,Recordar, Repetir e Elaborar (1914)

Por Henrique Paes.

Revisão: Aline Machado.

A persistência da memória (1931) - Salvador Dali
A persistência da memória (1931) – Salvador Dalí

O texto “Recordar, Repetir e Elaborar” é impressionante em seu alcance. O que ele tem de curto tem de potente. Logo no início, destaco esse olhar de Freud a respeito da repetição (p.199):

Se nos determos nesse último tipo para caracterizar a diferença, é lícito afirmar que o analisando não recorda absolutamente o que foi esquecido e reprimido, mas sim o atua. Ele não o reproduz como lembrança, mas como ato, ele o repete, naturalmente sem saber o que o faz.

Aqui está posto dois dos principais conceitos da obra freudiana: a repetição e a alienação. De forma sucinta, o sujeito repete aquilo que ele ignora, e repete em atuação. É quase como se Freud tivesse conseguido desvendar o drama relacional das vidas comuns.
            Se Freud lê seus pacientes como atuando algo, é licito pensarmos numa narrativa teatral. Nessa cena, o ator principal é o indivíduo, seu papel é repetir seu sintoma, o diretor é o discurso do Outro, e o dramaturgo é o inconsciente.
            A alienação, isto é, o sequestro da subjetividade para uma vivência colonizadora vinda do Outro, comprime o indivíduo em sua própria ignorância, fazendo assim que tenha inacessibilidade em sua memória afetiva e só possa recordar quando atua.
            Seguindo o texto, agora com um viés mais clínico, Freud aponta “quanto maior a resistência, tanto mais o recordar será substituído pelo atuar”. Aqui me parece importante se demorar na questão da resistência e na compulsão à repetição. Me lembro do neurótico obsessivo que, ao se frustrar com o afeto do outro, desloca sua libido narcísica para a repetição compulsória no afã de sanar sua angústia. Ledo engano.
            Seja por repetição em demasia ou conversão corporal, é notável que o neurótico repete, ou melhor, atua em repetir devido sua própria resistência ao tratamento, ou seja, a si mesmo. A neurose é tão fascinante que uma das suas maiores elaborações é a fabricação da emoção e da experiência.
            O neurótico é aquele que consegue sofrer pelo que não viveu, falar do que não sentiu e pensar naquilo que nunca realizou. Preso em suas próprias fantasias e inibições, a neurose o limita à ascese da sua sexualidade e demoniza a transgressão a uma normalidade elogiada.
            Se o presente incita o neurótico à repressão é porque seu passado fornece suas armas, como aponta Freud: “É do arsenal do passado que o doente retira as armas com que se defende na terapia”. Percebam a palavra “arsenal” escolhida, Freud se utiliza de uma metáfora para ilustrar a quantidade de defesas possíveis que um neurótico possui para se defender em uma análise.
            O passado sem dúvidas, por ser o único tempo concreto, é a nossa matéria prima para analisar. Tenho a impressão, observando minha clínica e dos meus pares, que a fixação no ressentimento do passado é o atestado significante dessa compulsão em repetir o ignorado.
            É inquestionável que o ódio, a mágoa e a raiva não cessam de se inscrever na biografia interminável do sujeito, todavia, se atentar para o que o analisando quer dizer quando não diz, ou até mesmo, o que ele quer dizer quando diz o que repete, me condiciona a formular que a repetição é também um sintoma infantil que grita em um adulto neurótico.
             Por outro lado, permito-me pensar igualmente no que o sujeito ganha ao repetir sem recordar e elaborar. Freud aponta que (p. 202):

Agora podemos perguntar: o que repete ou atua ele de fato? A resposta será que ele repete tudo o que, das fontes do reprimido, já se impôs em seu ser manifesto; suas inibições e atitudes inviáveis, seus traços patológicos de caráter. Ele também repete todos os seus sintomas durante o tratamento.

Freud (1856- 1939) em seus escritos
Freud (1856- 1939) em seus escritos

Ao realizar tudo isso, está claro que o sujeito goza na manutenção da sua própria miserabilidade neurótica, isto é, resiste à mudança e à liberdade de fala justamente pelo apego quase que inquebrável e invisível de seu prazer que, no fundo, se traveste de sua dor.
            Por fim, a provocação que sempre ouvimos: “não fiz bem em abandoná-la (memória) à repressão”? A resposta de Freud, não, não fez. A resposta do inconsciente, sim, fez muito bem. Pois, quanto mais o sujeito ignorar, se impedindo de recordar, visando repetir e, posteriormente, não elaborar, mais ele permanecerá compulsivamente revivendo o drama edipiano do seu circuito neurótico familiar e social.

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Henrique Paes é psicanalista, professor de psicanálise e editor de cultura e psicanálise no site deusateu.com.br.

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