,Antologia Virtual da Poesia Brasileira Contemporânea – Edição Emergencial

Antologia Virtual da Poesia Brasileira Contemporânea II
Antologia Virtual da Poesia Brasileira Contemporânea II – Arte: Lia Petrelli

Curadoria & organização: Marcio Tito e Lia Petrelli.

Concepção: Marcio Tito.

Revisão: Aline Machado.

Produção: Equipe Deus Ateu.

Prefácio:

Por Marcio Tito.

Tantas vezes perguntei – como é que se faz arte numa situação de colapso? – e que pergunta idiota! É justamente no colapso que artistas fazem arte. Dizemos que “arte não tem serventia imediata, pois não mata fome e não salva vidas” – então a inutilidade sagrada da arte ficaria fosforescente em qual escuridão?

Nesse período aprendi com os que me cercam, com quem vê e faz arte , que arte só é quase inútil quando somos livres e estamos felizes e bem, pois em outros contextos, quando não tão livres e felizes ela é fundamento de vida. Única possibilidade, inclusive.

Diante da fome, quem sabe, uma canção de mãe pra filho enquanto fingimos esperar o almoço invisível. Diante do medo. Do frio. Do enigma total.

Quem sabe uma peça de teatro (justo hoje que estamos tristes). Quem sabe um filme (agora que estamos vivendo um luto cruel, e cruel porque nos exige luta em meio a velórios).

Poesia! Agora que as disputas simbólicas estão desgovernadas. Meu Deus… Publicamos poesia. Que loucos e loucuras somos! Que bonito não estarmos na melhor hora, mas dentro do relógio do mundo… vinte e um de maio de 2021 com poetas de tantas áreas brasileiras, renovando essa deriva.

Publicarmos quem existe, e não somente quem nos acessa. Procurando sempre o convite improvável. Sermos megafone, catraca não.

A presente edição – entre a primeira e a segunda – está apresentada como uma edição emergencial – pois nasce da consciência de que toda gente aqui publicada talvez pudesse, defeito de época, não estar “presente” à seguir.

Com as poesias de:

@suyandemelo @prisan2001 @ari.ne_souza @oneuroperegrino @barbararosa_barbinha @claucio.andre @lezerneri @ofelipereiss @fernandacomenda @guim_amorim @isabelav0lpi @lilianfreitas31 @marcela_mqs @odararufino @_wanderb
@diane.portella @jullyannecavalcanti
@nataliabezerra_


Ariane Souza
Ary Rosa
Bárbara Rosa
Cláucio André
Diane Portella
Elenice Zerneri
Felipe Reis
Fernanda Comenda
Hugo Amorim
Isabela Volpi
Júlio Lagapasse
Lilian Freitas
Marcela Marques
Maju Cavalcanti
Nathalia Bezerra
Odara Rufino
Priscila Santos
Rodrigo Moreno Almeida
Wander B

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Ary Rosa – Petrópolis, 1988

Raio
Filho da luz que mata,
Amante da escuridão que cria vida,
Servo dos meus sonhos e de quem manipula todos eles.
Sem que eu veja, sem que me veja,
Sem quem deseja estar na minha frente quando eu fecho os olhos.
Quando eu fecho os olhos que me fazem ser quem sou,
Respiro um ar roubado,
Que quase sufoca o despercebido com um vento seco,
Tão despercebido que esqueceu de si.
Sabe aquele olhar para um ponto fixo, sem pensar nem ver o que foca?
Então, me diz o que é o destino.

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Ary Rosa

Ciclo maldito
Saiba o que dizer e receba o que quer sentir,
Saiba o que ouvir e viva o que quer sentir.
A sombra refresca e causa temor,
A água refresca e afoga,
O vento refresca e derruba a casa.
Sinta o frescor da morte pelo excesso,
A dor de ser completo
Trasbordando de agonia por ter tudo e ainda querer mais.
Gargalhadas com cheiro de sangue entopem o cômodo,
Meu cérebro é um patê,
Efeito de sua sede de sal.
Ciclo maldito.

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Ariane Souza – Bauru, 1997

Sabe aqueles instantes?
Quando o chinelo arrebenta no meio e não dá pra colar.
Como andadas apressadas na rua que nos levam ao chão.
Como beijos soprados em band-aids sangrentos que cobrem joelhos ralados.
Como cortar uma fruta e o cabo da faca cair.
Como bocas apressadas em que os dentes se esbarram.
O barulho da tampa fechando o caixão.

Os longos amores, como chocolates esquecidos e amassados no fundo da bolsa.
Os ocultos amores, balançando como roupas manchadas secando no varal.
Os insignificantes acertos sucedidos de erros,
as horas incertas dos minutos passados.

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Ariane Souza

Tomo nota do acontecimento pra atravessar o atropelo [haverá coincidência?]
Cavar travessia pra tomar outro trajeto [em qual futuro?]
tome passe, toma rumo, 
tome a prece que apressada 
te devolve outro passe que
te entorna outro rumo que
te devolve pra hora do parto, 
que desemboca no sempre acontecimento 
de tomar notas do atropelo que atravessou [quem?]

