,A Internet contra a Revolução Industrial – ou como as identidades pós-modernas criaram novos mercados artesanais

Por Marcio Tito.

Revisão: Aline Machado.

Este texto transforma em unidade períodos entre 1760 (início da Revolução Industrial) e 1962 (Latas de Sopa Campbell – crítica estética de Andy Wharhol ao flerte entre as artes e a massificação de produtos pela publicidade e o capital).

Passando pelos séculos 18, 19, 20 e 21, em uma organizada intuição, este breve ensaio estabelece uma linha (irreal porém racional) capaz de conectar – por meio das principais influências da Revolução Industrial, comentários sobre a Reprodutibilidade Técnica percebida por Walter Benjamin (1935) e as primeiras convulsões mercadológicas das micro comunidades digitais do século 21 (em uma rápido comentário sobre a cultura do streaming).

Sujeito, produto, imagem e reprodução se fundem nesta crítica didática e semiótica de Andy Wharol. O artista empregou uma série de estratégias para transformar os produtos em críticas às suas próprias estruturas, entretanto, sob a chancela do sucesso, a reprodução "falhada" e ainda assim colorida e eufórica de um retrato foi a mais bem sucedida elaboração do artista. Mesmo as latas Campbell ainda restringiam seu comentário ao eixo das prateleiras dos mercados, por isso escolhi esta obra - que sobretudo simboliza com muita agudez não somente a crise do produto e da singularidade dos agentes do mercado, mas também o próprio sujeito enquanto perversão de sua auto-imagem. - Marilyn, 1964.
Sujeito, produto, imagem e reprodução se fundem nesta crítica didática e semiótica de Andy Wharol. O artista empregou uma série de estratégias para transformar os produtos em críticas às suas próprias estruturas, entretanto, sob a chancela do sucesso, a reprodução “falhada” e ainda assim colorida e eufórica de um retrato foi a mais bem sucedida elaboração do artista. Mesmo as latas Campbell ainda restringiam seu comentário ao eixo das prateleiras dos mercados, por isso escolhi esta obra – que sobretudo simboliza com muita agudez não somente a crise do produto e da singularidade dos agentes do mercado, mas também o próprio sujeito enquanto perversão de sua auto-imagem. – Marilyn, 1964.

Quando as sociedades aderiram por completo ao modelo de produção em larga escala, a arte levou sua mais forte pancada (desde o quase desaparecimento do teatro na Europa da Idade Média).

Com a hegemonia das máquinas enquanto detentoras de meios mais rápidos, mais técnicos e mais baratos para a produção de toda e qualquer coisa que coubesse em uma linha de montagem, quase que imediatamente a arte e os artistas mergulharam em uma profunda crise de significado – não prontamente percebida, porém determinante para todo o mercado artesanal daquele final de século.

Aquilo que um “especialista”, um alfaiate por exemplo, levaria dias até produzir de modo artesanal, em questão de minutos apareceria em larga escala, em identificas amostras e, com máquinas operadas por pouquíssimos operários.

Muito rapidamente isto revolucionaria, em todas as classes sociais, hábitos de consumo, costumes e, num último golpe involuntário contra a arte, a forma como as pessoas perceberiam os processos artesanais, sua importância e valor de mercado.

Uma enorme gama de artesãos, do dia para a noite, praticante em menos de cinquenta anos, perderia espaço para os efeitos da Revolução Industrial e, à seguir, para a “Reprodutibilidade Técnica” – período assim definido por Walter Benjamin em ensaio de mesmo nome (1935).

A Reprodutibilidade Técnica, ainda esboço naquele primeiro período de mecanização do trabalho e dos produtos, que já nos dizia ser capaz de produzir infindáveis objetos idênticos e com baixo custo, impactando diretamente o preço final da mercadoria, emprestaria uma série de novos valores aos consumidores, fazendo com que o artesanato, imperfeito porque intrinsecamente ligado ao processo técnico dos artesãos ou artistas, perdesse valor num mundo cada vez mais obcecado por transformar tempo em dinheiro e, para tanto, transmutar também “padrão” em “maioria”.

