,Impressões e Experimentos: Tipo Xilo

Por Guilherme Paes.

Revisão: Aline Machado.

Matrizes da Tipo Xilo
Matrizes da Tipo Xilo

No primeiro contato que tive com os trabalhos da Tipo Xilo, fiquei intrigado por suas composições tipográficas e visuais, se apresentando a mim como um projeto versátil esteticamente, e que de certa forma busca a algo que me fascina: a exploração da linguagem visual.

Muitas das vezes esse atributo no design ou na produção gráfica fica escondido em segundo plano, atrás de outros fatores que compõem projetos e peças. Ao olhar já de primeira instância o vasto número de cartazes e os alfabetos criados na Tipo Xilo, podemos ver que a linguagem aqui é o que fica em primeiro plano. O jogo tipográfico e compositivo permeia uma das melhores práticas que se pode ter ao se projetar, o experimento.

O contato físico, manual e do processo são visíveis graficamente nos trabalhos. Todo o cuidado da observação e da experimentação se refletem no alto teor estético que a tipografia exprime, os cartazes e as imagens da Tipo Xilo são um convite a se pensar sobre a riqueza visual que o design às vezes guarda para si mesmo.

Detalhe das matrizes
Detalhe das matrizes

GP: Como você começou no design / artes, qual a sua formação?

Tiago: Primeiramente, gostaria de agradecer pelo convite, eu acompanho a página e é muito bacana o conteúdo, e fiquei super feliz de receber o convite de vocês.

Na verdade, a minha formação é em comunicação social (publicidade e propaganda), e eu entrei na publicidade focando em direção de arte, por sempre gostar de artes / design. Eu me formei e fui trabalhar em estúdios de ilustração e agências. Nesse meio tempo trabalhando em agências, eu sempre desenhei e comecei a procurar um estilo autoral para as minhas ilustrações, foi então que entrei de cabeça na xilogravura fazendo pesquisas mais aprofundadas e fazendo uma relação desse trabalho com a vivência dos meus pais que são nordestinos. No início eu só simulava o traço da xilo, eu ainda não gravava as matrizes à mão, eu desenhava à mão e depois vetorizava para ficar com uma estética da impressão, e aquilo me indagava bastante, porque não era nem de perto o mesmo envolvimento de pegar uma matriz de madeira para fazer a gravação.

Eu lembro que nesse período na agência era bem corrido, eu não tinha muito tempo, e ficava pensando que tinha que gravar as minhas matrizes e como se daria todo esse processo. Aí eu peguei umas férias da agência para entender e estudar a xilogravura. Procurando aqui em São Paulo, eu encontrei o atelier “Piratininga”, que é um ateliê coletivo tradicional e especializado em gravura. Iniciei um curso de xilogravura e linguagens gráficas com o Bruno Oliveira, que foi meu professor na época, e comecei a manusear as ferramentas, entender os tipos de madeiras, impressões, e alinhei isso ao meu gosto por design e artes, sempre puxando para essa relação com o nordeste pela história da minha família.

O encanto pelo Nordeste se deu em uma viagem de carro que fiz com os meus pais em 2008/09, logo quando terminei a faculdade. Nessa viagem pelo sertão da Bahia eu tive contato com os vilarejos e as pessoas da terra natal dos meus pais (Anagé e Limeira – BA). Lembro muito nitidamente que na volta, passando pela cidade de Vitória da Conquista me deparei com um senhor que estava entalhando uma madeira, e aquilo ficou na minha cabeça por ser tão honesto e verdadeiro, porque ele só estava ali esculpindo e não tinha uma relação de trabalho, era somente o processo acontecendo.

GP: Fale sobre o Tipo Xilo. Como se iniciou esse projeto?

Tiago: Cara… Eu sempre gostei muito de tipografia, desde a época da faculdade. Mas o Tipo Xilo aconteceu bem recentemente em 2019 e como eu venho da gravura, especificamente a xilogravura os processos são parecidos, eu comecei a pesquisar muito sobre tipografia em livros, vídeos e cursos. Eu queria muito trabalhar com tipos móveis de madeira e me via muito inspirado por projetos como os da Oficina São Paulo (OTSP) – que são trabalhos incríveis. Garimpando e pesquisando sobre os tipos móveis de madeira, eu vi que era inviável ter essas matrizes, porque eram muito difíceis de encontrar e adquiri-las, foi quando passei a alinhar o domínio que eu tenho da técnica da “xilo” e comecei a produzir meus próprios tipos.

