,Anna Muylaert – A arte do roteiro

Por Marcio Tito e Marina Calvão.

Agradecimento especial – Navega Cursos.

Revisão: Aline Machado.

Alvorada, novo filme de Anna Muylaert e Lô Politi. 2021
Alvorada, novo filme de Anna Muylaert e Lô Politi. 2021

Cineasta, roteirista e diretora de televisão, Anna Muylaert figura entre as mais premiadas, maiores e mais importantes criativas brasileiras. Com expressão internacional e entrada garantida em qualquer círculo artístico do planeta, Anna Muylaert grafa em seu currículo prêmios como os dos festivais de Sundance e Berlim, além de ter sido uma das brasileiras a participar da votação para o Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

“Que Horas Ela Volta”, “Mãe Só Há Uma” e o mais recente, “Alvorada”, são algumas de suas produções direcionadas ao debate acerca das formas autoritárias que o patriarcado elege para a condução das sociedades, sobretudo atribuindo valores e estigmas ao corpo e à persona das mulheres.

Tendo lançado há pouco o curso on-line “Roteiro Cinematográfico” pela plataforma Navega, Anna reafirma também um lugar contemporâneo de escuta e troca. Aqui, em uma curta entrevista cheia de lugares intuitivos e diretos, debateremos sua perspectiva acerca da criação e como é que os roteiros efetivamente nascem.

Boa leitura!

MT – Anna, além de admirador, sou atravessado por sua obra enquanto artista, e há tempos me interesso por compreender também o seu lugar na criação. O roteiro, que é o que compreende a sua investigação nos cursos que tem dado pelo Navega, este será o nosso foco! O que é que um roteiro nunca pode ser? Pelo avesso, sim, mas para pensarmos em contraste, o que um roteiro para filme seu nunca pode ser?

Anna Muylaert – O que um roteiro nunca pode ser?

Eu acho que um roteiro nunca pode ser descolado de quem o escreve. 

Mesmo que o tema não tenha diretamente nada a ver com o roteirista, ele tem que achar dentro de si onde aquela história se conecta com sua vida, com suas questões, pois caso contrário, fica um roteiro vazio, sem alma, sem sentido.

Regina Casé, grande estrela na obra de Anna. Que Horas Ela Volta, 2015
Regina Casé, grande estrela na obra de Anna. Que Horas Ela Volta, 2015

MT – Sobre achar dentro de si a forma como a história faz parte de quem a escreve, no caso do roteiro, na sua experiência, foi algo sempre intuitivo ou que surgiu de referências? Aos poucos você foi encontrando conforme a prática?

Anna Muylaert – Sim. Creio que entendi a importância de ter uma conexão com o tema na prática, se você não tem ligação, a coisa simplesmente sai sem potência. Desde o início da minha carreira sempre procurei achar conexões internas com o tema externo e acho que esse é meu maior trunfo como roteirista.

MT – Isso tem alguma conexão com o “lugar fala”?

Anna Muylaert – Sim e não. Lugar de fala é quando a pessoa fala de um território que conhece. O que eu quis dizer é: achar algo interessante e que se conecte a você mesmo. Num território desconhecido, ou seja, achar um interesse genuíno no que se faz. Ou se não achar, melhor não fazer.

Belíssimo jovem clássico de Anna e equipe. Mãe Só Há Uma, 2016
Belíssimo jovem clássico de Anna e equipe. Mãe Só Há Uma, 2016

MT – Bonita esta sua percepção, Anna. O seu “Que Horas Ela Volta” foi um filme que me marcou demais. Assim, conectando com sua resposta acima: como se originou o roteiro?

Anna Muylaert – [Para] O roteiro do “Que Horas” comecei em 1996, quando tinha acabado de ter filho e entendi essa ligação materna. Eu queria cuidar da criança em tempo integral. Percebi que no Brasil, na minha classe social, isso não era tão bem visto.

Compreendi que a questão da educação não era prioridade da sociedade patriarcal, por isso se contratava babás e preços tão baixos. Assim fui compreendendo a importância do tema, desta personagem que traz tantas contradições sociais e afetivas. A primeira versão do roteiro se chamava “A Porta da Cozinha”, e era completamente diferente, mas já tinha a mesma vontade de tornar a serviçal invisível em visível. Depois vieram outras versões, o país foi mudando também e eu fiz outros longas. Cheguei à versão final deste roteiro em 2013, 18 anos depois de ter começado. Foi uma grande jornada para mim como roteirista, diretora, mulher, mãe e cidadã.