Parto pra sempre voltar 
Fico pra sempre poder par(t)ir

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Bárbara Rosa – São Paulo, 1990

Extensões
E ao olhar o abismo de minha existência
Vi
Como é dolorosa e prazerosa
A vivência de nossa própria essência
E banir seria como o suicídio
Um corpo
Um corpo só

Que vaga
Lento e penso
Não suportando o próprio peso
Pois nem só de “Happy End” se vive
Vive, e aos poucos vai morrendo
Pra renascer
Mas antes, morrer
Morrer de tanta vida
Tanta vida dissolver
Feitos, fetos, elos, solidão
Desaguar em si
Transbordar
Feita de começo e de fim
Extensões de mim
Minha carne no limite
Minha alma, infinito
Cantos, partes, pássaros
Ecoam

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Cláucio André – São Paulo, 1984

AO MAR SEM ARTIGOS

Anos primários de noves
Vários colégios em dez
Faculdades, cursos, livros
Pra, de repente, burro.

Nos anos noves, pios, gaguejos
Tropeços, secretos
Ensaios ao espelho e…
— Abafa o caso.

Eu aprendia na Física:
doiscorposnãocupamesmolugarnespaço
Eu via na Matemática:
umedois, três, tresequatro, sete
Decorando, aprendendo, memorando: o melhor.

Nos anos dez, cacarejos
Tropeços, discretos
Ensaios ao espelho e…
— Por acaso.

Complexologia
Sexomaria
Espunhegasmia
Vestibulimia
Amoroscopia

E de laivos laivos,
Crescendo, crescendo
Do verde, amarelo, mas…
— Vermelho!
Meu bem, treme trem, hum
treme treme, vai, treme treme, vem.
Mas a gente se vira, e aprende
Amorece, simplifica, ouve o pulso
A gente é tudo
Ou ‘paixonada

No caso que entrei só de olho
Nem todo lido, lida

Ninguém explica.
Ninguém exemplifica, teorifica, palpita ou imita
Esse caso d’eu com’ela é caso de psico
Pata, ólogo, circus
Que não sei dizer

Burro, eu, burro!

Como pode um homão desse
Careta, metido, metódico
Cair sem saber, sem querer, sem zistir
Sansiedade, firmação
Ela é bom demais!

Umeum, vários:
— Ai, minha santa Aritmética!
Dois corpos, um lugar:
— Ai, painho fisiquês!
Nota vermelha? Da hora!
A essência tem cheiro e só.

Pego uma canoa
Não levo mais artigos
Vem cá, linda, vem ao mar
Também sem esse artigo

O hálito bom quanto o lábio
A carícia quanto ao aperto
Desdos nus cambelos tãobem é penetração

Sem acrobacia
Sem contação
Uma cortina, um lençol
O saldo final:
Dez jarras d’água

É aprender tudo de novo
Sem a ânsia do gozo — já se goza
Sem por afirmação — já se é

E noutro dia
Tudo de novo
Aquela rosa
Já é

Anos primários de noves
Vários colégios em dez
Faculdades, cursos, livros
Pra, de repente, urro.
Com diploma

De um lado, lodo
De um ledo lido
Bão é ser tão desaprendido

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Cláucio André

A PELE DA LOTAÇÃO

Óia a cara desses tantos
Desse tosco elefante
Quantos riem nessa lota?
Teve passo pouco em antes?

Pá Pô Pôu explodiriam
Caso em pé pisassem forte
Chove, chove, chova sua
Lagriminha de sovaco
Cheira funga, noje lambe
Tenta a mão na bunda rêga

Velhos coxos se erguendo
Pra velhota teta mole
E no entanto ronca aberto
A jovinha preguiçosa
Seu roncado de peidona
Cava na maledicência
Cava na velhacaria
Cava cava moralenta

Ginástica bamboleia
No rebolo do pneu
Som no ouvido, de cabresto
Ponto meu de pisa-pisa
Pansacola, mochileiro
Leva boia de boiada
Se prometem melhoria
Vem aumento na catraca

Põe de meia em meia hora
O milhão itinerante
Soca mesmo, soca forte
Vai fodendo povo-dia
Uns vão rindo, ou chiando
Terno caga, terno anda

Tem aqui motô bandido
Tem aqui motor fundido
Tem aqui de pouco aviso
Mas vou indo integra e são

Os mandantes deveriam
É lamber mão de batente
Das suadas e encardidas
E depois dum dia quente

E se chove, é fazenda
Cheira porco cão cavalo
Feromônios azedados
Nos perfumes barateiros
E se chove, vem cheirume
Decantando e escorre e sobe
Corroendo as narinas
E com cremes sem pudor

O lá fora some em bafo
Da janela Jhonso e djonça
É salsicha, queijo branco
Desengraça essa pança
Vem freguesa, fungue o quadro
E aproveite, tem peidinho
Emanando pelo rabo
Disfarçando o risinho
Tome às quatro com mormaço
Num calor do bem intenso:
No busão de volta à casa
O Cortiço vira incenso

Mais fedido é o tosco carro
De um uno imperativo
Que esfumaça os mano e véia
Desse quanto descasivo

Tô esperando há meia hora
O transporte coletivo

(Fevereiro de 2010)

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Diane Portella – Salvador, 1986

25m² de luz artificial
25m² de falta de comunicação
25m² de não-possibilidade de se alimentar de outra coisa além de si mesma
E se comia.

