,Martin Scorsese – O cinema como razão de viver

Por Ricardo Corsetti.

Revisão: Aline Machado.

O jovem Scorsese orienta aquele que seria seu constante companheiro - Robert DeNiro
O jovem Scorsese orienta aquele que seria seu constante companheiro – Robert DeNiro

O ítalo-americano mais apaixonado por Cinema na face da Terra já disse em entrevistas clássicas, “No lugar onde nasci (Queens, Nova York), você só tem duas opções: virar padre ou gangster”.

Mas felizmente, conforme sabemos, Scorsese encontrou, digamos assim, uma terceira via a seguir, quando aos 12 anos assistiu maravilhado no cinema de seu bairro “Sindicato de Ladrões” (1954), obra-prima dirigida por um de seus futuros grandes mentores, Elia Kazan (1909-2003).

Daquele momento em diante, o pequeno “Scorsa” teve a absoluta certeza de que não queria fazer outra coisa de sua vida que não fosse se dedicar ao Cinema. E, poucos anos depois, em 1967, faria seu longa-metragem de estreia com o modesto orçamento de 75 mil dólares, “Quem Bate À Minha Porta?”, estrelado pelo então jovem e desconhecido Harvey Keitel (futuro parceiro em alguns de seus melhores filmes) e por sua mãe! Catherine Scorsese.

As principais obsessões e questionamentos que iriam persistir por praticamente toda a obra do diretor, tais como a necessidade de afirmação da masculinidade em seu meio social, o misto de atração/repulsa ao catolicismo, e também sempre trágica – e ao mesmo tempo divertida- convivência de um indivíduo que procura seu lugar no mundo, com seus amigos de infância e adolescência, que ao contrário dele já aceitaram sua condição de “anjos caídos”, excluídos do american dream convencional.

O fato é que apesar de seu orçamento modesto e pequena circulação, este filme de estreia do jovem e determinado Martin chamou a atenção de um dos maiores papas do cinema independente nos EUA, Roger Corman, que decidiu convidá-lo a dirigir aquele que seria seu segundo longa, “Boxcar Bertha”, (conhecido no Brasil pelo equivocado e apelativo título, “Sexy e Marginal”), em 1971.

Típico filme realizado por um cineasta que está no vigor de sua juventude e, portanto, disposto a questionar as mazelas da sociedade em que vive. Sempre me chamou muito a atenção, aliás, o fato de que o mesmo jovem Scorsese que realizou este petardo, na minha opinião, quase socialista, anos depois, mais especificamente em 2003, lançaria a megaprodução “O Aviador” (cinebiografia do bilionário Howard Hughes), que é praticamente uma ode ao capitalismo, ou pelo menos ao mito do “empreendedorismo”. É! Eis as transformações político-ideológicas que um indivíduo pode sofrer ao longo da vida…

Touro Indomável - Outro enorme clássico da dupla Scorsese-DeNiro
Touro Indomável – Outro enorme clássico da dupla Scorsese-DeNiro

Mas voltando à fase mais autoral e verdadeiramente indispensável do velho Martin, em 1973, ele lançaria “Caminhos Perigosos” (Mean Streets), seu primeiro trabalho a contar com Robert De Niro, que logo se tornaria seu principal e mais indispensável parceiro. Trata-se de um filme bem mais experimental, com referências claras à nouvelle vague francesa e ao american realism de John Cassavetes (1929-1989).

Eis sua primeira obra-prima, seguida pelo lindo drama intimista, “Alice Não Mora Mais Aqui” (1974), estrelado por Ellen Burstyn em momento sublime.

Dois anos depois, “São Scorsese” (como passei a me referir a ele por conta deste filme), lançaria sua mais incontestável obra-prima, “Taxi Driver” (1976), filme absolutamente irretocável em termos de roteiro (escrito por Paul Schrader), direção, fotografia, elenco, montagem (Thelma Schoonmaker, montadora de praticamente todos os seus filmes) e trilha sonora (composta pelo grande e saudoso Bernard Herrmann).

