,Conto de Fada, um conto de Helena Cerello ilustrado por Andréa Tolaini

Por Helena Cerello e Andréa Tolaini.

“Aquele que é atingido pelo amor não pode esquecer o tesouro do seu coração. Adeus. Tu não podes me ensinar a esquecer.”

Shakespeare

Abismo - Por Andréa Tolaini
Abismo – Por Andréa Tolaini

resolvi te ver com ela. o insuportável ato de visitar a rejeição. por que me sujeitar ao meu lado mais penso? penso é com s? procuro no dicionário. “(1) desnivelado. (2) contrafeito, corcovado. (3) aplica-se à pessoa ou animal que tem um ombro mais baixo que o outro.” (4) no feminino: a pessoa pença demais. (5) para ser amado é preciso não pençar tanto.

rejeição. não. não preciso procurar o que é isso.

onde estou? no quarto do poeta. colecionador de miniaturas. olhando pra ele. no cantinho. no exato segundo entre o primeiro sopro e a voz. talvez cheguem as notas as idas e as voltas. nem antes nem depois. Silêncio. ele está deitado. nu. com a barriga para baixo. mas os olhos eu fecho assim mesmo. e inscrevo no teto da noite. o meu nome. Aliada. também conhecida como aquela a que você procurou e que simplesmente te encontrou. também pode me chamar de liberdade. ainda que alguns insistam de me chamar Melancolia.

e do lugar de onde vem o que há acima dos muros das frequências das Flautas ouço baixinho a voz que me escapou lá atrás. como as memórias. como os olhares escapam. com o tempo. para o bem da parede dos corações.

um dia vou assoprar um poema pra você. e você só vai escutar se quiser.

antes preciso explicar. nosso amor é impossível. por enquanto  só posso dizer isso.

hoje. sou pequena. minúscula. apenas um pedaço de mulher. me chame de trêmula. a que se sente com um gelinho na mão mais quente que o próprio Sol. talvez eu seja do tamanho do medo da avalanche dos barulhinhos da noite falando comigo mesma. sou humana?

ele acordOu. fico cega surda e muda. não devia estar no quarto. dele. (deles)

rejeição. ouça                                                

você não é aquilo que ouve a ilusão. você é a própria ilusão. a Ficção, a filha rebelde da literatura, aquela que acha que pode tudo. e de tanto tatear o perigo. você se cortou.

eu me cortei? em mim e em você que me ouve uma saída. pode ir ainda dá tempo. CartA da delicadeza pra você. Eu nunca vou te deixar. mas você Pode ir ainda dá tempo. talvez você tenha me achado. pra que agora eu possa ir. talvez eu diga talvez demais. talvez eu seja aquilo que não sai da sua cabeça. talvez eu seja um universo. aquele quando vocês dizem. vou jogar pro universo. talvez seja na minha direção. e eu esteja presa pra sempre nesse lugar. na fluidez talvez. nas sincronicidades. insuportáveis às vezes. que não nos deixam esquecer o que virá. talvez eu seja a própria resposta. mas há uma pergunta? um pedido. um me deixa viver esse amor. impossível. um me solta pelo amor de Deus. você ainda acredita em mim? fica E aprende.

eu não existo.

do que estou falando? somos só uma ilusão. o gosto que você sentiu não era o meu era apenas um óleo de lavanda emprestado não era eu. o olho não era o meu. o cabelo não era o meu. eu tinha pego emprestado tudo. a essência. é preciso dizer? só ela existe como o desejo de dormir entre as estrelas pra sempre soprando quem somos juntos sozinhos saciados famintos à vontade de nos conectarmos de volta a quem de verdade amamos. o mistério. o amor a compaixão a paz de sermos mais fraternos uns com os outros e de não sentir aquela dor aquela que sabemos qual é nunca mais.

poeta, está me ouvindo? eu sei está confuso. para quem não estava lá.

olho pra inspiração dele que dorme do seu lado. ela tem peitos. e eu? eu tenho apenas asas. na verdade tenho só uma. um trauma. e a lembrança da minha primeira vez.

(uma menina de 16 anos. e eu dentro. nela)

o professor a levou pra sair. fatos reais. “fala a verdade… você não é virgem?”

o cheiro de cigarro do restaurante na roupa dela. restaurante não. restaurante as pessoas levam seus silêncios para jantar. aquilo era uma casa que espantava até os gritos. com neons na entrada. e o descomeço do amor impregnado em todas as frestas.

(ela)

“por que os homens estão usando roupão?”

(o professor)

“pra não voltarem para casa com cheiro de cigarro. risos.”

“por que aqui tem baias entre as mesas?”