As primeiras letras que gravei foram inspiradas em letras vernaculares muito inspirado pelo projeto “Abridores de letras de Pernambuco” da designer Fátima Finizola e também o projeto “Letras que Flutuam” da designer Fernanda Martins que faz um mapeamento dos abridores de letras de Belém do Pará. Eu produzia os tipos e gravava de forma individual. Eu faço meio que um tipo móvel delas. Não é totalmente um tipo móvel, pois não segue as métricas e os padrões de medidas que o tipo móvel possui, mas no meio do processo fui testando madeiras diferentes e acabei fazendo um alfabeto inteiro. Depois desse alfabeto completo, me veio a ideia de fazer o Tipo Xilo porque eu queria fazer alguns experimentos gráficos em formato de cartazes com isso.

Os cartazes são sobre palavras brasileiras que eu conheço, ouço meu pai falar ou vejo em algum livro de cultura popular brasileira ou música que eu gosto muito; eu escolho essas palavras e utilizo a força gráfica que elas trazem dentro da composição dos cartazes.

Cartaz - Zabumba
Cartaz – Zabumba
Detalhes do cartaz Zabumba
Detalhes do cartaz Zabumba

GP: Como funciona todo o processo dos seus cartazes?

Tiago: Eu estudo uma composição e vou montando letra por letra, imprimindo individualmente cada parte para depois ele sair completo. Por exemplo, se eu for escrever “Sertão”, eu pego todas as letras da palavra e componho na mesa. Vou escolhendo dentro do meu acervo cada letra para ser usada – porque eu tenho vários tipos de cada letra, com pesos, formatos e desenhos diferentes, vou compondo com os tipos soltos e agrupando quais letras eu vejo que ficam melhor visualmente. Depois disso, eu entinto letra por letra e vou vendo como fica cada impressão. Os cartazes são unitários, pois usando esses módulos eu não consigo reproduzir com exatidão uma tiragem, por isso eu assino todos com 1/1 e carimbo. Quem compra adquire uma peça única.

O cartaz “Carimbó”, por exemplo, eu não tenho mais porque ele foi vendido, mas eu posso futuramente reimprimi-lo, só que com outra composição. Então esse lance dos módulos me dá uma versatilidade. O processo é bem intuitivo, então muita coisa sai na hora. Como eu trabalho com muitos formatos de letras diferentes, vou encaixando de acordo com a experimentação que eu tenho do próprio cartaz.

Cartaz - Carimbó
Cartaz – Carimbó

GP: Você produz tipografias específicas para uma ideia ou sempre reaproveita o seu acervo?

Tiago: Eu sempre reaproveito, mas se têm uma palavra que eu quero muito fazer, mas não tenho uma matriz que me agrada dentro daquela composição eu acabo gravando uma matriz pensando nesse projeto em específico. Por exemplo, o “R” que eu tenho ou o “S” não ficam legais dentro daquele projeto, então vou pensando a palavra e construindo a matriz junto.

Em alguns casos utilizo matrizes que eu chamo de “apoio”, são letras mais convencionais e dá para utilizá-las de forma secundária, porque a tensão do design não está voltada para elas. Cada projeto é único e as letras nascem deles.

GP: Qual é o formato dos seus cartazes?

Tiago: Eu faço em A2 e geralmente em papel Pólen 90g/m², porque todo o processo é manual, então até para a pressão eu não uso uma prensa, imprimo com colher de pau. Eu uso isso para tudo, até meus trabalhos mais autorais, porque a fricção é mais controlada e eu consigo fazer com que apareça mais os veios da madeira, então dá para dosar melhor a tinta e a pressão. É uma coisa muito de olhar e sentir, às vezes eu gravo uma matriz já pensando nesses veios de como eles podem aparecer mais ou não.

GP: O estilo tipográfico que você usa tem algum seguimento específico?

Tiago: Ele é bem intuitivo. Para o meu processo de criação nos “tipos”, eu faço primeiro um estudo à mão, muitas das vezes eu vetorizo depois para ter mais exatidão nas formas e depois eu transfiro para a madeira, porque às vezes eu quero uma serifa mais detalhada, então eu prefiro primeiro desenhar a ir direto para o computador, às vezes eu faço já de acordo com a matriz – se eu tenho uma matriz mais alongada, no caso. Todo esse processo deve ocorrer de forma muito planejada, pois preciso que o desenho e a gravação das matrizes estejam espelhadas para saírem de forma correta na impressão.

