,Claudio Naranjo – A educação para curar as pessoas

Por Miguel Vicentim.

Revisão: Bruno Soares Oliveira.

Retrato de Claudio Naranjo

Jiddu Krishnamurti já dizia em meados do século XX que não é saudável uma pessoa estar adaptada a uma sociedade doente. Krishnamurti, assim como Osho, são pensadores indianos que obtiveram bastante sucesso no ocidente, especialmente no período pós Segunda Guerra Mundial. Era o momento quando surgiram os hippies, as drogas psicodélicas, o “rock’n’roll”. Ocorreram o festival Woodstock e as manifestações da Stonewall. Neil Armstrong deu o primeiro passo na Lua. Na literatura os livros de “autoajuda” ganharam destaque ou, como é melhor designado nos dias atuais, livros que tratam do processo de “autoconhecimento”. As velhas tradições e estruturas começaram a ruir. A doença do mundo estava exposta e a humanidade começou a buscar uma cura.

Claudio Naranjo, nascido na cidade de Valparaíso, no Chile, em 24 de novembro de 1932, logo após o seu ingresso na Escola de Medicina, dedicou-se com maior afinco aos seus interesses filosóficos e teve influências importantes como o poeta e escultor chileno Tólila Albert, o poeta chileno David Rosenman Taub e o filósofo polonês Bogumil Jasinowski. Era psiquiatra, escritor e professor, considerado pioneiro em seu trabalho experimental e teórico como integrador da psicoterapia e das tradições espirituais. Foi um dos primeiros pesquisadores das plantas psicoativas e da terapia psicodélica.

A morte acidental de seu único filho, ocorrida em 1970 o levou a empreender uma longa peregrinação, sob a orientação de Oscar Ichazo (filósofo boliviano, criador da Filosofia Integral), incluindo um retiro espiritual no deserto de Arica, no Chile. Na sua opinião, este foi o verdadeiro princípio de sua experiência espiritual, de sua vida contemplativa e seu guia interior. No ano de 2006, foi criada a Fundação Claudio Naranjo para implementar suas propostas concernentes à transformação da educação tradicional numa educação que não descuide do desenvolvimento humano, da qual depende nossa evolução social.

Tótila Albert pensava que nossa sociedade arcaica, anterior ao período matrístico (durante o Paleolítico e o Neolítico), era, em essência, um filiarcado, quando predominava, não apenas a vontade dos jovens sobre os anciãos, mas também a força e a autoafirmação do indivíduo sobre a tradição e a tribalidade. E seria também um filiarcado o sonho de anarquistas como Kropotkin e Bakunin, confiantes no fato de que a autoridade das pessoas sobre suas próprias vidas redundaria num equilíbrio social e não no caos imaginado pelos partidários do controle autoritário e repressivo.

Assim se pensou numa sociedade de seres despertos, onde a regulação organísmica coletiva (ver Teoria Organísmica do neurologista alemão Kurt Goldstein) permitiria que o autogoverno de cada qual resultasse num magnífico concerto. Só que em um mundo assim a vontade de cada um seria congruente com os ditames do amor e da sabedoria e isto levaria a redes de solidariedade e de autoridade funcional. Por meio delas a anarquia redundaria espontaneamente em uma heterarquia entre o anárquico, o hierárquico e o democrático.

Naranjo quis contribuir com esta ideia, de que nossa transição deveria ser, em essência, a passagem de uma tirania encoberta pela retórica da democracia para um governo, na qual operem no mundo, de forma equilibrada, os sábios, a voz da comunidade e a capacidade de autogoverno – como requer o respeito pela individualidade.

Apoiado nas virtudes gêmeas da Fé e da Esperança, Naranjo elegeu a Educação como instrumento para se opor ao ceticismo da mente racional iluminista e moderna, contra o pessimismo, contra a descrença e o puro cinismo: “… defendo que, neste nosso tempo de crise e de profunda transformação, a educação constitui a nossa melhor esperança. Ou dito de outra forma: a transformação da educação é nossa melhor ponte para um futuro melhor. ”

Criança livre em Corinto (MG) – Metáfora ao horizonte de saberes que as crianças sondam…

As ideias de Naranjo sobre a educação baseiam-se na tradição dos pensadores integrais como Rousseau, Dewey, Montessori ou Steiner: “uma educação da pessoa inteira para um mundo total, visando entender o que nos acontece e o que acontece ao nosso redor”. Trata-se de ver a educação como um modo de fazer face à distância entre a crescente complexidade dos problemas que os seres humanos têm de enfrentar e sua capacidade de enfrentá-los.