Este conflito entre acabamento e artesania, ou entre massificação e autenticidade, encontraria comentário nas vanguardas artísticas que marcariam a história não só do final da segunda metade do século 18, mas principalmente na forma de experimentos determinantes para a cultura ocidental dos séculos 19, 20 e 21.

Marcel Duchamp revolucionaria a arte com sua produção nas primeiras décadas do século 20 e a invenção do “Ready Made”, instante qual debateria, como artista e curador, a substituição do “absolutismo” da indústria pelo “subjetivo” dos artesãos e artistas que se apropriariam desses feitos. Propondo deste modo uma espécie de primeira grande resposta das artes contra o período que havia transformado completamente os museus, as galerias e o público no final do século que havia terminado, Duchamp começaria uma revisão não cronológica e prática das mazelas da criatividade e dos criativos naqueles dias atribulados…

A Fonte (1917), de Marcel Duchamp, foi responsável por estabelecer a mais definitiva, ainda mal compreendida e duradoura críticas às artes e aos meios de produção (e reprodução) do mundo moderno. O mais famoso "Ready Made" de todos os tempos!
A Fonte (1917), de Marcel Duchamp, foi responsável por estabelecer a mais definitiva, ainda mal compreendida e duradoura críticas às artes e aos meios de produção (e reprodução) do mundo moderno. O mais famoso “Ready Made” de todos os tempos!

Charles Chaplin também dirigiria e protagonizaria seu roteiro mais clarividente, fazendo sua crítica às mecanizações eternizar-se nas gags do clássico cinematográfico Tempos Modernos (1934).

Considerado por muitos como a obra suprema do realizador Charles Chaplin, Tempos Modernos (1936) apresenta um mundo hostil e ordenado por máquinas impiedosas. Lucro, felicidade, vida e exaustão protagonizam uma das mais poderosas fábulas acerca da contradição entre a vida, o trabalho e os meios de produção que a modernidade apresentou (e ainda apresenta).
Considerado por muitos como a obra suprema do realizador Charles Chaplin, Tempos Modernos (1936) apresenta um mundo hostil e ordenado por máquinas impiedosas. Lucro, felicidade, vida e exaustão protagonizam uma das mais poderosas fábulas acerca da contradição entre a vida, o trabalho e os meios de produção que a modernidade apresentou (e ainda apresenta).

Contudo, arriscando aqui uma reflexão sobretudo em cima da hora, este cenário, para além de algumas pontuais e das acima citadas interações, parece ganhar sua mais recente agitação com o triunfo das comunidades digitais acima dos mercados tradicionais.

Visto que a Reprodutibilidade Técnica apresentou efeitos não premeditados, sendo um destes a homogeneização dos mercados consumidores, entregando produtos iguais à sujeitos diferentes em suas diferenças, criou-se também uma limitação inusitada – os mercados tradicionais, erguidos por conta da oferta e da procura, deixariam de lado duas vertentes que hoje nas comunidades digitais e pós-modernas apontam para uma tendência de mercado – o específico e o autoral contra e vencendo o “absolutismo” das industrias capazes fabricar milhares de peças excelentes em acabamento, preço e distribuição (porém “iguais” em seus conceitos fundamentais).

Específico porque segmentado e ofertado em pequena escala, este nicho “autoral” performa enquanto valor diretamente ligado à interface do produto (não mais conectando-se ao verdadeiro “valor”do produto).

– São estes os dois eixos fundamentais para que hoje os mercados inscritos no “país da internet” ameacem as indústrias que precisam internacionalizar o “desejo de compra” para que seus estoques e distribuição faça algum sentido de mercado.

Hoje, em uma loja tradicional, sem surpresa alguma, encontraríamos miniaturas de cada um dos super-heróis das duas maiores distribuidoras e produtoras de quadrinhos da atualidade – DC e Marvel Comics. Mas o que dizer das miniaturas de animações japoneses que, assim como a natalidade nos países asiáticos, cresce de modo vertiginosamente acelerado e, não suficiente, goza de hospedagem fácil e gratuita em uma centena de sites, apps s fóruns?