Não tendo com quem conversar,
dormiu no domingo e acordou terça.
Ao despertar, se deitou no chão a fim de saber a medida da sua solidão.

Nascia então uma unidade de medida própria:
Duas Marias e uma perna por três Mariás e uma cabeça media a solidão.

Se chama Maria Mariá e mede 1,50 (in)exatos.

(sabia que algum momento essa altura lhe brindaria algum sentido…)

[m² metros quadrados. maria enquadrada. mariá encerrada.]


Eram aproximadamente
25m² de luz artificial
25m² de falta de comunicação
25m² de não-possibilidade de se alimentar de outra coisa além de si mesma
E se comia.

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Elenice Zerneri – Campinas 1989

[Muda]
O nome todo mundo não sabia
A profissão, vendedora
De muita coisa que não comprava
Parte que não precisava
Parte (a mesma),
Que não podia

A função, essa
O desejo, outro
De ficar olhando o sol quando se punha
De deitar a muda na terra e molhar todo dia
Duvidando que crescia

O motivo, crônico
O segundo, talento
A sorte, retalhada
O pai, desconhecido
Mas o gato, Napoleão
A casa, pra lá do cemitério
O fundilho da calça, desacostumado
O espírito, restaurado
Todo domingo de manhã
Mas pra rasgar melhor à tarde

A dívida magna
O holerite magro
O marido morto
A cabeça calva
O coração coxo
A úlcera gasta
A paciência parca
A coragem muita
A novidade, o grito

A promoção cancelada
A demissão certa
O mês inteiro desviado
Tanto que já nem falava
Tanto que já ninguém ouvia
A muda que mesmo muda não mudava

A morte, súbita
A vida muda,
muda,
muda.

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Elenice Zerneri

[Era o fim do mundo]
Na tarde de ontem
Começou o fim do mundo
Parecia assim que era só vento, chuva
Um ou outro vulcão chorando lava num ou noutro canto
Mas era, de fato, o fim do mundo
Foi um desses vulcões quem primeiro se deu conta
(o vulcão que desejava ser mar)
Percebeu que, diferente das outras
Dessa vez não virou pedra
A princípio ficou entusiasmado com a ideia de ser mar
Mas quando percebeu que continuava escorrendo,
(não sozinho)
Que levava consigo todas as coisas duras do mundo
Quando percebeu que só não virava pedra porque
Tudo o que era contorno vinha abaixo como mancha
Resolveu avisar os monumentos feitos pela humanidade
Todos eles gritando agora por socorro
A Muralha da China com as costas queimando
(ardendo em febre)
A Torre Eiffel na ponta dos pés, como se pisasse em brasa
(pisando em brasa)
Pisa pendendo para um dos lados, tentando ver melhor
A Biblioteca Nacional de alguma nação virando cinza

O Edifício Itália avisou uma capivara
(antes de mergulhar em vermelho)
Que comia grama velha na beira de um lago
Que avisou um girino
Que nadou para avisar um casal de peixes papagaio
(mas morreu do coração antes)
O casal de peixes papagaio, iludido pelo nome
Queria, desde sempre, ser pássaro
E conversava
(sem saber que sob a sombra do fim do mundo)
Sobre Deus
Loucura
E sobre os anos vindouros.

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Felipe Reis – São Paulo, 1990

Relato sobre o belo nº 1

Porque há beleza
Na transfiguração de um rosto,
Na degradação de um corpo-lírio.
Na solidão que se choca com outra,
Animais abatidos.
E o teu sono florido
No meu sonho maldito
É incendiado pela volúpia
De te assimilar a mim
Como um pássaro que pousasse
Na ferida da terra
Que minhas mãos abriram.


Relato sobre o belo nº 2

Epifânica beleza, sangram nas pedras
Os joelhos dos desatinados, frágeis homens
Bêbados adolescentes rasgando o peito
Nas tuas farpas escondidas, Pedros e Antônios
Contorcidos no escuro do quarto choram
O irremediável da tua constatação, choram
Pelas imagens que lhes vêm à cabeça:
Violetas fenecidas, quando vivas, muito belas,
Mas doídas, porque hão de morrer, um dia.

Era assim mesmo que via as coisas:
Quanto mais movimento tinham, mais espanto
Me causavam, talvez porque tudo termine
Num mar de silêncio e quietude, um funeral marítimo
Onde afundaremos nossos sorrisos, nossas palavras
Mesmo as mais transcendentais, onde afogaremos
Nossas eternidades, e o que adianta isso de estar
Na cama com você e tocar os seus ossos e te abraçar,
Se nos seus olhos é esse mar que eu vejo
Um mar de águas mortas, um mar sem balanço,
A alma do mar desvanecida.