Uma visão holística, orientada para a educação da pessoa inteira, uma educação integradora quanto ao equilíbrio entre as distintas culturas do planeta, uma educação capaz de relacionar-se com o conhecimento de maneira ativa, buscando o equilíbrio entre o teórico e o prático. Uma educação capaz de promover a consciência e a libertação.

“A chave da saída não há de vir das velhas instituições, mas de um novo fermento. Assim como as células imaginais da borboleta precedem a transformação do corpo larval num corpo adulto alado, também cabe conceber aos atuais pioneiros da transformação individual como células imaginais do futuro organismo coletivo, da nova humanidade emergente. ”

Os males de nossa sociedade e o que nos levou à crise atual é nossa limitada capacidade para as relações humanas saudáveis. A impossibilidade de mantermos relações verdadeiramente fraternais com os que nos rodeiam gera uma sociedade enferma com toda sua corte de problemas secundários. Na persistência de vínculos obsoletos de autoridade e de dependência é onde se assenta a tirania do paterno sobre o materno e o filial.

Ultimamente surgiu uma nova ciência, a memética – por analogia com a genética – na qual se adota o ponto de vista de que a galinha é o meio de perpetuação dos ovos, e nós, meios de transmissão dos genes. Este ponto de vista, proposto por Dawkins na biologia, inspirou um pensamento análogo com respeito aos memes, que são entidades culturais, como a linguagem. Propõe-se, então, que as coisas ocorrem como se as ideias nos utilizassem, a nós humanos, para se perpetuarem e se transmitirem por meio de nossa capacidade reprodutora. A capacidade imitativa humana torna possível esta sobrevivência dos pensamentos e é inseparável do que somos.

Assim, sem uma educação para o desenvolvimento humano, dificilmente chegaremos a ter uma sociedade melhor. Se quisermos uma sociedade diferente, necessitaremos de seres humanos mais completos. O valor político da educação do indivíduo alude ao bem público, porém, acontece algo muito estranho na educação: ela está dominada por uma grande inércia institucional. O desenvolvimento humano é fundamental não apenas para alcançarmos uma sociedade viável, mas também para a felicidade do indivíduo. Cultivar nosso espírito e deixá-lo melhor do que quando chegamos.

Os educandos jovens não querem a educação que lhes oferecem. Bem poderia ser que os jovens estejam adquirindo uma consciência mais desperta do que os docentes que foram programados para ensinar de forma tradicional e, que aos jovens basta um contato breve com a escola para se darem conta do que não lhes interessa. Há muitas coisas que são urgentes na vida e que na sala de aula são ignoradas: falta o encontro humano, o diálogo em torno do que se passa nas mentes, nas famílias e no entorno dos alunos, de quem se exige permanecerem quietos em suas carteiras e aos quais se adestra na obediência. A inibição do impulso lúdico causa um considerável dano cerebral.

O desenvolvimento humano é muito mais que informação. Quão aberrante tornou-se a educação desde que a aprendizagem se processou mais a partir da consideração das boas ou más qualificações do que a partir do interesse em aprender. Uma instituição cúmplice do sistema econômico, ao invés de ajudar a consciência humana e o equilíbrio da sociedade, está servindo para a perpetuação do status quo e, ao mesmo tempo, hipocritamente, para a ignorância (ignorância no sentido mais profundo da palavra, que não guarda relação com a alfabetização, mas com o entendimento do que nos acontece e do que sucede a nossa volta). Há uma tragédia implícita na disfunção do nosso sistema educacional.

A palavra crise no I-Ching, compõe-se de dois ideogramas sobrepostos, que significam perigo e oportunidade. Tal é a natureza da crise. Não se trata apenas de algo ruim, senão que há nela um potencial: o de descobrir a necessidade da mudança. Naturalmente a crise da educação não é um fato isolado, senão um aspecto do funcionamento de uma sociedade onde praticamente todas as instituições estão em crise. A começar pelo próprio nascimento, desnecessariamente traumático, em que não se respeita suficientemente o estabelecimento do vínculo natural entre a mãe e o filho, causando danos ao sistema subcortical.

Dalai Lama nos diz que precisamos ser mais bondosos, precisamos ser pessoas melhores. Sobreviver à atual crise do mundo depende muito de alcançarmos uma dose um pouco maior de benevolência, um nível mais apreciável de compaixão e simples bondade. Sem essa bondade, toda a informação técnica possível não irá muito longe.

A educação também precisa voltar a ocupar-se da dimensão profunda do ser humano.

Os hemisférios cerebrais, esquerdo e direito, com funções predominantemente analíticas e sintéticas, respectivamente, poderia conceber como desejável um equilíbrio entre o científico e as humanidades. Com o advento da Revolução Francesa, num momento que coincidiu com o apogeu da ciência na cultura, a ênfase deslocou-se para o científico e é isto o que pedem os bancos aos governos quando financiam melhorias no sistema educacional.

