance. No Oficina temos uma lotação de 350 lugares. Mas se agora a gente posta um vídeo na Tina em alguns minutos não sei quantas milhares de pessoas já viram (ao redor do Brasil, do mundo!). Então eu considero essa uma vantagem. Isso é de uma potência absurda! E sempre foi algo que me preocupei como artista: perfurar a bolha e tentar falar com o maior número de pessoas.

E acredito que todo mundo que é da cultura no Brasil tem esse tipo de questionamento.  Como quebrar as barreiras impostas pelo mercado e fazer o trabalho alcançar outros públicos? Nesse sentido, sinto que a internet apresenta essa vantagem em relação ao alcance.

Roda Viva, 2019. Por Jeniffer Glass. Sesc Guarulhos
Roda Viva, 2019. Por Jeniffer Glass. Sesc Guarulhos

MT – Como você sente a resposta? As pessoas se conectam ou assistem como se fosse um conteúdo solto, lido pelas referências pessoas sem contato com a produção em si. O ruído no digital é maior que o ruído teatro?

Isabela –  Eu acho que seja na internet, ou em qualquer outra linguagem, esse ruído é constitutivo de qualquer trabalho artístico. Nunca chega pro público “aquilo que o artista realmente quis dizer”. No fundo isso não importa, porque o trabalho só fica completo com o público. E ele, por sua vez, é livre para interpretar como quiser. Esses ruídos constituem o trabalho e precisamos ter isso em vista. Na verdade… aí está a beleza. A livre interpretação. A possibilidade de sermos arrebatados por uma obra sem seguir uma cartilha de explicações.

Como ir ao museu e ver um quadro sem ler o texto explicativo ao lado.

Mas acho que na internet o ruído é diferente em relação ao teatro no que diz respeito principalmente à imediatez. Na internet somos estimulados a elaborar rapidamente aquilo que assistimos através de uma curtida ou de um comentário curto. Claro,  isso tem a ver com o ritmo da internet. A gente comenta na velocidade que a coisa é feita. Então não parece haver tempo nem espaço para uma elaboração mais aprofundada da experiência.

Já quando vamos ao teatro, muitas vezes saímos sem saber elaborar o que assistimos.. É comum demorar um tempo pra decantar as sensações e então formular racionalmente a experiência vivida.

MT – Antes de pararmos por conta dos isolamentos, você estava produzindo algo?

Isabela – Voltaríamos em 14 de março de 2020 com Roda Viva. A peça era um sucesso de público, e aí no 14 de março da reestreia as coisas estavam começando a fechar por conta da pandemia. Nos reunimos no teatro e decidimos não entrar em cartaz.

Algumas semanas antes disso eu havia filmado o filme da Julia Murat (Regra 34, em finalização para o ano que vem). Aí veio o isolamento e ao longo da pandemia o teatro se reinventou. Podcasts, peças online, debates.

Muita coisa aconteceu nesse formato virtual…

Camarim do Teatro Oficina - Roda Viva, 2019. Direção de Zé Celso e retrato por Jenifer Glass
Camarim do Teatro Oficina – Roda Viva, 2019. Direção de Zé Celso e retrato por Jenifer Glass

MT – Perguntei porque houve um processo interrompido. E você surgiu com a Tina. Você estava em um discurso, o da peça que fazia e, em alguma medida, o trabalho na internet continuou essa fala. É possível traçar essa linha? Mesmo com as “desentrevistas” de agora…

Isabela – Acho que dá pra traçar essa linha no sentido de que eu continuei a me expressar. Mas são discursos e formas diferentes, apesar de ter muita coisa em comum.  Não consigo pensar em continuidade, mas sim em transformação, em devoração.  Quando falo que tem muita coisa em comum isso tem a ver com o fato de que trabalho no Oficina e esse teatro me formou e continua a me formar diariamente. E obviamente isso acaba reverberando nos outros trabalhos que faço.

Minha trajetória no Oficina começou na Universidade Antropófoga, e minha primeira peça na companhia foi a encenação do Manifesto Antropófago do Oswald de Andrade – A Macumba Antropófoga.