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Fernanda Comenda – Marília, 1996

Ofício



(usava um anel no anelar que,

àquelas circunstâncias,

desvestia)



sabia sovar a massa

polvilhar a farinha sobre a pedra

sabia produzir a saliva

aproximar-se



esticar com a parte da mão

entre a palma e o punho



vê-la contrair compassivamente



trazer para perto a parte distante

amansá-la

provar do sal

– a massa na boca,

o mapa leve com a ponta da língua:



morna

ritmada



senti-la contrair compassivamente



tatear lento o que restou da farinha sobre o mármore

lamber os dedos

descansar o corpo

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Fernanda Comenda

Microfonia



seu nome

declamado

um ouriço enfiado

na sola do meu pé



minha sola enfiada

no seu nome

um ouriço declamado

na mesa do café



seu pé

decantado sobre a mesa

meu nome

enfiado num ouriço

isolado

num soluço

– o café –

esparramado



meu soluço num ouriço

nomeado

enfiado numa fome

a mesa no seu pé



sua sola

enfiada no meu nome

um soluço sobre a mesa

a fome um café



o soluço

o ouriço

seu nome derramado

um café

uma mesa

a fome nomeada

uma sola

sua sola

numa fome

enfiada

no meu nome.

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Hugo Amorim – Brasília, 1982

Prêt-à-Porter

O que se veste hoje, o amanhã abate
Abotoa a duras penas a indústria da foda
Pesponta o peitilho kitsch do alfaiate
Alinhavar romance… fora de moda.

Finda no vigor do olhar a missão de um dia:
Os ponteios de linha amiúde cerzem uma fenda,
Arremata e colcheia a camisa vazia
que será casa de abotoar a fazenda.

Na função, a linha se esparrama.
Agulha que vem cá é a mesma que se ia.
Por subir e por descer na trama,
trama o traço ao passo que o retrós se esvazia.

Ironia então se tece:
Corta a pence a emendar
Na costura que acontece.

O que está por ir, volta já em um momento
No dançado cortante da agulha
Igual rasga a pele e deposita pigmento
Ou coser sangria do corpo que debulha.

De deitar tinta na pele dentro,
A agulha une.
De sutura uma ferida à outra,
A agulha une.
De casar chita e morim
A agulha une…

De tanto unido,
Que um dedal de ferro atrasa,
um botão que era perdido
acabou de ganhar casa.

Para o além

De furo em furo,
O futuro.

(pro cara que amo)
Nessa coleção!

(primavera-verão – 19)

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Isabela Volpi – Rio Preto, 1999

Eu não quero saber do que os outros sabem

Não quero saber dos que os outros sabem.
Me fale das suas manchas de nascença.
Das marcas que ficaram depois de ter espremido uma espinha.
E das marcas no coração também, depois de uma briga com alguém da família.
Me fale dos seus traumas de infância, das falas do passado que só você lembra.
Me fala o nome do seu cachorro.
O jeito que você dorme.
Suas manias.
Conta da situação na padaria, do seu sonho de aparecer na TV.
Do ataque de riso que você teve com sua família, e que aquele momento parou por segundos na sua cabeça, e você só via seus rostos lindos sorrindo e nada mais parecia ruim.
Me fala do cheiro do seu pai, da sua mãe.
Das brincadeiras que você e sua irmã adoravam brincar.
Daquele docinho que sua avó fazia quando era criança.
Me conta do que tenho medo de ser, de perder.
Me conta das cirurgias que já fez, dos sonhos que quer realizar.
Me fala quem te magoou e como você passou por cima disso.
Me fala o que procura numa pessoa, o que quer de alguém.
O que quer do mundo.
Eu quero saber tudo o que os outros não sabem.

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Julio Lagapasse – Brasília, 1985

Oblívio I

por dentro dos olhos
não sei mais o que vejo
uma fogueira alucinante de futuro
é o oblívio
é o lancinante destino do esquecimento.
agora posso ver:
minha imagem sendo esquecida
em um alvo quarto,
acompanhada de cortinas estampadas.
ser esquecido, mudo, entre um par
de cortinas assimétricas. ***

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Julio Lagapassse

(Sem título)

me deu flores,
fome e força para pisar sozinho sobre o chão
em um nunca térreo
e assim se foi,
indo e indo e indo
quantas vírgulas vou ter
que escrever para você
me sentir respirando?
que haja flores,
para todos
nós até que o dia acabe

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Lilian Freitas – São Paulo, 1981

À Lisboeta

Caminho por ruas que me parecem familiares,
Subo suas ladeiras como se fossem as nossas,
Olho para as mesmas paisagens daqui,
Uma sensação de estar em casa,
e ao mesmo tempo, não reconhecê-la.

Me perco entre suas vielas,
Coloridas, reluzentes e mágicas
Assim como as antigas casas
Onde viveram alguns dos meus escritores favoritos.

Sento-me na margem do rio e fico ali a contemplá-lo.
Esse mesmo rio, largo e imponente,
que há mais de quinhentos anos
deu asas às ambições portuguesas
de navegar por mares desconhecidos.

Ao contrário do que diz a história,
não foi Cabral quem nos descobriu,
pois lá já estávamos desnudos e descobertos em nossas terras.