Tem todo um planejamento nessa experimentação, tanto quando eu vou imprimir os cartazes – eu levo um dia todo para imprimir -, geralmente faço três de palavras diferentes, por isso no dia anterior já deixo toda a bancada arrumada com as tintas, a área do papel (mão suja e mão limpa). Eu gosto dessa organização, limpeza e principalmente respeito com os materiais e o trabalho.

Detalhes das impressões
Detalhes das impressões

GP: Voltando um pouco para o design em si, como você vê a relação desses dois campos, do design e a xilogravura?

Tiago: Eu vejo a xilogravura como meio de expressão dentro do design e possibilidade de experimentação, por exemplo: eu tenho resultados na xilo que eu não consigo no digital, como é o caso de poder carregar mais na tinta ou ter uma impressão onde os veios da madeira estejam mais evidentes, tem a própria textura do papel que eu posso experimentar mais. Eu vejo que a xilo me dá essa precisão que é presente no meu traço e possibilita mais a experimentação da produção gráfica, que é “por a mão na massa”. No Tipo Xilo eu tenho esses três processos, tanto no planejamento que o design possui, e a xilo que também compartilha disso em toda organização para se imprimir e produzir.

GP: Você trabalha com alguma linguagem visual específica nos seus trabalhos? 

Tiago: Eu trabalho muito com as composições, são bem importantes e é algo que eu carrego do próprio design, ter essa preocupação de pesos de elementos, ângulos e grafismos.

Essa questão de explorar as linhas, linhas mais finas, mais grossas e você vê que mesmo um trabalho simétrico tem as interferências dos veios na impressão – dependendo do papel que você usa, as tramas aparecem mais. Esse pensamento de projeto me ajuda muito quando eu vou imprimir.

GP: Hoje em dia o design gráfico está cada vez mais digital do que gráfico, do seu ponto de vista, qual é a importância em se preservar esse tipo de trabalho manual e de impressão?

Tiago: Como eu falei anteriormente, uma questão muito importante é pegar a matéria e entender todo o processo, você pode até simular uma xilo no digital, mas o fato de você pegar uma madeira, entender como as ferramentas trabalham e ter o domínio de todo o processo, você entende como aquela matriz foi gravada e porque ela foi gravada assim, é importante entender o processo.

Têm coisas que você só entende colocando a mão na massa, porque às vezes é uma mancha gráfica que você achou interessante e de repente você pode perder isso senão estivesse nesse processo.

Têm muitas situações que eu estou no meio do processo, e eu tenho que ser preciso porque pode não caber mais uma letra no papel, e aí eu tenho que rotacionar ou mudar uma posição e isso é o prazeroso do fazer. Eu uso muito dessa experimentação no Tipo Xilo, eu não sou um tipógrafo, eu só sou um cara que ama isso.

Cartaz - Cordel
Cartaz – Cordel

GP: Voltando às origens do seu trabalho, que é essa ligação com o Cordel, para finalizarmos: Seu trabalho pode ser visto como uma continuação da memória gráfica brasileira?

Tiago: Eu acho que sim, porque, de alguma forma, eu estou alimentando isso, eu sempre procuro estudar sobre o Nordeste, a arte nordestina e popular. Isso acaba se transferindo para o meu trabalho em si. Você pode ver que as letras do Tipo Xilo não têm uma forma característica do Nordeste, mas eu consigo inserir isso por meio das palavras, então o fato de usá-las é uma maneira de resgatar isso.

O trabalho é bem verdadeiro, porque eu escuto meu pai contando algum causo e tiro uma palavra dali, então já está internalizado em mim, e o Tipo Xilo acaba botando isso para fora. Tanto que neste início do projeto dos cartazes, o peso está nas palavras, eu uso as impressões em preto que é para reforçar a beleza cultural que cada uma delas carrega.

GP: Mais uma vez obrigado pela conversa, foi bem enriquecedor entender todo o seu processo de trabalho que é bem interessante para pensarmos essas relações digitais e manuais para as composições.

Tiago: Espero ter contribuído. Fiquei super feliz de participar e conversar sobre tudo isso.

Detalhes das impressões
Detalhes das impressões

Agradecemos pela leitura da nossa entrevista.

,Sobre o entrevistado:

Tiago Costa é graduado em comunicação social e pós graduado em arte-educação, integrante do coletivo de gravura Atelier Piratininga, atualmente trabalha como artista gráfico, xilógrafo e ilustrador e tem como principal fonte de pesquisa para criação de suas obras a beleza da cultura popular brasileira em suas diversas manifestações. No projeto Tipo Xilo realiza experimentos tipográficos impressos e gravados manualmente em xilogravura.

Instagram: @tipo_xilo / @tiagocostaartes / @atelierpiratininga

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