Temos à nossa disposição um vasto legado espiritual procedente de todos os tempos e lugares. Nada justifica que por um sectarismo restritivo desconheçamos o pensamento de Lao-Tsé, Buda ou Maomé. Necessitamos compreender a história da cultura, e especialmente da cultura espiritual universal. Uma cultura em que pudesse haver oficinas nas quais os jovens experimentassem os exercícios espirituais básicos, as formas de meditação características das distintas culturas. Até agora isto não foi feito porque o tabu relativo à espiritualidade não o permitiu: não permitiu reimportar a espiritualidade de forma criativa e inovadora.

Agora temos meios e recursos melhores que ainda não chegaram aos educadores e nem sequer às universidades, porque costumam chegar tarde e há coisas que se descobrem mais fora da universidade do que dentro dela.

Naranjo comprovou várias vezes que aquilo que falta nos atuais programas de formação de professores pode ser concentrado num currículo suplementar de autoconhecimento, reeducação interpessoal e cultura espiritual, apoiada principalmente em experiências pessoais relevantes, começando pela compreensão de si mesmo, que é o fundamento indispensável para compreender os demais e também uma das bases para desenvolver um interesse benevolente para com o próximo.

Obra de Tótila Albert. Destruída durante os anos da ditadura militar no Chile, um baixo-relevo com sete metros de largura, situado na fachada de um lar-escola fundado pelo presidente Pedro Aguirre Cerda, onde se expressava a ideia e também uma experiência visionária sua ao começar o caminho interior: a imagem de um condor que voa com a família humana sobre suas asas e sob suas garras: o pai, na asa direita aponta pra o céu; a mãe, na asa esquerda, aponta para baixo, para a terra; e o filho, levado no voo pelo condor, entre suas garras, aponta com o indicador para frente.

Assim, Naranjo propõe diversos instrumentos como a psicologia dos eneatipos, a meditação ou a terapia gestáltica. Propõe também um moinho de moer egos, por meio de um processo grupal orientado de insight (interpessoal e intrapessoal), através da confrontação da própria personalidade, do cultivo da neutralidade e da inibição voluntária das necessidades neuróticas (os pecados ou obstáculos das vias tradicionais). Propõe exercícios terapêuticos interpessoais, teatro, vida em comunidade e trabalho psico corporal, trabalhando o equilíbrio entre a ação, a emoção e o intelecto através da Eutonia, criada por Gerda Alexander.

A partir daí Naranjo criou um programa para desenvolver sua proposta: o SAT (Seekers After Truth – Buscadores da Verdade) para buscar uma nova educação que possa despertar nossa consciência, na qual a transformação do educador passe por um processo de desidentificação de seus condicionamentos infantis (o ego) e liberte seu ser essencial.

Além de recorrer ao potencial transformador do conhecimento de nossa personalidade, nos convém buscar um modo de nos reeducarmos – buscando as experiências, influências e tarefas que possam nos levar à superação de nossas carências. Para que possamos compreender e transcender nosso ego coletivo patriarcal e, completando nosso desenvolvimento, saibamos sobreviver ao dilúvio ou ao deserto que nos espera e assim conseguirmos a saúde de nossas relações.

Aqueles que não sofrem são como pessoas amputadas que não se deram conta do que lhes ocorreu, pessoas alienadas sem consciência de sua alienação. Dada a implacável onda de destruição que envolve o mundo e, ao mesmo tempo, a escassa possibilidade de gerar paz, justiça, democracia e outros valores da vida cívica, cabe pensar na educação como uma tábua de salvação junto a uma nau que afunda. Essa é a proposta de Claudio Naranjo.

Referências

Fonte: Naranjo, Claudio. Mudar a Educação para Mudar o Mundo – o desafio do milênio. Verbena Editora: Brasília, 2005.

Leia também: Naranjo, Claudio. A revolução que esperávamos. Verbena Editora: Brasília, 2015.

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

,Sobre o autor e o revisor:

Miguel Vicentim é professor de Histórias na rede municipal de ensino da cidade de São Paulo desde 2010, formado pela UFOP, autor dos livros Rafa, Fragmentes e Um linfoma chamado Hodgkin; também traduziu o texto Quatro horas em Shatila, de Jean Genet; todos publicados pelo Clube de Autores.

E-mail: prof.miguel@yahoo.com.br

Bruno Soares de Oliveira é formado em Letras pela UNICID, Pedagogia e especialização em tradução, ambas pela UNINOVE.

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