De qualquer forma,
os laços que uniram essas duas histórias
podem ter se afrouxado,
mas ainda podem ser percebidos
Em nosso idioma, em nossos sobrenomes,
e principalmente nessas mesmas ladeiras
construídas dos dois lados do Atlântico.

Hoje, faço o caminho contrário daqueles
que um dia navegaram em busca das índias,
mas que acabaram encontrando o Brasil.
Hoje, sou eu que saio para me encontrar com Portugal.

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Marcela Marques – Cambuí, 2001

Hipócritas

Somos todos feitos de aparências,
Vivemos uma vida repleta de exigências
Num mundo onde prevalece a violência
Mas de que vale sua experiência
Perante sua falta de paciência?
De que vale toda sua inteligência
Perante essa falta de persistência?

Somos feitos de arrogância,
Vivemos uma vida repleta de desconfiança
Num mundo que julga pelo peso da balança
Mas de que vale toda sua confiança
Perante sua falta de esperança?
De que vale toda sua ganância
Perante essa ignorância?

Somos feitos de maus momentos,
Vivemos uma vida repleta de ressentimentos
Num mundo onde, danem-se seus pensamentos
Mas de que vale seus bons comportamentos
Perante todos esses julgamentos?
De que vale todos estes argumentos
Perante essa falta de comprometimento?

Somos feitos de rancor,
Vivemos uma vida repleta de dor
Num mundo que mais parece um show de horror
Mas de que vale todo esse esplendor
Perante seu espírito consumidor?
De que vale todo esse clamor
Perante essa sua falta de amor?

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Maju Cavalcanti – Recife, 1993

Corpo a vir

Meu corpo ecoa, cintila, ressoa
é uma soma de agoras urgentes
um vislumbramento de horizontes
profanação
metais
ruídos consumindo a pele
me abrindo sem bater na porta
percorrendo poros adentro
água escorrendo, atravessando
entre ventos libidinosos
e urgências tempestuosas
bicho selvagem à solta
sal, saliva
árvore dona de frutas suculentas e sem pele
enquanto eu rio navegada
nadando com minhas patas
sugada ao núcleo da alma de tudo
me equilibrando no horizonte
afetada pela linha que puxa para baixo
para o núcleo
imã que me devora de tanta fome
enquanto cada célula minha dança
babando seivas
fertilizando o próprio devir a vir

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Maju Cavalcanti

Visitando minha casa
portas trancadas abrem caminhos para dentro de casa
fui forçada a me visitar diariamente
por onde tenho andado pela casa?
em quais cômodos já não caibo?
onde coloquei meus sapatos?
para que servem sapatos quando se anda por dentro de casa?
quanto espaço cabe entre as minhas paredes?
quais delas quero derrubar?
onde estão as minhas janelas?
por que olho tanto para a casa do vizinho?
tenho enxergado o meu vizinho?
quanto de mim guardo embaixo do tapete?
piso descalça no meu chão
me sinto empoeirada
a casa está repleta das minhas partes mortas
percebi que todo dia é
dia de faxina

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Nathália Bezerra – Maceió, 1997

da fúria da força do rompimento ao

perder-se

[eu escrevo sobre meu corpo porque

não há outra coisa a ser escrita:

mas quando esse escrito escreve também em outras superfícies na pele na garganta no que machuca teu esôfago? o que passa pela tua pele,

                                    que se desfaz e vira nó ou tentativa ou tropeço ou despedida]

desgarrar-se do corpo mas é do mesmo corpo que faz terra

            agarrar-se ao corpo que é o mesmo corpo que faz perda

                        aninhar-se no corpo que não é mais o mesmo corpo

eu escrevo sobre meu corpo porque

é indecifrável:

não tem como escrever

sobre o que palavra não toca? destoca e destoa e desperdiça e desafoga e desalenta e desespera e desatina e despedaça

mas talvez o não-toque não seja

escrever, desescrever, inscrever, desinscrever:

fazer o movimento inverso de [torcer] essa palavra outra que não se sustenta 

e se não sustenta – desaba pelo mesmo alagamento que deságua quando escorrem e correm as palavras pelo corpo como quem lava as letras ao banho

como quem as deixa de molho, fervidas, trêmulas, pálidas, afogadas, mortas, inexistentes, em pétalas

eu vi as palavras deixando de existir ao chão do banheiro naquele dia quando

fecharam-se as portas do mundo por um risco invisível de morte:

[o impossível de respirar sem o nariz e a boca tampada]

lembro de ter escrito mais de uma vez que eu escrevo pra descolar os pulmões unsdosoutros e pra descolar alguma coisa que não passa, não passa

que não passa pela atmosfera de oxigênio mas não fica nela

que não passa,

mas não fica e não sustenta o corpo

onde tem estado teu desespero?