Se uma máquina pode produzir 2 milhões de Superman’s, esses Superman’s serão fabricados e comercializados pela razão de séries, filmes e toda sorte de mídia fazer com que o público deseje essas miniaturas, e isso tudo tomará escala global porque grandes veículos disseminam esses conteúdos em escala internacional, barata e livre.

Mas o que dizer sobre, por exemplo, uma dúzia de animes, cada qual com 20 mil fãs? Com qual previsão produziríamos 2 milhões de miniaturas dos protagonistas dessas pequenas comunidades para estoques que sobrevivem do “giro” das mercadorias entre a caixa registradora e a fábrica?

Assim, num mercado conflagrado pelo sucesso das identidades simuladas pela vida pós-moderna, a máquina capaz de produzir 2 milhões de cópias, que existem para suprir uma enorme demanda, pode acabar trocada por pequenos artesãos capazes de oferecer algumas poucas cópias de estatuetas feitas sob medida (fora de padrão e sem entrega imediata).

Não basta dizermos que encomendas sempre existiram, pois, a discussão está muito mais ligada às formas de construção e expressão do desejo de compra do que às formas de produção da demanda que atende o desejo massificado.

Sendo assim, o mundo que homogeneizou o gosto das sociedades para operar mercados mais amplos, hoje parece incorrer de uma irreversível crise diante do capital que está fragmentado em centenas ou milhares de pequenas comunidades compradoras.

Estas comunidades não são grandes o suficiente para justificar um investimento em pequena ou grande escala, mas são grandes o suficiente para não serem inteiramente desprezadas por mercados mais autônomos, menos técnicos e mais dinâmicos que a indústria tradicional.

O espaço pós-moderno, arena para capitalizar toda e qualquer forma de identidade, por simular revisar de modo pontual a capacidade de desejarmos conforme uma autoanálise mais autêntica de nós mesmos e de nossas experiências, com sua produção de conteúdo, gradativamente desautoriza a Reprodutibilidade Técnica e, exigindo artesanato em larga escala (ainda que sob o viés da pulverização do desejo) parece reconfigurar os 3 eixos fundamentais da indústria – o valor, a produção e a distribuição do produto.

Comunidades que jamais alcançarão escala para exigir demanda, que não serão oferta suficiente para um multinacional, talvez até mesmo com seus membros geograficamente dispersos pelo mundo, ainda assim querem, podem e precisam consumir produtos sobre determinados temas.

Essas comunidades inspiram hoje um mercado tão pulverizado quanto enorme, e diante disso, cada dia mais, as grandes narrativas são minadas por dezenas de pequenas histórias possíveis.

Antes disso, bastaria vermos que os ultrapassados grandes sucessos de bilheteria têm sido superados por uma centena de séries (cada qual com sua “legião” de fãs). Contudo, essa diversidade está quase sempre sob o guarda-chuva de um streaming ou selo, ainda que isso não garanta que, por exemplo, a Netlfix ou a Amazon, em algum momento, se responsabilizarão pela produção de itens que alimentarão esses mercados em potencial.

Agora, numa nova forma de arriscamos tudo – como é que transformaremos os artistas e os artesãos em máquinas semi particulares?

Ou, tomando a tragédia enquanto ponto de partida: como é que as máquinas farão para entregar produtos artesanais para mercados cada vez mais carentes de uma representação quase “individual”?

Imagem extraída de uma matéria do site Otaku BFX. A matéria apresenta uma série de animes "desconhecidos" e, no entanto, uma rápida busca nos entrega uma série de produtos artesanais para venda em variados sites e com uma grande oferta de preços e modos de entrega - todos com tradução simultânea do buscador google.com.
Imagem extraída de uma matéria do site Otaku BFX. A matéria apresenta uma série de animes “desconhecidos” e, no entanto, uma rápida busca nos entrega uma série de produtos artesanais para venda em variados sites e com uma grande oferta de preços e modos de entrega – todos com tradução simultânea do buscador google.com.

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Marcio Tito é dramaturgo premiado e diretor teatral, e atualmente trabalha entrevistando artistas e os principais nomes da cultura para o site Deus Ateu. Sobretudo com foco em produção textual e análises culturais, o site é hoje uma referência na área.

Instagram: @marciotitop

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