Eis o filme preferido de toda a minha vida como cinéfilo, graças a minha identificação imediata, desde a primeira vez que o vi, em versão televisiva dublada, diga-se de passagem (rs), com o personagem brilhantemente vivido por Robert De Niro (Travis Bickle), com seu misto de indisfarçável solidão associada à disposição de enfrentar o mundo sozinho, se necessário, para alcançar seus objetivos como, por exemplo, conquistar o coração da bela e gélida femme fatale vivida por Cybill Shepherd.

Já nos anos 80, Scorsese dirigiu o sombrio “O Rei da Comédia”, se arriscando em território por ele desconhecido, ou seja, o gênero comédia, com um senso de humor muito peculiar, revelando, inclusive, a outra face dos “simpáticos” astros televisivos do gênero por meio da figura de um soturno Jerry Lewis (1926 -2017). Típico filme não compreendido em sua época de lançamento, “O Rei da Comédia”, no entanto, foi recentemente (e merecidamente) alçado ao status de obra-prima ao ser evidentemente citado como uma das principais referências do badalado “Coringa” (2019). Ainda nos anos 80, o grande Martin dirigiu também o deliciosamente estranho “Depois de Horas” (After Hours) em 1985, acerca do submundo noturno da maior metrópole do mundo, Nova York, obviamente.

“Scorsa” já inicia a década posterior, ou seja, os anos 90, com aquela que é provavelmente, sua última obra-prima, “Os Bons Companheiros” (Goodfellas), exatamente em 1990. Assim como em Taxi Driver, temos aqui uma autêntica aula de direção, e também o velho Scorsese novamente abordando o tema mais presente e recorrente ao longo de sua extensa filmografia, o cotidiano da máfia ítalo-americana, em meio aos conflitos morais, familiares e pessoais de seus integrantes, mas sem nunca julgá-los de forma superficial ou maniqueísta, mas, sim, apenas como seres humanos e, portanto, falíveis em função das circunstâncias de vida que os cercam.

O diretor vivo com o maior número de indicações ao Oscar
O diretor vivo com o maior número de indicações ao Oscar

Ainda já nos saudosos anos 90, “Scorsa” filmou o excelente remake de “O Círculo do Medo” (Cape Fear, 1962), agora intitulado “Cabo do Medo” (1991) que, aliás, tratava-se de um projeto iniciado por Steven Spielberg, que posteriormente preferiu deixá-lo aos cuidados do velho Martin. Obs: e eu agradeço muitíssimo a Deus por isso (rs).

Merece também destaque na filmografia “scorseseana” dos anos 90, o belo drama de época, “Na Época da Inocência” (1993), estrelado por Michelle Pfeiffer e Daniel Day-Lewis. Outro momento em que “Scorsa” deixa sua zona de conforto para, como ele próprio disse na época, se arriscar num território totalmente desconhecido para quem nasceu na periferia de Nova York nos anos 40: a aristocracia de meados do século XIX.

Entre erros e acertos em seus mais recentes trabalhos, o velho mestre ítalo-americano segue firme em sua jornada, às vezes nos brindando com “belezuras” como o impagável “O Lobo de Wall Street” (2013), a singela declaração de amor ao Cinema em “A Invenção de Hugo Cabret” (2011) e o lindo retorno às origens em “O Irlandês” (2019); para compensar os equívocos cometidos em filmes menores como: “Gangues de Nova York” (2002) e “O Aviador” (2003), por exemplo, pelos quais, é claro, eu o perdoo incondicionalmente.

Amém, “São Scorsese”!

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Ricardo Corsetti é graduado em Ciências Sociais pela PUC-SP e em Cinema, pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Sócio-proprietário da “Mangusto Filmes”, em atividade desde 2018. Produtor, diretor e roteirista da webserie “Parodiar Filmes”, do “Projeto Videoarte” (estrelado por Marisol Ribeiro, Natallia Rodrigues e Rosanne Mulholland), além do curta “Passeio Noturno” (recentemente vencedor do 7o. Curta Neblina – categoria voto popular) e com dois novos projetos de longa-metragens (independentes) em andamento.

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