“para ninguém ver o que estamos fazendo.”

“as pessoas vêm aqui para fazer o que ninguém pode ver o que elas estão fazendo? onde você me trouxe?”

“quer ir para um lugar melhor?”

o professor de literatura

sobre a cama

o cheiro

dessas palavras depois do sexo

“putinha gostosa tesuda. fala a verdade… essa não foi a sua primeira vez?”

foi.

apesar daquilo não poder ser chamado de primeira vez. a menina não teve uma primeira vez. foi chuva. ela tomou chuva dentro das pernas. se sentiu como uma flor onde socaram um pedaço comprido de madeira envolto no plástico. dentro. no meio. ficou com aquele semblante de criança que as pessoas olham e se perguntam “por que do nada ela ficou tão estranha?” sobreviveu ainda que respirando com dificuldade. continuou cheirosa. mas não sentiu mais. foi muita fumaça e cheiro de cigarro em volta. antes era a mais bonita da escola. a que todos queriam arrancar um pedaço. até o professor. a seguida na escada pelos meninos quando ia de saia. a que não se deixava ser amada pelos meninos mais por medo do que por pudor. nunca quis fazer parte disso. mas foi atingida. e tudo começou quando ela resolveu deixar chover dentro de si. o professor a fez acreditar que ela quis. foi virada ao avesso. pelos versos de outros poetas na boca errada. vestiu suas pétalas ao contrário. e desfolhou pra dentro. entupiu em silêncio junto com a chuva pedaços da sua beleza. da sua intimidade-flor. de sua pureza branca porque ela era branca. seria uma pureza negra se ela fosse negra. e hoje é só mais uma. dentre tantas que não tiveram algo para chamar de primeira vez. desde então ela nunca mais teria uma primeira vez. a primeira vez a teria pra sempre. com suas manchas que, por anos, teimariam em não secar nela. ela se deixou sacrificar. por uma paixão errada pelo professor. que fingiu que nada tinha acontecido no dia seguinte. na chamada oral. no corredor e pra sempre. o sacrifício sempre chama a chuva. como eu sei? eu estava lá. dentro dela. e com ela foi-se um pedaço de mim. foi junto uma de minhas asas. no segundo em que o professor arrancou a menina e a literatura de dentro dela.

eu não devia estar ali.

(de volta ao quarto do poeta. sou uma cor. manchada eternamente de azul sem um pedaço. uma luz. eu apareço às vezes para eles. o poeta e a inspiração dele me deram um apelido. eles até tiram fotos de mim)

me diz se já foi inventado um lugar pra eu ficar?

(minha voz é inaudível. pra ela. o poeta acho que ainda pode me ouvir)

desculpa. estar no seu quarto. há três dias que estava no seu jardim esperando você acordar. agora estou aqui. sentada com um braço segurando a cabeça um pouco sem graça, um pouco tímida de estar aqui, de estar incomodando. te olho pela frestinha das minhas mãos pequenas e você dorme tão tranquilo que não tenho coragem de acordar eu vou embora mas antes dou uma bronca em alguém que está comigo. minha asa cotó. é ela quem me leva até você que me põe na sua estante junto de seus livros deixa ele em paz eu digo olho pra duas taças de vinho vazias em cima da mesa elas estão em paz te olho mais uma vez e você no seu sono também verdadeiramente em paz a minha vontade é indagar seus olhos pequenos se tens saudade de comer a sombra das minhas pestanas mas não te acordo e continuo sonhando.

(preciso explicar. o poeta é o único que pode me ouvir. pode me tocar. e me tocou)

lembra de quando eu disse que ia esquecer?

o primeiro abraço o primeiro passo depois do primeiro instante de quando tirei minha asa e disse só segura pra mim a vontade de mais pôr do sol de quando roubei seu tempo todo seu tato seu tudo um pouco seus olhos indo e vindo decorando os meus de quando éramos de outra cor do tempo que não fizemos nada onde eu ia eu pedia vem comigo e quando quase pegou fogo no fio da força o som da gruta da cachoeira as águas as ervas-de-comigo-ninguém-pode-só-você onde todos os pequenos caminhos nos levavam ao paraíso onde tudo era infinitamente mais curto-circuito o seu cabelo também lembra dos sons da noite do lobo o guará que não era mau a noite que não era escura os pássaros que eram azuis e voavam até o sol pintar de vermelho lembra do susto nós de burca por causa do frio na curva do carro sem teto do brilho sem bordas dos olhos das onças pintadas na noite todos os olhos brilhando mais como os meus encantados de te ouvir cantar bem te vi e lembro que teve o antes também um sapato de camurça um cheiro de incenso uma camisa de flores no cromaqui e teve o antes do antes onde eu não te vi eu não te vi no primeiro dia pra mim você chegou depois fora do tempo e me pergunto por que? teve tudo isso e eu não esqueci de como já eram de verdade nossas lágrimas de mentira desculpa se te faço ver o que prometi esquecer eu deveria ter mais consciência mas acho que ela está sem paciência de obedecer ela não tem mais nada a perder ela não tem nada nada a não ser o agora vontade de colocar o amor de verdade de dentro pra fora.