[penso que meu desespero

tenta ser escrito o tempo todo

e eu escrevo

porque não dá pra escrever sobre isso:

e eu fico arrodeando, contornando. passando por entre as frestas

disso que não dá pra ser escrito]

eu só escrevo quando sento pra não escrever porque se for pra tá escrito,

me perde o fôlego

mesaemaspalavrastodasjuntasporque

não tem espaço entre as palavras que sustente um corpo que arde

minha escrita é como minha pele se queimando e se rasgando várias

e repetidas vezes.

o que cabe no espaço de quem escreve como quem respira / para que os pulmões não se grudem / porque respirar virou-se quase um sacrificio proibido:

o medo corrói as escamas

eu não sei mais meu nome

e eu escrevo pelas frestas

porque só da pra escrever

pelos sussurros ou pelos gritos

eu precisei escrever como quem vomita as próprias vísceras porque não cabia em mim e eu quis colocar em algum lugar e guardar na gaveta o que não cabe no meu coração acaba enchendo meus dois pulmões de ar e eu não tenho solução e nem saída que não seja jogar o peito aberto na encosta e torcer pra que a água saia pela boca

meus pulmões estão cheio de poemas que não escrevi e eu guardo eles lá dentro porque escrevo pra respirar e quando um pulmão resfolegas o outro abre o diafragma e lá dentro corroem borboletas e larvas que me ardem por dentro e eu acabo sendo toda essa confusão de animais e palavras que se encostam nas minhas entranhas

não me diga mais nada:

eu não escrevo pra dizer coisa alguma//

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Nathália Bezerra

me vi sem caber em um espaço: tantas e tantas vezes

como se tivesse nascido com pressa e que toda essa força com que o mundo me trouxe puxasse pra um lado de onde a espera me suprimia por cinquenta e seis dias seguidos

me vi sem caber em coisa alguma

saltei até sangrar os pulmões todos com suas peles se tocando a respiração pausava nas semanas poucas de vida não me cabia as coisas me ultrapassavam o mundo era grande demais e eu nasci miúda, nasci miúda pra renascer maior que o corpo?

eu não pude aguentar até os nove

já não era nada do que tu esperava as mãos todas

sujas de sangue por não ser ou por ser coisa alguma do que se espera

eu tinha pressa de mundo

ou tinha vontade de gritar do lado de fora de um útero?

incubada:

como uma caixa de plástico transparente tentando respirar tentando nascer [de novo] tentando ser coisa alguma a que não se desespere já não sou o que tu espera.

[o que me repete são as coisas que me impelem o ar pelos pulmões que nasceram quase colados um ao outro]

não esperei até os nove

não queria esperar por tanta coisa

não queria desesperar por coisa alguma

escrevo pela tentativa

de caber na semântica:

a linguagem me escapa

e eu não aguentei esperar caber nela

[respiro como quem cata as palavras de dentro do pulmão e as joga pra fora]

escrevo

como quem nasce

de novo:

cada palavra não me veste pela tentativa de despir as minhas vulnerabilidades todas elas esmiuçadas miudas e desencontradas quase sem respirar e sem espaço de caber em dicionário

escrevo como

um quase-não-morrer

que é pra dar tempo

dos meses seguidos

virarem nove

e nove nove nove nove

repetidas vezes

meu cordão ~umbilical~quesemistura com as fendas dos lugares que tentei caber tentei caber em relações que me cortavam os pés e os sapatos tentei tentei caber um círculo todo de coisas que se repetem meu canal com o mundo que se mistura com as cicatrizes que marcam meu corpo meu corpo marcado que se desalinha que se desprende e prende no mundo de novo

meu corpo grita

pra ultrapassar a borda

e de tanto correr

se fez inaudível

  • recontei meu nascimento com metáforas e descabi na minha própria forma de nascer, morrer e de vir ao mundo. quase morrer, eu acho.

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Odara Rufino – Boa Vista, 1996

Compilado lapidado

estou em frente ao poço
pego meu poema-moeda
que me resta no bolso
penso no melhor
dos meus pedidos
vejo vários desejos
submergidos
brilhando
esperando serem atendidos
imagino cada poema na água
desejando ponto final
em sua mágoa
imagino cada rima
tomando um rumo
que ela mesma determina
imagino o que cada um pediu
imagino a moeda que caiu
seguindo o percurso da gravidade
desejando um prato de comida
uma cama para dormir, um acalento
desejando longevidade
um mundo menos violento
uma vida mais justa
sem desigualdade
me custa
pensar apenas no que eu quero
paro, penso, espero
me retomo aos poucos
meu desejo
é um compilado
lapidado
dos desejos dos outros
lanço e sinto
o respingo
lanço meu poema-moeda
no fundo do poço
desejando que todos
alcancem o topo

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Odara Rufino

Ponto-Socorro

tenho um sério poema psicológico
estou tomando choro fisiológico
recorro
ao Ponto-Socorro
me aplicam sinestesia
para aliviar a dor
do meu coração
louco de amor
tenho um sério poema mental
estou passando
por uma frase difícil
uma crase existencial

Odara Rufino
para Pedro Salomão

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Odara Rufino

A gente tem dessas

A gente tem dessas
de remendar falsas premissas
de quebrar boas promessas
de procrastinar o agora
de programar o depois
de gozar antes da hora
de pensar que 1+1 é igual a 2
de somar com quem some
de depreciar quem tem apreço
de cuspir no prato que come
de confundir valor com preço