Então posso dizer que eu fui forjada nessa prática antropófaga, a partir da qual procuramos trazer o inimigo pra perto e devorá-lo. Em outras palavras,  buscamos colocar os tabus em cena e ao transformá-los em totens acabamos por criar novas interpretações para a vida.

E aqui vejo um paralelo muito claro em relação à Tina. A Tina é um tabu. O tabu da classe média, dos artistas, dos intelectuais, entre muitos outros. Ela é uma espécie de inimigo dentro de nós mesmos. Reflete como um espelho tudo aquilo que a gente tenta ocultar, todas as nossas contradições. Ao invés de manter escondido, debocha e coloca em evidência o que por vezes consideramos como errado. E agora me veio algo maravilhoso que o Oswald fala sobre o erro, ele fala justamente da “contribuição milionária de todos os erros”!

Pra mim o teatro é o terreno onde a gente pode errar, experimentar. É o terreno da subversão. Mas quando a gente vai pra internet esse terreno fica mais espinhoso. A internet não é um terreno de experimentação. É um terreno determinado pelo erro e pelo acerto, pela lacração e pelo cancelamento – em última instância, é um terreno determinado pela moral.  Então os ruídos que falávamos acabam tendo outra dimensão, de outra ordem.

Roda Viva, 2019. Retrato por Rafael Marques
Roda Viva, 2019. Retrato por Rafael Marques

MT – Isabela… muito interessante traçar essa linha contigo. É muito profundo. Mas me conta sobre o Desentrevistas?

Isabela – Fomos convidadas a fazer uma parceria com o Uol. Eles apresentaram esse projeto e nós achamos ótimo porque fazia sentido com a nossa linguagem, com o que já fazíamos. Já havíamos colocado a Tina em vídeos reais, já havíamos feito releituras de memes históricos. Levado a Tina ao programa Roda Viva rs. Então essa coisa de tirar do contexto já era uma prática nossa.

Acho que descontextualizar algo já gera comicidade por si só. E tensionar falas de outra época com o tempo de agora é ao meu ver algo que pode ser muito interessante do ponto de vista discursivo.

MT – O impacto dramático tem sido similar ou vocês alcançaram outro público?

Isabela – É uma plataforma enorme. Acredito que por conta disso tenhamos chegado em mais pessoas.

MT – Você apresentou coisas que suspeitávamos mas não tínhamos certeza. É muito bonito ver como sua produção com a Júlia tem essa filiação do teatro, tão bonito ser do teatro… Quer dizer algo que signifique essa trajetória?

Isabela – Vou pensar nessa! Por enquanto pode deixar um Fora Bolsonaro! Mas vou pensar algum complemento rs. Com essa conversa cheguei em conclusões que não havia chegado ainda. Obrigada por isso!

Agradecemos pela leitura da nossa entrevista.

,Sobre a entrevistada:

Isabela Mariotto (1992, São Paulo, Brasil; vive e trabalha em São Paulo) é atriz formada pelo Célia Helena Centro de Artes e Educação e bacharela em Letras (Francês-Português) pela FFLCH-USP. Formou-se também pela Universidade Antropófaga do Teatro Oficina, onde trabalha desde 2017 como atriz. Atuou nas peças Roda Viva, Bacantes e Macumba Antropófaga, todas dirigidas por José Celso Martinez Corrêa. Recentemente teve o filme Os Jovens Bauman (dir. Bruna Carvalho de Almeida) exibido no Festival Indie Lisboa e no FILMADRID. Na televisão atuou nas séries Pico da Neblina (dir. Quico Meirelles) e Natureza Morta (dir. Flavio Frederico). Em 2020, filmou o longa Regra 34 (dir. Júlia Murat), ainda em processo de finalização. É uma das criadoras da página de vídeos de humor no Instagram A Vida de Tina (@a.vida.de.tina), onde atua, escreve e dirige.

Instagram:

@a.vida.de.tina

@oficinauzynauzona

@isabela_mariotto

@juburnier (dubladora da personagem Tina).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s