(você abriu os olhos e me viu)

eu vou embora.

você me olhou. de mo ra da mente.

você já entendeu o que eu preciso.

você me ajudaria?

a inventar o amor. não qualquer um. o da primeira vez.

(seus olhos escrevem. vai embora por favor. você não pode mais viver aqui dentro da minha cabeça)

eu pedi o que não se pede. eu sei. mas e se eu disser que você já me deu. e agora é tarde.

a lembrança volta. de quando entrei no corpo da atriz 20 anos mais velha que você. e você a tocou. ela podia ser a sua mãe. e daí? isso é uma grande bobagem. e você tocou nela. porque eu estava dentro dela. você me viu ali dentro dela. nem sempre estamos prontos pros encontros que a vida nos proporciona. o medo de viver. as experiências. a ansiedade. a pressa de sair logo dali. ou simplesmente a impossibilidade de abrir o coração naquele momento. despertar. perceber o que é seu. o que é do outro. e o que é do encontro. e libertar-se da memória daquele encontro. e de como se deu. se um se liberta, convida o outro a libertar-se também. sorte. quando isso se dá em sincronia. e o encontro pode se dar em outro lugar mais potente.

eu senti tudo                                     

senti gosto do céu enxurradas de estrelas dentro da lua cheia anjos tuiuiús nascendo em algum lugar rito proteção lua em escorpião senti espirais caracóis de paz elementais em cartas de tarô senti fios escapando pelos poros águas dos Andes. índios apagando incêndios pedidos de socorro senti minha idade em sua maturidade na terra a prosperidade pedindo passagem senti sua escuta presságios sua força o kambô. o começo o pó que sou que somos aceitando o peso de pássaros só o que é leve pode voar

você estendeu a mão e a atriz te deu a minha achando que você a queria. mas você pegou a cerveja gelada que estava sobre a mesa. lembra?

dia seguinte

(o poeta sentiu medo. escreveu para a inspiração dele e rejeitou a atriz que tinha idade para ser sua mãe. mas eu não)

eu te amo e nunca te quis.

“amar não é querer o outro pra si. e sim amar incondicionalmente o querer que o outro tem dentro de si.”

(a inspiração dele agora é ela quem desperta. e sinto que você só quer ser dela)

sou pequena demais pra você

por isso eu vou. você está triste comigo.

mas antes de partir quantas gavetas serão fechadas até se abrir quantas luzes precisam ser acesas pra me apagar? me diz se você quer meu silêncio se serei boa ao me calar e malvada se perguntar me diz o que já sei eu preciso aprender a separar o sexual do espiritual o pretenso bem do suposto mal O Arco De Adão do chão O inflamável do inefável A Raça alada da memória As almas gêmeas de Platão As Voilers valas Da ilusão E unificar eu sei não é o que fazemos que dói mais é o que não fazemos por isso eu vou mergulhar relembrar renascer eu vou ser quem sou com quem estou nem que seja comigo mesma um rio subterrâneo prestes a submergir como se fosse a terra a parir a paz que te olha nos olhos agora nu no reflexo da luz mais linda.

(seus olhos me ditam)

eu não sei mais o que fazer com você

é como se mesmo sem saber onde estou eu tivesse chegado em algum lugar onde está escrito o que sempre esteve Entre sem bater aqui batem corações tiro o meu do peito e com ele na mão fico sem saber o que fazer não quero atrapalhar nada nesse lugar e nem no meu que já está tão machucado acho que não aprendi a entrar em nada sem atirar meu coração como uma bala na frente minha vontade é desistir mas algo me diz apenas toque com os dedos na maçaneta toco sinto sua temperatura preciso de dias ali talvez uma vida várias para virar essa chave mas algo me diz dê a volta me distraio com sons ecos de um instrumento antigo o reflexo da luz de uma vela em um copo com inscrições estrelas cadentes disfarçadas de gotas de chuva na janela me lembrando não ter intenção nenhuma não querer nada só estar presente como se pudesse ser uma lampejo de cor aqui só existe luz e o impossível apenas noto os olhos de um cão recebendo um carinho de uma mão que canta pulseiras anéis curando Saturno um universo de amor em estado puro não olho com olhos de quem quer um pedaço apenas estou será que consigo?