A gente tem dessas
de estar no lado certo
mas achar que está às avessas
de na estrada da vida
dirigir sempre na contramão
de entrar pela porta da saída
de trocar o sim pelo não
de se perder dentro de casa
e se achar pelo mundo
de se afogar em água rasa
e flutuar no fundo

A gente tem dessas
de fazer a faxina da alma
às pressas
de varrer a sujeira
para debaixo do tapete
de empurrar a cera
com cotonete
de passar a vassoura no chão
sem passar espanador no teto
de querer arrumar o coração
sem ter que arrumar o resto

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Priscila Santos – Sorocaba, 1982

M’água
A nota líquida
encontra a água-vidro
ressoa…
Estilhaça a imensidão,
apelos escorrem
clamorosamente.
O vão da janela:
abrigo seguro para se perder

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Priscila Santos

A língua
A língua dentro da boca dormia
não se movia…
seus olhos papilentos
somente para o céu da boca olhavam.
Quando os olhos e as mãos
a convidaram para dançar,
sonolenta, entorpecida e voluntariosa
a língua disse:
– Imobilidade! – agiu como em hora
que nos falta palavra crucial.
– Ah! Músculo úmido lambente,
você não é coração
que involuntariamente se faz ouvir,
és subalterna ao desejo meu!
O trabalho incansável tem início
quando olhos e mãos
encontram no corpo do anjo
estendido na cama
o caminho que conduz a um céu
infinitamente maior do que o existente
no universo onde habita a língua.
Então, nos prazeres líquidos e múltiplos
a língua experimenta o frenesi e o espasmo
o gemido e o suspiro
a dilatação da carne… contração!
E a língua jura ser escrava eterna,
aninha-se na boca
e recordando o gosto do céu
em que ainda agora esteve
palpita silenciosa como palavra-coração.

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Rodrigo Almeida – Paranaguá, 1982

O ANALFABETO  
difícil de se espremer porque um pomo verde
mas se por fora é duro maduro por dentro
se dentro, segredo
se exposto, garrancho
mas o que tem de implícito, tem de vísceras
e o que tem de denúncia, rabisca com urgência

mas não, antes sumo do sonho espremido
e se espremido, elegantemente disforme
como um espelho irreflexo, ilegível por fora
fábula por dentro: na epifania insuspeita
o analfabeto desenha o seu nome

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Wander B. – Barra Bonita, 1982

MANTRA PARA ADESIVAR TODOS OS CARROS



Sovar pão. Bater panela.


Sovar pão e bater panela são atividades
tratadas como terapia sobretudo diante de momentos difíceis.


Acordou de mau humor: momento difícil.
: sovar pão e bater panela.
Escorregou no chão molhado e torceu o pé: momento difícil.
: sovar pão e bater panela.
Choveu e não deu pra ir não sei onde. Já sabe.
Fez sol demais e não deu pra ir não sei onde. Evidente!
: sovar pão e bater panela!


Um terremoto.
Um tsunami.
Uma ogiva nuclear.
Um vírus incurável.
Um homem-bomba.
Um golpe de estado.
Um avião que cai no mar com superintendentes do IBAMA.


A terceira guerra mundial!


Tudo se transforma!  Basta sovar pão e bater panela.


Terapia! Mas não tão somente: ação política incomensurável.
Certa forma de se fazer,
de existir,
de afirmar a subjetividade,
de dar sentido à existência
: sovar pão e bater panela!


Potencial revolucionário.
Aparato ideológico.
Filosofia de vida.
Canalização de energia.


: sovar pão e bater panela! 


Propostas para um mundo melhor
: sovar pão e bater panela.


Tese, antítese e síntese
: sovar pão e bater panela.


Invasão alienígena.
Pelo encravado na virilha.
Propaganda subliminar.
Previsões de Nostradamus e data-limite de Chico Xavier.
Incas, Maias e Astecas.
Revolução francesa.
Insurgência mineira.
A morte de Deus.
O retorno de Deus.
A metafísica aristotélica.
A física quântica.
O bóson de Higgs.
A teoria das cordas.
O canto dos pássaros em extinção.
A extradição de um proxeneta do leste europeu.
O cílio que cai no olho.


Respira!


Sovar pão e bater panela! 


Dor na lombar por não ter costume de sovar pão e bater panela por tantas horas?


Sovar pão e bater panela,
cada vez mais até o corpo se adequar totalmente.


Sovar pão e bater panela: sugestão de nomes para a próxima geração.
Sovar pão e bater panela: mantra pra adesivar todos os carros.
Sovar pão e bater panela: epitáfio coletivo para a unificação de todos os povos!