MT – Puxa! Essa tua colocação é o melhor exemplo sobre o que você havia colocado sobre a obra precisar de uma forte ligação com quem a propõe. Agora, para darmos a direção final, como você percebe o cinema contemporâneo brasileiro?

Anna Muylaert – Olha, até o governo Temer o cinema brasileiro estava em um momento de pujança. Produzindo diversos tipos de filmes e também sendo produzido em várias partes do país. Com o golpe e subsequente eleição do Bolsonaro, o setor cultural de forma geral foi sendo diminuído, extinguiu-se o Ministério da Cultura, fechamento da Cinemateca, Operação Tartaruga na ANCINE, e em cima de tudo isso uma pandemia mundial. 

Portanto o cinema brasileiro hoje está praticamente parado (com algumas obras financiadas antes de 2018 saindo agora), mas de maneira geral, muito pouca produção acontecendo.  E creio também que quando a pandemia passar e outro governo mais simpático à cultura entrar, acho que teremos também um novo momento temático que ainda não podemos prever qual seja, mas não tenho dúvida que a experiência tanto da quarentena, quanto da pandemia, quanto da vivência nesses anos Bolsonaro trarão novos tipos de filme.

A artista!
A artista!

MT – Anna, sei que deve estar numa loucura com a estreia (que felicito e parabenizo!) mas acho que seria um crime jornalístico não abrir para que você falasse sobre. O que é que você desejou realizar com o roteiro de Alvorada?

Anna Muylaert – Quando a Lô Politi me convidou para participar do projeto, dei a ideia de fazer o recorte de  filmar o golpe nos três andares do palácio. E assim filmar o espaço de poder com todas as suas classes e subclasses. Como numa sociedade: no subsolo funcionários, cozinha, exercito. No jardim, o passeio dos Dragões da independência e as emas. No andar térreo, a resistência politica. E no segundo andar, a presidente.  Desde a primeira sinopse já havia a ideia. De filmar corredores vazios, sussurro, tensão.

Então a Lô Politi foi com o Cesar Charlone para Brasília e começaram as filmagens, a equipe se instalou no Alvorada e iam para lá quase todos os dias da semana. Eles filmaram os quatro cantos do palácio e também tentaram se aproximar de Dilma, mais do que ela gostaria e permitiu.  Um dia eu fui para lá e propus essa DR entre nós e a presidente. Ela topou e desse papo surgiu a entrevista que estrutura o filme onde ela fala de coisas inusitadas.

Quando acabaram as filmagens, coube a mim estruturar o filme. Quando comecei a montagem, junto com o Hélio Villela, sentimos falta de mais ação:  resistência, entra e sai, reuniões sem fim.  De início, fiquei decepcionada, mas logo compreendi que era um filme de espera, de melancolia, um velório da democracia.  A partir do momento que entendi isso fui criando blocos narrativos que dessem conta de recriar o espaço do palácio, o movimento dos funcionários e dos soldados e tanto quanto possível uma aproximação com a Dilma até o desfecho final.

Foi um trabalho de chinês para criar a atmosfera que está ali. E a escolha das músicas de Villa Lobos somada à arquitetura de Oscar Niemeyer, foram peças fundamentais. 

MT – Muitíssimo obrigado pela fala aberta e direta! Que o filme seja um sucesso não só nas telas, mas também na ética do nosso país que tanto deixou de acertar! Boa sorte para nós! ❤

Teaser do novo filme:

Anna em primeira pessoa:

Para quem quiser estudar com a Anna @navegacursos:

Agradecemos pela leitura da nossa entrevista.

,Sobre a entrevistada e a autora:

Anna Muylaert é uma das mais renomadas cineastas brasileiras, tendo sido uma das únicas artistas do país a votar na premiação do Oscar, Anna estudou cinema na Escola de Comunicação e Arte da USP e, desde 1991, trabalha como roteirista para cinema e televisão. Vencedora de Sundance e Berlim, lança seu mais recente filme “Alvorada” (2021).

Instagram: @annamuylaert

Marina Calvão é formada em cinema pela FAAP. Atualmente atua na área de sonoplastia e edição.

Instagram: @mcalvao

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