(o poeta acende o fogo)

sinto que a condição de estar é essa fecho os olhos pra não entregar que estou tentando e quando me dou conta sinto que a maçaneta sumiu e eu estou dentro dela poderia escrever sobre cada centímetro desse pequeno sonho talhado de cometas à minha volta mas meus olhos só conseguem olhar      pra dentro mensagens cifradas mapas de mundos esquecidos meus pés tocam as bordas desse portal nesse micro infinito onde só é possível dançar se eu quiser existir lá por mais alguns segundos estarei eu no lugar de onde você fala? não tenho intenção nenhuma não quero nada só quero sentir essa presença confirmada do invisível de entrar no impossível onde sinto que estou agora batendo as asas me perguntando se já sei que está na hora de ir embora

(ele vai me queimar. o fogo. o poeta não. ele está tentando me salvar)

tento inventar mundos nos segundos que tenho ainda aqui no parapeito esquerdo do céu tento sentir o lugar útero da espiral do ar o primeiro respiro de um pássaro de onde vim de onde veio esse amor que se foi na minha primeira vez pra ficar lá intacto nas tangentes do sutil sem o tato da terra tento apenas dizer ao sopro me dá a mão sem me tocar só me acalma me respira com seus olhos minúsculos

lacrimejantes

aqui e lá sua voz sua luz seu amor em todos os lugares seus entes de luz cada vez mais aparentes você sabe quem fala? tento não escrever pra não te tirar mais gotas do canto dos olhos apenas deixo escapar tento me ocupar e não culpar o tempo por ter tirado uma parte do nosso tempo do ponteiro de nos amar por inteiro tento apenas te ouvir e responder agora só com o coração será que ainda dá tempo? de tornar uma lenda o que está entre o que chamamos de nosso tento acreditar que sei colocar um poema dentro de você um que não vai te machucar tento voltar pra minha razão pro lugar onde se edita uma nova consciência entre o verde e o negro a poesia porque é preciso descer escadas equilibrando a utopia e você vai daqui a pouco eu sei fazer sua meia volta e achar sua rota sua sina é dela a sua poesia apenas aceito daqui nessa fagulha onde me colocaste eu só queria o seu gostar se eu te sonhasse tento quebrar paredes com minhas notas porque eu sei é preciso esquecer e te tirar desse lugar de te chamar de minha dor meu vagalume e como se eu soubesse tento cega te ensinar o bemol você escreve a gente junto ainda? a gente só é junto quando é agente de algo maior eu sei que você sabe que eu sei que você sabe que sei eu tento torcer pra você ficar um pouco mais pra eu ser mais que um atalho pra um caminho mais bonito de onde eu possa admirar nossa estrada de longe como um monge olha pro jardim que ele plantou tento acreditar que tudo é apenas uma curva infinita elas sempre foram mais belas que as retas e fazer meia volta é apenas um outro passo uma outra dança pra quem está com algo está pingando a conta gotas do coração e não é sangue tento não te desejar o mesmo quando dói tento não te impedir de ir só te pedir como te deixei vir sinta-se livre pra tudo que for de verdade e se tiver que voltar pra lá se salve de mim

vai e deixe seus monstros comigo eu sei não chamá-los inimigos e aqui eles vão te deixar em paz

(sim essa é a maior declaração de amor que já fiz para alguém)

(o fogo me queima. ainda assim consigo falar)

luz

eu sei que você pode se acender em todas as suas formas eu também sim sou jovem demais ainda que você me prefira mulher que eu sei mas se vai Doer aqui vai luz tento não querer isso pra você é tão quente do lado do amor é pra lá que nós vamos todos ainda que seja preciso um lugar a ser inventado um Romeu e Julieta onde todos ao mesmo tempo são vivos e imaginários tento não dizer mas acho que já disse deixa eu ser só um sonho quase uma cor a ser inventada uma onda no céu uma sensação de uma coisa nova que você me ensinou algo como amar em toda a sua inteireza de beleza tento prometer ler tudo que você vai escrever nas entrelinhas e só respirar junto contigo tento só te amar como amo estar viva tento acreditar que você nunca tenha me julgado má nunca que nunca fui a musa da sombra tento apenas estar lá já na luz pra ser sua como você quiser tentar ou não me sonhar porque no fundo estou aqui tão sozinha que não posso desejar outra coisa senão por alguns segundos ser sua a minha poesia

(ele vai queimar as páginas as letras todas também)

as páginas em branco escritas e as linhas tortas parafraseando o que eu não posso dizer