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Suyan de Melo – Araranguá, 1979

UM PAR DE PEITOS

Um par de peitos que têm vida própria.
Um par de peitos que já foram peitinhos.
Um par de peitos cheio de prazer em conhecer.
Um par de peitos cujo leite empedrou tão cedo.
Um par de peitos com título nome sobrenome e uma coleção de vulgos.
Um par de peitos que odiava ser chamado de par de limõezinhos e pesseguinhos.
Um par de peitos que não encontra nem com dificuldade uma lingerie do seu tamanho.
Um par de peitos que sente lê escreve ama chora e ri e ressente até perder a força.
Um par de peitos que se ilumina mesmo com a luz morta que são as estrelas.
Um par de peitos cujo leite foi trocado por uma lata clandestina de NAN, antes de empedrar.
Um par de peitos que entorta uma coluna vertebral inteira.
Um par de peitos com histórico de cobiça descarada.
Um par de peitos que estriaram pouco depois de estrear.
Um par de peitos que talvez um dia já tenha sido um par de peitos.
Um par de peitos que explodiria vergonhoso se vestisse transparências.
Um par de peitos que é muito maior do que é.
Um par de peitos que não existe.
Um par de peitos no cantinho do pensamento.
Um par de peitos na mesa de cirurgia.
Um par de peitos segurados com as duas mãos no polichinelo.
Um par de peitos que não lembra de quando virou um par de peitões.
Um par de peitos ultralibertário com manias de fantasma.
Um par de peitos que custaria caro fazer caber no espaço aconselhado a um par de peitos.
Um par de peitos que se ama absurdamente espelhado.
Um par de peitos que impede à portadora enxergar seu corpo de cima para baixo.
Um par de peitos na altura dos olhos do doutor.
Um par de peitos especialista em sonhos e suspiros.
Um par de peitos que têm fé em morrer juntos, cúmplices até o fim.
Um par de peitos que tem taquicardia quando ultrapassa dois cafés no dia.
Um par de peitos que termina os verões com uma sobreposição impossível de marcas do sol.
Um par de peitos que desperdiçavam leite a dois metros de distância, no box.
Um par de peitos anônimo passeando suspeito, no parapeito.
Um par de peitos doídos dormindo de lado com um travesseiro fino no meio, uma semana por mês.
Um par de peitos levemente especialista em bruxarias orgânicas.
Um par de peitos que petrifica até os olhos na hora da consulta.
Um par de peitos que escuta um beijo uma carta uma história – e paralisa o relógio.
Um par de peitos que acredita compreender qualquer tamanho de peitos.
Um par de peitos determinado a amar inclusive sua última estria – até o fim do seu fim.
Um par de peitos que embala a humanidade no colo, desde antes do sempre.
Um par de peitos cuja respiração tem a idade desse mundo.
Um par de peitos duma esperança tão incorrigível, que nem a vida como ela é consegue mudar.
Um par de peitos em que ninguém, nem o doutor que viu tão de perto, acreditaria.

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Posfácio:

Por Lia Petrelli.

Um ano de isolamento depois, resolvemos renovar as forças com a única coisa que parece continuar a mover: poesia.

Na contramão do descaso de “governantes” mimadinhos, que resolveram por unanimidade trocar sentido de “povo” por “cabo de guerra” para excluir a vida em prol do voto, juntamos aqui 19 poetas do imenso Brasil.

Dessa seleção me fincam as palavras que, mesmo lidas em silêncio, soltam sons adoidado.
A brincadeira com a escuta, mesmo que não se ouça o tom, por si só já faz costura.

Desta vez resolvemos expandir essa chamada para que não só pela zona sul desse país ressoem as vozes que para além de falarem a sós, também falam à multidão. Sonoridade atinge o tímpano a todo o tempo, timidamente se movem labirinto e boca, capturando imagens rimadas – porque junto da coisa sonora, vêm paisagens bem traçadas.

É o que espera o ônibus, a que observa a solidão pela fresta de luz, o que procura o destino no poço fundo, os que percebem o ciclo maldito do cotidiano insignificante que brota e pinga gota-palavra. As extensões dum abismo vida muda perspectiva, se cê enxergar bem de pertinho a quantidade de significado que cabe numa única palavra e repete, e repete, e repete, até entrar no mar doído, arrebentando algumas feridas num novo tento de olhar.

Mais do que alento, esse emaranhado de poeta traz um suspiro feito sobre mármore nos infindos dias – mesmo que escritos antes de uma pandemia – talvez para mostrar que quase sempre a vida é quieta, só de olhar dá p’ra sambar, entrar, desconcertar, amarrar cada lencinho e partir para dentro-fora-lado-outro.

O mais gostoso dessa brincadeira palavrada é perceber que a consonância se faz só, como se cada escritor estivesse no mesmo espaço – mental – e por serem assim, abraçam a unidade distante, mesmo sem se conhecerem, de verdade.

Qual o instinto da sobrevivência?

A fome de vestir poema, de comer o tédio, de tirar água de pedra em linha esparramada pelos ouriços respingados debaixo da pele e cortar o sentido do escrever para algo ou por algo: escrever pra ver-ouvir onde quer que chegue a poesia, sozinha, assim mesmo, lançada ao não saber e nem querer saber de fato porque se escreve: se escreve porque é preciso – e se lembre de brincar com significados – e por não caber mais em nenhum corpo composto por palavras, tanto que acaba vomitado em linhas, sons, cheiros, cores talvez desconhecidas, mas, de tanto vistas se tornam velhas amigas.

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