(eu queria tanto que você pudesse ser minha inspiração)

(elas também)

o que não pode ser não é

estou no ar de novo. posso voar. mas ainda não consigo me mover. é diferente. aprendi em algum momento como faz isso mas parece que Esqueci eu tenho um buraco enorme dentro de mim interior anterior a você

ainda preciso ser amada de um jeito que me tiraram lá atrás

(ele está queimando tudo)

o sol

derretendo o branco nossos olhos molhando tudo

que bom que você tem alguém aí pra te dar a mão. para te ajudar a sair do frio. mas e eu?

eu tenho coragem de inventar talvez um outro alguém talvez um outro rosto puro pra colocar nesse altar a ponto de acreditar que posso voltar no tempo e apagar o rosto que colocaram em mim naquela cama talvez o meu próprio rosto apareça enfim um que tenha coragem de ir comigo por esse invisível

e deixar os seus cadernos em paz

adeus

eu não vou voltar e dizer que sonhei com tudo de novo E dessa vez não fazíamos nada só nos olhávamos como se soubéssemos e foi tão mais real que eu acreditei. eu não vou voltar e dizer que tudo bem entre o céu e a terra ver seus sonhos desenhados mesmo que eu não faça parte deles eu não vou voltar e dizer que estamos livres do olhar da Circe das rivalidades acima das maldades ainda que algo ali atrás tenha roubado minha vontade de escrever por isso eu não vou voltar e nem para buscar nada nem pra me buscar apenas e muito menos pelo propósito de inventar um amor que não tem culpa de nada

voltar se posso apenas ir por que voltaria? por quê? me pergunto Também não sei por Amor talvez por um amor que não consigo explicar então só posso acreditar em sonhos e que eu não preciso voltar

preciso ir pra dentro profundamente mesmo se eu voltar

sinto que posso te dar o que você quer. mas você não. o que me falta. não posso te pedir.

sinto muito

a vontade de ir. porque ficar. tá me partindo.

fui

Hoje às 16:56

fomos amor

essa morte

e vida inconfundível

Agradecemos pela leitura do nosso conto.

,Sobre a autora e a ilustradora:

Helena Cerello trabalhou como atriz com os grupos Cemitério de Automóveis, Parlapatões, Pia Fraus, entre outros. Integra a Cia Le Plat du Jour, e colaboradora na criação dos espetáculos, sendo eles “ALICE no País das Maravilhas” (espetáculo indicado para o Prêmio Coca-Cola FEMSA de 2009 na categoria inovação do teatro e as artes circenses) e CINDERELA LÁ LÁ LÁ (Prêmio APCA de melhor espetáculo adaptado de conto clássico; São Paulo de melhor texto adaptado – 2015; indicação ao Prêmio de Melhor atriz no Prêmio Zilka Salaberry); espetáculo adaptado de conto clássico e Prêmio São Paulo de melhor texto adaptado – 2015); recebeu indicação ao Prêmio de Melhor atriz no Prêmio Zilka Salaberry. Foi indicada ao prêmio APCA juntamente com Raul Barretto por ter levado ao teatro as obras de Hundertwasser.

Instagram: @helenacerello

Andréa Tolaini é artista visual pela Escola Panamericana de Artes (2013) e ESPM, (2207). Cursou Desenho e Ilustração na University of Arts – Londres (2012). É pós-graduada em mídia, informações e cultura latino-americana, pelo Cellac-ECA-USP (2009). É autora de dois livros escritos e ilustrados pela mesma: Mã, por mais doce que você fosse seu ventre (2018) e; Seiva (2018). Desenvolveu projetos de poesia visual para SESC Santo André (2018), Coletivo Feminista Saúde e Sexualidade (2019) e ministrou oficinas de pintura e desenvolvimento criativo na Universidad Carlos III em Madrid (2017), Unip Vergueiro (2015), SESC Consolação (2015), Sesc Santo André (2018), Can Viés em Barcelona (2017). Participou da exposição coletiva Marias de Portugal, Espanha e São Paulo (2017-2018) Foi patrocinada pela Black Jaguar Foundation para a criação de uma obra para o projeto de proteção da onça pintada Jaguar Parade que seguiu em exposição pelas ruas de São Paulo e Brasilia (2019). Tem murais feitos no SESC Santo André, Mídia Ninja, Escola Amorin de Lima entre outros lugares públicos e privados. Foi criadora e coordenadora do projeto Ateliê coletivo na Nave do Mídia Ninja (2020 – projeto interrompido pela pandemia).

Instagram: @andrea.tolaini

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